V. Bibliografia
4. Violação da privacidade
da rede por violação aos termos de uso. Há um paralelo interessante no livro de Huxley sobre este caso que ocorre quando a personagem Lenina chega à “reserva dos selvagens” e se espanta ao ver uma mãe amamentando seu filho160, situação que não acontecia mais na sociedade da qual viera, já que todos eram gerados artificialmente.
Este caso ilustra uma situação envolvendo a violação da liberdade de expressão, no sentido de que a rede social não pode limitar, de forma indiscriminada e injustificada, o discurso de seus usuários. Um controle técnico que limite o discurso não pode ser tão amplo assim.161 Se as redes sociais passam a ser uma arena de debate e de manifestação pública de discursos, deve haver um limite para as restrições impostas por ela, sob pena de se afetar a liberdade de expressão dos usuários. Note-se que não se trata de uma proibição antecipada da publicação de um conteúdo ilícito, como a pornografia infantil, mas sim da proibição de material envolvendo nudez que, frente a legislação pátria, não é ilegal.
Condiciona-se todo um comportamento baseado em uma moral imposta por uma única empresa162.
Com isso, à semelhança do livro, há a imposição de uma “moral universal”163 pelo Facebook, quanto este limita o discurso com base em um critério que viola a liberdade de expressão.
A privacidade é um direito humano e fundamental, garantido pela Constituição Federal e por outras legislações infraconstitucionais. Também é visto como um dos direitos da personalidade165 sendo um dos direitos relacionados ao livre desenvolvimento da pessoa humana166. Igualmente, a proteção da privacidade serve como um limite para o exercício de outros direitos167, o que se aplica tanto aos particulares quanto ao Estado.
Historicamente, o Direito passa a se preocupar com a proteção da privacidade no fim do século XIX168. Todavia, é possível encontrar algumas referências da sua importância desde a mitologia grega. A deusa Diana, por exemplo, puniu Acteon, filho do rei Cadmo, que a viu nua – violando assim sua privacidade - transformando-o em um cervo169. Curiosamente, o Marco Civil da Internet prevê um processo mais simplificado para retirada de conteúdos da Internet que importem em “cenas de nudez ou de atos sexuais de caráter privado”170.
As recorrentes situações de violação da privacidade são um dos grandes problemas da sociedade moderna, sobretudo, quando relacionados com as novas tecnologias da informação e comunicação. O assunto é tratado com frequência na doutrina brasileira171. Além da previsão constitucional da proteção da privacidade e intimidade172 o Marco Civil da Internet estabelece como princípios norteadores do uso da rede no Brasil a proteção da privacidade e a proteção dos dados pessoais173.
165 Cf. art. 21 do CC.
166 Neste âmbito, diz-se que a teoria dos múltiplos direitos da personalidade deveria abrir espaço para a teoria do direito geral da personalidade – proveniente da doutrina alemã – em função da complexidade das novas situações de dano, sobretudo, os danos provenientes da sociedade da informação. Sobre isso ver GARCIA, Enéas Costa. Direito geral da personalidade no sistema jurídico brasileiro. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2007, p. 16.
167 DOTTI, Renê Ariel. A proteção da vida privada e a liberdade de informação. Revista dos Tribunais, v. 514, p. 11-17, Ago./1978, p. 16.
168 Uma das primeiras referências que se tem notícia sobre o tema é BRANDEIS, Louis; WARREN, Samuel. The right to privacy. Harvard Law Review, v. IV, n. 5. Dec. 1890.
169 BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 56. Na história, o homem transformado em cervo não consegue contar a ninguém que viu a deusa nua e logo após é dilacerado pelos próprios cães.
170 Art. 21 da lei. Nesse caso, para a retirada do material, é desnecessária a ordem judicial bastando simples notificação extrajudicial.
171 Ver principalmente, como exemplos gerais de obras sobre o assunto, LIMBERGER, Têmis. O Direito à intimidade na era da informática: A necessidade de proteção dos dados pessoais. Porto Alegre:
Livraria do Advogado, 2007; DONEDA, Danilo. Da privacidade à proteção de dados pessoais. Rio de Janeiro: Renovar. 2006 e LEONARDI, Marcel. Tutela e privacidade na Internet. São Paulo: Saraiva, 2012.
