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As questões um, dois, quatro, cinco e seis, da avaliação A (anexo K), referem-se à perguntas que contribuem para a percepção de impacto de mudança.

Na primeira, procurou-se saber do participante a sua satisfação ou insatisfação em relação ao que foi apresentado de forma geral.

Tudo que foi apresentado ajudou-me a olhar melhor pra mim, para minha família, meu esposo, colegas, amigos, família (2ªA-28).

Tudo tem o tempo determinado, antes de fazer o curso eu tinha uma postura radical, agora posso pensar antes de agir (2ªA-47).

Os temas (princípios) estudados me levaram a refletir sobre meu modo de agir tanto no campo profissional quanto na família, estou mais atenta com os valores éticos e ao ser, não me anulando tanto ao ser escravo do trabalho e preocupações (2ªA-70).

Me fez refletir mais sobre meu modo de ser, de viver e até reparar algumas falhas que até então, eu não percebia (3ªA-7).

O fato de parar um pouco, conhecer a realidade dos colegas de trabalho, se abrir ao novo… É algo que não tem preço (3ªA-33).

Ouvir as diferentes ideias, relatos e compartilhando vivências me faz refletir sobre minha própria vida (6ªA-28).

Observa-se nas respostas dos professores que retratam a percepção de mudanças significativas, tanto na vida pessoal quanto familiar e profissional do participante do curso. Elas demonstram que a partir do que foi apresentado e também com a vivência dos princípios do AE foi possível reconhecer por parte do participante a necessidade de revisão de alguns comportamentos, a necessidade de valorizar mais a si mesmo, bem como ressaltam que os momentos de partilha e de troca de experiências foram considerados essenciais para a promoção de reflexões.

No que se refere à participação, Tardif (2002) discorre sobre a importância da dimensão interativa aplicada à educação, visto que, embora seja possível manter os alunos presencialmente em uma sala de aula, não se pode “obrigá-los a participar de um programa de ação comum orientado por finalidades de aprendizagem: é preciso que os alunos se associem, de uma maneira ou de outra, ao processo pedagógico em curso para que ele tenha alguma possibilidade de sucesso” (p. 167). Da mesma forma que os alunos citados pelo autor, assim são os professores participando do curso na posição de aluno, como foi no caso da formação em PQVAE. A proposta do curso é que houvesse interação, no entanto, não tinha como obrigá- los a interagirem.

Diante das respostas, nota-se que esses professores vivenciaram a proposta do curso e obtiveram mudanças, perceberam por meio da participação nas atividades desenvolvidas e da interação, a necessidade e a importância de se fazerem mudanças pessoais e profissionais para terem melhores relacionamentos e, consequentemente, qualidade de vida.

Daí a importância das políticas públicas para fomentar e garantir que a educação continuada aconteça de forma permanente para que os professores tenham a oportunidade de participar de formações que contribuem para o crescimento tanto pessoal quanto profissional.

Nos últimos anos, a educação continuada, de acordo Gatti (2008), tem sido fomentada e desenvolvida de diferentes formas e vertentes para atender a diversos interesses, seja para suprir uma formação deficitária, atualização constante devido às necessidades emergentes da sociedade contemporânea como o avanço tecnológico e mudanças relacionadas ao conhecimento e ao mundo do trabalho, ou para aprofundamento.

A educação continuada possibilita uma constante reflexão acerca da prática docente e das experiências de vida, favorece mudanças que poderão gerar transformações significativas tanto na vida pessoal como na profissional. Nóvoa (2017, p. 1125) defende que “a formação continuada desenvolve-se no espaço da profissão, resultando de uma reflexão partilhada entre os professores, com o objetivo de compreender e melhorar o trabalho docente”. No mesmo sentido, Romanatto (2000, p. 157) afirma que “numa situação ideal, a educação continuada deveria ser implementada como uma condição de trabalho para os professores”. A partir de reflexões e estudos, os professores têm a oportunidade de confrontar suas ideias, suas experiências com as problemáticas da prática docente a fim de buscar respostas para os diversos problemas do dia a dia da sala de aula.

