Graduada em Direito pela Faculdade de Direito Milton Campos em dezembro de 2007, em Nova Lima, Minas Gerais e estudante da Rede de Ensino Luiz Flávio Gomes
1. INTRODUÇÃO
Um assunto em voga atualmente é a questão da pecuária extensiva, ativida- de econômica muito comum no Brasil e que causa vários impactos ambientais não visíveis aos olhos do Poder Público e do consumidor.
Nos últimos anos a criação de bovinos destinados ao consumo intensifi cou- se no país, tornando-se imprescindível um estudo mais aprofundado acerca do tema em questão para a evolução do direito ambiental, uma vez que umbilical- mente relacionado a este.
Apesar da bibliografi a sobre o assunto ser escassa, o tema é de suma im- portância tendo em vista que a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação -FAO- elaborou um relatório intitulado “A grande sombra do gado”
sobre os impactos causados pela pecuária.
A pecuarização da Amazônia se intensifi cou de maneira sem precedentes ao longo dos últimos cincos anos, e o fenômeno requer uma atenção nova e es- pecial. Esta região contém o maior rebanho bovino nacional, estimado em 74 milhões de cabeças de gado, ou 3,3 por habitante1.
No decorrer do artigo serão analisados os impactos ambientais causados por esta atividade, como, por exemplo, emissão de gases poluentes que prejudi- cam a camada de ozônio, a desertifi cação do solo causada pelo desmatamento e pisoteio do gado, perda da biodiversidade e a proteção desses animais.
2. PECUÁRIA E AQUECIMENTO GLOBAL
De acordo com o relatório da FAO, a pecuária é signifi cantemente respon- sável pela amplifi cação do efeito estufa, uma vez que é o setor que mais produz gases componentes do efeito, como o CO2 (dióxido de carbono), cuja produção é mais elevada que a produzida no setor de transportes; NO2 (óxido nitroso), pro- veniente do esterco do boi (o setor produz cerca de 65% deste gás presente na
1 SMERALDI, Roberto, MAY, Peter H. O Rei do Gado. Uma nova fase na pecuarização da Amazônia Brasileira.São Paulo: Amigos da Terra- Amazônia Brasileira, 2008, p. 09.
atmosfera, e contém cerca de 300 vezes mais potencial de aquecimento global que o CO2) e o metano, gás 23 vezes mais nocivo que o CO2, produzido pelo arroto das vacas2.
De acordo com DAJOZ (2005)3, os bovinos produzem de 300 a 500 mi- lhões de toneladas por ano de metano, uma vez que este gás é produzido por seu aparelho digestivo.
Estima-se que os gases emitidos pelos excrementos e o desmatamento das fl orestas para formar pastos, acrescidos na geração de energia gasta na administra- ção do gado respondem por 18% dos gases-estufa emitidos anualmente no mundo.
Na última década, a explosão da pecuária na Amazônia, incluindo a mudan- ça do uso da terra e a fermentação etérica do rebanho, excluído o processamento e o transporte, foi responsável pela emissão de aproximadamente 9 e 12 bilhões de toneladas de gás carbônico, volume este emitido durante dois anos pelos Estados Unidos, país que mais emite gases poluidores do mundo4.
Conforme afi rma Henning Steinfeld, chefe da FAO, “O gado é hoje uma das coisas que mais contribui para os problemas ambientais mais sérios da atualidade.
É preciso tomar uma ação urgente para remediar esta situação”5.
A Convenção de Viena para a Proteção da Camada de Ozônio e o Protocolo de Montreal sobre substancias que destroem a camada de Ozônio, ambos ratifi - cados pelo Brasil e promulgados pelo Decreto 99.280 de 6.6.1990, estabelecem que as partes devem adotar medidas legislativas ou administrativas apropriadas e cooperar na harmonização de políticas adequadas para controlar, limitar, reduzir ou evitar atividades humanas, caso se verifi que que tais atividades têm, efeitos adversos que resultem de modifi cações, ou prováveis modifi cações da camada de ozônio ( art.2, inc. II, b).
