A criação dos Juizados Especiais Cíveis não foi a primeira visão utilizada pelos juristas na busca pela eficácia do Acesso à Justiça frente à sociedade brasileira, antes disso, pode-se constatar a experiência inovadora do Estado do Rio Grande do Sul, que em 1982 implantou os Conselhos de Conciliação e Arbitragem para resolução dos pequenos conflitos, o que vem a demonstrar o interesse pela construção de uma Justiça cidadã.
O que nos ensina Álvaro de Sousa98 ao discorrer:
De fato, o procedimento concentrado e simples adotado nos Juizados Especiais iniciou-se no Rio Grande do Sul, onde instituiu-se o primeiro Conselho de Conciliação, no qual se pretendia resolver, extrajudicialmente, os conflitos de interesses mais simples, objetivando, assim, reduzir a quantidade de processos judiciais e, ao mesmo tempo, permitir a ampliação do acesso à justiça
Esses litígios têm recebido um atendimento diferenciado no país, o que passou o Judiciário a pensar maduramente sobre seus institutos, objetivando criar um novo Procedimento, visando à resolução dos conflitos de forma clara, objetiva e principalmente mais célere, voltados para as demandas de pouco valor econômico.
A expectativa de melhoria do poder judiciário teve como marco inicial o advento da Lei 7.244 que criou os Juizados Especiais de Pequenas Causas, em novembro de 1984, os quais eram integrantes da Justiça Ordinária,
98 SOUSA, Álvaro Couri Antunes. Juizados especiais federais cíveis : aspectos relevantes e o sistema recursal da Lei nº10.259/01. Rio de Janeiro : Renovar, 2004. p.53
destinados a julgar desavenças, quizilas menores entre cidadãos e destinados também ao dever do Estado de prestar Justiça, tendo por objetivo principal o processo e o julgamento por opção do autor e das causas de reduzido valor econômico, o que vem disciplinado no artigo primeiro do mencionado diploma legal.
Abordando sobre as inovações da processualística brasileira, Pedro Manoel Abreu99 disciplina:
No Brasil, com a edição da Lei n º 7.244, de 7 de novembro de 1984, dispondo sobre a criação e o funcionamento dos juizados especiais de pequenas causas, foram definidas como de reduzido valor econômico, observado um critério valorativo, as lides que versassem sobre direitos patrimoniais, com pedido, à data do ajuizamento, não excedente a vinte salários mínimos, tendo por objeto condenação em dinheiro e entrega de coisa certa móvel ou o cumprimento de obrigação de fazer, a cargo do fabricante ou fornecedor de bens e serviços para consumo, ou, ainda, a desconstituição e a declaração de nulidade de contrato relativo a coisas móveis e semoventes
Sobre as críticas lançadas após o advento da Lei 7.244/84, Watanabe100 demonstra alguns aspectos controvertidos:
Após longo debate, temos afinal aprovada a Lei do Juizado Especial de Pequenas Causas (JEC). Tomou ela o n.7.244/84, sendo sancionada a 7.11.84 e publicada no dia seguinte. As controvérsias surgidas giraram em torno de alguns aspectos secundários da proposta, como por exemplo a facultatividade do patrocínio da causa por advogado. Quanto à idéia-matriz, porém, que é a de facilitar o acesso à Justiça, pouca voz discordante se ouviu. Algumas pessoas procuraram substituir a idéia de criação do Juizado Especial de Pequenas Causas pela proposta de aperfeiçoamento do procedimento sumaríssimo, não se dando conta de que não se tratava de mera formulação de um novo tipo de procedimento, e sim de um conjunto de inovações, que vão desde nova filosofia e
99 ABREU, Pedro Manoel. Acesso à justiça e juizados especiais : o desafio histórico da consolidação de uma justiça cidadã no brasil. Florianópolis : Fundação Boiteux, 2004. p. 112/113
100 WATANABE, Kazuo et al. Juizado Especial de pequenas causas. São Paulo : Revista dos Tribunais. 1985. p. 01
estratégia no tratamento dos conflitos de interesses até técnicas de abreviação e simplificação procedimental.
Abordando-se o surgimento do Juizado Especial de Pequenas Causas quando analisado os conflitos de interesses surgidos na sociedade, verifica-se um grande número de pequenas desavenças, as quais eram solucionadas entre os particulares através da Justiça privada, denominada como “litigiosidade contida”.
