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acabado de completar 20 anos, fazia o segundo ano de Medicina e, como todos os filhos, era muito especial. Ao perdê-lo, compreendi quanto vale a vida de um jovem e conheci o sofrimento de quem o perde. Neste instante, brotou-me, no fundo do coração, uma vontade enorme de ajudar outros jovens. Eu conhecia os “meninos” da Fazenda do Senhor Jesus e queria defendê-los, informá-los, chegar em sua vida antes do vício, da dependência, da Aids.

Queria, também, ajudar a família, mostrar aos pais que seu filho estava vivo, que, juntos, podiam recomeçar, que não era o fim (MENEZES, 2011, p. 21, grifos do original).

A autora ressalta sempre em suas falas, seja nas reuniões de AE, nos congressos, nas entrevistas, em artigos publicados na RevistAE ou no site da Feae que a responsabilidade social fez com que ela saísse de si, do seu sofrimento causado pela morte prematura de um dos filhos, para fazer a sua parte como se tudo dependesse somente dela para que pais não percam seus filhos, com sua fé inabalável e a certeza da dependência de Deus, pois sabe bem o valor da vida de um filho e conhece a dor da perda. O AE deu a dona Mara um novo significado para a sua vida. De forma voluntária, apenas pelo desejo de ver as crianças se tornarem cidadãos, ela estudou, observou atentamente, aprendeu e ensinou como viver o programa para que todas as pessoas ouvindo e aprendendo uns com os outros, busquem soluções para os problemas, deem- se as mãos e unam os corações para juntos conseguirem o que sozinhos não conseguem.

surgiu a necessidade de reformular os dez princípios, os quais foram expandidos e adaptados à realidade brasileira.

Menezes (2012a) relata que, no ano de 1985, começou a se trabalhar o AE, de acordo com os dez princípios, conforme a proposta original dos Estados Unidos. A autora afirma que não demorou muito para notar

que os pais que chegavam aos grupos de apoio do AE logo percebiam que estavam sendo permissivos demais e que essa “permissividade” havia motivado seus filhos a tomar alguns desvios que lhes causavam sérios aborrecimentos. Então, imediatamente mudavam de atitude e transformavam- se em “terríveis sargentões”, cheios de dureza e exigências, esquecendo-se do Amor, que deveria ser o alicerce de tudo (p. 118, grifos do original).

Foi então que padre Haroldo e dona Mara idealizaram a sistematização do estudo de um princípio por mês. Em 1987, foi apresentada a nova versão do programa, contendo mais dois princípios: a exigência na disciplina e o amor. Para Menezes (2020, p. 3),

nesse programa o Amor tem poder. E quando se trata de relacionamentos pessoais importantes para nós, ele vem antes de qualquer ação. A Exigência deve ser firme, sem medo ou titubeios e com o objetivo claro de organizar e proteger a vida de todos. “Amo você, mas não aceito o que você está fazendo”.

Assim, quando iniciamos os trabalhos com as famílias, percebia-se imediatamente a dificuldade de compreender e viver a exigência na disciplina e o amor verdadeiro em relação aos nossos filhos, filhas, maridos, esposas, dependentes. Era difícil entender que podíamos, sem nos tornarmos autoritários e mandões, restabelecer nossos limites, reorganizar normas e regras e termos qualidade de vida, sendo bons ao ajudar as pessoas que amamos com o Programa AE. Era interessante notar nas partilhas que sem perceber passávamos de pais e parceiros amorosos e permissivos para uma atitude de autoritarismo e de inacreditáveis exigências (grifos do original).

Foi necessário explicar melhor esse jeito novo de exigir e de amar, e foi por isso que mudanças na proposta original dos americanos foram implementadas.

De acordo com Menezes (2011), iniciou-se o AE como um dos setores da Associação Promocional Oração e Trabalho (Apot), fundada por padre Haroldo em maio de 1978 na cidade de Campinas, São Paulo. A Apot realizava trabalho de tratamento e recuperação para dependentes químicos, criou uma das primeiras comunidades terapêuticas do Brasil, e atualmente faz parte do Instituto Padre Haroldo.

Não demorou para que padre Haroldo percebesse que havia um outro desafio a ser enfrentado: preparar as famílias para que recebessem de volta e ajudassem seus membros

usuários de álcool e outras drogas quando terminavam o tratamento e/ou deixavam a comunidade terapêutica. Com o AE, obteve o instrumento necessário para atingir esse objetivo.

