IBRAHIM CAMILO EDE CAMPOS
5. RISCOS AMBIENTAIS E BIODIVERSIDADE
Em relação à biodiversidade, há riscos ambientais que são de alta gravidade, como, por exemplo, a ameaça ou a própria extinção de espécies e a agressão in- tensa a biomas pouco estudados, como a Caatinga52.
Canotilho propõe uma “determinação jurídica dos valores limite do risco”, consubstanciado em princípios jurídico–constitucionais53. A par do princípio da obrigatoriedade da precaução, que tem a ver com a incerteza do perigo do dano, e do princípio da proteção dinâmica do direito ao ambiente, este relacionado com a necessidade de critérios técnico-científi cos de segurança constantemente atualiza- dos na aferição dos riscos aceitáveis, fi gura o princípio da proporcionalidade dos riscos, formulado pelo autor mencionado nos seguintes termos:
“a probabilidade da ocorrência de acontecimentos ou resultados danosos é tanto mais real quanto mais graves forem as espécies de danos e os resultados que estão em jogo”54
Nesse sentido, a proteção à biodiversidade, nos enfoques intra-específi co, interespecífi co e ecossistêmico merece especial cuidado por parte da gestão am- biental. Situações-limite, como, por exemplo, o alto risco da extinção de determi- nada espécie ou a continuidade da degradação de um ecossistema local tendente à irreversibilidade, torna a probabilidade de materialização do risco superestimada, dada a gravidade dos bens ambientais em jogo.
Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Ali-
50 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito ambiental. 8. ed.rev. e ampl. Rio de Janeiro: Lumen júris, 2005. p.09.
51 ZHOURI, Andréa (org.) A insustentável leveza da política ambiental: desenvolvimento e confl itos socioambientais. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
52 LEWINSOHN, Thomas Michael; PRADO, Paulo Inácio. Biodiversidade brasileira: síntese do estado atual do conheci- mento. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2004. p.77.
53 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional ambiental português: tentativa de compreensão de 30 anos das gerações ambientais no direito ambiental português. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; LEITE, José Rubens Morato. Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 1 a 10.
54 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional ambiental português: tentativa de compreensão de 30 anos das gerações ambientais no direito ambiental português. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; LEITE, José Rubens Morato. Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007, p.10.
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mentação), no século XX, 75% da diversidade genética de centenas de milhares de espécies de plantas desapareceu. Recentemente, chegou-se a construir um ban- co mundial de sementes, em pleno ártico, a fi m de se constituir um “cofre global”
de interesse agrícola.55. Em relação à situação da fauna brasileira, há situações crí- ticas de ameaça de extinção, a exemplo do mico-leão dourado, hoje com menos de 2% de seu habitat original.56 No Cerrado, das 837 espécies de aves de ocorrência comprovada neste bioma, 29 são exclusivas deste ecossistema, sendo que dessas 29, 14 estão ameaçadas de extinção57. Como dito, o dano ambiental é de difícil reparação. Porém, como decorrência da indisponibilidade do bem ambiental, o princípio da reparação integral do dano traz a questão também para o plano da biodiversidade, o que enseja uma análise concreta e conjunta dos efeitos causados pelo dano ambiental.
5.1 Proteção da biodiversidade e o princípio da prevenção e da precaução
Com esteio em Antunes58, Machado59 e Milaré60, diferenciam-se claramente, em que pese a proximidade semântica, o princípio da prevenção e o princípio da precaução. Pelo primeiro, conforme o próprio étimo latino sugere (praevenire = tomar a dianteira, antecipar)61, tem-se a característica da previsibilidade do dano ambiental. Vale dizer, já se sabe da periculosidade ao bem ambiental, exigindo-se, pois, controle ou eliminação dos riscos decorrentes de empreendimentos e ativi- dades utilizadoras de recursos ambientais consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras62. Já em relação ao princípio da precaução, signifi ca que a ausência de certeza científi ca não respalda atividades antrópicas de se proceder a intervenções no ambiente. Nesse sentido, gravita-se em torno da imprevisibilidade, da incerte- za das conseqüências. Agir de modo contrário a tal princípio seria leviano, atentar contra a prudência e a ética do cuidado63 que, não raro, são opostas a interesses econômicos imediatistas..Assim, o princípio nº 15 da Declaração do Rio de Janei- ro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a afi rmar que “quando houver ame- aça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científi ca absoluta não
55 SOURANDER, Letícia Fonseca. Noruega inaugura “cofre” global de sementes no Ártico. Folha de São Paulo, São Paulo, 16 de fevereiro de 2008. Ciência, A 14.