Tal litigiosidade muitas vezes não alcançava a satisfação plena dos conflitantes, muito pouco era levado ao poder judiciário, seja por descrença à ordem jurídica, pela lentidão processual, pelo excesso de formalismo e o alto custo da manutenção do processo, inviabilizando a busca efetiva da Justiça.
Tendo por cunho os preceitos abordados, o Estado sentiu a necessidade de criar um Procedimento especial que abrangesse esses conflitos de reduzido valor econômico, promulgando então a Lei 7.244/84 como meio de garantir o Acesso à Justiça, o que vem ressaltado pelo doutrinador Watanabe101:
A proposta de criação do JEPC pretende, fundamentalmente, reverter essa mentalidade, resgatando ao Judiciário a credibilidade popular de que é ele merecedor e fazendo renascer no povo, principalmente nas camadas médias e pobre, vale dizer, do cidadão comum, a confiança na justiça e o sentimento de que o direito, qualquer que seja ele, de pequena ou grande expressão, sempre deve ser defendido. Da defesa que cada um faça de seu direito pela via normal, depende a vitalidade da ordem jurídica nacional.
Ademais, explicita:
A estratégia fundamental para o atingimento dessa meta está na facilitação do acesso à justiça. Essa é a idéia-chave do JEPC. O acesso é facilitado pela gratuidade em primeiro grau e pela possibilidade de ingresso direito no Juizado (a assistência de advogado é facultativa, querendo, o interessado poderá ter o patrocínio da causa por profissional do Direito,a lei prevê o
101 WATANABE, Kazuo. Juizado Especial de pequenas causas. p. 02/03
funcionamento do Serviço de Assistência Judiciária junto ao próprio Juizado). Como outra grande preocupação foi remover aquela idéia negativa de que não vale a pena ir à Justiça, a lei procurou dar particular importância à conciliação e ainda buscou descomplicar, simplificar e sobretudo acelerar o processo102.
O Juizado Especial de Pequenas Causas pode ser considerado de extrema relevância dentro do direito processualístico brasileiro, uma vez que veio à tona para simplificar os procedimentos exauridos pela primazia do rito, bem como demonstrar os altos índices de Conciliação possíveis dentro da esfera processual, ajudando na efetividade da prestação jurisdicional, elucidado também pelos dizeres do doutrinador Pedro Manoel Abreu103:
A Lei 7.244, de 7 de novembro de 1984, dispondo sobre a criação e funcionamento do Juizado Especial de Pequenas Causas, no dizer de Cândido Dinamarco, foi portadora de uma proposta revolucionária muito mais profunda do que a simples instituição de novo órgão no âmbito do Poder Judiciário. Em verdade o diploma em questão pretendeu ser o marco legislativo inaugural de um movimento ambicioso de revisão integral de velhos conceitos de direito processual e de abalo estrutural de antigos hábitos enraizados na consciência dos operadores jurídicos e de práticas irracionais incompatíveis com a moderna concepção de uma jurisdição democrática.
Com a promulgação da Constituição Federal em 1988, o legislador incorporou ao texto constitucional a necessidade da criação dos chamados “juizados especiais”, competindo à União, ao Distrito Federal e aos Estados a sua implantação no território nacional, agora como medida obrigatória, o que anteriormente era facultativo aos Estados.
Dentro da esfera constitucional, extrai-se o art. 98 da Carta Magna:
102 WATANABE, Kazuo. Juizado Especial de pequenas causas. p. 02/03
103 ABREU, Pedro Manoel. Acesso à justiça e juizados especiais : o desafio histórico da consolidação de uma justiça cidadã no Brasil. p. 187
Art. 98. a União, no Distrito Federal e nos Territórios, e os Estados criarão: I – juizados especiais, providos por juizes togados, ou togados e leigos, competentes para a conciliação, o julgamento e a execução de causas cíveis de menor complexidade e infrações penais de menor potencial ofensivo, mediante os procedimentos oral e sumaríssimo, permitidos, nas hipóteses previstas em lei, a transação e o julgamento de recursos por turmas de juízes de primeiro grau.
