2.5 O MÉTODO DE CASOS PARA O ENSINO (MCE): HISTÓRICO, CONCEITOS,
2.5.2 Conceitos do Método do Caso para o Ensino (MCE)
Antes de indicar teóricos que definem o método do caso, Cesar (2005) e Fachin, Tanure e Duarte (2007) alertam para que não haja confusão sobre a denominação “método do caso”, que possui objetivos relacionados a práticas educacionais com “estudo de caso” que possui objetivos inerentes à estratégia de pesquisa. Faz-se aqui uma ressalva. É preciso distinguir que em termos de semântica, pode haver confusão entre o termo estudo de caso (utilizado como método de pesquisa) e o método do caso (utilizado como estratégia de ensino) (CESAR, 2005; FACHIN, TANURE, DUARTE, 2007). O primeiro termo, estudo de caso, poderá até vir a se tornar um caso para ser usado em sala de aula, prática
fortemente utilizada no Brasil (FACHIN, TANURE, DUARTE, 2007). O fato é que a presente Tese versa sobre o método do caso como estratégia para o ensino.
McNair (1971) comenta que a história de caso é uma harmonia de quatro fatores: tempo, enredo, narração e exposição. A história é narrada de forma a estimular a leitura e fornece informações para posterior análise e reflexão do aluno sobre uma problematização.
A problematização simula o cotidiano organizacional. As questões devem ser pensadas de forma a indagar e incentivar o aluno a reflexão da prática exercida. Por isso que McNair (1971) defende que um caso, para ser considerado bom precisa trazer conteúdos da atualidade e do contexto social que o aluno está inserido; dessa forma, a motivação é maior para que o caso seja trabalhado e reflexivo em sala de aula. A aprendizagem ocorre a partir da prática e deixa o aluno mais propício a tentar e ousar já que se encontra em um ambiente confiável (MCNAIR, 1971).
Colaborando com esta ideia, Barnes, Christensen, Hansen (1994) apontam o caso como uma situação vivenciada por um gestor, que se apresenta como um estudo clínico parcial da realidade vivenciada. O contexto organizacional que envolve o caso poderá ser narrado para facilitar entendimento aos estudantes, com o apoio de materiais para análise da situação, a fim de elaborar ações ou alternativas a serem executadas, com o intuito de perceber a complexidade do mundo real.
Para autores como Prostano e Prostano (1982), Richardson (1994) e Rosenbloom (1995) um caso não necessariamente possui resposta única às problemáticas levantadas, pois simula a realidade, em que caminhos diversos podem ser tomados e junto a eles as consequências de uma tomada de decisão.
Roselle (1996), aponta que diferentes casos fazem com que o aluno analise situações diversas vivenciadas pelas organizações, e acredita que a variedade de situações vem a contribuir como um estímulo na busca do conhecimento. Sobre o enfoque da aprendizagem, Roselle (1996) descreve que o método do caso permite a ação e discussão no coletivo em que as trocas de experiências e conhecimentos podem ser ampliados. Um caso deve ser centrado sobre as necessidades e interesses dos alunos, portanto, é importante desenhar o conteúdo e os objetivos de aprendizagem de um caso.
O benefício que se espera na adoção do método do caso para o ensino é a possibilidade do aluno desenvolver habilidades para análise de situações de
negócios em função das teorias administrativas e construção do conhecimento (MCENRUE, 2002). Há autores como Jennings (1996) e Smith (2005) que apesar de não deixarem explícito em seus estudos, subentende-se que da forma como abordam o caso para o ensino, o classificam como estratégia pedagógica da aprendizagem baseada em problema, pois o estudante tenta resolver questões e traçar um diagnóstico do caso estudado.
A concepção de casos na visão de Orlansky (1986), Dorn e Mercer (1999) e Lundberg et al. (2001) é mais simplificada e de fácil entendimento. Para estes autores o caso trata de uma história ou cenário de uma situação do mundo dos negócios. Assim, o caso descreve o problema organizacional e coloca o estudante na posição do personagem exposto no caso, para que resolva os questionamentos de forma oral ou escrita. Na maioria dos casos é necessário que o aluno tenha um pensamento crítico para resolução do problema exposto como se estivesse em uma situação organizacional.