172 Constituição Federal, art. 5º, inc. X e XII.
173 Lei 12965/2014 art. 3º, inc. II e III.
Acerca da proteção dos dados pessoais, este direito – que possui status de direito fundamental174 -, embora relacionado com a privacidade, tem sua aplicação mais restrita.175. Tal direito trata da proteção de dados pessoais e também permite que o titular de tais dados possa decidir e controlar de qual forma eles serão utilizados. É a chamada autodeterminação informativa que teve como marco do seu reconhecimento uma célebre decisão do Tribunal Constitucional Alemão de 1983176. Esta decisão utiliza a alegoria do
“homem de cristal” para demonstrar que é possível obter uma imagem pormenorizada da pessoa com base em seus dados pessoais recolhidos177.
A obra de Huxley traz relevante contribuição para a compreensão do problema da violação da privacidade nos dias atuais. Em uma das passagens, um dos personagens afirma que “o sentimento está à espreita nesse intervalo entre o desejo e sua satisfação.
Reduza-se esse intervalo, derrubem-se todos esses velhos diques inúteis”178. Isso significa que a satisfação absoluta e imediata de todos os desejos acabaria com os sentimentos.
Atualmente, pode-se notar um crescente movimento no sentido de tentar diminuir a importância da privacidade como um sentimento e necessidade legítimos179. As redes sociais incitam, de certa forma, um comportamento performativo; tudo precisa ser dito, mostrado, comentado; todos precisam saber tudo de todos, em uma concretização do trecho onde uma personagem do livro afirma que “cada um pertence a todos”180.
É evidente que para uma empresa que tem como seu maior ativo os dados pessoais dos usuários, é útil que a ideia de privacidade seja colocada em xeque. Do ponto de vista dos usuários, por outro lado, vai-se pouco a pouco perdendo a noção da importância da privacidade como direito necessário ao desenvolvimento da personalidade.
Fazendo outro paralelo com a obra, nela as pessoas se espantam, inclusive, com o fato de o personagem Bernard querer passar momentos sozinho181. Comentam sobre sua mania de querer “fazer as coisas na intimidade” e se perguntam “o que se poderia fazer na
174 Cf. MENDES, Laura Schertel. O direito fundamental à proteção de dados pessoais. Revista de Direito do Consumidor, São Paulo, n. 79, p. 45-82, jul.-set./2011.
175 A Constituição de Portugal, em seu art. 35, trata sobre alguns aspectos desse direito.
176 Sobre o assunto ver TADEU, Silney Alves. Algumas reflexões sobre a proteção da pessoa e o uso informatizado de seus dados pessoais. Revista de Direito do Consumidor, São Paulo, n. 79, p. 83-99, jul.- set./2011, p. 86.
177 Cf. comentário de LIMBERGER, Têmis. O Direito à intimidade na era da informática: A necessidade de proteção dos dados pessoais. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007, p. 58.
178 HUXLEY, Aldous. Admirável..., p. 57.
179 A privacidade, além de ser um direito, também pode ser vista como um sentimento, um desejo de estar só, de impedir que outros conheçam certos aspectos da vida privada ou íntima, etc.
180 HUXLEY, Aldous. Admirável..., p. 56.
181 Idem. Ibidem, p. 58.
intimidade?”182. E ainda mais adiante, dois personagens conversam sobre um dos condicionamentos existentes que prega a “advertência contra a solidão”183. Curiosamente, um dos aspectos da privacidade é justamente o direito de ser deixado só184. Solidão, recato, intimidade e privacidade são, portanto, conceitos relacionados. Qualquer pessoa não conseguiria viver sem intimidade e privacidade. Basta imaginar uma vida em que qualquer pessoa pudesse saber tudo sobre qualquer outra, inclusive, seus segredos mais íntimos. O desfecho trágico do personagem John, já no final do livro, é um alerta de Huxley para os efeitos nocivos da violação descontrolada da privacidade.
