Uma sociedade democrática ordenada, na perspectiva de Rawls, será estável, já que sua estrutura básica possibilitará a cooperação social equitativa, ao mesmo tempo que estimulará a realização das potencialidades individuais. Enquanto que o modelo social descrito em Admirável Mundo Novo se caracteriza a estabilidade como um mero modus vivendi, um compromisso prático entre diferentes interesses conflitantes (com clara influência da filosofia de Hobbes), para Rawls, a estabilidade social deve estar fundamentada na cooperação social e no senso de justiça das pessoas. Somente assim serão desenvolvidos laços emocionais com a sociedade e uma vontade de manter e defendê-la quando sujeita a forças desestabilizadoras.
No modelo criado por Huxley, o equilíbrio de poderes pode se revelar estável por certo tempo, mas não inspira confiança naqueles que são menos favorecidos ou estão em situação precária, nem desenvolve virtudes de solidariedade e respeito mútuo necessários para a coesão social. Isso fica evidente no final dramático para seu personagem principal, que dá um claro exemplo de uma vida individual anulada pela coletividade.
REFERÊNCIAS
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(Artigo submetido em 29/05/2014 e aceito em 08/07/2014)
DOI: http://dx.doi.org/10.17793/rdd.v4i6.579
3. O “ADMIRÁVEL MUNDO NOVO” E A PERDA DA IDENTIDADE: A FICÇÃO E SEUS ECOS JURÍDICOS SOBRE OS DIREITOS FUNDAMENTAIS E A NORMA
FUNDAMENTAL POLÍTICA
3. THE "BRAVE NEW WORLD" AND THE LOSS OF IDENTITY: THE FICTION AND ITS LEGAL ECOS ON FUNDAMENTAL RIGHTS AND THE POLITICAL FUNDAMENTAL RULE OF LAW
Emerson de Lima Pinto22
Resumo: A obra admirável mundo novo de Aldous Huxley enseja reflexões significativas sobre o Direito e a Filosofia Politica. Publicado em 1932 captou o ambiente que se desenvolvia na Europa e no Mundo e suas nefastas consequências para a humanidade. O surgimento e consolidação de regime totalitários e o desenvolvimento científico agudo que não tinha paralelo na reflexão ética forjou um cenário político que propiciou um dos capítulos mais devastadores da história da humanidade. Seu texto registra o evoluir de um pensamento cientificista desenvolvimentista que tem como finalidade dotar a sociedade de estabilidade mesmo que isso implique no desaparecimento do indivíduo como ser importante para o bem viver da sociedade e suas consequências para a (re)fundação do Estado e a relevância de uma Constituição garantidora de direitos fundamentais. O indivíduo é subsumido na ordem social que afirma na supremacia do interesse público única razão do seu existir e, neste processo observamos que o direito nesta sociedade idílica e distópica são utilizados de modo instrumentalizado por parte daqueles que exercem o domínio do poder politico e que se afasta de nossa noção atual de garantia de direitos fundamentais. Esse cenário desolador destoa do rico e dinâmico processo de construção da identidade latino-americana e o espaço destinado às pessoas de modo individual e coletivo bem como das instituições, mostra a dificuldade anterior existente e, principalmente, agora com a globalização que possui seu próprio processo universalista midiático onde a identidade é a expressão cultural do pertencimento a um espaço por parte de pessoas, indivíduos e coletividades.
Palavras-chave: Direito, totalitarismo, cultura
Abstract: The brave new world of work Aldous Huxley entails significant reflections on the Right and Political Philosophy. Published in 1932, captured the atmosphere that developed in Europe and the world and its disastrous consequences for humanity. The emergence and consolidation of totalitarian regime and acute scientific development that had no parallel in ethical reflection forged a political scenario that led to one of the most devastating chapters in the history of mankind . Your text records the evolution of a developmental scientistic thinking that aims to provide the company stability even if it means the disappearance of the individual as being important for the good life of society and its implications for the ( re) establishment of the State and the relevance of one guarantor Constitution of fundamental rights. The individual is subsumed in the social order that affirms the supremacy of public interest only reason for its existence and in the process observed that the law in this idyllic and dystopian society are used so instrumentalized by those who wield political power domain and that away from our current notion of guaranteed fundamental rights. This bleak scenario diverges from the rich and dynamic construction process of Latin American identity and space for people to individually and collectively as well as institutions, shows the previously existing difficulties, and especially now with the globalization process has its own universalist media where identity is the cultural expression of belonging to a space by people, individuals and collectivities.
