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V. Bibliografia

2. O condicionamento

Ao falar sobre o condicionamento, logo no início do livro, um dos personagens afirma que algumas castas eram levadas a odiarem os “livros e as flores”113. Esta ideia de controle pelo desprestígio à cultura foi notado também por Mario Vargas Llosa em seu “A civilização do espetáculo”. Nesta obra de não-ficção o autor identifica uma série de sinais que estariam levando a um empobrecimento geral da sociedade moderna, sendo um, entre outros, relacionado com o desprezo da cultura. Diz ele que a civilização do espetáculo “é a civilização de um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigentes é ocupado pelo entretenimento, onde divertir-se, escapar do tédio, é a paixão universal”114. No Admirável Mundo Novo as mais diversas distrações são um instrumento do Estado para

                                                                                                                          108 Idem. Ibidem, p. 52.

109 Idem. Ibidem, p. 52.

110 CÓLON ROSADO, Aníbal. Filosofia de la técnica. Río Piedras: Universidade de Puerto Rico, 1992, p. 66.

111 Idem. Ibidem.

112 Sobre os aspectos da regulação da tecnologia e a tecnologia também vista como uma forma de regular condutas, sobretudo na Internet, ver LESSIG, Lawrence. Code: Version 2.0. Basic Books: New York, 2006, passim.

113 HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. São Paulo: Globo, 2003, p. 31-32. Também a leitura dos livros poderia afetar o condicionamento feito naquela sociedade.

114 VARGAS LLOSA, Mário. A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013, , p. 29. Igualmente diz que o desinteresse pelos intelectuais é

consequência direta do ínfimo valor que o pensamento tem na civilização do espetáculo”, p. 41.

impedir que as pessoas prestem “demasiada atenção às realidades da situação social e política115.

É inegável também que a desvalorização da cultura “é a forma mais segura de extinguir a consciência crítica, pois é ela que alimenta a reflexão questionadora e a vontade de transformar o mundo116. Fica assim evidente a aproximação da obra de Vargas Llosa com o mundo distópico de Huxley. Até por que o mundo imaginado por este estava fortemente relacionado com o prazer a todo o instante117. Como também acontece no Admirável Mundo Novo, a crítica de Vargas Llosa chama a atenção para o fato de que algumas das consequências da diversão como um valor supremo seriam a banalização da cultura118 e a proliferação do jornalismo irresponsável119. Aqui, mais uma vez, nota-se a semelhança entre as obras principalmente, no último caso, se for analisado o desfecho trágico do livro que envolve o personagem John e o papel de uma imprensa que o persegue.

Ainda sobre o empobrecimento cultural, nota-se na obra de Huxley uma passagem onde o personagem John acha por demais pueril o chamado “cinema sensível” em função de sua falta de conteúdo120. A massificação, a homogenização mundial e a espetacularização de toda a indústria musical e cinematográfica reproduzem atualmente essa questão e encontram eco no que Vargas Llosa chama de literatura, cinema e arte lights121. A padronização cultural também reflete uma padronização dos indivíduos em si.

Essa foi uma das críticas que o próprio Huxley fez ao explicar sua obra122.                                                                                                                          

115 HUXLEY, Aldous. Regresso ao admirável mundo novo. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 56.

Neste livro o autor explica criticamente seu Admirável Mundo Novo. Enquanto que o romance foi publicado em 1932, este último o foi em 1959.

116 ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 19.

Mais adiante (p. 329) o autor vincula a tecnocracia com o populismo. A tecnocracia seria o “populismo sem povo”.

117 Ao falar sobre o despotismo, Alexy de Tocqueville diz que um novo despotismo mais leve, seria um poder que “gosta de que os cidadãos se regozijem contanto que não pensem em outra coisa que não regozijar-se […] Assim, todos os dias ele torna menos útil e mais raro o emprego do livre-arbítrio; encerra a ação da vontade num espaço menor e defrauda pouco a pouco cada cidadão até mesmo do uso de si”.

TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. Livro II. São Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 390.

118 No mundo de Huxley a leitura da literatura e da poesia é combatida já que esse tipo de “diversão solitária” não é bem aceita. HUXLEY, Aldous. Ibidem, p. 199.

119 Idem, Ibidem, p. 30.

120 Idem, Ibidem, p. 206.

121 VARGAS LLOSA, Mário. Ibidem, p. 32. É bastante comum que certos filmes preocupem-se mais em trazer efeitos especiais do que se concentrar na história propriamente dita. Igualmente, hoje, um grande filme BlockBuster é construído para agradar públicos mundiais de diversas orientações culturais diferentes.

Não se perca de vista que o mundo de Huxley é uma sociedade mundial que acaba também por compartilhar os valores mundialmente.