Um ponto que apoia a erosão da privacidade causada pelas redes sociais é o referido comportamento performativo nestes ambientes. Tal comportamento, em alguns casos, é muito semelhante a um comportamento infantil. No livro, um diretor, ao conversar com o personagem Bernard, afirma que é seu dever ser infantil mesmo contra suas próprias inclinações185. Na nossa realidade, Gilles Lipovetsky já relatou que a sociedade estaria cada vez mais infantilizada. Este autor refere a chamada “síndrome de Peter Pan” e cita uma chamada "infantilização universal" para logo após afirmar que, na verdade, trata-se, de uma expressão mais "lúdico-hedonista legitimando todas as formas de prazer do que de uma sociedade que nega a divisão das idades..."186. Paul Virilio, por sua vez, afirma que uma das formas de categorizar o homem moderno é pela sua “imaturidade e infantilidade”187.
Outro sociólogo que também aborda a ideia de infantilização da sociedade atual é Zygmunt Bauman. Ele identifica com muita perspicácia que uma das tendências do bem- estar social seria a progressiva infantilização dos seus destinatários. Haveria, assim, um controle de suas despesas, mobiliários, roupas, alimentação e estilo de vida188. O autor cita, inclusive, a questão da erosão da privacidade e critica o próprio fato dos "pagamentos"
182 Idem. Ibidem, p. 109.
183 Idem. Ibidem, p. 220.
184 A privacidade como o “direito de estar só”, foi, inclusive, título de obra jurídica sobre a tutela penal da intimidade. COSTA JR., Paulo José da. O direito de estar só: tutela penal da intimidade. 4º ed. rev. e atual. São Paulo: RT, 2007. (sendo a primeira edição de 1970). Ao relacionar a intimidade com o recato diz este autor: "A intimidade interior reveste-se de natureza física e material. O indivíduo afasta-se da multidão.
Recolhe-se ao seu castelo. Desce às profundezas de sua alma e sai em busca do seu ser", p. 11.
185 HUXLEY, Aldous. Admirável..., p. 119.
186 LIPOVETSKY, Gilles. Ibidem, p. 66-68.
187 VIRILIO, Paul. The information bomb. London: Verso, 2005, p. 94.
188 BAUMAN, Zygmunt. A liberdade. Lisboa: Editorial Estampa, 1989, p. 111.
[eletrônicos] que só ocorrem "em troca de confissões completas e da total revelação dos aspectos da vida aos funcionários inquiridores"189.
De qualquer forma, são cada vez menos raros os momentos em que as pessoas conseguem se sentir realmente sozinhas, sendo esta uma das críticas de Huxley na obra.
Com tantos meios de monitoramento e de vigilância, é cada vez mais difícil ficar ou se sentir só. E a necessidade de monitoramento, imposta a todos atualmente, é baseada nas mais diversas, variadas e ilegítimas justificativas. Em Porto Alegre, por exemplo, há um projeto de lei que obriga as creches privadas a instalarem câmeras de monitoramento com transmissão das imagens em tempo real aos pais. A justificativa seria evitar a violência contra a criança190. Esta situação, por outro lado, condiciona as crianças a aceitarem a vigilância e o monitoramento como algo normal e necessário em um evidente e espantoso paralelo com a obra aqui tratada e também com o livro 1984 de Orwell: condicionamento para o monitoramento.
Outro exemplo, é um sistema de reconhecimento facial nos ônibus, também em Porto Alegre, que deverá ser instalado até o final de 2014. A justificativa é evitar fraudes no uso dos cartões eletrônicos de passagem191. Esquecem-se, os autores do projeto, do chamado “princípio da necessidade” reconhecido pela doutrina que trata da proteção de dados pessoais. Este princípio prega que seja limitada a coleta e processamento de dados pessoais:
ao mínimo necessário de forma a excluir o seu tratamento sempre que a finalidade que se procura atingir possa ser igualmente realizada com a utilização de dados anônimos ou com o recurso a meios que permitam a identificação do interessado somente em caso de necessidade192.
189 Idem. Ibidem.
190 COSTA, Letícia. Projeto prevê obrigatoriedade de câmeras em creches privadas de Porto Alegre.
ClicRBS. 04 de Janeiro de 2014. Disponível em:
<http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/01/projeto-preve-obrigatoriedade-de-cameras-em-creches- privadas-de-porto-alegre-4380678.html>. Acesso em: 29 de Abr. 2014.
