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1.4 Eclesiologia da Libertação e libertação na Igreja

1.4.2 A Igreja dos pobres

1.4.2.3 Extra pauperes nulla salus

Como é possível constatar, diversos elementos presentes na reflexão teológica de I.

Ellacuría também estão presentes nos escritos de J. Sobrino: o pobre como lugar social e teologal, o imperativo de historizar para teologizar e a centralidade do Reino de Deus. Não é, portanto, de se estranhar que as intuições de ambos os autores sobre a Igreja coincidam em diversos pontos. A afirmação de rico conteúdo eclesiológico extra pauperes nulla salus poderia nascer do pensamento dos dois, mas será J. Sobrino que a apresentará.

Trata-se de uma afirmação que parafraseia Orígenes228 e Cipriano de Cartago229: extra ecclesiam nulla salus – uma frase de complexo entendimento. Não somente em uma única, mas em diversas oportunidades ao longo da história, se quis entender e fazer entender que a ecclesia da frase é a Ecclesia Catholica, não entendida como comunhão católica, isto é, universal, mas como instituição. Evidentemente, nessa perspectiva a frase não é somente de difícil, mas de errado entendimento: a salvação não pertence à Igreja Católica, enquanto instituição, a salvação é de Deus e não está circunscrita somente aos limites da instituição católica. Como entender corretamente essa frase dos Santos Padres?

O melhor caminho é pela leitura da Constituição Dogmática sobre a Igreja do Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, especialmente de seus números 14 a 16. Deus criou toda a humanidade como uma família e a salvou como um povo, reconciliando-a em Jesus Cristo.

Cristo é o único mediador que salva a humanidade – só em Cristo há salvação (LG 14). Ele permanece presente na história por sua Igreja, que foi dotada de elementos visíveis e sociais e que peregrina pela mesma história até sua consumação escatológica.

A grande pergunta é: essa Igreja peregrina é necessária para a salvação? Como o próprio Concílio Vaticano II afirmou, ela é sinal e instrumento de salvação (LG 01). Pode-se dizer, portanto, que é necessária porque o próprio Jesus a constitui como seu sacramento. Também é necessária por ser objetivação da presença de Cristo no mundo; a Igreja mostra às mulheres e

227 SOBRINO, 1981, p. 142.

228Nemo ergo sibi persuadeat, nemo semet ipsum decipiat: extra hanc domum, id est extra ecclesiam, nemo salvatur. (Portanto, ninguém se convença, ninguém se engane: fora desta casa, isto é, fora da Igreja ninguém se salva.) (Hom. Jos. III,5)

229 Quod si haeretico nec baptisma publicae confessionis et sanguinis proficere ad salutem potest, quia salus extra ecclesiam non est. (Um herege não pode avançar para a salvação pelo batismo de confissão pública e sangue, porque não há salvação fora da Igreja.) (Ep. LXXIII, 21, 2)

aos homens, de todos os tempos, sua vocação mais profunda. É necessária porque mostra para toda a humanidade quem Deus é em Jesus Cristo; ele é o revelador de Deus e de seu amor, que humaniza a humanidade. É necessária porque é instrumento eficaz da salvação em todas as suas ações, que incluem os sacramentos (LG 14).

Por isso, a Igreja deve estar sempre em referência a Jesus e ao anúncio do Reino de Deus e se purificar constantemente para que ele e esse anúncio sejam claros e visíveis nela. A vinculação a Jesus Cristo conduz à vinculação com seu corpo histórico, que é a Igreja. Isso se dá porque o ser humano é um ser comunitário e social, logo, é impensável um projeto de salvação que não promova a vinculação dos seres humanos entre si (LG 01).

A Igreja é chamada a convocar todos os povos ao Reino para que possam gozar plenamente da presença de Deus (LG 15). Em nenhum momento, a necessidade da Igreja para a salvação deve ser entendida como exclusividade porque a própria Igreja reconhece que o Espírito de Deus possui caminhos, só por ele conhecidos, para conduzir a humanidade à plenitude do Reino (GS 22). Por fim, Lumen Gentium propõe o modelo dos círculos concêntricos para explicar a relação de toda a humanidade com Jesus Cristo e, portanto, com a Igreja (LG 16).