O anexo I desta Convenção enumera algumas substâncias que possuem presumidamente o potencial de modifi car as propriedades químicas e físicas da camada de ozônio. Dentre elas estão o metano (CH4) e o dióxido de carbono (CO2) que afeta o ozônio estratosférico ao infl uenciar na estrutura térmica da atmosfera.
Especialistas dizem que existem várias maneiras de ajudar a combater o aquecimento global, como, por exemplo, reciclando os materiais e comprando alimentos orgânicos. Porém há uma forma bastante efi ciente para ajudar o planeta, qual seja, comer menos carne ou não comer carne. De fato, um acre de fl oresta, cerca de 4.046,82 m², seriam salvos todos os anos se cada pessoa se tornasse ve- getariana6.
É necessário que o poder público adote medidas para impedir, ou ao menos
2 Informações retiradas do endereço eletrônico: http://www.apolo11.com/mudancas_climaticas.php?posic= dat_2006 1130-093109.inc
3 DAJOZ, Roger.Princípios da Ecologia.Tradução Fátima Murad-7ed. Porto Alegre:Artmed,2005, p.41
4 , SMERALDI, Roberto, MAY, Peter.O Rei do Gado:Uma nova fase de pecuarização da Amazônia Brasileira.São Paulo:
Amigos da Terra- Amazônia Brasileira, 2008,p.08
5 Informações retiradas do jornal O Estado de São Paulo, 30/11/2006.
6 Hur, Robin, and Fields, Dr.David Are High-Fat Diets Killing our Florest? Vegetarian times, 1984, in OUR FOOD OUR WORLD: Making a Difference with every bite: the Power of the Fork! EarthSave International. New York, NY, p.06
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reduzir, a enorme emissão desses gases na atmosfera, que prejudica a biodiversi- dade e a qualidade de vida humana.
3. PECUÁRIA E DESERTIFICAÇÃO DO SOLO
A desertifi cação é um fenômeno de “transformação de áreas anteriormente vegetadas em solos inférteis devido a ações antrópicas, como mau uso e explora- ção da terra7”. Atualmente, a destruição da vegetação ocorre pelo desmatamento ou por grandes pastagens de gado, acarretando a erosão dos solos e à degradação dos habitats aquáticos, os quais recebem sedimentos em excesso8. Esta perda da vegetação é causa da salinização dos solos.
De acordo com DAJOZ (2005), “Na Amazônia a transformação da fl oresta em pastagem tem dois efeitos. O primeiro é a compactação do solo por máquinas motorizadas e pelo pisoteio do gado. O segundo é a redução de biodiversidade da macrofauna do solo.”9
De acordo com alguns apontamentos feitos pelo Núcleo Desert do IBAMA, em 1992, para a Eco/Rio10, a pecuária extensiva, a qual é feita com a retirada de plantas ou pela compactação do solo, devido ao pisoteio reiterado do gado, é uma das causas de desertifi cação do solo.
O relatório da FAO afi rma que a criação de bovinos é uma das causas prin- cipais de degradação do solo. Este, que geralmente é queimado para se fazer o pasto, não recebe adubação nem manutenção, o que os torna susceptíveis de ero- são, perdendo, dessa forma, a qualidade.
A natureza do solo amazônico é o húmus da fl oresta, são os nutrientes que ela mesma gera. Uma vez destruída a fl oresta, os nutrientes acabam, de forma que 25% da área devastada é abandonada11.
Uma das conseqüências da desertifi cação do solo de acordo com relatório da Organização das Nações Unidas é o não aproveitamento dessas áreas e o eleva- do custo fi nanceiro, estimado em 10 milhões de dólares por ano, necessário para a sua recuperação ou simples manuseio12.
Além do custo fi nanceiro, a erosão e a desertifi cação do solo acarretam perdas de espécies e destruição de ecossistemas, conforme será estudado a seguir.
