2 A TEOLOGIA DE WALTER KASPER
Santíssima Trindade constitui o núcleo da primeira etapa de sua produção teológica (1964- 1982).
Ao avançar na leitura de A misericórdia – condição fundamental do Evangelho e chave da vida cristã, nota-se claramente que o autor pretende realocar a temática no coração de sua própria Teologia e do conjunto teológico como um todo, tanto que a apresentação realizada por ele possui certa pretensão de exaustão. Ao longo da obra, a relação entre a misericórdia e a Igreja será devidamente destacada – interesse particular deste trabalho.
Também vale remarcar o fato de que esse livro de W. Kasper foi explicitamente citado por Francisco, em 17 de março de 2013. Pode-se até pensar que para a convocação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia (2015-2016), Francisco tenha se inspirado na obra, o que mostra a presença do princípio de pastoralidade na Teologia do autor; a misericórdia não deve estar somente no centro da reflexão teológica, mas no centro da vida da própria Igreja. Por ocasião do mesmo Jubileu Extraordinário, W. Kasper publicou um brevíssimo texto traduzido ao português como O desafio da misericórdia (2015) e publicado pelas Edições CNBB. Nele, o autor retoma explicitamente a formulação da Igreja como Sacramento da misericórdia.
Todo o destaque dado pelo autor alemão à misericórdia – além de sua centralidade no Pontificado de Francisco, como já se mencionou – indica que o tema é sumamente relevante para o pensamento teológico hodierno. Contudo, a perspectiva desta pesquisa é específica:
apresentar a relação entre a misericórdia e a Igreja.
Antes, porém, de aprofundar naquilo que W. Kasper apresentou sobre a misericórdia e sua relação com a Igreja, é necessária uma aproximação a seu método e a seu pensamento teológico. Com isso, pretende-se apresentar os fundamentos da Teologia do autor, a saber, a importância da noção Tradição, entendida dentro do contexto de transmissão da Revelação pela Igreja e como testemunho de testemunhas (Zeugnis der Zeugen). Dedicar-se-á boa parte deste capítulo a essa noção, sobretudo porque a Tradição jamais pode ser vista e compreendida fora da vida e da missão da Igreja.
Faz-se mister também revisitar o que ele mesmo afirmou de seu método teológico.
Diante da pluralidade (Vielheit) atual de temas e suas diversas perspectivas de abordagem – inclusive pela própria Teologia –, a pergunta pela unidade (Einheit) no método teológico é sumamente pertinente. Tampouco, se pode perder de vista o princípio dado pelo Concílio Vaticano II à Teologia: a pastoralidade.
Por outro lado, embora não seja o foco deste trabalho, é preciso ressaltar todo o trabalho teológico do autor alemão em relação ao diálogo ecumênico e inter-religioso. Durante os anos em que trabalhou na Cúria Romana como Secretário e, posteriormente, Presidente do Conselho
Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos (1999-2010), W. Kasper produziu muito material sobre a temática, que foi recolhido em dois volumes de seus escritos completos (Gesammelte Schriften): Wege zur Einheit der Christen (2012) e Einheit in Jesus Christus (2013).
Porém, a inspiração para seu trabalho com o ecumenismo e o diálogo inter-religioso já vem de seus anos de estudo de Teologia na Universidade de Tübingen, especialmente pela leitura de J. A. Möhler, “pioneiro da Teologia ecumênica contemporânea”5. Ainda que os frutos maduros da Teologia de J. A. Möhler tenham sido recolhidos somente no Concílio Vaticano II, sua contribuição para a renovação da consciência eclesial é fundamental já no século XIX. W.
Kasper também reconhece no Cardeal J. H. Newman uma influência decisiva em seu pensamento sobre o ecumenismo6.
Seu ponto de partida para a reflexão ecumênica está no próprio testamento de Jesus a seus discípulos: “a fim de que todos sejam um [...] para que o mundo creia” (Jo 17,21). Por isso, a unidade dos cristãos e a missão da Igreja no mundo jamais podem ser entendidas separadas;
constituem uma obrigação sagrada. O desafio do ecumenismo se tornou ainda mais urgente no século XX, quando a humanidade se viu imersa em enormes desafios como as grandes guerras, a injustiça, a miséria e a fome; nesse contexto sombrio, as cristãs e os cristãos reconheceram que possuem mais elementos de unidade que separação; reconheceram que podem, como irmãs e irmãos em Jesus Cristo, superar as crises da história e chegar a ser instrumentos de paz7.
O autor alemão segue a pista deixada pelo Concílio Vaticano II, sobretudo aquilo que foi proclamado pelo decreto Unitatis Redintegratio sobre o ecumenismo. É importante frisar que o diálogo ecumênico se diferencia do diálogo inter-religioso por sua dimensão eclesial; não se trata de um diálogo entre indivíduos, mas de um diálogo com caráter eclesial e missionário.
Nesse sentido, a unidade dos cristãos não é meta a final, mas que o mundo creia8.
