Conhecimento histórico e sua
Quadro 12.1: Modelos de conhecimento, de acordo com a caracterização de Adam Schaff
Modelos Objeto do
conhecimento
Sujeito cognoscente
Conhecimento como produto do processo
cognitivo
1º
Existe e pode ser co- nhecido: hipótese do realismo. É o elemento ativo no processo de conhecimento.
Individual, visto em suas determinações biológicas, fi siológi- cos. É o elemento passivo no processo de conhecimento.
Teoria mecanicista do refl exo: o sujeito re- fl ete o objeto e assim conhece. Corresponde ao materialismo pré- marxista e vulgar e a certas formas de positivismo
2º
As coisas em si não podem ser conheci- das: as hipóteses a este respeito podem ser variadas (Solip- sismo, imanentismo, agnosticismo, etc.) O objeto do conhecimen- to é uam construção do sujeito.
Individual visto em suas determinações subjetivas e psicoló- gicas. É o elemento ativo no processo de conhecimento.
Diversas teorias idealistas do conhe- cimento: relativismo, pragmatismo, conven- cionalismo. Corres- ponde, por exemplo, ao neopositivismo e ao historicismo alemão.
3º
Existe e é estruturado em si mesmo e pode ser conhecido: realis- mo. Elemento ativo no processo de conheci- mento.
Coletivo, visto em suas determinações socio- históricas (através do processo de trabalho).
Elemento ativo no processo de conheci- mento.
Teoria modifi cada do refl exo: o sujeito (cole- tivo) conhece através de um processo de apropriação da na- tureza, pelo trabalho socio-historicamento determinado, o qual modela o próximo homem. Corresponde ao marxismo.
A opção por um dos modelos já nos orienta na adoção de uma determinada perspectiva de verdade. Existem mais do que três modelos, mas devido ao seu caráter metafísico e por vezes místico, não possuem valor heurístico.
Schaff vai indicar o terceiro modelo, identifi cado com a teoria modifi cada do refl exo, como aquele que avança na proposição de um conhecimento histórico que considere tanto a dimensão humana e social do objeto de estudo quanto a capacidade desse objeto em identifi car-se ao sujeito, que possui as mesmas características do objeto, ou seja é humano e social.
Dentre as principais atribuições de tal modelo para o desenvolvimento do conhecimento científi co, Schaff destaca três aspectos:
1° aspecto - a problemática do sujeito: O homem como conjunto de relações sociais, sendo o sujeito histórico de natureza transindividual. Segundo tal conceituação o sujeito histórico é condicionado socialmente pelas relações que estabelece com outros sujeitos e com o mundo social que o envolve. Assim, avalia Schaff:
Só o indivíduo humano concreto, percebido em seu condicionamento biológico e no seu condicionamento social, é o sujeito concreto da relação cognitiva. (...) o sujeito é sempre ativo, que introduz (...) algo de si no conhecimento que é então sempre, numa acepção determinada destes termos, um processo subjetivo-objetivo (...) o que diferencia o homem do animal e que se manifesta na sua aculturação, no fato de ser ao mesmo tempo o produto e o produtor da cultura (SCHAFF, 1980, p. 70).
O primeiro aspecto, portanto, enfatiza os condicionamentos sociais no processo de produção de conhecimento. Dentre tais condicionamentos vale destacar: dinâmica das percepções ligadas
Valor heurístico ou heurística diz respeito ao método analítico para o desenvolvimento da verdade, ou seja, inclui um conjunto de procedimentos de análise para se atingir a um conhecimento verifi cável; ciência auxiliar da história que estuda a pesquisa de fontes.
à linguagem e ao aparelho conceitual que recebemos da sociedade através da educação; bem como o sistema de valores ligado ao grupo ou à classe de onde provém o indivíduo.
2° aspecto – a problemática do objeto: Segundo a teoria modifi cada do refl exo, o objeto: existe independentemente do sujeito;
é fonte exterior de percepção; estabelece uma relação objetiva com o sujeito e é passível de ser conhecido através dessa relação.
Dentro dessa perspectiva, é possível estabelecer as condições de objetividade do conhecimento de acordo com os seguintes princípios:
a) Defi nir objetivo: o que vem do objeto.
Entende-se por ‘objetivo’ o conhecimento que refl ete (numa acepção determinada do verbo “refl etir”) no espírito que conhece o objeto existindo fora e independentemente deste (ao contrário do conhecimento “subjetivo” que cria o seu objeto) (SCHAFF, 1980, p. 80).
b) Objetivo é o que é válido para todos, assim, diz respeito ao conhecimento que tem um valor universal e não apenas individual.
c) Objeto é o que é livre de emotividade, portanto, de parcialidade.
