Dessa maneira, estamos diante de tutela diferenciada dos direitos, em que o instrumento deve, necessariamente, fornecer aos litigantes os indispensáveis valores representados pelo quadrinômio rapidez, segurança, economia e efetividade.
Muito embora existam os Princípios norteadores dos Juizados Especiais como facilitador do alcance ao Acesso à Justiça, vê-se que a satisfação da pretensão só será alcançada quando da autocomposição ou da prolação da sentença pelo Estado-Juiz, que por intermédio dos fatos e provas colacionados aos autos reporta sua decisão, finalizando o processo.
Uma inovação levantada pela Lei 9.099, de 1995 foi a possibilidade de Juizes Leigos proferirem decisões pondo fim ao processo, bem como a intervenção de Conciliadores para presidir audiências de Conciliação, concomitantemente a essa ideologia a dispensa de advogado é outro item que deve ser considerado com grande valia frente à celeridade e informalidade processual, merecendo a sua análise minuciosa.
3.1.1. Conciliadores e juízes leigos
A figura do Juiz dentro da legislação especial é vista como um meio de atender os fins sociais da lei, bem como as exigência do bem comum, dotando em cada caso a decisão que reputar mais justa e equânime, na forma disciplinada pelo artigo 6º da Lei 9.099, de 1995.
Simultaneamente o artigo quinto da Lei Especial preleciona que o juiz dirigirá o processo com liberdade para determinar as provas a serem produzidas, para apreciá-las e para dar especial valor às regras de experiência comum ou técnica.
No que tange a apreciação da experiência comum entende-se por decorrente da observância daquilo que ordinariamente acontece, da vivência
140 FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Juizados especiais estaduais cíveis e criminais: comentários à Lei 9.099/1995. p. 87
própria e do conhecimento histórico141 já experiência técnica aquela decorrente de estudos específicos, os quais podem determinar a dispensa de uma inspeção142.
O foco principal dentro da presente previsão legal é tentar reforçar a ideologia do Juiz como meio de aplicação da Justiça, maximizando o bem comum, deixando de lado a ideologia positivista de aplicação da lei.
Por tal motivo que a Lei dos Juizados Especiais tende sempre que possível à obtenção da Conciliação e Transação, para que ambas as partes possam sair satisfeitas da litigiosidade, o que não ocorre no caso de uma sentença, em que muitas vezes a insatisfação perfaz de modo mais claro.
Nessa esteira, Chimenti143 preleciona:
Reiterando a previsão do art. 5º da LICC, o dispositivo reforça o ideário do juiz como instrumento da realização da Justiça no caso concreto e não como simples autônomo repetidor da sempre genérica legal.
Coadunando com a dogmática Figueira144 aborda:
Em outras palavras, a aproximação da pacificação social somente vem a ser alcançada ou pretensamente alcançada quando a sentença proferida consegue atingir um nível tal de aceitação bilateral (entre autor e réu) e difusa (partes, Estado-juiz e a coletividade) autorizando-o a dizer então que, provavelmente, se chegou à verdade hermenêutica pela congruência no exercício do poder de autoridade, liderança e reputação e, por conseguinte, reduzir sensivelmente no mundo jurídico e fatual as tensões e violências apresentadas. O alcance desse escopo depende do conteúdo ideológico e dogmático da decisão, tal como sistematizada pelo magistrado, suficientemente capaz de fazer justiça. Contudo, traçar o perfil jurídico e ideológico do que venha a
141 CHIMENTI, Ricardo Cunha. Teoria e prática dos juizados especiais cíveis estaduais e federais. p. 74
142 CHIMENTI, Ricardo Cunha. Teoria e prática dos juizados especiais cíveis estaduais e federais. p. 74
143 CHIMENTI, Ricardo Cunha. Teoria e prática dos juizados especiais cíveis estaduais e federais. p. 74
144 FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Juizados especiais estaduais cíveis e criminais: comentários da Lei 9.099/1995. p. 148
ser uma decisão justa é, por certo, tarefa nada fácil, seja pela vagueza que a expressão traz em seu próprio âmago ou pelos contornos filosóficos e sociológicos delineados.