122 HUXLEY, Aldous. Regresso..., p. 37 e 38.

É importante frisar que a multiplicidade de oportunidades trazidas pela tecnologia nem sempre é garantia de qualidade no conteúdo. Diz-se, inclusive, que a internet estaria comprometendo a verdade, prejudicando o discurso civil e menosprezando a experiência e o talento, em função do grande número de conteúdos produzidos por amadores123. Todavia, mesmo que tal crítica seja parcialmente procedente, também a democratização da rede é um avanço inegável em diversos aspectos. Há, por exemplo, todo um potencial de agregação social que permite que grandes grupos consigam se organizar para fins políticos, o que tem ocorrido em vários lugares do mundo, inclusive, no Brasil124.

Outro ponto que merece atenção na obra de Huxley é a relação entre o hiperconsumo ligado a um papel negativo da publicidade. Em diversos momentos do livro nota-se, por exemplo, que os esportes devem ser sempre complexos para motivarem as pessoas a consumirem produtos a eles relacionados125. A publicidade possui, na obra, uma relação direta com um condicionamento perverso.

O hiperconsumo é um problema discutido tanto no campo da sociologia quanto no do direito. Um exemplo emblemático que envolve um paralelo com a ideia de hiperconsumo é a facilidade que os meios de comércio eletrônico126 oferecem para que o consumidor compre praticamente qualquer coisa a qualquer hora pela Internet. A publicidade impulsionada por meios técnicos cada vez mais insistentes e onipresentes na Internet tende a diminuir a capacidade de escolha do consumidor127, situação que, no seu extremo, pode ser vista na obra de Huxley. Essa diminuição na capacidade de escolha é levada em consideração pelo Código de Defesa do Consumidor, por exemplo, ao

                                                                                                                         

123 Tal crítica é feita por KEEN, Andrew. The cult of amateur: how today's internet is killing our culture. New York: Random House, 2007, p. 14-15. O autor afirma também que a autoria dos conteúdos tem se diluído tornando-se, em alguns casos, indistinguível, o que afeta a autenticidade das manifestações; critica também a cultura do “copiar e colar” que transforma toda uma geração em “cleptomaníacos intelectuais”, (p.

23) e como a Internet tem o potencial de distorcer a verdade sobre a política e os políticos (p. 26). Tudo isto teria como resultado o declínio da qualidade e confiabilidade da informação recebida por todos (p. 27).

124 Sobre isso ver CASTELLS, Manuel. Redes de indignación y esperanza: los movimientos sociales em la era de internet. Madrid: Alianza, 2012.

125 No livro, um dos diretores afirma que “antigamente os jogos não incentivavam o consumo”.

HUXLEY, Aldous. Ibidem, p. 42.

126 Risco apontado por MIRAGEM, Bruno. Aspectos característicos da disciplina do comércio eletrônico de consumo - Comentários ao Dec. 7.962, de 15.03.2013. Revista de Direito do Consumidor, v.

86, p. 287–300, mar.-abr./2013, p. 298. Tal risco relaciona-se também com as situações envolvendo sites de compras coletivas.

127 VARGAS LLOSA, Mário. Ibidem, p. 24. Diz o autor: “... a publicidade e as modas que lançam e impõem os produtos culturais em nossos tempos são um sério obstáculo à criação de indivíduos independentes, capazes de julgar por si mesmos o que apreciam, admiram, acham desagradável e enganoso ou horripilante de tais produtos”.

estabelecer um prazo de arrependimento de sete dias nas compras feitas fora dos estabelecimentos comerciais128.

Huxley refere-se ainda ao condicionamento feito enquanto as crianças dormem para incutir, de forma mais profunda, os valores daquela sociedade129. Simbolicamente, esse condicionamento durante o sono pode representar, hoje, algumas das “sugestões”

incutidas nas pessoas por meio de certas técnicas publicitárias.

Sobre isso, é possível citar o fato de que algumas propagandas, ao anunciarem um carro, preocupam-se mais em relacionar a posse do carro a um determinado estilo de vida ou a vinculá-lo a um símbolo de status do que em exaltar as suas qualidades. Assim, o consumidor pode ter diminuída sua a capacidade de escolha, sobretudo, quando não se respeitarem os limites estipulados para a publicidade130.

A publicidade, na atualidade, passa até mesmo a sugerir discussões políticas sobre temas socialmente relevantes, manipulando situações com o único fim de atrair atenção para uma marca, produto ou personalidade131. Assume aí, claramente, um papel que não é seu. Sobre isso Gilles Lipovetsky diz que “a 'ditadura das marcas' jamais impedirá o livre exercício do espírito crítico ou de um sadio distanciamento em relação à volúpia do consumo132.

Nota-se aí a relação bastante forte entre o hiperconsumo e a sociedade da informação. A Internet, por si só, “é um fenômeno da sociedade de consumo133 já que ela serve de vetor para uma série de negócios. As próprias redes sociais têm como seu negócio principal a venda de publicidade na Internet, confirmando essa ideia.

                                                                                                                         

128 Cf. art. 49 do CDC. Destaque-se que a jurisprudência tem estendido este direito para as compras feitas também pela Internet. Também, o projeto de atualização do Código de Defesa do Consumidor (PLS 281/2012) é expresso em reconhecer o direito de arrependimento nas compras feitas pela Internet.