O AE surge em um momento histórico em que se discutia o processo da humanização do ser humano, ou seja, reconhecer o ser humano como sujeito da história e criador de cultura.

Para Brandão e Assumpção (2009, p. 56), isso

significa reconhecer o seu próprio processo dialético de humanização. No espaço de tensão entre a necessidade (as suas limitações como ser da natureza) e a liberdade (o seu poder de transcender ao mundo por atos conscientes de reflexão) o ser humano realiza um trabalho único: ao criar o mundo de cultura faz a história humana. Cria a própria trajetória de humanização (grifos do original).

O diálogo e a comunicação são ferramentas valorosas no processo de humanização das relações, visto que favorecem a aquisição e ou assimilação de qualidades humanas essenciais para se ter qualidade nas relações entre as pessoas. Os grupos de AE favorecem essa comunicação, uma vez que a fala e a escuta fazem parte da metodologia utilizada nas reuniões semanais.

Para Rios (2009, p. 254), humanização é o processo “que rememora movimentos de recuperação de valores humanos esquecidos ou solapados em tempos de frouxidão ética”, por sinal, bem necessário no contexto sócio histórico do início do AE e do atual momento, em pleno século XXI em que a sociedade precisa passar por uma revisão ética de valores e atitudes.

A globalização, sem dúvida, é um dos fenômenos mais discutidos no mundo contemporâneo. Com ela foi possível a expansão das inter-relações entre países de diversos continentes, principalmente no que se refere à economia, às relações sociais, às condições de vida, à cultura e à política. Com ela, os interesses políticos são subordinados aos interesses do mercado, a cidadania e a participação são fragilizadas, já o individualismo e o descompromisso social são fortalecidos.

Frigotto (2011) parte do pressuposto de que, ao não disputar um projeto societário antagônico à modernização e ao capitalismo dependente e, portanto, à expansão do capital em nossa sociedade, as concepções e as práticas educacionais mercantis típicas da década de 1990, centradas em um projeto desenvolvimentista com foco no consumo, ao estabelecer políticas e programas para a grande massa de desfavorecidos, harmonizando-os com os interesses da classe dominante, marcaram a década de 1990 e a primeira década do século XXI.

Esse foi um período de expansão do programa AE, cujas concepções e práticas educacionais voltadas para o mercado do capital abrem espaço para as parcerias entre o público e privado,

englobando organizações sociais do terceiro setor das quais ONG ou institutos privados fazem parte.

Para Saviani (2005, p. 22), a década de 1990 manifestou “com toda força a ideia da educação como o instrumento mais poderoso de crescimento econômico e, por consequência, de regeneração pessoal e de justiça social”. A fim de abranger as mudanças na estrutura global da economia, bem como as consequências advindas para a formação humana que atendesse aos desafios do século XXI, Duarte (2001, p. 37) afirma que “o indivíduo que não aprender a se atualizar estará condenado ao eterno anacronismo, à eterna defasagem de seus conhecimentos”, uma vez que a sociedade está em processo acelerado de mudanças. O programa AE não ficou estático, foi ao longo do tempo se construindo e reconstruindo a partir das necessidades do momento. Começou com o problema já instalado da dependência, uma necessidade eminente da época, depois iniciou nacionalmente o trabalho com a prevenção, o que ampliou significativamente o seu campo de atuação.

A organização de um programa social a favor da vida, com qualidade e proteção social não foi fácil. Os americanos trabalhavam o Toughlove de maneira anônima e homogênea, os participantes eram pais que buscavam ajuda para a recuperação de seus filhos dependentes químicos. No início da reunião davam notícias e informações sobre os recursos existentes na comunidade, os quais poderiam auxiliar os pais, e falavam sobre o programa. Dava-se uma pausa para um lanchinho e interação das famílias, depois retomava a reunião para a partilha (YORK, YORK; WACHTEL, 2013).

Mesmo em se tratando de um programa simples, sem qualquer custo, teve que vencer muitas barreiras para se estabelecer como um programa de auto e mútua ajuda. Inicialmente a metodologia do Toughlove no Brasil não estava dando certo. Além de acrescentar dois princípios, mudanças estruturais significativas foram feitas a fim de que os participantes permanecessem nas reuniões e o lanche foi abolido, pois no intervalo deste, muitos pais iam embora, não permanecendo até o fim. No começo, a maioria dos frequentadores também era constituída de pais que tinham seus filhos residentes nas fazendas ou comunidades terapêuticas e as partilhas giravam em torno das internações e dos problemas dos filhos dependentes. A participação de um grupo de mulheres, dentre elas, dona Mara, que não tinham problemas de dependência química com seus filhos, marcou uma nova era para os grupos de auto e mútua ajuda.