Concluindo seu posicionamento Figueira conceitua “sentença justa” aquela que sem a preocupação de mergulhar em profundidade em oceano de formalismo, vem a solucionar o litígio nos limites formulados na inicial e em consonância com a causa de pedir145.
Como auxiliares da Justiça, têm-se a presença dos conciliares e dos juizes leigos que primam pela tentativa de uma Conciliação entre as partes, sendo posteriormente reduzida a termo e homologada pelo juiz togado na forma elucidada no artigo 22 e parágrafo único da Lei 9.099 de 1995.
Art. 22. A conciliação será conduzida pelo juiz ou leigo ou por conciliador sob sua orientação.
Parágrafo único. Obtida a conciliação, esta será reduzida a escrito e homologada pelo juiz togado, mediante sentença com eficácia de título executivo.
Muitos doutrinadores se opõem a nomenclatura de “juiz leigo”, ressaltando que leigo seria um auxiliar da Justiça despido de forma jurídica, sendo a melhor interpretação aquela que consiste como indicativa de oposição do juiz togado, ou seja, advogado com mais de cinco anos de experiência146.
Nogueira147 negativa a figura dos Conciliadores e juizes leigos afirmando que o juiz togado deveria figurar como único Conciliador:
A única restrição que colocamos aos Juizados é quanto à criação de conciliadores e juizes leigos – deveria funcionar como único conciliador o juiz togado. Ora, o conciliador natural na esfera judicial deve ser o juiz togado, não só por ser remunerado para esse
145 FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Juizados especiais estaduais cíveis e criminais: comentários à Lei 9.099/1995. p. 8
146 FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Juizados especiais estaduais cíveis e criminais: comentários à Lei 9.099/1995. p. 152
147 NOGUEIRA, Paulo Lúcio. Juizados especiais cíveis e criminais. p. 16
serviço, como também por ser próprio de sua função, exigindo-se acima de tudo imparcialidade e segurança na fase conciliatória.
Mormente a defesa pela figura dos Conciliadores e juizes togados é veemente defendida pelos doutrinadores, tendo como requisito para a sua admissibilidade a opção de escolha de pessoas com conhecimento jurídico, preferencialmente bacharéis em Direito, ou estagiários de Direito do último ano do curso acadêmico148.
Salienta-se, ainda, sobre o impedimento dos juizes leigos de exercer a advocacia perante os Juizados Especiais, enquanto no desempenho de suas funções, na forma disciplinada pelo parágrafo único do artigo 7 da Lei 9.099 de 1995.
Com relação aos Conciliadores a Lei não impõe qualquer limitação de impedimento para exercício da advocacia no âmbito dos Juizados Especiais enquanto exercer sua função149.
3.1.2. Das partes
Constituindo a capacidade das partes no âmbito dos Juizados Especiais Cíveis, o artigo oitavo dispõe da seguinte forma:
Art. 8º. Não poderão ser partes, no processo instituído por esta Lei, o incapaz, o preso, as pessoas jurídicas de direito público, as empresas públicas da União, a massa falida e o insolvente civil.
§1.º Somente as pessoas físicas capazes serão admitidas a propor ação perante o Juizado Especial, excluídos os cessionários de direito de pessoas jurídicas.
§2.º O maior de 18 (dezoito) anos poderá ser autor, independentemente de assistência, inclusive para fins de conciliação.
148 FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Juizados especiais estaduais cíveis e criminais: comentários à Lei 9.099/1995. p. 154
149 COSTA, Hélio Martins. Lei dos juizados especiais cíveis: anotada e sua interpretação jurisprudencial. p. 52
O dispositivo legal elucida de forma taxativa as pessoas que não podem figurar no âmbito do Juizado Especial, seja tanto na parte passiva quanto na parte ativa, justificando-se pela simplicidade e informalidade que norteiam os Procedimentos do Juizado Especial150.