191 G1. Sistema de reconhecimento facial deve evitar fraudes em ônibus no RS. Disponível em:
<http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2014/01/sistema-de-reconhecimento-facial-deve-evitar- fraudes-em-onibus-no-rs.html>. Acesso em: 8 Abr. 2014.
192 Este princípio encontra-se no anteprojeto de Proteção de Dados Pessoais, em seu art. 8º, inc. II.
Neste caso, parece haver um excesso193 na coleta de dados visto que se poderia atingir o mesmo resultado sem a coleta de fotos a cada passagem na roleta. Certamente, a mera verificação de uma foto impressa no cartão teria o condão de diminuir a incidência de fraudes, sem violar a privacidade das pessoas e sem a necessidade de se implantarem caros mecanismos de reconhecimento facial em todos os ônibus de uma cidade.
Ambos os casos retratam situações onde a intenção de se evitar um ilícito ultrapassa os limites impostos pela proteção da privacidade e da intimidade. Também, retratam a ideia de que os problemas devem sempre ser resolvidos com o uso da tecnologia. Os ilícitos não podem ser evitados a qualquer custo, sobretudo, se houver a violação de direitos fundamentais. Um dos custos da democracia é que se respeitem os direitos humanos e fundamentais, inclusive, nas ações que busquem combater ilícitos194. Perde-se de vista, com tais banalizações no uso de dados, o efeito biopolítico da massificação do controle. Registra-se para utilizar tais dados com fins disciplinares. Abre- se, até mesmo, a possibilidade de realizar uma “filtragem em massa de indivíduos por suas diversas características”195. Nasce aí, portanto, o direito de não ser monitorado ou registrado196. Nessa mesma perspectiva, Túlio Vianna defende que o mesmo órgão ou pessoa que monitora ou registra não deve ter o “poder de reconhecer” com base em tais dados. Seria esta uma nova expressão ou releitura do princípio da separação dos poderes197.
Assim, a coleta, uso e processamento de dados pessoais deve sempre ser balizada pelos princípios acima citados. Não se trata, por óbvio, em permitir que as pessoas descumpram a lei. Todavia, não se pode violar direitos fundamentais em nome da segurança; principalmente considerando todos – como no caso do ônibus – como potenciais suspeitos. O balanceamento entre segurança e a proteção da liberdade é um dos
193 Fala-se também no princípio da qualidade de dados, que se refere à “exigência de que os dados constantes de um banco sejam objeto de um tratamento leal e lícito, sejam adequados, pertinentes e não excessivos em relação à finalidade declarada...” MENDES, Laura Schertel. Ibidem, p. 53.
194 SOLOVE, Daniel. Nothing to hide: the false tradeoff between privacy and security. New Haven:
Yale University Press, 2011, p. 41. “Although such a balance may not promote security with maximum efficiency, that is one of the costs of living in a democracy as opposed to an authoritarian political regime”.
195 VIANNA, Túlio. Transparência pública, opacidade privada: o direito como instrumento de limitação de poder na sociedade de controle. Rio de Janeiro: Revan, p. 207.
196 Idem. Ibidem.
197 Idem. Ibidem, p. 208.
custos da democracia e, ao mesmo tempo, o próprio Estado precisa ter limites na sua atuação198.
Conclusões
Historicamente a luta pelos direitos passou por três fases principais, tendo como adversários em cada uma delas: o poder religioso, o poder político e o poder econômico199. Atualmente os perigos estão na transformação tecnológica e tecnocrática do mundo200. Esta leitura, feita por Bobbio, pode ser relacionada com a obra de Huxley. Assim, ficção, realidade e Direito encontram-se e permitem que seja melhor compreendida toda uma geração de novos direitos a serem protegidos201.
São muitas as relações entre o mundo imaginado por Huxley e a nossa atualidade.
Veja-se, por exemplo, que os homens no mundo Huxley eram todos conformados202, o que também ocorre com certas parcelas da sociedade atual.
O perigo imaginado por Huxley, em seu mundo totalitário, hoje se atualizou. Um novo modelo de totalitarismo que se encaminha ocorre pela união dos Estados com grandes empresas de tecnologia. Tal união permite que se consiga reprimir e afetar a liberdade de indivíduos em todas as partes do mundo, independente de limites territoriais.