O AE passou a ser heterogêneo, deixou de ser só para pais que tinham filhos com problemas de dependência química, que as pessoas tinham vergonha de participar e medo de se expor e exporem seus filhos. Passou a ser um grupo que estava em busca de qualidade de vida

e proteção social, abriram-se as portas para outras pessoas que queriam ajudar, assim, uns aprendendo com os outros, o programa cresceu. Estruturou-se, criou um cronograma para as reuniões que permanece até os dias atuais (MENEZES, 2012a).

Foi inserida no início das reuniões uma saudação bem específica, “Como vai você?

Que dia é hoje?” As pessoas são orientadas a responderem que estão cada vez melhor, e que hoje é primeiro dia de minha nova vida, pois conforme explica Menezes (2012a, p. 210)

“sempre, a cada reunião, devemos lembrar-nos do compromisso de buscar ser ou estar cada vez melhores; dar-nos a chance de nascer de novo a cada dia, recomeçando, do jeito certo, todos os dias”. Depois, passam-se as informações gerais, os recados e convites. A seguir há uma mensagem ou oração, reforçando sempre a pluralidade do programa, logo após, há uma rápida palestra sobre os princípios básicos e éticos do mês e a aplicação na vida cotidiana. Depois, as pessoas que se fazem presentes são divididas em pequenos grupos para refletirem sobre os conceitos dos princípios em foco com um enfoque diferente a cada semana: no indivíduo, na família, na sociedade.

Em seguida, passa-se para as partilhas, momento em que acontecem os relatos ou posicionamento individual sobre o assunto relativo à semana anterior. De forma objetiva, o participante relata se praticou e atingiu a meta proposta na semana anterior. Então o grupo faz a análise alicerçada nos pilares do programa. Por fim, elaboram para a semana em curso, a próxima meta, que é um compromisso individual de ação, com enfoque pessoal, familiar ou social, cujo objetivo é sair da inércia, é se colocar em ação, fazer algo diferente para se obter o resultado esperado com vistas à melhora da qualidade de vida e encerra-se a reunião com a oração da serenidade (MENEZES, 2012a).

O processo de sensibilização e a percepção da necessidade de mudança de vida, para muitos, não é um processo fácil, envolve em algumas situações a quebra de paradigmas e o rompimento de hábitos e de culturas arraigadas ao longo da sua formação. Reconhecer a necessidade de humanização das relações é um passo importante nesse processo e por meio da educação, é possível se alcançar. O programa do AE pode se tornar um apoio a mais nesse propósito, pois possui semelhanças com o ideário da educação popular citada por Brandão e Assumpção (2009), em que o processo de mudança começa a partir do relacionamento consigo mesmo e com o outro.

Uma educação para a qual a pessoa que se educa está destinada a conviver e a ser a partir do que estará sempre adquirindo e reconstruindo em si mesma com-e-através de seus outros, em e entre comunidades aprendentes.

Aprendendo o saber das teorias mais, e mais densamente, o saber que provém

da experiência vivenciada de uma afetiva, efetiva e crescente formação pessoal e interativa. Uma vida de busca do outro e de compartilhamento como sentido dela própria no cotidiano, como fundamento da razão de ser da experiência humana no mundo (BRANDÃO; ASSUMPÇÃO, 2009, p. 83-84, grifos do original).

Assim também é a proposta do programa AE, cada pessoa é levada, a partir de si mesma, a trilhar um caminho de autoconhecimento, de reconstrução pessoal, de redefinição da forma de se relacionar consigo mesmo e com os demais, a reestabelecer limites e reorganizar normas e regras para sua vida, mudando o que precisa ser mudado. De acordo com Laraia (2001, p. 24) “o homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquirida pelas numerosas gerações que o antecederam”, portanto, romper com algumas concepções e comportamentos leva tempo, muitas vezes é necessário ajuda, reeducar-se e, mesmo assim, algumas pessoas não conseguem.