Keywords: Rights, totalitarism, culture
22 Advogado. Doutorando em Filosofia UNISINOS. Mestre em Direito Público UNISINOS. Especialista em Ciências Penais PUCRS. Professor no Curso de Graduação em Direito na UNISINOS e CESUCA. Pesquisador do CESUCA. E-mail: [email protected]
I - Introdução.
A obra admirável mundo novo de Aldous Huxley é considerada por especialistas um texto clássico da literatura universal. Publicado em 1932 captou com maestria o ambiente que se desenvolvia na Europa e no Mundo e suas nefastas consequências para a humanidade. O surgimento e consolidação de regime totalitária e o desenvolvimento cientifico agudo que não tinha paralelo na reflexão ética forjou um cenário politico que propiciou um dos capítulos mais devastadores da história da humanidade.
Seu texto registra o evoluir de um pensamento cientificista desenvolvimentista que tem como finalidade dotar a sociedade de estabilidade mesmo que isso implique no desaparecimento do individuo como ser importante para o bem viver da sociedade. O indivíduo é subsumido na ordem social que afirma na supremacia do interesse publico única razão do seu existir. E, neste processo observamos que o direito nesta sociedade idílica e distópica são utilizados de modo instrumentalizado por parte daqueles que exercem o domínio do poder politico e que se afasta de nossa noção atual de garantia de direitos fundamentais.
Em nossa analise temas como Constituição, Direito e processo de legitimação surgem como caudatários de uma reflexão acerca do multiculturalismo, relativismo cultural, cultura e a formação dos Estados Latino-americanos, bem como, de sua construção de identidade plural que se defronta com uma logica globalizante do mercado que fragiliza os Estados Nacionais e afronta a garantia dos direitos fundamentais e a necessária (re)fundação do Estado Constitucional.
II – O processo de construção de identidade: Estado Mundial (ficcional) e América Latina (real)
O capitulo I da obra de Huxley dá o tom sóbrio da época em que foi escrito e evidencia em suas primeiras impressões uma compreensão normalizadora, cientificista e estática de sociedade que padroniza a vida humana e afirmadora de uma identidade uniforme, massificada e (des)constituidora da identidade singular dos grupos e indivíduos que compõe a sociedade.
A metáfora é instaurada no texto do seguinte modo: “Um edifício cinzento e acachapado, de trinta e quatro andares, apenas. Acima da entrada principal, as palavras
CENTRO DE INCUBAÇÃO E CONDICIONAMENTO DE LONDRES CENTRAL e, num escudo, o lema Estado Mundial: COMUNIDADE, IDENTIDADE, ESTABILIDADE” 23. Na obra de Huxley esse cenário desolador destoa do rico e dinâmico processo de construção da identidade latino-americana e o espaço destinado às pessoas de modo individual e coletivo bem como das instituições, GARRETÓN24 mostra a dificuldade anterior existente e, principalmente, agora com a globalização que possui seu próprio processo universalista midiático onde a identidade é a expressão cultural do pertencimento a um espaço por parte de pessoas, indivíduos e coletividades. Isso implica a forma em que se percebem a si mesmos e aos outros, o que por sua vez tem a ver com a maneira com que se relacionam entre eles, com outros e com as instituições.
Mas, além da discussão sobre a essência de uma identidade, o que interessa neste aspecto é assumir a questão latino-americana, não apenas de um olhar externo dos efeitos da globalização, bem como de um olhar interno, e dos modos particulares e comuns de inserção naquela. E, como falar em identidade? Quais as condições em que tal debate se apresenta? Nesse sentido, HALL25 demonstra a complexidade do problema a ser enfrentado não encontram respostas seguras; e, nesse sentido, o autor esclarece que suas