129 Em determinado momento este condicionamento era feito para que crianças de castas superiores não brincassem com crianças de castas inferiores. HUXLEY, Aldous. Ibidem, p. 39.

130 Sobre isso ver ADAMI, Betina da Silva; RODRIGUES, Gabriela Wallau. Publicidade e informação na sociedade do consumo: Tensões entre a efetivação do direito à informação e a publicidade no cenário contemporâneo. Direito & Justiça, v. 38, n. 2, p. 120-131, jul./dez. 2012, p. 128.

131 Em um caso recente, uma empresa simulou uma situação onde uma banana era jogada a um jogador negro em uma partida de futebol. Este, em resposta, comeu a banana. Descobriu-se, após, que se tratava de uma campanha publicitária para divulgar um hashtag nas redes sociais. Ocorre que a situação foi algo de grande discussão, inclusive, contando com a atenção da própria presidente da república. Ver a notícia:

'Neymar ia comer a banana. Se foi o Daniel Alves, maravilha também', diz publicitário. Veja.com.

Disponível em: <http://veja.abril.com.br/noticia/economia/neymar-ia-comer-a-banana-se-foi-o-daniel-alves- maravilha-tambem-diz-publicitario>. Acesso em 28 Abr. 2014.

132 LIPOVETSKY, Gilles. A sociedade da decepção. Barueri: Manole, 2007, p. 73.

133 MIRAGEM, Bruno. Responsabilidade por danos na sociedade de informação e proteção jurídica do consumidor: desafios atuais da regulação jurídica da Internet. Revista de Direito do Consumidor, v. 70, n. 18, p. 41–92, abr.-jun./2009, p. 44.

Outra relação entre o hiperconsumo e o livro aqui tratado também pode ser vista no “fetiche da novidade”. Na obra de Huxley é possível observar a manifestação do hiperconsumo pelo condicionamento realizado nas crianças para que joguem fora as roupas velhas e comprem roupas novas: “mais vale dar fim do que conservar134. No âmbito das novas tecnologias, este fetiche135 é notado principalmente na compra de equipamentos tecnológicos. Um exemplo diz respeito à corrida pela troca de telefones celulares, geralmente a cada ano, onde alguns chegam a entrar em filas desde a madrugada para serem os primeiros a colocarem as mãos nas novidades tecnológicas136. Em alguns casos chega a existir uma relação entre as pessoas e o objeto “tomado como pessoa137, assemelhando-se a uma “paixão” que, nada mais é do que o consumo138.

A questão do condicionamento ao consumo é, talvez, uma das “previsões” mais acertadas de toda a obra. Os personagens sentem-se felizes por comprarem, sem compreenderem que estão aprisionados em uma “liberdade” que apenas os dirige a comprar mais e mais.

É certo que a ideia de controle por meio do condicionamento perpassa todo o livro de Huxley. Porém não se trata de um controle como o visto no livro “1984” de Orwell139 mas sim um tipo de controle indireto140. O prazer a qualquer custo, a predestinação por castas e a privação das pessoas da cultura e da ciência eram alguns dos componentes. Um dos personagens – o administrador mundial -, em uma conversa com o personagem John, diz que para manter aquela sociedade era necessário privar as pessoas da ciência e da verdade141. E isso era realizado, justamente, pelos meios técnicos que faziam as pessoas acharem que eram livres quando eram, na verdade, controladas pelo condicionamento.

                                                                                                                          134 HUXLEY, Aldous. Ibidem, p. 63.

135 Ver BAUDRILLARD, Jean. La sociedade de consumo: sus mitos, sus estructuras. Madrid, Siglo XXI, 2009, 130-131.

136 Tais equipamentos são chamados atualmente de gadgets. Jean Baudrillard refere-se ao gadget como um instrumento de “inutilidade funcional”, onde o que se consome é diferente do útil em uma “simulação contínua da função sem referente prático real” além de possuírem um aspecto lúdico. BAUDRILLARD, Jean. Ibidem, p. 129-130. O mesmo autor afirma também (p. 132) que esse fetiche da novidade, remontaria à sensação infantil de ganhar brinquedos novos, levando as pessoas a uma espécie de “infância absoluta”. Ver adiante, a questão da infantilidade na sociedade atual.

137 BAUDRILLARD, Jean. Ibidem, p. 133.

138 Idem. Ibidem, p. 134.

139 Sobre a análise do livro 1984, ver a revista Diálogos do Direito do Cesuca, v. 2, n. 3, 2012, disponível em: <http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/dialogosdodireito/issue/view/14> que foi toda organizada em torno desta obra.

140 Ver HUXLEY, Aldous. Regresso..., p. 51:“...há alguma razão para acreditarmos que os métodos punitivos de 1984 cederão lugar aos reforços e manipulações do Admirável Mundo Novo.”.

141 HUXLEY, Aldous. Admirável..., p. 288.

No documento 1 DOI: http://dx.doi.org/10.17793/rdd.v4i6 (páginas 90-95)