Poderão figurar como parte ativa no processo, as pessoas físicas maiores de 18 (dezoito) anos, sem a assistência de seus representantes, excluídos os cessionários de direito de pessoas jurídicas.
Não obstante, visualiza-se a possibilidade de as firmas individuais ou denominadas microempresas possuírem legitimidade para propor ação nos Juizados Especiais já que favorecida pelo artigo 38 da Lei 9.841, de 05 de outubro de 1999 e posteriormente pelo enunciado n.º 47 e 48 dos Juizados Especiais:
Art. 38. Aplica-se ás microempresas o disposto o §1º do art. 8º da Lei 9.099/95, de 26 de setembro de 1995, passando essas empresas, assim como as pessoas físicas capazes, a serem admitidas a proporem ação perante o Juizado Especial, excluídos os cessionários de direitos de pessoas jurídicas.
Enunciado 47. A microempresa para propor ação no âmbito dos Juizados Especiais deverá instruir o pedido com documento de sua condição.
Enunciado 48. O disposto no parágrafo 1º, do artigo 9º, da Lei 9.099/95, é aplicável às microempresas.
Excluem-se as empresas de pequeno porte, pela força do enunciado 49 dos Juizados Especiais.
Ainda, poderão ser parte autora na lide os condomínios, na forma do Enunciado 09 e o espólio, por ser este entidade efêmera, instituída para administração de direitos e obrigações deixados pelo de cujus, mas que já ao
150 COSTA, Hélio Martins. Lei dos juizados especiais cíveis: anotada e sua interpretação jurisprudencial. p. 54
momento da sucessão consideram-se transferidos aos seus herdeiros legítimos e testamentários151.
A Lei dos Juizados Especiais nada obsta a possibilidade de pessoas jurídicas figurarem no pólo passivo da demanda, podendo ainda efetuar pedido contraposto em fase de resposta152.
Ainda, se no curso do processo sobrevier algum dos impedimentos constantes deste artigo, extinguir-se-á o processo sem julgamento do mérito, na forma do artigo 51, inciso IV da mencionada Lei, ou se for possível reaproveitá-lo, deverá o juiz remetê-lo para redistribuição ao juízo competente153. 3.1.3. Da assistência do advogado
Em primeira instância, o patrocínio da demanda sem a presença de procurador é facultativa, nas causas de valor até vinte salários mínimos nas causas de Competência dos Juizados Especiais, elucidada tanto pelo artigo 13 da Constituição da República Federativa do Brasil como pelo artigo 9º da Lei dos Juizados Especiais.
Tal preceito é razoável frente à busca do Acesso à Justiça, uma vez que muitas pessoas não tutelavam seus direitos por falta de condições financeiras de arcar com as despesas de honorários advocatícios.
No caso de conferir poderes ao advogado, a Lei dos Juizados Especiais possibilita a constituição por mandato oral, salvo quanto aos poderes especiais, quais sejam: receber citação inicial, confessar, reconhecer a
151 FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Juizados especiais estaduais cíveis e criminais: comentários à Lei 9.099/1995. p. 166
152 MELO, André Luis Alves de. Lei dos juizados especiais cíveis e criminais comentada:
jurisprudência, legislação e prática. São Paulo : Iglu. 2000. p.22.
153 FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias . Juizados especiais estaduais cíveis e criminais: comentários à Lei 9.099/1995. p. 164
procedência do pedido, transigir, desistir, renunciar ao direito, receber, dar quitação e firmar compromisso154.
Figueira155 demonstra a sua concepção:
Versando a espécie sobre mandato verbal, esse registro haverá de ser feito no termo de assentada da audiência, de maneira resumida, segundo orientação do art. 13, §3º da Lei 9.099/1995. É de bom alvitre o apontamento da outorga do mandato verbal, sem qualquer menção aos poderes conferidos ao mandatário, implícitos, no caso, para o foro geral.
Como já foi abordada a obrigatoriedade do patrocínio da causa por advogado reside nas causas ou defesas do rei, quando o limite da valoração da inicial ultrapasse vinte salários mínimos, bem como nas hipóteses de recursos ou impugnação à assistência do advogado156.