Romanatto (2000) ressalta que é por meio desta formação continuada que os professores podem superar o senso comum, o negativismo e as críticas que os imobilizam, que encontrarão caminhos diferentes em prol de uma educação de qualidade, e poderão apontar e considerar alternativas para sanar problemas que surgem diariamente, respeitando os limites da legalidade do sistema educacional.

A questão dois refere-se às metodologias utilizadas nos subgrupos, ou seja, na segunda parte do encontro em que os participantes eram divididos em grupos menores para oportunizar a participação de todos. As principais metodologias utilizadas no curso foram de partilhas, estudo e discussão que envolviam trocas de experiências entre os participantes e os formadores.

Menezes (2012b) explica como proceder neste momento:

cada pequeno grupo inicia com as pessoas partilhando os eventos da semana.

De forma específica, os membros do grupo relatam como funcionou sua meta semanal e seu apoio para ele, quanto de sucesso tiveram e qual foi a dificuldade. Depois que todos tiveram a oportunidade de fazer sua avaliação, passa-se para o trabalho propriamente dito: qual é a próxima meta? Toda proposta de ação precisa de apoio (p. 70).

Nas partilhas os professores tinham a oportunidade de fazerem seus relatos dos fatos ocorridos na semana, expunham como foi colocar a meta em prática, se foi fácil ou se tiveram dificuldades, estabeleciam a meta para a semana seguinte relacionada a sua necessidade e

baseada nos princípios em estudo sob a coordenação de um formador com experiência em educação e em AE. O estudo dos princípios proporcionava reflexões, questionamentos e estimulava o participante a se posicionar. As discussões sobre os princípios e os relatos dos participantes aconteciam nos subgrupos, onde havia abertura para todos aqueles que quisessem partilhar.

No que se refere à partilha de saberes, Tardif (2002, p. 53) ressalta: “ainda que as atividades de partilha dos saberes não sejam consideradas como obrigação ou responsabilidade profissional pelos professores, a maior parte deles expressa a necessidade de partilhar sua experiência”. Nesse sentido, o curso oportunizou momentos para isso, pois na proposta do AE compartilhar conhecimento, experiências é importante e necessário para o desenvolvimento pessoal e profissional de todas as pessoas, pois não diz respeito somente a dividir ou repassar informações, mas abrir espaço para a troca, pois promove tanto o crescimento pessoal quanto o profissional de todos os envolvidos. O compartilhar também pode estimular as pessoas a buscarem mais informações, conhecimentos para superarem os desafios diários com mais tranquilidade, sob novas perspectivas.

As respostas de cinco participantes do curso mostram que as metodologias utilizadas contribuíram de forma positiva para a partilha e troca de experiências.

A partir do momento em que percebo que não é só eu que tenho problemas e compartilho do problema do outro, já é um ponto positivo (2ªA-47).

A socialização amplia nossos conhecimentos em relação aos temas discutidos (2ªA-56).

Acho que foram ótimas pois ajudaram a termos uma compreensão melhor de todos os princípios (4ªA-13).

Foram boas porque tivemos a oportunidade de socializar nossas metas, relatar mudanças de posturas frente aos nossos comportamentos (4ªA-44).

Nos subgrupos tivemos a oportunidade de expressarmos nossas opiniões, cada um teve voz e vez, além de contarmos com a ajuda dos palestrantes (6ªA-30).

As respostas dos professores retratam que as metodologias utilizadas proporcionaram socialização de conhecimentos, mudanças de atitudes, compreensão dos temas de estudo, além de oportunizar vez e voz aos participantes para exporem suas opiniões.

Marcelo Garcia (2010) em seus estudos cita que “uma das características da profissão docente é o isolamento. Os docentes, em geral, desenvolvem sua atividade profissional com os alunos como únicas testemunhas” (p. 16). Nesse sentido, percebe-se a razão de os professores mencionarem a importância de momentos de socialização para trocas de experiências com seus pares, pois dificilmente têm oportunidades para tal.

A sexta questão, da avaliação A, trata de uma autoavaliação do cursista quanto à participação/assimilação do que foi trabalhado no curso. A seguir estão algumas respostas relativas a isso.