Quando se propõe a compreender a cultura de um povo, muito pode ser analisado a partir da educação desta população. Não tem como falar de educação sem falar de cultura e vice-versa, pois ambas estão interligadas, não tem como dissociar a educação dos aspectos sociais e culturais constituintes da formação humana. Nesse sentido, Brandão e Assumpção (2009, p. 92) afirmam que

o reconhecimento dos sujeitos como pessoas humanas e como atores sociais cujos direitos à participação dos processos de decisão sobre as suas vidas, sobre os seus destinos e, mais ainda, sobre os da sociedade em que vivem e da cultura de que são parte e partilham vão muito além do âmbito da aprendizagem institucional. Ela assume como tarefa sua a formação integral, crítica e criativa do todo da pessoa de seus educandos.

De acordo com Laraia (2001), muitos e importantes estudiosos desenvolveram e continuam desenvolvendo estudos e pesquisas sobre cultura: a origem, o conceito e a influência que exercem na vida das pessoas. Dentre esses estudiosos, o autor cita Clifford Geertz, Roger Keesing, Lévi-Strauss e Kroeber, cujas contribuições ampliaram o conceito de cultura, relacionando os seguintes pontos:

1. A cultura, mais do que a herança genética, determina o comportamento do homem e justifica as suas realizações. 2. O homem age de acordo com os seus padrões culturais [...]. 3. A cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos [...]. 4. Em decorrência da afirmação anterior, o homem foi capaz de romper as barreiras das diferenças ambientais e transformar toda a terra em seu hábitat. 5. Adquirindo cultura, o homem

passou a depender muito mais do aprendizado do que a agir através de atitudes geneticamente determinadas. 6. Como já era do conhecimento da humanidade, desde o Iluminismo, é este processo de aprendizagem (socialização ou endoculturação, não importa o termo) que determina o seu comportamento e a sua capacidade artística ou profissional. 7. A cultura é um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores [...]. 8. Os gênios são indivíduos altamente inteligentes que têm a oportunidade de utilizar o conhecimento existente ao seu dispor, construído pelos participantes vivos e mortos de seu sistema cultural, e criar um novo objeto ou uma nova técnica (LARAIA, 2001, p. 26).

O AE reforça sempre em sua literatura que pouco muda se a mudança não começar na própria pessoa, tanto que os seis primeiros princípios básicos comportamentais ressaltam que cada um faça uma avaliação do seu dia a dia, da sua vida. Começa por refletir, questionar e posicionar-se sobre o que quer para si mesmo. O primeiro princípio do AE é identificador, trata das raízes culturais. Menezes (2012a, p. 43) afirma que “os problemas da família têm raízes na estruturação atual da sociedade” e cabe a cada um inventariar suas características comportamentais, controlar e dominar o que se tem de negativo e valorizar o que se tem de bom, resgatar valores e costumes que caíram em desuso, mas que são importantes para o autoconhecimento e valorização familiar.

A proposta do programa AE, assemelha ao que Gohn (1997, p. 62-63) trata em seus estudos, de “que estamos trabalhando com uma concepção ampliada de educação, ou seja, relativa a todos os processos que envolvem a aprendizagem de novas informações referentes a novos hábitos, valores, atitudes e comportamentos”. Nesse sentido, os movimentos sociais tiveram e ainda exercem um papel muito importante em relação à garantia de direitos essenciais a diferentes classes e atores sociais.

Os movimentos sociais criaram, nos anos 80, um paradigma da ação social, conferindo legitimidade a si próprios em quanto portadores de direitos legítimos e deslegitimando as políticas que os ignoram, mas não conseguiram manter estas posições nos anos 90 diante da voracidade das políticas neoliberais

(

GOHN,1997, p. 318).

Diante desse cenário, surgiram na arena pública as ONG, que deixaram de ser coadjuvantes e passaram a desempenhar papéis muito importantes nas ações coletivas, dentre elas o AE. O ideal do AE é bem semelhante ao ideal da educação popular descrita porBrandão e Assumpção (2009)

hoje, no início do século 21, a educação popular dever ser realizada de forma a reafirmar a sua essência, o compromisso com a causa do povo e uma prática

pedagógica que pergunte às pessoas quem elas são, que se abre a ouvi-las dizer como elas desejam e não desejam ser; em que mundo querem viver; a que mundo de vida social estão dispostas a ser preparadas para preservar, criar ou transformar (BRANDÃO; ASSUMPÇÃO, 2009, p. 93, grifos do original).

Por meio de uma metodologia simples de grupo de auto e mútua ajuda, quando a fala e a escuta são fundamentais, o AE leva o seu ideal de orientação, prevenção, apoio, tratamento, reinserção a todo aquele que busca e acredita ser possível se tornar uma pessoa melhor para si mesma, para sua família e para a comunidade.