7 Dicionário Brasileiro de Ciências Ambientais.Organizado por Pedro Paulo de Lima e Silvaet. AL. Rio de Janeiro:Thex, 1999, In, MILARÉ Edis. Direito do Ambiente, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006.p.1071
8 DAJOZ, Roger.Princípios da Ecologia.Tradução Fátima Murad-7ed. Porto Alegre:Artmed, 2005, p.396 9 Ibidem, p.397
10 SILVA, Letícia Borges da, CARVALHO, Patrícia Luciane de, Desertifi cação e Meio Ambiente.in Direito Ambiental em Evolução, n.04, Vladimir Passos de Freitas (coord), 1ª ed.(ano 2005),3ª tir./Curitiba: Ed.Juruá, 2007, p.255
11 TRIGUEIRO.André.Mundo sustentável.São Paulo:Globo, 2005, p.152
12 Extraído do Relatório das Nações Unidas Status of Desertifi cation and Implementation of the U.N Plan of Action to Combat Desertifi cation. In: SILVA, Letícia Borges da, CARVALHO, Patrícia Luciane de, Desertifi cação e Meio Am- biente.in Direito Ambiental em Evolução, n.04, Vladimir Passos de Freitas (coord), 1ª ed.(ano 2005),3ª tir./Curitiba:
Ed.Juruá,2007, p.255
4. PECUÁRIA E PERDA DA BIODIVERSIDADE
Na década de 1970 os ecólogos e conservacionistas começaram a perceber que o desaparecimento de espécies estava se acelerando, surgindo então o con- ceito de biodiversidade, segundo o qual, de acordo com o art. 2º da Convenção sobre Diversidade Biológica signifi ca “variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte;
compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecos- sistemas”.
Roger Dajoz diz que o estudo da biodiversidade pode ser abordado em três níveis de complexidade:
“A diversidade genética é a variabilidade da composição genética de indivíduos dentro espécies e de populações ou entre estas últi- mas. A diversidade de espécies corresponde ao número e à varieda- de de espécies presentes em uma determinada zona. A diversidade de ecossistemas corresponde à diversidade estrutural e funcional dos ecossistemas que estão presentes em uma região”.
Para preservar a biodiversidade é necessário resguardar essas diferenças, uma vez uma vez que as espécies estão interligadas, assim, possibilitando a diver- sidade de vida e adaptação às mudanças. Ao modifi car a variedade de um ecossis- tema fi cam alteradas as suas capacidades de manter a fertilidade do solo, purifi car a água e absorver a poluição.
O primeiro princípio da Política Nacional da Biodiversidade (Dec.
4.339/2002), estabelece que “a diversidade biológica tem valor intrínseco, mere- cendo respeito independentemente de seu valor para o homem ou potencial para uso humano”, ou seja, ela merece respeito pelo o que ela é em si mesma.
Em termos de biodiversidade, o Brasil pode ser considerado um país pri- vilegiado, uma vez que a Amazônia continental abriga, em apenas 4% da sua superfície terrestre, mais de 1/5 da biodiversidade do planeta13.
A destruição das fl orestas está intimamente ligada à perda da biodiversida- de Na América do Sul a pecuária é o fator mais nocivo à fl oresta. O número de bovinos duplicou entre 1950 e 1975, fazendo com que desaparecessem 80.000 Km² de fl oresta no Brasil entre 1966 e 197814.
.Estima-se que, a cada ano, cerca de 200.000 (duzentos mil) quilômetros quadrados de fl oresta tropicais são destruídas de forma permanente para se fazer o pasto para o boi, ocasionando a morte de vários animais que lá habitavam, o que provoca a extinção de aproximadamente 1000 espécies de plantas e animais devi- do à destruição do seu ecossistema. Nos arredores de Belém, uma das áreas mais
13 Informações retiradas do endereço eletrônico: http://www.consciencia.net/2006/0128-meirelles-fi lho-amazonia.html, acesso em 02/04/2008 às 18:30 minutos
14 DAJOZ, Roger.Princípios da Ecologia.Tradução Fátima Murad-7ed. Porto Alegre: Artmed, 2005, p.423
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comprometidas, por exemplo, um quarto das aves está ameaçado de extinção. O crescimento da pecuária é a principal causa da extinção de espécie nos Estados Unidos15.