W. Kasper reconhece que o movimento ecumênico foi deixado de lado no começo do século XXI. Uma das razões é precisamente aquela que deu origem ao próprio movimento séculos atrás: a secularização da sociedade, especialmente da sociedade europeia. A privatização e marginalização da fé e o consequente abandono de sua dimensão comunitária e social não promovem encontro e diálogo; o movimento ecumênico, claramente, vai na
5 DECKERS, D. KASPER, W. Wo das Herz des Glaubens schlägt: Die Einführung eines Lebens. 1. Aufl. Freiburg i. B. – Basel – Wien: Herder Verlag, 2008, p. 30.
6 KASPER, W. Wege zur Einheit der Christen. Freiburg i. B. – Basel – Wien: Herder Verlag, 2012. (Gesammelte Schriften, 14), p. 23.
7 KASPER, 2012, p. 18.
8 KASPER, 2012, p. 19.
contramão dessa tendência e, por isso, torna-se uma urgência dentro da sociedade secularizada.
“[...] O diálogo vai além do intercâmbio de ideias; é um intercâmbio de dons. No diálogo não se partilha uma coisa com o outro, mas se partilha algo de si mesmo, se dá o testemunho da própria fé e se deixa participar dela”9. Condições para esse diálogo são a oração e a conversão, que criam um ambiente de amizade humana e cristã.
O diálogo ecumênico, como bem apresenta o autor alemão, não é mero interesse especulativo de teólogas e teólogos, mas uma realidade concreta na vida dos cristãos. A melhor expressão dessa realidade pode ser vista no sangue dos mártires do ecumenismo, que ao longo dos séculos passados, especialmente do século XX, uniram-se no momento derradeiro de suas vidas em uma mesma profissão de fé, a saber, em Jesus o único Senhor e o Salvador. O testemunho de mártires diante das perseguições passadas, independentemente das Igrejas ou comunidades às quais pertenciam, é sinal claro da unidade em Cristo10.
No século XXI, como indica W. Kasper, os desafios são outros: a proteção da vida desde sua concepção até seu declínio natural, a defesa dos direitos fundamentais do ser humano, a família e a vivência da sexualidade e os enormes reptos propostos pela Bioética11. As respostas a esses desafios, contudo, não podem ser dadas individualmente; é preciso assumir esses desafios em unidade, ainda que o entendimento entre as Igrejas e as comunidades eclesiais sobre esses diversos temas seja custoso.
Essa exigência brota da oração de Jesus ao Pai: “a fim de que todos sejam um [...] para que o mundo creia” (Jo 17,21). Mas a consequência prática dessa petição é enorme: a unidade torna-se visível quando se participa do mesmo corpo de Cristo (1Cor 10,16). Como cristãs e cristãos de confissões tão diversas podem participar de uma mesma comunidade eucarística? O questionamento do ecumenismo converte-se, aqui, em uma pergunta sobre Igreja. Não se pode pensar em ecumenismo sem a devida fundamentação eclesiológica12.
Como já foi mencionado anteriormente, não é objetivo deste trabalho apresentar a reflexão sobre o ecumenismo de W. Kasper, ainda que seja expressão madura de seu pensamento. O objetivo é, a partir de seus escritos, entender a relação entre a misericórdia e a Igreja. Mas para a formulação de seu pensamento ecumênico, o autor alemão teve que se aprofundar nos fundamentos da Eclesiologia que ele mesmo já tinha trabalhado: os livros Die Kirche Jesu Christi (2008b), que segue um esquema parecido a Jesus der Christus (2007) e Der
9 KASPER, 2012, p. 27.
10 KASPER, 2012, p. 22-23.
11 KASPER, 2012, p. 31.
12 KASPER, 2012, p. 24-25.
Gott Jesu Christi (2008a), Die Kirche und ihre Ämter (2009b) e Katholische Kirche: Wesen, Wirklichkeit, Sendung (2011) apresentam as categorias centrais de seu pensamento eclesiológico. Entretanto, não é possível deixar de lado os já citados Wege zur Einheit der Christen (2012) e Einheit in Jesus Christus (2013).
O pensamento eclesiológico de W. Kasper encontra-se muito mais sistematizado que o de J. Sobrino, apresentado no capítulo anterior. Ainda que seja necessário um percorrido por diversos livros do autor, ele possui textos em que apresenta claramente como entende a Igreja.
Merecem destaque as categorias “Igreja como sacramento universal da salvação” e a “Igreja como communio”. O autor percorre o caminho traçado pelo Concílio Vaticano II para a formulação de sua Eclesiologia recolhendo elementos da tradição bíblica e patrística, assim como referências do pensamento medieval, sobretudo escolástico, sobre a Igreja.
O ponto de partida do pensamento eclesiológico de W. Kasper é da fé na Igreja – credo (in) ecclesiam; credimus (in) ecclesiam – como testemunham os símbolos mais antigos. Isso traz como consequência o fato de que a Eclesiologia é duplamente uma ciência da fé: pressupõe o convencimento individual (Ich-Glaube), mas sobretudo a fé da comunidade (Wir-Glaube).
“Portanto, a Eclesiologia como ensinamento sobre a Igreja não é uma teoria elaborada desde fora da Igreja, mas uma reflexão da própria Igreja sobre si mesma e sua missão no mundo”13.