c) que seja “grave” e de “difícil reparação”: para ter-se como realmente grave uma lesão jurídica é preciso que seja irreparável sua conseqüência, ou ao menos de difícil reparação.
Portanto, para que se reconheça a existência do requisito, o perigo de dano deve ser fundado, pois embora este faça surgir uma situação de urgência, tornando insuportável a demora do processo, não há razão para identificar perigo de dano com periculum in mora. Eis que o perigo de dano é a causa que faz surgir o perigo na demora do processo, existindo uma relação de causa e efeito202.
A tutela cautelar possui função marcadamente instrumental, eis que serve ao processo principal que, a seu turno, serve ao direito material206.
Ou seja, as medidas cautelares não têm um fim em si mesmas, já que toda sua eficácia opera em relação a outras providências que hão de advir em outro processo207.
O doutrinador Alexandre Freitas Câmara expõe sobre tal característica, in verbis208:
Cabe, pois, ao juiz conceder a medida satisfativa do direito substancial. É por ser concedida como instrumento de tutela desta hipótese (a de o demandante ser vencedor no processo principal) que se afirma que a medida cautelar se caracteriza pela instrumentalidade hipotética.
Por fim, é instrumental a função cautelar, porque só atende, provisória e emergencialmente, a uma necessidade de segurança, perante uma situação que se impõe como relevante para a futura atuação jurisdicional definitiva, sem declarar direito e nem promover a eventual realização dele209.
2.4.2 Temporariedade (Provisoriedade)
A eficácia das tutelas cautelares é provisória, haja vista que são medidas destinadas a durar pouco no processo, tutelando uma situação de emergência210.
Além de ser provisória por estar “a serviço” da tutela principal, é também porque a cognição realizada para a concessão da providência cautelar é sempre
206 WAMBIER, Luiz Rodrigues (Coord.); ALMEIDA, Flávio Renato Correia de; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil: processo cautelar e procedimentos especiais. v. 3. p. 38.
207 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil: processo de execução e cumprimento da sentença, processo cautelar e tutela de urgência. v. 2. p. 541.
208 CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de direito processual civil. p. 22.
209 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil: processo de execução e cumprimento da sentença, processo cautelar e tutela de urgência. v. 2. p. 541.
210 WAMBIER, Luiz Rodrigues (Coord.); ALMEIDA, Flávio Renato Correia de; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil: processo cautelar e procedimentos especiais. v. 3. p. 38.
incompleta. Logo, não havendo cognição exauriente, não há como ser concedido um provimento definitivo, apto a produzir a coisa julgada material211.
A única exceção à regra da não produção da coisa julgada material diz respeito à hipótese de o juiz verificar a ocorrência de prescrição ou de decadência do direito a ser examinado no processo principal212.
2.4.3 Revogabilidade
A medida cautelar, se proposta como preparatória, conserva sua eficácia por trinta dias e, na pendência do processo de conhecimento ou de execução, poderá ser a qualquer tempo revogada, modificada, ou substituída por outra medida hábil213.
A revogação das medidas cautelares pode ocorrer para adaptar o pronunciamento às novas circunstâncias de fato214.
Como exemplo de novas circunstâncias, temos que pode cessar o periculum in mora ao qual a tutela cautelar está relacionada; e não havendo urgência, pode-se revogá-la215.
Contudo, o juiz que revoga a medida cautelar pode readmiti-la, se satisfeito o requisito216.
2.4.4 Modificabilidade
211 DESTEFENNI, Marcos. Curso de Processo Civil: processo cautelar. p. 17.
212 WAMBIER, Luiz Rodrigues (Coord.); ALMEIDA, Flávio Renato Correia de; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil: processo cautelar e procedimentos especiais. v. 3. p. 38.
213 SANTOS, Ernane Fidélis dos. Manual de direito processual civil: execução e processo cautelar. v. 2. p. 308-309.
214 WAMBIER, Luiz Rodrigues (Coord.); ALMEIDA, Flávio Renato Correia de; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil: processo cautelar e procedimentos especiais. v. 3. p. 38.
215 DESTEFENNI, Marcos. Curso de Processo Civil: processo cautelar. p. 18.
216 MIRANDA, Pontes de. Comentários ao Código de Processo Civil, tomo XII: arts. 796- 889. p. 68.
Modificar um provimento cautelar é substituir uma medida por outra, ou convertê-la em outra, como exemplo temos os casos em que se converte o arresto em seqüestro, ou se altera o valor dos alimentos provisionais217.
Tal característica encontra-se registrada no mesmo art. 807 do CPC, que trata da revogabilidade, o qual afirma que havendo alguma alteração, possível é ao juiz ajustar a tutela cautelar, alterando a medida anteriormente concedida ou substituindo-a por outra218.
A sentença proferida em processo cautelar não produz coisa julgada material, já que no processo cautelar não se decide sobre relação jurídica alguma, não há o que possa tornar-se imutável e indiscutível. Só se produz coisa julgada formal219.
Diante disto, a modificabilidade decorre da necessidade de que a tutela cautelar seja adequada ao periculum in mora que visa eliminar ou minimizar o perigo da demora220.
2.4.5 Fungibilidade
O fundamento legal em que se consubstancia o princípio da fungibilidade são os arts. 805 e o 807 do CPC221, que respectivamente refletem222:
Art. 805 - A medida cautelar poderá ser substituída, de ofício ou a requerimento de qualquer das partes, pela prestação de caução ou outra garantia menos gravosa para o requerido, sempre que adequada e suficiente para evitar a lesão ou repará-la integralmente.
Art. 807 - As medidas cautelares conservam a sua eficácia no prazo do artigo antecedente e na pendência do processo principal; mas podem, a qualquer tempo, ser revogadas ou modificadas.
217 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil: processo de execução e cumprimento da sentença, processo cautelar e tutela de urgência. v. 2. p. 612.
218 DESTEFENNI, Marcos. Curso de Processo Civil: processo cautelar. p. 18.
219 WAMBIER, Luiz Rodrigues (Coord.); ALMEIDA, Flávio Renato Correia de; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil: processo cautelar e procedimentos especiais. v. 3. p. 38.
220 DESTEFENNI, Marcos. Curso de Processo Civil: processo cautelar. p. 18.
221 BRASIL. Presidência da República. Código de Processo Civil. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L5869.htm>. Acesso em: 10 fev. 2009.
222 CARPENA, Márcio Louzada. Do Processo Cautelar Moderno. p. 177.
Desta forma, o juiz poderá igualmente, conceder alguma medida liminar (ou mesmo em sentença final) diversa daquela expressamente postulada pelo autor, na petição inicial223.
Convém afirmar que o uso do vocábulo “poderá” no texto do art. 805, do CPC, não significa que a lei pretenda atribuir ao juiz uma faculdade, eis que presentes os requisitos da substituição da medida cautelar por outra adequada e suficiente, o juiz é obrigado a deferir a substituição224.