É claro que a Igreja mencionada na apresentação acima não é só a instituição católica, mas a Igreja de Jesus. Contudo, cabe a pergunta: se essa Igreja é a Igreja dos pobres, extra pauperes nulla salus? Para responder, seguir-se-á as ideias de diversos artigos de J. Sobrino que foram recolhidas pelo autor no capítulo terceiro do livro Fuera de los pobres no hay salvación: pequeños ensayos utópico-proféticos, publicado em 2007230.

A frase parte de uma análise de I. Ellacuría assumida por J. Sobrino: é preciso subverter a história, mudar sua direção. Como aquele postulou em uma conferência quase ao fim de sua vida, a civilização está enferma e só é possível reverter esse quadro doentio, que pode chegar a um desenlace fatídico e fatal, desde dentro da própria história. Qual é a civilização que está enferma? A civilização do capital, que faz da “acumulação do capital o motor da história e de sua posse e desfrute, o princípio de humanização. Em um mundo configurado pecaminosamente pelo dinamismo capital-riqueza é preciso suscitar um dinamismo diferente que o supere salvificamente”231.

Trata-se do desafio de superar a civilização do capital e fazer surgir a civilização da pobreza, nas palavras de I. Ellacuría, ou a civilização da austeridade compartilhada, nas

230 As referências apresentadas no trabalho seguirão a edição brasileira, publicada pelas Edições Paulinas em 2008.

231 ELLACURÍA, I. Utopía y profetismo desde América Latina. Un ensayo concreto de soteriología histórica.

Revista latinoamericana de Teología, San Salvador, v. 17, p. 141-184, may./ ago. 1989, p. 178.

palavras de J. Sobrino232. Mas não superar de qualquer forma; superar salvificamente o que não significa partir do zero, mas começar de novo e começar contra dentro da dialética pobre-rico.

É preciso uma ação histórica que reverta a pobreza massiva, a escandalosa distância entre ricos e pobres, a exploração das trabalhadoras e dos trabalhadores, a destruição ecológica e a perversão de conquistas fundamentais da sociedade como a democracia, os direitos humanos e a igualdade de gênero. Pode ser uma expressão que soe forte, mas é preciso reverter a prostituição do espírito que desumaniza o ser humano em grau superlativo233.

Só há um caminho para a superação almejada: acolher a contribuição das vítimas da história, dos pobres e oprimidos. Não se pode sequer pensar uma alternativa diferente para a subversão da história que não seja o despertar da utopia e da esperança deles. É impossível negar os sinais dos tempos e dizer que a pobreza está diminuindo – o enriquecimento de poucos não significa melhoria de vida para muitos. Vida melhor para poucos significa, de fato, condenação de muitos à morte lenta e, não poucas vezes, violenta. Trata-se de uma lógica cruel e perversa que tem como resultado a insensibilidade diante de tanto sofrimento234.

Parece que sempre se encontram desculpas para não enxergar a realidade, para não se deixar impactar por ela; à civilização do capital falta honradez para com a realidade. Essa falta de honradez se transforma em graves acusações contra Deus – onde está Deus diante de tanto sofrimento? – e contra o ser humano – onde está a racionalidade humana que é capaz de chegar à Lua, mas não consegue eliminar a fome? Nas palavras de I. Ellacuría, essa falta de honradez é o pecado do mundo, porque perverte a verdadeira imagem de Deus e a do ser humano:

Então, não só oikós, símbolo básico da realidade humana, está gravemente enfermo e necessita de salvação, mas também o ar que o espírito respira. É o encobrimento da verdade e a proliferação da mentira, o silêncio diante da desigualdade escandalosa entre ricos e pobres, o adormecimento de ricos – e também de pobres [...]235.