Na fl oresta Amazônica, as fazendas de gado são as principais responsá- veis pelo desmatamento na região. De acordo com o Centro Internacional de Pesquisas Florestais, The Center for International Forestry Research (CIFOR), em 2003, oitenta por cento da produção de gado brasileira estava situada na região amazônica16.
O problema da criação animal é tão grande que David Pimentel, pesquisa- dor da Universidade de Cornell (EUA), afi rma que 80% da devastação das fl ores- tas mundiais são provocadas pela pecuária17.
Este assunto é bastante importante tendo em vista que a restauração de um ecossistema “é um empreendimento caro, difícil e, em certos casos, impossível”18
5. PECUÁRIA E POLUIÇÃO HÍDRICA
Analisando o gasto de água na pecuária, para produzir um quilo de carne de boi são gastos 8.938 litros de água, enquanto, para produzir um quilo de tomate são gastos 39 litros, e um quilo de trigo, 42 litros. A criação de gado é responsá- vel por mais da metade de toda a água consumida para todos os fi ns nos Estados Unidos.19
Esses animais produzem resíduos compostos por nitrogênio, os quais, pos- teriormente, são convertidos em amônia e em nitrato, infi ltrando nas águas do subsolo e da superfície, contaminando poços e rios, além de destruir a vida aquá- tica. Os resíduos criados por um rebanho de 10.000 (dez mil) cabeças são iguais aos produzidos por uma cidade cuja população é de 110.000 (cento e dez mil) habitantes.
6. PECUÁRIA E PROTEÇÃO DOS ANIMAIS
O Brasil é um dos poucos países do mundo20 a vedar na Constituição da República a prática de crueldade para com os animais. De acordo com seu art.
255, §1º, inc. VII incumbe ao Poder Público: “proteger a fauna e a fl ora, vedadas,
15 Ibidem p.06
16 Informações retiradas do endereço eletrônico: http://news.mongabay.com/2005/0521-rhett_butler.html, acesso feito em 01 de abril de 2008, às 18:15 hrs.
17 OUR FOOD OUR WORLD: Making a Difference with every bite: the Power of the Fork! EarthSave International.
New York, NY, p.06
18 DAJOZ, Roger.Princípios da Ecologia.Tradução Fátima Murad-7ed. Porto Alegre:Artmed,2005, p. 442
19 Informações retiradas do endereço eletrônico: http://www.harekrishna.com.br/veg/ e http://www.vegetarianismo.com.
br/sitio/index.php?option=com_content&task=view&id=445&Itemid. Ambos amplamente baseados em Our Food Our World – The Realities of an Animal-Based Diet, EarthSave Foundation, Santa Cruz, 1992. Tradução e adaptação de Marly Winckler.
20 LEVAI, Laerte Fernando. Crueldade consentida- Crítica à razão antropocêntrica. Revista Brasileira de Direito Animal.
Salvador. Nº 1, volume nº1, Salvador: Instituto de Abolicionismo Animal. Janeiro-Dezembro de 2006, p.171-190
na forma da lei, as práticas que coloquem em risco a sua função ecológica, provo- quem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade”.
De acordo com Paulo Afonso (2007)21: “A Constituição teve o mérito de focalizar o tema e proibir a crueldade contra os animais. O texto constitucional fala em “práticas”- o que quer dizer que há atos cruéis que acabam tornando-se hábitos.”
Este preceito constitucional inspirou o legislador ordinário ambiental a cri- minalizar, no artigo 32 caput da Lei 9.605/98, todo aquele que “praticar ato de abuso, maus tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesti- cados, nativos ou exóticos”.
Embora os animais estejam submetidos às regras civis do direito de propriedade, foram igualmente tutelados pelo legislador, o qual erigiu em cláusula pétrea um dispositivo de conteúdo moral.
