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Estruturas concretas de uma Eclesiologia de communio

2.4 A Eclesiologia de Walter Kasper

2.4.2 A Igreja como communio

2.4.2.3 Estruturas concretas de uma Eclesiologia de communio

W. Kasper insiste que a Eclesiologia de communio não pode permanecer como uma teoria abstrata; é preciso que alcance toda a vida eclesial, em seus mais diversos níveis. Para tal, o resultado do Vaticano II é decisivo: em primeiro lugar, retomando a Tradição bíblica o Concílio apresenta a Igreja como Povo peregrino de Deus (LG 09-17). A Igreja é a casa de Deus construída sobre a Pedra angular, outrora fora rejeitada pelos construtores, mas sobre a qual as demais pedras se sustentam (1Pd 2,4-10); são pedras vivas, são as batizadas e os batizados que participam unidos do único sacerdócio real de Jesus Cristo275.

Todas e todos, que pelo Batismo e pela Crisma constituem o Povo eleito de Deus, participação do tríplice múnus de Jesus: profeta, sacerdote e rei (LG 32-27). A Eclesiologia do Povo de Deus redefiniu a relação entre as leigas e os leigos e a hierarquia; não que a distinção entre leigas e leigos e dirigentes das comunidades tenha sido esquecida, mas não está em primeiro plano. A vida das comunidades e das dioceses foi decisivamente transformada por essa concepção conciliar; a consciência da dignidade e da missão própria de leigas e leigos,

273 KASPER, 2008b, p. 75.

274 KASPER, 2008b, p. 77. Sowohl die Verkündigung des Evangeliums wie die Feier der Sakramente geschehen im Heiligen Geist. Die Bedeutung des Heiligen Geistes für die Sakramente wurde vor allem durch die Neubelebung der Epiklese, d. h. die An- und Herabrufung des Heiligen Geistes bei der Feier der Eucharistie und der anderen Sakramente herausgestellt. Die Kirche insgesamt hat letztlich eine epikletische Struktur. Ihre Vollmacht ist kein selbstherrliches Verfügen über das Wort Gottes und die Gnade, sie muss vielmehr immer wieder hören, was der Geist in den Gemeinden sagt (Offb 2,7.11.17.29 u. a.). Bei der Feier der Sakramente kann sie nur vollmächtig um das Kommen des Heiligen Geistes bitten. Die Kirche lebt aus dem beständigen Gebetsruf: Veni, Sancte Spiritus!

275 KASPER, 2008b, p. 80-81.

assim como de sua responsabilidade pela Igreja, foram fortalecidas e um novo relacionamento entre elas e eles e os ministros ordenados surgiu.

Entretanto, não se pode confundir laós tou theou com dêmos; não se pode confundir a noção teológica de Povo com a moderna concepção sociopolítica de povo. O sacerdócio comum de todos os fiéis, cuja magna charta se encontra na já citada Primeira Carta de Pedro, conduz a uma compreensão de Povo dentro da Nova Aliança selada por Jesus (Lc 22,20). Na última ceia, Jesus antecipou sua morte na cruz e sua grande oferta não era de algo, mas de si mesmo; ele se ofereceu ao Pai e aos demais. Sua vida se entende, portanto, como um “ser-para-Deus” e “ser- para-os-outros” 276.

Na mesma ocasião, Jesus instituiu ministros que falam e atuam em seu nome (2Cor 5,20). Dele brota seu chamado e sua autoridade (exousía); por ele, devem anunciar e ensinar, celebrar os sacramentos e estar disponíveis para o cuidado pastoral da comunidade. Falar e atuar em nome de Jesus significa falar e atuar de acordo com ele, que não “veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). Por tudo isso, os ministérios instituídos por Jesus só são compreendidos como seguimento dele e serviço a todo o Povo de Deus e à sua missão.

A mesma reflexão também deve ser entendida para as leigas e os leigos: elas e eles não são meros braços do clero e tampouco podem ser definidos como não-clero. Elas e eles são cristãs e cristãos, que vivem no meio do mundo e realizam sua vocação batismal no matrimônio e na família, no mundo do trabalho, na cultura e na política277. Toda a Igreja é chamada a ser fermento no mundo, mas as leigas e os leigos possuem um papel especial nessa missão, como remarca o Concílio Vaticano II (LG 31). Isso também se pode dizer da missão de santificar o mundo, que pertence à toda a Igreja, mas que é realizada, em primeiro lugar, pelos ministros ordenados; leigas e leigos, porém, também devem santificar o Povo de Deus e o mundo na liturgia, na catequese, no estudo teológico, no serviço e pela participação ativa na edificação das comunidades (LG 31; 33; 37; AA 01; 17278).