Tenho conhecimento que tudo depende de mim. Então tenho procurado estar presente em todos os encontros para aprender, assimilar, para levar para minha prática pedagógica (2ªA-72).

Tenho assimilado o estudo e participado das partilhas no meu grupo (5ªA-8).

Está sendo ótima devido aos depoimentos e as trocas de experiências, nos ajudam a assimilar (6ªA-59).

Estes professores relataram que a participação no curso tem propiciado assimilação dos conteúdos estudados, além de proporcionar momentos de partilhas e trocas de experiências que poderão ser incorporadas à prática pedagógica. O professor 2ªA-70 registra: “como já disse, tenho participado dos encontros e procuro sempre colocar em prática o que tenho estudado no curso. Senti melhora em meus alunos na sala e também em casa”. Relata que já tem colocado em prática o que tem estudado no curso e visto resultados positivos, tanto com os alunos quanto em casa, ou seja, no âmbito profissional e no familiar.

Procurei tirar dúvidas e o máximo de proveito dos temas abordados (2ªA-12).

Porque posso contribuir e aprender com o outro, desejo assimilar mais para ajuda os pais dos nossos alunos (2ªA-16).

Participei ativamente e considero que compreendi os conteúdos passados (2ª A-60).

Procurei me interagir com o grupo (2ªA-61).

Eu procuro me concentrar ao máximo, prestar muita atenção (3ªA-4).

Os professores apresentam relatos explicitando a participação no curso de forma ativa, aproveitaram as oportunidades para aprender, discutir, interagir, contribuir, refletir e esclarecer dúvidas.

No que se refere à discussão, Tardif (2002, p. 165) atesta que “a discussão com o outro não é somente um meio educativo; é ao mesmo tempo, o meio no qual a própria formação ocorre”. Para o autor, favorece a aquisição de competência discursiva, importante para uma interação e respeitosa. Nesta lógica, a participação ativa dos professores no curso, facilitada pela metodologia que proporcionava momentos propícios para discussão, contribuiu para a consolidação da aprendizagem.

Quanto à questão referente à percepção de alguma mudança em relação ao modo de pensar, agir e encarar os desafios após o estudo dos princípios, uma das professoras fez o seguinte relato que mostra a mudança de atitude dela com relação aos filhos.

Aprendi a impor responsabilidades aos meus filhos sem me sentir culpada, ensinei-lhes que toda a ação tem uma reação e que pensem bem nisso antes de fazerem qualquer coisa ou de fugirem as suas responsabilidades. Cito como exemplo o fato de meus filhos serem responsáveis em organizar as mochilas e as garrafas de água para levarem à escola e quando esqueciam alguma coisa eu logo dava um jeito de comprar outro ou de buscar em casa, o que as vezes fazia com que eu chegasse atrasada no trabalho. A primeira vez que não resolvi o problema do esquecimento de determinado material me senti mal, mas agora eles estão cientes de que as mochilas são de responsabilidade deles e que se esquecerem algo, vão ficar sem e eu me confortei em perceber que não tenho que dar conta de tudo sozinha, mostrei-lhes a importância e a necessidade de serem responsáveis com seus compromissos, pois eu já tenho os meus e quando eles ainda não compreendiam fiz a eles tudo que estava ao meu alcance e que agora precisam aprender a caminhar “sozinhos” (1ªA-1, grifos da respondente).

Pelo relato da professora fica evidente que ela se prejudicava pela falta de compromisso dos filhos e, a partir dos estudos realizados no curso, percebeu que não podia mais se prejudicar e nem se sentir culpada por tomar atitude. A proposta do AE ressalta que cabe aos pais, responsáveis e professores mostrar caminhos, como explicita Brigagão (2015, p.