Analisando situação dos bovinos submetidos à criação intensiva, percebe-se que, na maioria das vezes, esses animais são submetidos à crueldade e alguns atos do criador confi guram maus tratos (art.32 da Lei 9605/98), tais como a retirada precoce dos chifres, a marcação do animal com ferro incandescente e a castração, realizada pelos próprios criadores e sem qualquer preocupação com as implica- ções sensíveis causadas ao animal.
Estudos científi cos comprovam que os animais possuem uma seqüência de estruturas nervosas responsáveis pela recepção e condução dos estímulos causa- dores da dor até determinadas regiões do cérebro22.Estes se diferenciam do cére- bro humano apenas na expressão quantitativa, e não na qualitativa, servindo de órgão de manifestação da mente23. Vale ressaltar que, nos mamíferos, há a atuação do sistema ativador reticular ascendente, responsável pela passagem do tronco encefálico dos estímulos de sensibilidade e dor, da visão do que está ocorrendo e dos estímulos sonoros.24
Portanto, é notável que o animal tem condição de avaliar e interpretar a adversi- dade da situação a que se encontra submetido, disso resultando dor física e sofri- mento mental25.
Em princípio, estes simples atos feitos corriqueiramente pelo fazendeiro podem confi gurar o crime de maus-tratos.
De acordo com a Constituição brasileira, a proteção dos animais impõe aos agentes públicos e a toda sociedade a proibição de submetê-los a comportamentos cruéis, de forma que não há restrições ao alcance da proteção, abrangendo os ani- mais que componham ou não a fauna silvestre26
21 MACHADO , Paulo Afonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro, São Paulo: Malheiros,2007, 14 ed, p.132.
22 TUGLIO, Vânia Maria.Espetáculos Públicos e Exibição de Animais. Manual Prático da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente. Vol.I, São Paulo, Imprensa Ofi cial do Estado de São Paulo, 2005, p..485
23 PRADA, Irvênia.A alma dos Animais.São Paulo:Ed. Mantiqueira,2000 24 TUGLIO, op.cit.p.485
25 TUGLIO, op.cit.p.485
26 AYALA,Patryck de Araújo. O novo Paradigma constitucional e a jurisprudência ambiental no Brasil.In:CANOTILHO, José Joaquim Gomes, MORATO LEITE, José Rubens (organizadores).Direito Constitucional Ambiental Brasileiro.São Paulo: Saraiva, 2007, p.380
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O Decreto Federal nº 24.645/34 estabelece, em seu art. 1º, que todos os animais existentes no país são tutelados pelo Estado, considerando maus tratos (art.3º) a prática de atos de abuso ou crueldade contra eles (inc. I); golpear, ferir ou mutilar, voluntariamente qualquer órgão ou tecido de economia (inc. IV).
A doutrina brasileira tem evoluído no sentido da proteção dos animais, ado- tando um posicionamento inovador, conforme leciona José Afonso da Silva:
“Objeta-se que não há direito que não seja humano ou do homem, afirmando-se que só o ser humano pode ser titular de direitos. Tal- vez já não mais assim, porque, aos poucos, se vai formando um direito especial de proteção dos animais.”27
Caberia, então, ao poder público, fi scalizar as fazendas e empreender cam- panhas de conscientização com os criadores, uma vez que muitos desconhecem as implicações físicas e psico-sensíveis causadas ao animal.
7. PECUÁRIA E O PRINCÍPIO DO POLUIDOR-PAGADOR
Conforme estabelece o princípio XIV do Dec. 4.339/2002 “o valor de uso da biodiversidade é determinado pelos valores culturais e inclui valor de uso di- reto e indireto, de opção de uso futuro e, ainda, valor intrínseco, incluindo os valores ecológico, genético, social, econômico, científi co, educacional, cultural, recreativo e estético”. Assim, para analisar o valor de todo e qualquer uso, deve- se primeiro consultar o valor intrínseco da biodiversidade e subordinar a ele os demais valores elencados neste princípio.