56 RAMBALDI, Denise. Mico - leão - dourado: uma bandeira para a proteção da Mata Atlântica. In: BENSUSAN, Nurit (org.). Seria melhor mandar ladrilhar?: biodiversidade como, para que, por quê. Brasília: Editora Universidade de Brasília:
Insituto Socioambiental, 2002, p. 61 a 66.
57 BENSUSAN, Nurit. A imposibilidade de ganhar a aposta e a destruição da natureza. In: ______. Seria melhor mandar ladrilhar? : biodiversidade como, para que, por quê. Brasília: Editora Universidade de Brasília: Insituto Socioambiental, 2002, p. 13 a 28.
58 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito ambiental. 8.ed.rev. e ampl. Rio de Janeiro: Lumen júris, 2005.
59 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental brasileiro. 13. ed. rev. e ampl. São Paulo: Malheiros, 2005.
60 MILARE, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência e glossário.5.ed. ref. atual e ampl.São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007.
61 BUSSARELO, Raulino. Dicionário básico latino-português. Florianópolis: Editora da UFSC, 2004.
62 LEITE, José Rubens Morato. Dano ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial. 2. ed.rev. e ampl.São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2003. p.51.
63 BOFF, Leonardo. Os impasses da expressão desenvolvimento sustentável.Disponível em: http://www.mma.gov.br/ estru- turas/agenda21_arquivos/CadernodeDebates10.pdf›. Acesso em 14 de novembro de 2007.
será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental”.64
No livro Biodiversidade brasileira: síntese do estado atual do conhecimen- to, Prado e Lewinsohn traçam, como o próprio título do livro diz, uma avaliação do estado do conhecimento sobre a biodiversidade brasileira. Em relação às es- timativas no Brasil, a diversidade total de espécies existentes fi ca entre 1,3 e 2,4 milhões, sendo que o total de espécies conhecidas fi ca entre 179.000 e 226.00065.
Em proporção estimativa, consta que a biodiversidade total brasileira é cerca de dez vezes a que se registra hoje. Quase dois milhões de espécies esperadas face à aproximadamente 200.000 espécies conhecidas.66
O Brasil é, sem dúvida, um dos países com a maior biodiversidade do plane- ta. Corroborando o fosso existente entre o atual conhecimento da biodiversidade mundial e a miríade de seres vivos existentes, afi rmam os citados autores que o Brasil possui a maior biodiversidade de vertebrados do mundo, mas essa diver- sidade ainda não é pouco conhecida e boa parte dela encontra-se ameaçada pela atividade humana67 Em conclusão afi rma-se que:
“Com uma defasagem tão acentuada entre a biodiversidade regis- trada e aquela ainda por conhecer, duas conclusões são muito cla- ras: primeiro, não é viável pretender inventariar exaustivamente a biodiversidade brasileira senão no curso de várias décadas ou séculos – e, com as pessoas e recursos hoje disponíveis, é impos- sível chegar mesmo perto disso. Conseqüentemente, a informação necessária para conhecimento e uso da biodiversidade somente poderá ser produzida com esforços muito centrados para objetivos claros.” 68
Emerge à tona o princípio da prevenção e o princípio da precaução. É que, se por um lado não há como deixar intacto os bens ambientais desconhecidos, até porque a margem de conhecimento em relação a esses é limitada, a considera- ção desta escassez de conhecimento sobre a biodiversidade fi gura como variável inevitável na consideração das questões político-jurídicas ambientais, traduzidas em instrumentos de gestão ambiental como zoneamento ecológico-econômico e licenciamento ambiental, este quando da fase de concessão da licença prévia69. A inserção ou não de atividades econômicas de altos impactos ambientais, autori- zadas/licenciadas pelo poder público, em biomas menos conhecidos, tal como a
64 Assinala Carvalho, concernente aos riscos ecológicos, que esses “apresentam uma complexidade potencializada (eco- complexidade), no que diz respeito à identifi cação dos agressores, à determinação temporal dos efeitos da degradação, às dimensões de seus efeitos, ao número de atingidos (gerações futuras) e, sobretudo, às condições de atribuição das relações de causalidade” (CARVALHO, Délton Winter de. Dano ambiental futuro: a responsabilização civil pelo risco ambiental.
Revista de Direito Ambiental, São Paulo, nº 45, p.62-91, jan.- mar. de 2007).
65 LEWINSOHN, Thomas Michael; PRADO, Paulo Inácio. Biodiversidade brasileira: síntese do estado atual do conheci- mento. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2004. p.94.
66 Idem, fl . 95.
67 Idem, fl . 76.
68 Idem, fl . 96.
69 Resolução nº 237/97, art.8º, do Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA
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Caatinga, há de ser alvo de criteriosa consideração, levando-se em conta a loca- lização do empreendimento bem como alternativas que possibilitem um menor impacto e menor degradação da área.