23 HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Globo de Bolso. 22 edições, 11 reimpressão, 2013. p. 27.
24 GARRETÓN, Manuel Antônio. (Coorditator) & MATIN-BARBERO, Jesús; CAVAROZZI, Marcelo;
CANCLINI, Néstor García; RUIZ-GIMÉNEZ, Guadalupe; STAVENHAGEN, Rodolfo. El espacio cultural Latinoamericano : Bases para una política cultural de integración. Santiago : Fondo de Cultura Económica, 2003. p.57-8 Los indivíduos, comunidades y actores colectivos pueden tener múltiples identidades, no necessariamente excluyentes unas de otras, aunque a veces pudiera parecer que sí lo son y aunque normalmente tiende a predominar una identidad principal que subodina a las otras. Las identidades son procesos en el tiempo de construcción nunca acabados y se van conformando no sólo por dinámicas propias o endógenas, sino tambien por diversas y plurales miradas y perspectivas que vienen de los otros. Desde este punto de vista, el concepto de identidad se relativiza y desubstancializa, perdiendo su lastre ontológico y apuntando a una dialéctica continua de la tradición y la novedad, de la coherencia y la dispersión, de lo próprio y lo ajeno, de lo que se há sido y lo que se puede ser. (...). En algunos casos se trata de discusiones sobre esencias inmutables, ya se trate de la versión telúrica y épica de América Latina como “patria de la naturaleza”, o de la América Latina “profunda”, o de la raíz indígena o mestiza, o de la superposición de capas posteriores entre diversas formas de conquistas, encuentros, descubrimientos, o del sujeto que la evangelización católica hizo surgir del mestizage. Para otros, toda la cuestión de “la identidad” es simplesmente una fraseología tradicional porque lo único que hay son, por un lado, discursos, palabras sobre identidad y, por outro, la realidad de la modernidad, que al final sería una sola y se definiría por aparatos institucionales e industriais culturales, especialmente mediáticos cada vez más universales.(grifo nosso)
25 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10.ed. Rio de Janeiro : DP&A, 2005. p.9-10.
“Para aqueles/as teóricos/as que acreditam que as identidades modernas estão entrando em colapso, o argumento se desenvolve da seguinte forma. Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas no final do século XX. Isso está fragmentado as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta perda de um “sentido em si” estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento - descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quando de si mesmos - constitui uma “crise de identidade” para o indivíduo. (...) Esses processos de mudança, tomados em conjunto, representam um processo de transformação tão fundamental e abrangente que somos compelidos a perguntar se não é a própria modernidade que está sendo transformada.
formulações são provisórias e abertas à contestação, mas que a opinião dentro da comunidade sociológica está ainda dividida quanto a esses assuntos e as tendências que são recentes e ambíguas. O conceito de “identidade” é complexo, pouco desenvolvido e de compreensão reduzida na ciência social contemporânea para ser definitivamente posto à prova. Aliás, como muitos outros fenômenos sociais são tortuosas as possibilidades de oferecer afirmações conclusivas sobre as alegações e proposições teóricas que estão sendo apresentadas.
Na era distópica de HUXLEY a ciência predomina na conformação da sociedade e no perfil de seus cidadãos (fecundados artificialmente) em razão das regras sociais e do Direito a serviço de um controle social eficiente. A hierarquia medica o que é verificado pela Sala de Predestinação social ou na existência independente que surge na Sala de Decantação. Uma sociedade e uma cultura amorfa e una constituída cientificamente:
“Esfregou as mãos. Porque, veja bem, não se contentavam com incubar simplesmente os embriões: isso, qualquer vaca era capaz de fazer. (...) - Nós também predestinamos e condicionamos. Decantamos nosso bebes sob a forma de seres vivos socializados, sob a forma de alfas ou de ìpsilons, de futuros carregadores ou de futuros... -ia dizer “futuros Administradores Mundiais”, mas, corrigindo-se, completou: - futuros Diretores de Incubação.” (...) O DCI recebeu a lisonja com um sorriso.” 26
A diversidade apontada por BHABHA27 tem elementos positivos, como a necessidade de passar além das narrativas de subjetividades originárias e iniciais e de focalizar momentos ou processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais e; outra consideração que se impõe é sobre a questão da democracia, em especial das frágeis democracias latino-americanas e outras oriundas do leste Europeu, que Oʹ′donnell28