O decreto também estabelece que os ecossistemas devem ser entendidos e manejados em um contexto econômico (principio XVII), objetivando: “(a) reduzir distorções de mercado que afetam negativamente a biodiversidade; b) promover in- centivos para a conservação da biodiversidade e sua utilização sustentável; e c) in- ternalizar custos e benefícios em um dado ecossistema o tanto quanto possível”.
A internalizarão dos custos ambientais será feita tendo como base o prin- cípio do poluidor-pagador, segundo o qual imputa-se ao poluidor o custo social da poluição por ele gerada, engendrando um mecanismo de responsabilidade por dano ecológico abrangente dos efeitos da poluição não somente sobre bens e pes- soas, mas sobre toda a natureza.28
Este princípio pode ser entendido como a internalização das externalida- des negativas dos custos ambientais, no qual o empreendedor deve, em princípio, arcar com o custo da poluição, com a devida atenção ao interesse público e sem provocar distorções no comércio e nos investimentos internacionais.
Tendo em vista este princípio percebe-se que não estão internalizados no preço da carne os impactos ambientais por ela gerados, como por exemplo, a
27 SILVA, José Afonso.Curso de Direito Constitucional.São Paulo, Ed. Malheiros, 2001, p.176.
28 MILARÉ, Edis. Direito do Ambiente, doutrina- jurisprudência- glossário. 4ª edição, São Paulo, 2005 pg.164
desertifi cação do solo ocorrida pelas queimadas e pelo pisoteio do gado, a conse- qüente perda da biodiversidade e a poluição dos recursos hídricos.
Dentre os impactos causados por esta atividade, a mais cruel é desfl oresta- mento, o que acarreta a perda de biodiversidade e a extinção de espécies.
Há esperança de que o Poder Público tenha um controle sobre erros e frau- des na utilização da biodiversidade “pois o jogo de interesses nem sempre é claro quando se trata de preservar a qualidade ambiental com ônus para os exploradores e empreendedores”29
Apesar desses dados alarmantes, a FAO reconhece que a pecuária, além de ser responsável por 40% da produção agrícola mundial, é o meio de subsistência de aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas no planeta.
Dessa forma, para que a situação não piore, é necessário que sejam encon- tradas soluções rápidas para o problema, uma vez que o consumo de produtos provenientes de animais de criação cresce anualmente.
8. PECUÁRIA E ESTUDO DE IMPACTO AMBIENTAL
A Constituição da República estabelece, em seu art.225, §1º, inc. IV, que, incumbe ao Poder Público “exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou ati- vidade potencialmente causadora de signifi cativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade”.
O estudo deve ser prévio, para evitar uma prevenção falsa, ou seja, quando o empreendimento já iniciou sua implantação.
O objetivo do Relatório de Impacto Ambiental destina-se ao esclarecimen- to das vantagens e conseqüências ambientais do empreendimento, e refl etirá as conclusões daquele.
Nas palavras de MILARÉ (2006)30: “é certo que muitas vezes, a previsão dos efeitos nefastos de um projeto pode ser muito delicada, pois algumas modifi - cações do equilíbrio ecológico só aparecem bem mais tarde”.
A Deliberação Normativa do Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais (COPAM) nº 74, estabelece critérios para a classifi cação segundo o porte e potencial poluidor de atividades modifi cadoras do meio ambiente, enqua- drando a pecuária extensiva acima de 3.000 cabeças, como um empreendimento de grande porte, com um potencial poluidor/degradador geral da atividade 4 (im- portante lembrar que o potencial poluidor varia de 1a 6).
Dessa forma, é necessário um estudo de impacto ambiental antes de o pe- cuarista começar a sua atividade, de forma que se possa reduzir a degradação causada ao meio ambiente.
29 MILARÉ op.cit. p.725
30 MILARE, Edis. Direito do Ambiente, Revista dos Tribunais, São Paulo, 2006, p.492
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