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Especifi cidades do dano ambiental

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IBRAHIM CAMILO EDE CAMPOS

2. DANO AMBIENTAL

2.1 Especifi cidades do dano ambiental

Um dos principais pontos da discussão sobre a reparação do dano ambiental diz respeito ao dano ao bem ambiental corpórea e concretamente determinado traduzir-se na manifestação sobre os demais elementos ecossistêmicos e intera-

7 Idem, XVIII.

8 Idem, XVIII.

9 Idem, XIX.

10 Idem, XIX, XX.

11 Idem, XX.

12 Idem, XXII.

13 Sob uma óptica antropocêntrica, argumentar-se-ia que as mudanças climáticas globais e a depleção da camada de ozô- nio levariam o meio ambiente à “destruição”. Todavia, é o homem que poderia ter sua existência na Terra prejudicada ou limitada, já que o meio ambiente continuaria abrigando e regendo a vida em inúmeras outras formas de existência, ainda que alterado, temporariamente ou não, irreversivelmente ou não. Nesse sentido, as palavras de Nietzsche: “só o seu dono e progenitor [do intelecto] o encara tão pateticamente como se ele fosse o eixo à volta do qual gira o mundo”. (NIETZS- CHE, Friedrich. Acerca da verdade e da mentira. Trad. Heloísa da Graça Burati. São Paulo: Rideel, 2005. p.7). Em outras palavras, a preocupação é com o homem; todos os riscos ambientais com que o homem se depara, direta ou indiretamente, tem, primordialmente, um enfoque antropocêntrico, ainda que mitigado pela infl uência de correntes com matiz ecocêntrico ou biocêntrico.

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ções que compõem o meio ambiente, considerado como macrobem de caráter difuso e realidade intangível. O espectro em que se delineia a responsabilidade civil reparatória14, no que se refere à existência, extensão ou quantifi cação do dano perpassa desde a tênue passagem para além da tolerabilidade até o caráter indenizatório pela irreversibilidade da lesão ambiental15, o que faz com que a caracterização plena do dano ambiental não se dê de forma exata nem imune a abordagens interpretativas diversas, cabendo, muitas vezes, ao agente do poder de polícia administrativo ambiental ou ao juiz defi nir os contornos numa variável e intranqüila margem.16

Mirra defi ne, de forma precisa, dano ambiental como

toda degradação do meio ambiente, incluindo os aspectos natu- rais, culturais e artificiais que permitem e condicionam a vida, vis- to como bem unitário imaterial coletivo e indivisível, e dos bens ambientais e seus elementos corpóreos e incorpóres (sic) específi- cos que o compõem (...)17.

Todavia, ainda assim, a defi nição permite elucubrações em relação à exten- são e a natureza mesma do bem e do meio ambiente lesado.

A confi guração do dano ambiental pressupõe, outrossim, uma lesão intolerá- vel ao meio ambiente18, mas tal intolerabilidade deve ser compreendida dentro do atual paradigma econômico-desenvolvimentista inserido no sistema capitalista, caracterizado pela constante e necessária exploração dos recursos naturais, ainda que limitada pelo princípio da defesa ambiental, insculpido no art. 170, VI, da Constituição Federal de 1998 (C.F.). Fala-se, então, de limites que, na prática e na aplicabilidade dos conceitos jurídico-legais, não são rígidos, em que pese a dou- trina jusambiental não atentar com a devida acuidade para essa dimensão fática do Direito Ambiental. Vale dizer, a atuação do órgão administrativo ambiental, ao licenciar ou autorizar atividades efetiva ou potencialmente poluidoras, não raro, restringe-se à imposição de medidas compensatórias e mitigatórias dos impactos ambientais bem como a condicionantes para concessão de alvará, face à constata- ção de que a variável ambiental é apenas um dos fatores a serem considerados na complexa soma de interesses, sobretudo econômicos, que infl uem nos processos políticos decisórios.

14 Adotamos a posição doutrinária de Mirra, para quem os efeitos da responsabilidade civil abrangem, além da reparação ao dano ambiental, a supressão de fato danoso e a pena civil. Ver, a respeito, MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Ação civil pública e a reparação do dano ao meio ambiente. São Paulo: Juruá, 2002.

15 A irreversiblidade do dano ambiental é um tema complexo e polêmico, em que pese não ser trabalhado com a devida profundidade pela doutrina jusambiental.

16 MILARE, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência e glossário.5.ed. ref. atual e ampl.São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007.

17 MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Ação civil pública e a reparação do dano ao meio ambiente. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2002. p. 89.