A exemplo disso, tem-se o estudo de Dowd Jr. (1992) que comenta a limitação acerca do que se considera ideal e sobre o que é, exatamente, real no uso do método do caso para o processo de ensino e aprendizagem. O método do caso é questionado por Dowd Jr (1992) quanto ao grau de profundidade. De um lado tem o professor (facilitador do conhecimento) que exerce força com perguntas para que o conteúdo seja discutido e de outro, os discentes, em muitas ocasiões com mais dúvidas devido à falta de consenso ou da multiplicidade de possíveis respostas recebidas. O autor continua sua visão crítica de que, a prática do método do caso está a mercê da falta ou abundância de informações, bem como o nível destas informações. Estas inferências são ditas por como gaps (hiatos), e que devem ser tratados na escolha dos casos a serem utilizados em sala.
Para Lundberg et al. (2001) a crítica consiste no fato do caso não conseguir abarcar em algumas páginas, informações relevantes e todo dinamismo ambiental sob determinado contexto organizacional. Assim, a visão holística do aluno pode ser prejudicada. Roesch (2007) reforça que existem críticas em torno da riqueza de dados sobre o contexto.
Shugan (2006, p. 110) faz crítica ao método do caso, que na sua concepção, deveria, mas não efetiva o ensino, ou seja, não provê aspectos de liderança, persuasão e habilidades. O autor acrescenta suas consternações ao comentário de que “infelizmente casos de negócios [...] são escritos e encontram-
se publicamente disponibilizados” (tradução nossa). O autor comenta que para compreender as funções econômicas de mercado e fatores que influenciam na tomada de decisão é necessária investigação científica. Por exemplo, decisões táticas requerem predição quantitativa, respostas competitivas e reações dos compradores.
Fachin, Tanure e Duarte (2007) comentam que muitos das críticas do caso são o pelo fato de que o professor não é apto a lidar com a metodologia correta, bem como, o caso se torna uma “válvula de escape” para “matação de aula”.
Um caso trará consigo um dilema ao aluno, sendo necessária sua avaliação e reflexão tanto das informações disponíveis no conteúdo do caso, como também de sua resposta para resolução de um problema. Esse conceito é mais complexo para ser concretizado já que pode apresentar diversos benefícios e obstáculos (ROSIER, 2002). O método deve ser usado com o intuito de promover conhecimento, atitudes e habilidades dentro de sala de aula (FACHIN; TANURE; DUARTE, 2007). Mesmo havendo variações em sua forma e aplicação, o caso vem sendo usado em diversas facetas educacionais nas mais diferentes áreas do conhecimento como estratégia de ensino. Entretanto há de se tomar cuidado para que nem toda prática seja considerada um caso. Um caso é um retrato de uma situação seja ela real ou não; a partir dele e intrínseco a ele estão conhecimentos e habilidades.
Os casos podem ser expostos a partir de experiências vivenciadas por executivos. Muitas vezes, as informações contidas em um caso são reais e apresentam problemas encontrados nas organizações para a tomada de decisões, em outros momentos as informações são disfarçadas, ou fictícias ou ainda relatos de consultorias (AIRMCHAIR CASES) (BARNES; CHRISTENSEN; HANSEN, 1994).
Os autores ainda evidenciam que em um caso pode ser encontrada uma história de uma situação problemática vivida por um gestor.
Por outro lado, não é possível considerar que o método do caso afasta ou diminui a investigação científica. As interligações de uma pesquisa científica emergem na própria elaboração do caso passando pelo processo de aplicação, até proporcionar embasamento teórico para discussões, interações e posicionamentos subjacentes à teoria do conteúdo do caso. Essa ideia de integrar teoria, caso e pesquisa é defendida por Christensen e Carlile (2009).
Como forma de melhor explorar essa relação teoria e prática Roesch (2007), Ellet (2007) e Christensen e Carlile (2009) comentam que é preciso pensar e avaliar a estrutura e conteúdo de um caso.