Sem essa nova compreensão da vocação das leigas e dos leigos, a Igreja não se faria presente em diversas realidades do mundo contemporâneo. A separação, na qual tanto se insistiu ao longo do segundo milênio cristão, da missão no meio do mundo e da missão de santificar tornou-se obsoleta. Todas as batizadas e todos os batizados recebem o dom do

276 KASPER, 2008b, p. 82.

277 KASPER, 2008b, p. 83.

278 CONCÍLIO VATICANO II. Decreto Apostolicam Actuositatem sobre o apostolado dos leigos. Roma: 1965.

Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat- ii_decree_19651118_apostolicam-actuositatem_po.html. Acesso em: 16 mar. 2022.

Espírito Santo e são por ele instruídos para se unirem em um único sentido da fé (sensus fidelium).

Batizadas e batizados são responsáveis pela Igreja, como já se mencionou anteriormente, e sua missão. Ainda que os serviços que cada uma e cada um possam realizar sejam distintos, estão ordenados à unidade da própria Igreja o que traz como consequência o desenvolvimento de um participativo e comunicativo estilo de vida e condução da comunidade eclesial279. Todos os fiéis são sujeitos da missão salvífica da Igreja, não somente seus objetos.

Cipriano de Cartago soube expressar muito bem essa realidade quando afirmou que não gostaria de fazer nada sem o conselho de seus presbíteros e o consentimento do povo (Ep. XIV, 1.4)280.

Nos dias de hoje, a corresponsabilidade de todas e todos pela Igreja e sua missão implica uma mudança na valorização sobretudo das mulheres no âmbito eclesial: é preciso reconhecer seu espaço, ouvi-las e criar possibilidades de cooperação (AA 09). “Não se trata em primeiro lugar de uma questão de igualdade, mas uma exigência que surge da natureza da Igreja como communio281. Não é um mero acaso que teologicamente a Igreja seja descrita, em várias passagens do Novo Testamento, como mulher e virgem. Assim como é impensável muitos serviços nas comunidades, como a catequese, o cuidado das famílias e dos enfermos, sem a presença das mulheres; sua presença nos organismos de condução da Igreja teria que ser mais cada vez mais assegurada282.

Também pertence ao estilo participativo da Igreja contemplar os jovens não só como objeto, mas sujeitos ativos da Evangelização. As jovens e os jovens se mostram especialmente receptivos ao que, de fato, acontece na sociedade e no mundo, assim como ao que está por vir283. Pode ser que muitos tenham medo e receio dessa Igreja Povo de Deus que é multifacética e prefiram olhar para tempos passados, nos quais tudo era certo e definido; todavia, empreender esse caminho de retorno não é possível teológica e socialmente. Aquelas e aqueles que já vivenciaram uma comunidade rica em atividades e serviços e a corresponsabilidade de todas e todos pela Igreja afirmarão que a apresentação da Igreja como Povo de Deus significa um grande enriquecimento para a Eclesiologia.

279 KASPER, 2008b, p. 84.

280 CYPRIEN de Carthage. Correspondance I. 2ª Éd. Paris: Soc. D’Éd. “Les Belles Lettres”, 1962 (Collection des Universités de France).

281 KASPER, 2008b, p. 84. Das ist nicht in erster Linie eine Frage der Gleichberechtigung, sondern eine Forderung, die sich aus dem Wesen der Kirche als communio ergibt.

282 W. Kasper destaca a necessidade de assegurar espaço para as mulheres nos organismos de condução da Igreja, sem desconhecer, porém, a proibição da ordenação sacerdotal de mulheres na Igreja Católica (KASPER, 2008b, p. 85). Este trabalho não entrará em detalhes nessa problemática porque foge de seus objetivos. Contudo, o tema, mesmo que tenha sido definido pelo Magistério (Ordenatio sacerdotalis 04), não deixa de suscitar debates e questionamentos.

283 KASPER, 2008b, p. 85.