26 HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Globo de Bolso. 22 edições, 11 reimpressão, 2013. p. 38.
27 BHABHA, Homi K. O local da cultura. Coleção Humanitas. 2º Reimpressão. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. p. 19/20. “ O afastamento das singularidades de “classe” ou “gênero” como categorias conceituais organizacionais básicas resultou em uma consciência das posições do sujeito - de raça, gênero, geração, local, institucional, localidade geopolítica, orientação sexual - que habitam qualquer pretensão à identidade no mundo moderno.. Esses “entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação - singular ou coletiva - que dão inicio a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria idéia de sociedade. (...) É na emergência dos interstícios - a sobreposição e o deslocamento de domínios de diferença - que as experiências intersubjetivas e coletivas de nação [ nationness ], o interesse comunitário ou o valor cultural são negociados”.
28 Oʹ′DONNELL, Guilermo. Democracia Delegativa? In: Novos Estudos Cebrap, n. 31, out.1991. p. 26. "(...) critérios que fundamentam a) A instalação de um governo democraticamente eleito abre caminho para uma
“segunda transição”, provavelmente mais demorada e até mesmo mais complexa que a transição do regime autoritário. b) Espera-se que essa segunda transição seja de um governo democraticamente eleito para um regime democrático ou, o que é equivalente, para uma democracia institucionalizada consolidada; c)...essa segunda transição... pode ser duradoura, pode inclusive não abrir caminhos para a realização de formas mais institucionalizadas de democracia.; d) O elemento decisivo para determinar o resultado da segunda transição é o sucesso ou fracasso na construção de um conjunto de instituições democráticas que se tornem importantes pontos decisórios no fluxo do poder político; e) Tal resultado é fundamentalmente condicionado pelas
classifica como democracias delegativas, em cuja essência destacam-se como fator decisivo para gerar diversos matizes de democracia, que são tanto aqueles relacionados com as características do processo de transição do regime autoritário quanto fatores históricos de longo prazo e, de outro, o grau de profundidade da crise sócioeconômica que os governos democráticos herdaram.
Retomando, nossa incursão sobre a identidade na América Latina29 como elemento construtor de um paradigma cultural, GARRETÓN traz a lume a multiplicidade e diversidade dos processos culturais envolvidos na “formação” de nossa história, o que resulta na problematização no que concerne à questão da identidade cultural HALL30 explora três vertentes teóricas a respeito da identidade; contudo, vislumbra-se a melhor adequação em nosso atual período aquela que se refere ao sujeito pós-moderno, conceitualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente, cuja identidade torna-se uma celebração móvel: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais”31 que nos rodeiam.
políticas públicas e pelas estratégias políticas de vários agentes ...na tarefa de construção institucional democrática”.
29GARRETÓN, Manuel Antônio. (Coorditator) & MATIN-BARBERO, Jesús; CAVAROZZI, Marcelo;
CANCLINI, Néstor García; RUIZ-GIMÉNEZ, Guadalupe; STAVENHAGEN, Rodolfo. El espacio cultural Latinoamericano : Bases para una política cultural de integración. Santiago : Fondo de Cultura Económica, 2003. p. 59-60: “ La idea de una cultura e identidad propias de América Latina podría conllevar una concepción dual de la cultura en la región. Por un lado, estaría la existencia de un núcleo cultural endógeno, de un componente autóctono, de un substrato precolombino, indígena y rural y, por el outro, se presentaría un componente ilustrado, foráneo e importado. Lo cierto es que históricamente, desde la Conquista hasta hoy día, se há producido un largo y diversificado proceso de apropriación e integración cultural y no se puede, por lo tanto, hablar de un núcleo cultural endógeno incontaminado, puro, en estado virgen. Lo latinoamericano, pues, no es algo hecho o acabado, sino algo que estaría constantemente haciéndose. (...) En este sentido, más allá del espacio geográfico y la lengua y de creaciones artístico-culturales, hay una dimensión menos tangible de la identidad que se refiere a la relación entre instrumentalidad, el modo de resolver los problemas de subsistencia y desarrollo en los diversos ámbitos, y subjectividad, entendida ésta como el mundo de los afectos y la memoria histórica. La identidad latinoamericana no son los estereotipos que pudieran generarse a partir del realismo mágico, el tropicalismo, o una relación peculiar com la naturaleza.