14): “caminhos que poderão ou não ser trilhados por nossos filhos/alunos. O fato de eles poderem optar não nos livra da responsabilidade de mostrá-los” (grifos do original). Nesse contexto a professora/mãe compreendeu a necessidade de mostrar para os filhos a importância de cada um assumir suas responsabilidades, ela mostrou o caminho, deu o exemplo, não se permitindo mais se prejudicar em detrimento das ações dos filhos. Com relação à culpa, o quinto princípio do AE trata de aspectos que podem auxiliar as pessoas a não se sentirem culpadas por situações que não são de sua responsabilidade ou mesmo pelos que foram causados, mas com o intuito de acerto, e que sentimento de culpa fragiliza as pessoas e não soluciona os problemas.

Além do relato do professor 1ªA-1, outras mudanças foram relatadas pelos demais professores participantes, dentre elas: perceberam a importância do outro, de agir com mais cautela, pensar mais antes de agir, ter mais firmeza e autoconfiança, a necessidade do diálogo, a força do exemplo, a importância de se libertar de culpas, autoconhecimento, que mudanças comportamentais são possíveis, e demandam tempo, paciência e perseverança e que o estabelecimento de metas facilita e promove as mudanças por meio de um compromisso individual. Foram citadas mudanças simples, como a de cumprimentar os colegas ao chegar ao trabalho, que fizeram diferença tanto para aquele que falou quanto para o que recebeu, assim como o dar mais atenção e ouvir o outro.

As mudanças mais relatadas foram com relação ao próprio comportamento, a percepção de que é preciso modificar a si mesmo; quanto a importância de se autoconhecer, se autovalorizar, de delegar funções para que não haja sobrecarga de uns sobre os outros, a compreensão de que as pessoas são responsáveis e não culpadas, na maioria das vezes, com relação, principalmente, à educação dos filhos; que as metas foram importantes para efetivarem mudanças e que o reflexo das mudanças aconteceram na vida pessoal, familiar e profissional, o que vem ao encontro a proposta do curso, de levar as pessoas a compreenderem que mudanças vão acontecer à medida que cada pessoa se proponha a fazer as mudanças em si primeiramente.

Às vezes tomamos decisões e atitudes baseadas em nossas convicções e que nem sempre estão corretas. É na troca de experiências que constatamos que estamos errados, sendo necessário rever nossas atitudes e teimosias. Com certeza já detectei, estou mudando meu comportamento [...] no meio do trabalho e na família (4ªA-31).

Questionamento em grupo. Diálogo entre os colegas. Os exemplos vividos pelos colegas. As trocas de depoimentos nos levaram a criar metas que nos propiciou novos comportamentos, novas tomadas de atitude. Nós melhoramos nossa forma de agir e sermos notados pelos demais que nos rodeiam. Isso só nos faz ser melhores conosco mesmo, em princípio, e depois com os demais (4ªA-38).

Os relatos ressaltam a importância do diálogo, da troca de experiência para perceber em si aspectos que precisam ser modificados, percebem nessas relações que as certezas são subjetivas e que nesse convívio e troca com os pares pode-se perceber caminhos para a solução de seus problemas. Estes aspectos vão ao encontro de algumas questões que Tardif (2002) apresenta sobre os saberes experienciais e as relações com os pares. Estes saberes têm sua origem na prática cotidiana em confronto com as diversas situações vivenciadas na profissão e podem provocar mudanças, no entender do autor

é através das relações com os pares e, portanto, através do confronto entre os saberes produzidos pela experiência coletiva dos professores, que os saberes experienciais adquirem uma certa objetividade: as certezas subjetivas devem ser, então, sistematizadas a fim de se transformarem num discurso da experiência capaz de informar ou de formar outros docentes e de fornecer uma resposta a seus problemas (TARDIF, 2002, p. 52).

A proposta do AE é de que cada pessoa conheça melhor a si mesmo, tome consciência de seu valor e que suas experiências possam ajudar o outro, assim, a pessoa sente-se valorizada por contribuir com o crescimento de outros, e mostra também que sempre é tempo de rever convicções e comportamentos.

Além das mudanças já citadas, a questão da valorização da identidade pessoal e familiar foi outro aspecto marcante, assim como também a importância da vivência de valores, às vezes esquecidos, e a superação de condutas familiares por meio de mudanças comportamentais, como a prática do diálogo, a demonstração de afeto e de respeito a todos da família e aos demais com os quais se convive.