18 LEITE, José Rubens Morato; PILATI, Luciana Cardoso. Evolução da responsabilidade civil: 25 anos da lei nº 6.938/81.

[200?]. p. 27

O dano ambiental propriamente dito ou dano ambiental coletivo19 incidente sobre os bens ambientais, que, em sua plenitude, compõem o macrobem ambien- tal, enseja reparação civil. Nesse sentido, o art. 4º, VII, da lei nº 6.938/81, que pre- vê, como um dos objetivos da Política Nacional do Meio Ambiente, “a imposição, ao poluidor e ao predador, da obrigação de reparar e/ou indenizar os danos cau- sados” (“grifo meu”). Malgrado o art. 14, § 1º da lei supracitada preveja que “é o poluidor obrigado [...] a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros...” (“grifo meu”), tratando-se do uso somente da conjunção alternati- va “ou”, há dúvida, no que atine à interpretação sistêmica, em ditar o sentido e o real alcance da norma. Pergunta-se: ao dano ambiental sobrevem a obrigação de repará-lo, de forma in natura ou pecuniária (nesta mensurando-se o somatório dos valores econômicos e não econômicos envolvidos), tão somente, ou somada a tal reparação, vem à tona, outrossim, a necessidade de indenizar a subtração causada à coletividade pela perda da qualidade ambiental no interregno entre o dano e a reparação (dano interino) ou até mesmo por uma ireversibilidade20? Tais refl exos indiretos do dano ambiental seriam mera decorrência do princípio da reparação integral do dano?, portanto plenamente aplicáveis no plano da reparação civil? A questão tem relevo particular no que toca à biodiversidade e aos riscos advindos da agressão antrópica e contínua aos ecossistemas e às espécies. Nesse sentido, o alto risco de extinção ou a própria extinção de determinadas espécies perfi lam- se nessa dimensão própria e distiguível do dano ambiental em relação aos danos comumente ocorridos na esfera privatística, que, via de regra, são plenamente quantifi cáveis monetariamente. A rigor, tanto o bem ambiental individualmente considerado como o meio ambiente não são valoráveis tão somente em aspectos econômicos.21

Ressalte-se que a convalescença ou recuperação (total ou parcial) do bem ambiental e o equilíbrio da respectiva ambiência ecossistêmica dão-se de for- ma natural, quando muito catalisada pela ação antrópica por manejo adequado.

Destarte, a capacidade regenerativa, funcional e de regulação autônoma do bem ambiental22 (isso quando é possível) não é fruto da cultura, muito menos da vola- tibilidade e inventividade das relações humanas, tal como a demolição ou constru- ção um edifício ou a produção incessante de novas tecnologias. Nessa razão, é a natureza, em última análise, que se autocondiciona, podendo o homem, visto mais como degradador do que contribuidor na proteção ambiental, auxiliar deveras na promoção da qualidade ambiental ou, ao contrário, como ocorre na prática, alterar adversamente condições climáticas globais e, paradoxalmente, retrair a própria

19 MILARE, Édis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência e glossário.5.ed.rev.ampl. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007.

20 Com efeito, a indenização pela irreversibilidade do dano ambiental é um assunto polêmico e pouco discutido em pro- fundidade pela doutrina jusambiental.

21 Conferir, a respeito, FREITAS, Vladimir Passos de. A Constituição Federal e a efetividade das normas ambientais. 2.ed.

rev. São Paulo: RT, 2002. p.182-190.

22 FERREIRA, Heline Sivini. Compensação ecológica: um dos modos de reparação do dano ambiental. In: LEITE, José Rubens Morato; DANTAS, Marcelo Buzaglo. Aspectos processuais do Direito Ambiental. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004, p.56 a 72.

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espécie num sôfrego impulso afi nalistico voltada para uma exarcebação da dimen- são econômica da vida social.23

Assim, incorpora-se a materialização do risco (este, inclusive, fundamento da responsabilização civil objetiva), na medida em que a lassidão do Poder Pú- blico e da coletividade na proteção e defesa do meio ambiente despontam para a dimensão reparatória do meio ambiente. Daí os objetivos fundamentalmente preventivos e precaucionais do Direito do Ambiente24, instrumentalizados por meio do estabelecimento de padrões de qualidade ambiental, pelo procedimento de licenciamento ambiental, pelo zoneamento ambiental, além de outros meios preventivos de controle e gestão ambiental (art. 225, §1º, V da C.F.), sem olvi- dar, claro, da educação ambiental, projeto que permite a transposição do plano formal e assecuratório das liberdades positivas para um exercício concreto e viável das mesmas, seja no que diz com a participação da sociedade nas deci- sões políticas quanto na mudança de padrões insustentáveis de consumo. Em todos esses instrumentos de proteção ambiental, a biodiversidade deve ser ob- jeto de especial atenção, mormente no que toca ao princípio da prevenção e da precaução, tendo em vista a oscilação tênue que ora ultrapassa a linha do limite do risco ambiental (extinção de espécies, por exemplo) ora aproxima-se dela com inquieta constatação de que a biodiversidade ecossistêmica cada vez mais perde espaço para a atividade empresarial de agricultura em grandes extensões territoriais.

Cogitando-se do argumento de que a renovação cíclica dos recursos naturais obstacularizariam a necessidade da reparação do dano ambiental, tem-se que a complexidade e a teia ecossistêmica em que o bem ambiental lesado se insere faz com que a lesão ambiental irradie-se negativamente para outros elementos / recursos ambientais constitutivos do local, além de, claro, ter sido agredido o bem ambiental, fazendo com que o mesmo tenha de se recuperar da lesão. Não há como uma árvore destocada voltar a realizar fotossíntese, nem reter a umidade da água que margeia, igualmente proteger o solo da erosão, produzir frutos, para apenas exemplifi car. Demais, nesse particular, a reparação integral do dano – no sentido de uma suposta volta a status quo ante, teria de ser intensa, detalhada, constante e prolongada, dependendo do bem ambiental lesado.

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