30 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10.ed. Rio de Janeiro : DP&A, 2005. p.10
31 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10.ed. Rio de Janeiro : DP&A, 2005. p.12-3. Os sujeitos descritos sinteticamente pelo autor são: a) sujeito do iluminismo, b ) sujeito sociológico e, c) sujeito pós-moderno. “o sujeito pós-moderno, (Hall, 1987). É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu “ coerente. Dentro de nós a identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma conformadora “narrativa do eu” (veja Hall, 1990). A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar - ao menos temporariamente.
III – Estado, espaço público e legitimação.
Nos últimos dois séculos do mundo capitalista ocidental, a relação economia- política-cultural é central para pensar na formação e desenvolvimento de sociedades;
contudo, se seu êxito relativo das sociedades capitalistas mundiais tem sido de uma economia que se tem forjado com a cultura e a política, e se essa simbiose formou, a seu turno, equilíbrios, regulações e contradições entre mercados e outras dimensões das sociedades, isso se faz muito mais crítico em momentos como este nas sociedades periféricas e afetadas por decisões políticas e econômicas adotadas no estrangeiro, como são as sociedades latino-americanas. E a diversidade cultural32 dentro dos Estados nacionais tem múltiplas formas de expressão, incluindo o multiétnico, o multicultural33, o religioso, o pertencimento a classes e categorias sociais, de gênero e de idade, o urbano o rural, o regional, além das novas e desafiadoras identidades de tipo transnacional, como as fronteiras mexicana, norte-americana ou andina.
De modo diverso a perspectiva totalitária e futurista assetada no admirável mundo novo aborda a questão da diversidade. A diferença não se dá com base na cultura, mas na estratificação de casta em razão da construção genética. E, aqueles que não residiam na cidade e estavam nas regiões mais longínquas eram denominados de selvagens:
“- Tive a mesma ideia senhor – Dizia o Diretor – Eu queria ver os selvagens. Obtive uma autorização para ir ao Novo México e lá fui durante as minhas férias de verão. Acompanhado da moça com quem andava naquela ocasião. Era uma beta-menos e creio.... – fechou os olhos – freio que tinha cabelos louros. Em todo o caso, era pneumática, excepcionalmente pneumática:
disso me recordo.” 34
32 GARRETÓN, Manuel Antônio. (Coorditator) & MATIN-BARBERO, Jesús; CAVAROZZI, Marcelo;
CANCLINI, Néstor García; RUIZ-GIMÉNEZ, Guadalupe; STAVENHAGEN, Rodolfo. El espacio cultural Latinoamericano: Bases para una política cultural de integración. Santiago: Fondo de Cultura Económica, 2003. p. 62. Este principio de diversidad se palntea de manera diferente en las sociedades de mayor densidad cultural y de mayor presencia histórica de las culturas y de mayor presencia histórica de las culturas originarias, donde tal diversidad se impone com más fuerza que en las sociedades que se vem a sí mismas como “europeas” y “homogéneas” y donde reina la aversión a la diferencia. (...) De este modo, la necessidad del espacio cultural no está desvinculada de las realidades democráticas, políticas, institucionales, internacionales, económicas y sociales de nuestro tiempo. Las discusiones están vinculadas también com las dinámicas que se dan en lo político y en lo económico, en términos de relaciones internacionales, de las industrias culturales y de los espacios interamericanos y otros espacios regionales. Há habido en la historia reciente de América Latina toda una serie de intentos de crear ámbitos o espacios latino-americanos en lo político-económoco, en la cuestión de las identidades, la superación de la pobreza y la equidad, la sustentabilidad.
33 GUIMARÃES, Samuel Pinheiro. Quinhentos anos de periferia. 2.ed. Porto Alegre/Rio de Janeiro: Ed.
Universidade/UFRGS/ Contraponto, 2000. p.139 “A luta pela multiculturalidade é indispensável na estratégia de redução de disparidade, de construção da democracia e de redução das vulnerabilidade externas.
É essencial para contratestar a ofensiva ideológica que procura demonstrar quotidianamente a inexorabilidade e benemerência da globalização na realidade, assimétrica e concentradora) e a inevitabilidade do caminho único de subordinação a estruturas hegemônicas.
34 HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Globo de Bolso. 22 edições, 11 reimpressão, 2013. p. 157.