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Jesus é a misericórdia de Deus em pessoa que chega a este mundo, se aproxima concretamente, fisicamente do homem, toca-o em sua temporalidade e em sua carne, para que se entregue confiante e incondicional a essa mesma ação de Deus, e o converte no que Deus é, misericórdia. O homem perdoado é, por sua vez, capaz de misericórdia282.

A vontade de Deus é que o ser humano viva, mas há situações nas quais a vida do ser humano está em risco – na pobreza e na opressão. Por outro lado, nessas situações há esperança de salvação. Precisamente, essas duas realidades – risco à vida e esperança de salvação – tornam necessário e possível o sacerdócio, o que é um desafio fundamental para a Igreja.

A partir da opção pelo pobre, o mundo conhece o testemunho de mulheres e homens da Igreja, leigas e leigos e ministros ordenados, de comunidades eclesiais que re-agem como o sumo sacerdote da Carta aos Hebreus: ele re-agiu com grande misericórdia. Nelas e neles, a salvação se aproximou dos mais pobres, o que possibilitou a profissão de fé em um Deus bom e amoroso.

O serviço sacerdotal gerou uma existência sacerdotal, que não aceita ser reduzida somente a funções doutrinais e litúrgicas. A existência sacerdotal é maior prova de abertura e fidelidade a Deus, porque por ela a salvação de Deus se faz presente na história. Por outro lado, a existência sacerdotal conduziu à inserção entre os pobres, a solidariedade com eles, a opção por eles. A Igreja dos pobres é uma Igreja sacerdotal não porque tenha ministros ordenados ad sacerdotium, mas porque possui ministros da misericórdia que aproximam, mediante sua práxis, a salvação de Deus aos pobres283.

teológica de Jesus de Nazaret (1991)e La fe en Jesucristo, ensayo desde las víctimas (1999).

Não se deve esquecer de que em seus ensaios mais recentes, como aqueles presentes no livro Fuera de los pobres no hay salvación: pequeños ensayos utópico-proféticos (2007), também há elementos que ajudam a sistematização de sua reflexão sobre a Igreja.

A Eclesiologia de J. Sobrino – e I. Ellacuría – é profundamente marcada pela vida da Igreja na América Latina, especialmente em El Salvador284. As comunidades eclesiais de base, a luta pela justiça, o compromisso com os pobres e, evidentemente, a perseguição – vivida de forma preclara com o martírio de Dom Oscar Romero em 1980 e, depois, dos jesuítas da UCA em 1989 – são decisivas para seus esboços eclesiológicos285.

A relação entre Cristologia e Eclesiologia se dará nos escritos de J. Sobrino pelo seguimento de Jesus, sobretudo seguimento entendido como estrutura fundamental do discernimento cristão. O autor acentua, portanto, o fato de que a Igreja se constitui no ato de seguir Jesus de Nazaré, que se caracteriza pela práxis do amor histórico: eficaz, sociopolítico e conflitivo286. Dentro dessa compreensão, não é de se estranhar que o seguimento de Jesus possa conduzir suas discípulas e seus discípulos ao martírio, à entrega do amor maior (Jo 15,13).

Como primeira noção propriamente eclesiológica, está a Igreja dos pobres que I.

Ellacuría teve a oportunidade de elaborar em vários de seus escritos, como foi apresentado, e J.

Sobrino a assume como categoria central. Essa Igreja dos pobres não se entende somente como Igreja de Jesus, mas Igreja como Jesus287. Trata-se, portanto, de um claro enfoque soteriológico dado também à Igreja – esse mesmo enfoque está presente na Cristologia do autor, especialmente quando insiste no retorno à práxis salvífica e libertadora de Jesus de Nazaré.