Uma solução aparente são as políticas para a diminuição da pobreza. Trata-se, porém, de uma solução simplista porque é avaliada somente a partir de avanços tecnológicos e pragmatismo político. Evidentemente, avanços tecnológicos e boas políticas são decisivos na eliminação da fome e acesso a infraestrutura básica, contudo o combate à pobreza e à miséria tem que incorporar em si elementos éticos. Pobreza e miséria não afetam uma espécie animal

232 MAIER, M. A civilização da pobreza e os desafios globais de hoje. In: AQUINO JÚNIOR, F., MAIER, M., CARDENAL, R. (Orgs.). A civilização da pobreza. O legado de Ignacio Ellacuría para o mundo de hoje. 1ª ed.

São Paulo: Ed Paulinas, 2014, p. 173.

233 SOBRINO, 2008, p. 68.

234 SOBRINO, 2008, p. 70-73.

235 SOBRINO, 2008, p. 74.

qualquer, mas seres humanos. O antigo ideal de fazer coincidir virtude e felicidade deve estar presente em toda empresa de diminuição da pobreza236.

Os exemplos de desumanização, na realidade atual, multiplicam-se, mas a pergunta que cabe a esta reflexão é a seguinte: em um mundo assim é possível encontrar salvação? “O que nos livrará deste mundo inumano e cruel?”237. A resposta será modesta; como já se afirmou mais acima, não há outro caminho exceto o de estabelecer uma relação direta entre os pobres e a salvação.

Extra pauperes nulla salus não significa que entre os pobres já se dá automaticamente salvação – isso também vale para a Igreja, como já foi apresentado. A frase, porém, significa que que sem eles não há salvação; os pobres são, portanto, necessários para a salvação. J.

Sobrino mostra que a compreensão de extra pauperes nulla salus se dá à maneira de mistagogia, isto é, pela introdução em um mistério que sobrepassa238.

Não se pode negar que a frase do autor tenha causado aversão. Mesmo que a afirmação de Orígenes e Cipriano seja uma frase de entendimento complexo e difícil, ela é muito mais fácil de se aceitar em sua versão original. A reformulação de J. Sobrino desafia a razão analítico- instrumental moderna: não é fácil aceitar que do não ilustrado provenha a salvação. Também é uma afirmação-limite, que exige uma análise das diversas contribuições que os pobres oferecem para a salvação. Mesmo assim, trata-se de uma formulação vigorosa, porque pode subverter o rumo dado à história pela civilização do capital.

Para começar a compreensão da frase de J. Sobrino, é preciso afirmar que, ao longo da história da Teologia, sempre houve uma relação entre os pobres e a salvação. A fé dos pobres sempre levou à indignação, à compaixão e à conversão, como a Conferência de Medellín remarca através da opção pelo pobre. Os horrores do mundo, a teodiceia, sempre estiveram presentes no pensamento teológico. Dos pobres depende a salvação como se lê no capítulo 25 do Evangelho segundo Mateus e, de acordo com a relevância que se dá a eles, o ser humano se torna sacramento da presença – ou da ausência – de Deus na história (Mt 5,16).

Entretanto, o que o autor propõe com sua formulação é ainda mais audacioso porque “se trata da opção de deixar que dos pobres venha a salvação”239. O primeiro a ser destacado é a experiência que muitos fazem ao se encontrar com os pobres: não há só negatividade entre eles, há algo bom. Há valores positivos que permitem a construção de uma civilização de

236 SOBRINO, 2008, p. 77.

237 SOBRINO, 2008, p. 85.

238 SOBRINO, 2008, p. 86.

239 SOBRINO, 2008, p. 88.

solidariedade. Não são poucos os que se encontraram com “alegria, criatividade, paciência, arte e cultura, esperança e solidariedade” no mundo dos pobres240.