3.1.4. Das provas
Como já foi abordado o juiz poderá dirigir o processo com ampla liberdade para determinar as provas a serem produzidas, podendo apreciá- las e dar especial valor às regras da experiência comum ou técnica para a prolação da sentença, admitindo-se todos os meios de provas moralmente legítimos, as quais deverão ser produzidas em audiência de instrução e julgamento independentemente de requerimento prévio157.
Ocorre, contudo, que a Lei dos Juizados Especiais em sua parte Civil exclui algumas provas a serem produzidas no interregno processual, visando justamente à celeridade da demanda e a simplicidade dos atos, como é o
154 THEODORO, Humberto Júnior. Curso de direito processual civil. 41 ed. Rio de Janeiro : Forense. 2004. p. 96
155 FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Juizados especiais estaduais cíveis e criminais: comentários à Lei 9.099/1995. p. 17.
156 FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Juizados especiais estaduais cíveis e criminais: comentários à Lei 9.099/1995. p. 177
157 MELO, André Luis Alves de e outros.Lei dos juizados especiais cíveis e criminais comentada. p. 30/31
exemplo da prova pericial, que exigirá uma maior complexidade e morosidade na apreciação da verdade real.
Segundo Chimenti158 quando calhar à necessidade de produção de prova pericial, o processo deverá ser extinto e remetido a uma das Varas Comuns, contudo, informa que a Lei Especial possibilita a produção de inspeção judicial a ser realizada pelo Magistrado ou por pessoa de sua confiança:
Quando a solução do litígio envolve questões de fato que realmente exijam a realização de intrincada prova, após a tentativa de conciliação o processo deve ser extinto e as partes encaminhadas para a Justiça Comum, nos termos do inciso II do art. 51 da Lei n. 9.099/95. É a real complexidade probatória que afasta a competência dos Juizados Especiais.”
Nesta esteira, o Enunciado n.º 12 dos Juizados Especiais possibilita a admissão de prova pericial informal nas hipóteses formuladas pelo artigo 35 da Lei 9.099/95, quais sejam: inquirição de técnicos de sua confiança e a apresentação de parecer técnico trazidos pelas partes aos autos.
Com relação ao momento que as provas devem ser produzidas esta não está limitada à inicial, podendo ser juntada aos autos até a data da audiência de instrução e julgamento, incluindo documentos novos ou não, embora seja recomendável a sua apresentação anteriormente para prévia análise do Magistrado159. 3.1.5. Dos atos processuais
Os atos processuais cabíveis nos Juizados Especiais estão arrolados nos artigos 12 e 13 da Lei Especial, disciplinados da seguinte forma:
Art. 12. Os atos processuais serão públicos e poderão realizar-se em horário noturno, conforme dispuserem as normas de organização judiciária.
158 CHIMENTI, Ricardo Cunha. Teoria e prática dos juizados especiais cíveis estaduais e federais. p. 188
159 CHIMENTI, Ricardo Cunha. Teoria e prática dos juizados especiais cíveis estaduais e federais. p. 189
Art. 13. Os atos processuais serão válidos sempre que preencherem as finalidades para as quais forem realizados, atendidos os critérios indicados no art. 2º desta Lei.
Tais dispositivos trazem consigo as lições trazidas pelo princípio da economia processual, uma vez que se extrai a validade dos atos quando alcançarem a sua finalidade, podendo ser solicitado pelo juiz atos processuais em outras comarcas por qualquer meio idôneo de comunicação, bem como a gravação dos atos processuais em fita magnética que será inutilizada após o transito em julgado da decisão160.
Advém também a idéia de que não será necessário registrar todos os atos processuais, mas aqueles que demonstrarem ser essenciais para o processo.
O diploma legal acima menciona dispõe sobre o horário dos atos processuais, que poderão ser realizados à noite, independentemente de autorização judicial, o que não ocorre nas Varas Cíveis comuns, vez que o artigo 172 do Código de Processo Civil viabiliza somente em dias úteis, das seis às vinte horas.