No centro do anúncio da Igreja dos pobres está o Deus do Reino, o Deus que Jesus revelou em sua história; ele é mistério absoluto, cuja vontade Jesus aprendeu a obedecer, embora fosse filho (Hb 5,8); ele é Pai bondoso, cheio de amor e misericórdia especialmente para com os pequeninos (Is 66,2; Lc 10,21). Esse anúncio não é, contudo, levado a cabo em primeiro lugar por palavras e formulações – orto-doxia –, mas pela ação – orto-práxis – em favor dos pobres do mundo. Essa ação não pode ser entendida sem a assistência do Espírito Santo, dom escatológico e histórico do Senhor Ressuscitado.

A Igreja dos pobres, como mostra J. Sobrino, toma corpo e se incorpora no povo crucificado288. O uso dessas noções tomadas do realismo zubiriano reforça o fato de que a

284 SOBRINO, 1984a, p. 47-79.

285 SOBRINO, 1993, p. 300.

286 SOBRINO, 1982, p. 216-217.

287 SOBRINO, 1990c, p. 676.

288 SOBRINO, 1990c, p. 665.

Igreja, para ser crível e, sobretudo, ser Sacramento histórico da salvação, deve se encarnar, mas também se tornar real na história real (no mundo). O povo crucificado, portanto, reveste-se da perspectiva soteriológica mencionada, porque, além de se encarnar no mundo da pobreza – a realidade mais real – também denuncia o mundo dos opressores – a história real.

O povo crucificado historiza a categoria Povo de Deus, como sublinha I. Ellacuría289, porque nele o ser humano se encontra, hoje, com o próprio Jesus Crucificado. No Crucificado há salvação, portanto no povo crucificado também há salvação: por um lado, essa salvação significa des-cobrir o pecado do mundo, libertar a verdade da injustiça (Rm 1,18); por outro lado, significa graça, esperança e luz, que as mulheres e os homens crucificados pela opressão irradiam, como o Servo sofredor (Is 42,6). Como a Igreja peregrina é necessária para a salvação – extra Ecclesiam nulla salus –, os pobres – o povo crucificado – também é necessário para a salvação de uma sociedade estigmatizada pela pobreza massiva e cruel – extra pauperes nulla salus290.

Embora a vida eclesial concreta, com a qual J. Sobrino se comprometeu, foi decisiva para a elaboração de suas categorias eclesiológicas, não menos importantes são as II e III Conferências Gerais do Episcopado Latino-americano, realizadas na cidade de Medellín em 1968 e na cidade de Puebla em 1979, respectivamente. Entretanto, há um elemento que chama a atenção.

Além da Igreja dos pobres, a principal categoria eclesiológica de seus textos, e do povo crucificado, também está a Igreja da misericórdia, ou como o próprio autor indica a Igreja movida pelo princípio-misericórdia. Contudo, ao longo de todo o documento conclusivo da Conferência de Medellín, não se menciona, sequer uma única vez, a palavra misericórdia291. Ao mesmo tempo, nas conclusões da Conferência de Puebla, a misericórdia é apenas mencionada e o significado ali presente está mais na linha de obras de misericórdia que no entendimento de re-ação diante do mundo sofredor (Puebla, n. 680).

Poderia se dizer, portanto, que a Igreja, a partir de Medellín e Puebla não encontraria na misericórdia uma de suas “notas”? Não se trata de encontrar novas notas para a Igreja que aquelas proclamadas pelo I Concílio de Constantinopla – una, santa, católica e apostólica (DH 150) –, como já se apresentou mais acima; mas de pensar a Igreja a partir da re-ação do bom samaritano (Lc 10,25-37).

289 ELLACURÍA, 1990b, p. 189.

290 SOBRINO, 2008, 67-120.

291 BERNARDES, 2018a, p. 115-125.

Todavia, vale afirmar que mesmo não tendo sido mencionada em Medellín e apenas citada em Puebla, a misericórdia, sim, está presente nesses textos fundamentais do magistério eclesial latino-americano. Não é possível entender a centralidade dos pobres para Medellín e Puebla que não seja a partir da misericórdia, ou mais precisamente, a partir do princípio- misericórdia. A Igreja na América Latina, sim, entende-se como uma Igreja da misericórdia;

pensar a Igreja desde o princípio-misericórdia, como insiste J. Sobrino, não deve causar nenhuma estranheza292.