É uma experiência dialética, porque entre os pobres se encontra uma humanidade mais humana à diferença do que encontraram no mundo dos ricos. Por essa razão, se converte em uma experiência salvífica porque re-cria esperança na humanidade. É uma verdadeira experiência da graça – da gratuidade – porque brota de onde menos se espera.

Esse algo bom é algo humanizante que cria uma lógica, a qual proporciona uma perspectiva diferente da realidade. Permite contemplar a salvação não como fruto do acúmulo de riqueza e do desenvolvimento tecnológico; salvação não é progresso. Para os não-pobres a experiência desse algo bom é experiência da graça, assim, a opção pelo pobre não significa, em primeiro lugar, dar ao pobre, mas receber dele.

Essa é a mesma lógica que está no núcleo da tradição bíblica, ainda que tenha sido esquecida em diversas ocasiões; essa é a mesma lógica da vida e morte de Jesus de Nazaré. Já no Antigo Testamento, a opção do Deus de Israel pelo pobre e oprimido é clara e evidente (Ex 3,7; Is 66,2). O pobre também se torna portador da salvação que vem de Deus, como o Servo do Senhor do profeta Isaías (Is 52,13-53,12); a salvação não vem do poder e da abundância.

Jesus e a salvação que ele traz se encaixam perfeitamente nessa tradição: o Novo Testamento deixa claro que sua origem histórica é humilde: “sabemos de onde ele vem” (Jo 6,41), de Nazaré, de um lugar pobre. Mas como o próprio Jesus experimentou historicamente a salvação? Ainda que os Evangelhos não deixem muito clara a resposta a essa pergunta, é uma questão crucial porque ele, como diz a Carta aos Hebreus, se colocou diante de Deus com preces e súplicas (Hb 5,7) até se converter em irmão maior na fé (Hb 12,2). Que Jesus é salvação para outros é claro, mas ele mesmo não teria experimentado a salvação de outros241?

Que ele a experimentou do Pai, é evidente, mas, em suas palavras “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25), há indícios de que os pequeninos, os pobres e humildes, tornaram-se Boa-notícia para ele. Sem pretensões de fantasiar muito, é possível ver que Jesus não era indiferente diante da fé do povo simples (Mc 5,34; 10,52; 12,44; 15,28; Lc 7,50).

Contudo, o mais decisivo para entender a opção pelo pobre na vida e morte de Jesus de Nazaré está em sua fundamentação teo-logal: a Palavra se fez carne (Jo 1,14), o Filho se esvaziou de si mesmo (Fl 2,7). O Altíssimo não só se abaixou ao ser humano, mas se abaixou

240 SOBRINO, 2008, p. 89.

241 SOBRINO, 2008, p. 92.

no ser humano. A trans-cendência se faz trans-descendência e con-descendência, torna-se acolhida amorosa242. Esta é a nova lógica.

Seguindo sua reflexão, J. Sobrino se pergunta qual é salvação e quem são os pobres que a oferecem. Sempre quando se fala de salvação há diversas atribuições possíveis: pessoal e social, histórica e transcendente, mesmo que nem sempre apareçam totalmente por separado.

Mas dada a realidade do mundo, merece destaque a salvação histórico-social de uma sociedade enferma. Salvação é o estado positivo de coisas e o processo que leva a esse estado. Em ambos os casos, a salvação se dá dentro de um processo dialético, quando não duélico243.

Como estado positivo de coisas, a salvação histórico-social pode ser entendida como vida contra a pobreza que mata, respeito contra o desprezo que exclui, liberdade contra as forças que oprimem, fraternidade que contempla a totalidade dos seres humanos como uma família e não só como uma mera espécie darwiniana, ar puro do espírito contra o que desumaniza – egoísmo, crueldade, individualismo, arrogância. E, assim como no Evangelho, pode-se falar de salvações – no plural – e não só salvação – no singular –, o que pode levar a uma interpretação a-histórica da salvação244.