Das lições de Álvaro Couri Antunes104 retira-se a temática da Constituição Federal frente à aplicabilidade dos Princípios reguladores da busca pelo Acesso à Justiça, tem como principal mandamento constitucional o Juizado Especial:
A Carta Política de 1988, denominada de Constituição cidadã, trouxe para o ordenamento jurídico princípios explícitos e implícitos de incremento do acesso à justiça. Aliado a isso, ganhou relevo a idéia de que a Constituição não se constitui numa mera carta de intenções, porquanto dela emanam diretamente normas garantidoras das quatro gerações de direitos (...).
O que ressalta:
Outro mandamento constitucional que viabiliza o acesso à justiça concerne à criação dos Juizados Especiais, aproximando o indivíduo do Poder Judiciário, tanto no âmbito estadual como federal, fixando princípios que permitem a todos exercitar suas pretensões com celeridade, simplicidade e sem ônus para o postulante que, em princípio, só pode ser pessoa física, ex vi do disposto no artigo 98, I, da Constituição da República e da Lei 9.099/95 que regulou os Juizados Especiais nas justiças estaduais105.
Posteriormente, com o surgimento da Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995, foram revogados os termos da Lei nº 7.244/84 e regulamentado o dispositivo constitucional, nas formas dispostas por Pedro Manoel Abreu106:
104 SOUSA, Álvaro Couri Antunes. Juizados especiais federais cíveis : aspectos relevantes e o sistema recursal da Lei nº 10.259/01. p. 52/54
105 SOUSA, Álvaro Couri Antunes. Juizados especiais federais cíveis : aspectos relevantes e o sistema recursal da Lei nº 10.259/01. p. 52/54
106 ABREU, Pedro Manoel. Acesso à justiça e juizados especiais cíveis : o desafio histórico da consolidação de uma justiça cidadã no Brasil. p. 113
O preceito constitucional em apreço foi regulamentado pela Lei 9.099, de 26 de setembro de 1995, que, em seu art. 3º, definiu como causas de menor complexidade as de valor não superior a quarenta salários mínimos; as enumeradas no art. 275, II do Código de Processo Civil, qualquer que seja o seu valor; a ação de despejo para uso próprio; e as ações possessórias sobre bens imóveis de valor não excedente a quarenta salários mínimos.
O Juizado Especial trouxe ao mundo jurídico uma amplitude na Competência determinada pela Lei dos Juizados Especiais de Pequenas Causas, ressaltando tanto as causas cujo valor não exceda quarenta salários mínimos como às ações referidas no art. 275, II do Código de Processo Civil as ações de despejo para uso próprio e das possessórias cujo valor não exceda o limite fixado pela lei.
Muitos juristas analisavam o novo sistema como um avanço no direito processualístico, mas adotaram uma visão cautelosa ao afirmar que a amplitude da Competência da Lei dos Juizados Especiais de Pequenas Causas poderia dificultar a celeridade do processo, uma vez visualizado o aumento de demandas judiciais.
Para melhor esclarecimento, pertinentes se fazem os esclarecimentos oferecidos por Paulo Lúcio Nogueira107:
Com a ampliação de sua competência, contudo, o Juizado Cível corre o risco de ficar emperrado, com o trabalho acumulado, como o juízo comum, deixando de ser célere. Funcionando uma vez por semana, após o expediente normal, não terá condições de enfrentar a carga de trabalho que lhe está sendo atribuída. Assim, os objetivos que levaram o legislador a cria-lo estão sendo desvirtuados com essa ampliação de sua competência, já que não serão atingidos por falta de tempo e de pessoal devidamente preparado.
Contudo, o que se vê na atualidade é a implantação de um Juizado Especial consistente, atuando em igualdade com as varas comuns, seja
107 NOGUEIRA, Paulo Lúcio. Juizados especiais cíveis e criminais. São Paulo : Saraiva, 1996. p. XI
na esfera cível, criminal, fazendária ou eleitoral, voltado a procedimentos mais céleres, econômicos e eficazes, o que se vê das lições de Hélio Martins Costa108:
Neste passo, a Lei dos Juizados Especiais veio constituir importante instrumento jurisdicional a propiciar justiça ágil, desburocratizada, desformalizada e, principalmente, acessível a todos os cidadãos. E, o que é mais importante, trata-se de justiça de resultado rápido.
Frente à realidade exposta pela criação dos Juizados Especiais, se denotam a diminuição substancial da lentidão na tramitação dos Processos, adicionando à antiga Lei dos Juizados de Pequenas Causas uma Competência maior, abordando além das demandas de causas cíveis, também as infrações penais de menor potencial ofensivo.