Trata-se de uma Igreja como Jesus, logo o princípio que estruturou toda sua vida também é o princípio que estrutura a vida da Igreja: a misericórdia, re-ação para curar as feridas (amor) dos que estão caídos fora do caminho e se empenhar para que não sejam nova e injustamente feridos (justiça). Nessa Igreja, não há maior motivação que aliviar o sofrimento alheio pelo simples fato de esse sofrimento existir (a misericórdia é o primeiro e o último da Igreja; a misericórdia é consequente e coerente). A dor dos pobres, daqueles estão feridos à beira do caminho, se torna dor da Igreja.

O documento conclusivo da Conferência de Medellín conclama:

Preferência e solidariedade: o mandato particular do Senhor, que prevê a evangelização dos pobres, deve levar-nos a uma distribuição tal de esforços e de pessoal apostólico, que deve visar, preferencialmente, os setores mais pobres e necessitados e os povos segregados por uma causa ou outra, estimulando e acelerando as iniciativas e estudos que com esse fim se realizem. [...] Devemos tornar mais aguda a consciência do dever de solidariedade para com os pobres; exigência da caridade.

Esta solidariedade implica em tornar nossos seus problemas e suas lutas e em saber falar por eles. [...] (Pobreza, n. 09-10)

Na re-ação misericordiosa, o mistério da Igreja se torna visível para o mundo: o Reino é acolhido como Boa-notícia e a fé em Deus e em Jesus Cristo é proclamada a toda criatura (Mt 28,19). A Igreja da misericórdia não é resultado da doutrina da misericordia Dei que se reflete sobre a ela; é a verdadeira Igreja que desenvolve a práxis salvífica, que lhe foi encomendada pelo próprio Senhor Ressuscitado e é assistida constantemente pela do seu Espírito.

A Igreja da misericórdia estrutura-se, em primeiro lugar, mediante o serviço sacerdotal, entendido como serviço de misericórdia como aparece na Carta aos Hebreus (Hb 2,17). Esse serviço não consiste em outra coisa que realizar a aproximação bondosa de Deus a seu povo.

Entender a Igreja tal qual aparece nos escritos de J. Sobrino é resgatar o que ele mesmo chama

292 SOBRINO, 1990c, p. 676.

de eclesialidade primeira, na qual as realidades do Pai, do Filho e do Espírito Santo estão operantes293.

Aqui, se encerra o primeiro capítulo deste trabalho. Entretanto, ainda merece destaque o fato de que nos escritos de J. Sobrino não se encontra a expressão Igreja, Sacramento da misericórdia. Pelo que acaba de ser apresentado não é tarefa difícil chegar a essa conclusão, trata-se, porém, de um tema a ser explorado no terceiro capítulo. Antes será apresentada a Teologia de W. Kasper que, ao contrário do teólogo da Libertação, sim, possui uma obra eclesiológica sistematizada e, mais recentemente, referiu-se à Igreja como Sacramento da misericórdia294.

Da mesma forma que foi necessário delimitar as obras de J. Sobrino para a apresentação anterior, restringir-se-á os textos do autor alemão para que uma apresentação sucinta de seus principais temas teológicos possa ser realizada, sobretudo daqueles que lhe ocuparam em seus primeiros anos de docência nas Universidades de Tübingen e Münster, e de seu método teológico, para, em seguida, aprofundar as categorias eclesiológicas do autor, dando destaque à Igreja, Sacramento da misericórdia.

293 SOBRINO, 1981, p. 139.

294 KASPER, 2015, p. 193-196; KASPER, W. O desafio da misericórdia. Brasília: CNBB, 2016. (Coleção – Misericórdia, 4), p. 31-34.

2 A TEOLOGIA DE WALTER KASPER