Qual é o lugar de onde se teoriza essa salvação em plural? É claro que não pode ser um lugar supostamente universal e homogêneo. A Teologia latino-americana da Libertação nunca admitiu uma universalização, especialmente quando ela se apresenta como ideologia, como é o caso da globalização. O melhor lugar para teorizar a salvação em plural, portanto, é o mundo dos pobres.

A partir desse mundo, a salvação entendida como processo é libertação contra toda forma de opressão. Entretanto, não basta combater o que as estruturas geram de negativo, é preciso ir à sua raiz dessa negatividade. Por isso, a salvação entendida como processo também é redenção, que em sua compreensão bíblica exige a responsabilização pelo pecado. A compreensão cristã de redenção não é só a luta contra o mal desde fora, mas desde dentro. A verdadeira redenção acontece quando se carrega o pecado e quem carrega o maior peso do pecado da realidade atual são precisamente os pobres245.

E quem são esses pobres que carregam o pecado da realidade e oferecem salvação?

Antes de responder a essa pergunta, se recorre ao texto da Conferência Geral de Puebla que ressalta sua oferta soteriológica:

242 SOBRINO, 2008, p. 93.

243 BERNARDES, 2018b, p. 219.

244 SOBRINO, 2008, p. 95.

245 SOBRINO, 2008, p. 96.

[Os pobres independentemente de] sua situação moral ou pessoal, interpelam [a Igreja] constantemente chamando-a à conversão porque muitos deles realizam em sua vida os valores evangélicos de solidariedade, serviço, simplicidade e disponibilidade para acolher o dom de Deus. (n. 1147)

Esses são os pobres:

- os materialmente pobres: aqueles que não têm a vida assegurada, viver para eles é tarefa máxima e a proximidade da morte é fato certo (acepção econômica de pobres);

- os dialeticamente pobres: os empobrecidos e oprimidos, os que estão despossuídos do fruto de seu trabalho, quando não, são excluídos do seu próprio trabalho; também são privados de todo poder social e político, são considerados inexistentes em sua vida e em sua morte (acepção sociológica de pobres);

- os conscientemente pobres: aqueles que decidem pela mesma vida dos pobres materiais e sociais;

- os libertadoramente pobres: aqueles que transformam sua consciência da pobreza em compromisso popular e libertador, são conscientes de sua responsabilidade para com todos os pobres;

- os espiritualmente pobres: aqueles que vivem a materialidade com gratuidade, esperança, misericórdia, fortaleza nas perseguições e amor, um amor que os capacita para a entrega de vida pelos demais246.

Todos são chamados a ser pobres com espírito, nas palavras de I. Ellacuría. Trata-se de enxergar a pobreza desde sua dimensão teologal (a opção de Deus pelo pobre) e cristológica (Cristo está presente no pobre); isso torna a oferta de salvação para os não-pobres ainda mais radical.

Essa salvação histórico-social oferecida pelos pobres promove a superação da desumanização porque eles são portadores de verdade. Pelo simples fato de serem pobres, oferecem luz para que o mundo veja sua verdade. Eles fazem renascer a utopia, não como ou- topia – um ideal inalcançável, como a perfeição social e política –, mas como eu-topia – aquilo que é bom, aquilo para o qual deve haver lugar na história.

Trata-se da segurança do oikós, da existência e garantia de vida mínima para todos os seres humanos; esta é a utopia dos pobres. Correlativamente, os pobres proveem esperança – aquilo que se pode verdadeiramente esperar – e não só expectativa, como é comum no mundo

246 SOBRINO, 2008, p. 96-97.

da abundância. Sua fé vence a escuridão, sua esperança espera contra toda esperança (Rm 4,18), o que também pode ser chamado de santidade primordial247.