Foi exatamente isto que aconteceu com o caso dos monitoramentos em massa realizados pelos EUA, conforme as denúncias feitas pelo ex-funcionário da NSA, Edward Snowden.203 O Estado passa a ser o inimigo silencioso. Se por um lado existe uma ideia de
198 BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: Uma defesa das regras do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, p. 13. Ver também BOBBIO, Norberto. A era dos direitos..., p. 136: “A constitucionalização dos remédios contra o abuso do poder ocorreu através de dois institutos típicos: o da separação dos poderes e o da subordinação de todo poder estatal […] ao direito...”.
199 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos..., p. 209.
200 Idem. Ibidem, p. 209.
201 Fala-se mesmo em direitos de quinta geração como sendo aqueles relacionados com “o grande desenvolvimento da cibernética na atualidade”, cf. OLIVEIRA JÚNIOR, José Alcebíades de. Teoria jurídica e novos direitos. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2000, p. 86.
202 A falta de liberdade no âmbito ideológico, segundo Bobbio, leva ao conformismo das massas.
BOBBIO, Norberto. Igualdad y libertad. Barcelona: Paidós, 1993, p. 145.
203 Sobre o assunto ver GREENWALD, Glenn. Sem lugar para se esconder: Edward Snowden, a NSA e a espionagem do governo americano. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.
“conforto tecnológico”, por outro há a diminuição dos momentos em que o homem possa gozar de privacidade e intimidade204.
O mais fascinante na obra de Huxley é que é possível encontrar até mesmo uma relação com estes monitoramentos feitos pelos EUA nas comunicações mundiais. Em uma passagem envolvendo o “administrador mundial” este se regozija ao dizer que “como sou eu que faço as leis aqui, posso também transgredi-las. Impunemente...”205. Assim como no livro, a realidade mostrou que os monitoramentos mundiais indiscriminados também desrespeitaram os direitos humanos de muitos ao violarem indistintamente sua privacidade e intimidade. Este é, assim, talvez o aspecto mais importante do livro no que diz respeito à relação com o direito e as novas tecnologias: a capacidade dos Estados descumprirem a lei de forma impune, sem que nada ou quase nada possa ser feito.
É muito importante que se tenha em mente também a crítica feita por Daniel Solove quando fala sobre a relação entre segurança e privacidade. Diz este autor que um dos argumentos sobre este debate é que “sacrificar a privacidade não nos torna automaticamente mais seguros”206. Se o Estado obrigar a todos abdicarem de sua privacidade (como se segurança e privacidade fossem conceitos absolutamente exclusivos), além de se perder um dos requisitos essenciais ao desenvolvimento da personalidade humana, o estado transforma-se no inimigo207.
É certo que após as notícias envolvendo os monitoramentos mundiais que atingiram diretamente até mesmo as chefes de estado brasileira e alemã208, o mundo passou a se preocupar mais com o controle da tecnologia. O Brasil, até mesmo, sediou um encontro mundial – o NetMundial - onde se discutiu a governança da Internet em uma clara movimentação dos países para a alteração do cenário atual sobre segurança da informação e proteção da privacidade.
204 Paradoxo levantado por COSTA JR., Paulo José da. Ibidem, p. 15.
205 HUXLEY, Aldous. Admirável..., p. 265;
206 SOLOVE, Daniel. Ibidem, p. 34.
207 Idem. Ibidem.
208 BIRNBAUM, Michael; WILSON, Scott. Merkel calls Obama about alleged U.S. monitoring of her phone. The Washignton Post. 23 de Outubro de 2013. Disponível em:
<http://www.washingtonpost.com/blogs/post-politics/wp/2013/10/23/obama-assures-merkel-u-s-is-not- eavesdropping-on-her-calls/>. Acesso em: 29 Abr. 2014.
Por fim, a pergunta que se coloca, neste novo panorama mundial, pós-Edward Snowden, tendo em vista a obra de Huxley é: quem vigiará os vigias209?
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209 BOBBIO, Norberto. Igualdad y..., p. 153: “La garantía de los derechos del hombre contra la violación permanente del Estado, que debería ser su protector, es una respuesta en un nivel más alto de la eterna pregunta: Quis custodiet custodes?”
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