A salvação oferecida pelos pobres está marcada por formas históricas, pelos sinais de humanização como resistência, alegria, acolhida. Os pobres têm valores e produzem realidades positivas que oferecem direção e elementos de uma nova sociedade; como a lâmpada do Evangelho, eles iluminam seu redor (Mt 5,15), chegam a ser sal da terra e fermento do mundo (Mt 5,13-14) porque produzem salvação para além de si:

Há sinais de que os pobres são evangelizadores, são salvadores. A esplêndida experiência das comunidades de base como fermento de renovação da Igreja e como fator de transformação política, o exemplo não puramente ocasional de “pobres com espírito”, que se organizam para lutar solidária e martirialmente pelo bem de seus irmãos, os mais humildes e fracos, são provas do potencial salvífico e libertador dos pobres248.

Os pobres desencadeiam a solidariedade, a ternura dos povos. J. Sobrino a define como suportar-se mutuamente os desiguais. Porém, em uma análise mais aprofundada a solidariedade também significa dar e receber uns dos outros249. É um dar e receber em âmbitos diversos da realidade: os não-pobres podem dar ajuda material, econômica e os pobres, esperança, alegria, salvação.

A modo de conclusão é preciso resgatar algumas reflexões e relacioná-las com o ensinamento teológico sobre Deus, Cristo, a salvação e a Igreja. A Conferência Geral de Medellín chegou à formulação que o Concílio Vaticano II somente esboçou: a Igreja dos pobres. O mistério de Deus foi reformulado, no período pós-conciliar, pela Igreja latino- americana, a partir de sua predileção pelo pobre. Não se tratava somente de buscar a Deus, mas buscá-lo onde ele está: nos pobres deste mundo.

A mesma reformulação se deu com o mistério de Cristo, como já foi possível constatar na primeira parte deste capítulo – o pobre é o lugar eclesial e social da Cristologia. Mas também é possível realocar a Soteriologia – extra pauperes nulla salus. Trata-se de repensar o dinamismo próprio da salvação de Deus a partir do mundo dos pobres, do mundo dos oprimidos, o lugar histórico mais próprio da salvação.

E a Igreja? Como localizá-la dentro da reflexão apresentada? A Igreja é lugar de salvação, em primeiro lugar, não porque nela não há pecado – basta relembrar a afirmação dos

247 SOBRINO, 2008, p. 100-101.

248 ELLACURÍA, I. Pobres. In: FLORISTAN, C. Conceptos fundamentales de pastoral. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1983, p. 796.

249 SOBRINO, 1994, 213-250.

Santos Padres que a chamaram de casta meretrix. Se a Igreja é lugar de salvação é porque nela está Jesus Cristo e porque ela continua sua missão de anunciar o Reino de Deus, é o Espírito de Cristo que produz nela frutos de santidade. Porém, a Igreja não pode perder o imperativo de se historizar e isso acontece, por excelência, no mundo dos pobres.

O IV Concílio de Latrão formula: “pois entre o criador e a criatura não se pode observar tamanha semelhança que não se deva observar diferença maior ainda”250 (DH 806). Há dessemelhança e descontinuidade entre a Igreja e o mundo dos pobres, porém, também há semelhança e continuidade. A Igreja tem um caráter sacramental histórico, que se destaca mais se ela se torna Igreja dos pobres. Os pobres remetem a Deus, mas também remetem à Igreja e à sua missão de anunciar na história o Reino de Deus251.

Pensar a Igreja sem os pobres – sem as dores da história – é como pensar Cristo sem a cruz. Pensar a salvação sem os pobres é pensar em uma situação extrinsecista incapaz de assumir o pecado do mundo e, portanto, incapaz de redimi-lo. J. Sobrino conclui sua reflexão sobre a frase extra pauperes nulla salus citando I. Ellacuría. Aqui se fará a mesma coisa, se trata de um texto sobre a opção pelos pobres e de se deixar salvar por eles:

Os pobres salvarão o mundo, já o estão salvando, embora ainda não. Buscar a salvação por outro caminho é erro dogmático e histórico. Se isso implica esperar contra toda esperança, é, definitivamente, uma confiança segura de que se conseguirá tudo isso um dia. Os pobres continuam sendo a grande reserva da esperança e da espiritualidade humanas252.