Neste sentido, as condições de existência do objeto do conhecimento histórico residem na objetividade do passado, que existe em si mesmo e não é uma mera criação do historiador. O conhecimento produzido tendo o passado como objeto de estudo deve ser universal, ou seja, não pode estar comprometido com a abordagem de apenas um indivíduo e, portanto, deve incorporar as regras defi nidas coletivamente pelo ofício. Por fi m, não pode ser o resultado de um julgamento de valor; deve ser o resultado da busca pela dimensão histórica dos objetos.
3° aspecto – a introdução do conceito de “praxis”: Segundo
Assim, ao conhecer, os indivíduos já realizam uma atividade transformadora do real: transformam-se em sujeito do conhecimento.
Portanto, Marx defi niu o conhecimento como uma atividade prática concreta do homem.
Colocados esses três apectos, que orientariam um modelo epistemológico de uma história crítica, Schaff levanta a seguinte questão: como conceber um conhecimento objetivo numa relação onde o sujeito do conhecimento tem um papel ativo?
Para dar uma resposta a essa indagação, o autor introduz a idéia do conhecimento relativo em oposição ao conhecimento absoluto. Afi rma que o conhecimento é sempre um processo, nunca algo pronto, e que existe sempre um dado subjetivo na relação do conhecimento proveniente da própria situação do sujeito. Ou seja, os usos que faz da linguagem, assim como os valores sociais do próprio sujeito. Assim, o processo de conhecimento é sempre relativo a um “sujeito transindividual” e às condições sócio-históricas do objeto. Através do processo de conhecimento, a coisa deixa de existir em si mesma e passa a existir para nós: de coisa em si passa a coisa para nós.
Na sequência, apresenta a problemática da verdade. Dentro da perspectiva da epistemologia, a questão da verdade se coloca em termos de pares de oposição: verdade absoluta em contraposição a verdade relativa, e verdade total em contraposição a verdade parcial. Na perspectiva da teoria modifi cada do refl exo, a verdade é caracterizada como processo:
O objeto do conhecimento é infi nito, quer se trate do objeto considerado como a totalidade do real ou do objeto percebido como qualquer um dos seus fragmentos e aspectos. Com efeito, tanto o real na sua totalidade como cada um dos seus fragmentos são infi nitos na medida em que é infi nita a quantidade de suas correlações e das suas mutações no tempo. O conhecimento de um objeto
infi nito: o processo de acumulação de verdades parciais.
Neste, e por este processo, enriquecemos sem cessar o nosso conhecimento, tendendo para os limites que é o conhecimento completo, exaustivo, total que, como o limite matemático, não pode ser atingido num único ato cognitivo, permanecendo sempre um dever infi nito (SCHAFF, 1980, p. 91).
Atende ao Objetivo 2
2. A epistemologia da História volta-se para a defi nição das condições de produção do conhecimento histórico. Segundo os três modelos de conhecimento apresentados, a História, como disciplina, se modifi caria substancialmente. O objetivo desta atividade é, num exercício de reconhecimento e adaptação, apresentar qual o tipo de história que estaria associado a cada um dos modelos.
Comentário
Os modelos identifi cados por Schaff são três: mecanicista, idealista e realista.
No primeiro caso, poderíamos associar a história tradicional que tomaria o documento como a prova do que “realmente aconteceu” e reduziria o conhecimento histórico a descrição dos grandes fatos e seus personagens.
No segundo caso, o passado seria uma invenção do historiador, que teria toda a liberdade para interpretar os dados segundo a sua própria vontade. Pois, dentro dessa perspectiva, o conhecimento é produzido dentro da consciência do sujeito, sem a existência real do objeto.
Seria o caso de uma abordagem dita pós-moderna da história.
No terceiro caso, o passado teria existido na sua condição objetiva de vivências, experiências, processos e confl itos que em algum momento existiram, mas cuja existência é somente acessível ao presente através de seus vestígios, rastros e documentos. Nesse sentido, o sujeito interpretaria o passado através de tais pistas, mediado por um trabalho de compreensão e explicação, por meio de conceitos e referências teóricas próprias desse sujeito, não como indivíduo solitário, mas como integrante de uma comunidade de ofício – os profi ssionais de história. Dessa forma, o conhecimento histórico, tal como o terceiro modelo propõe, é objetivo, pois aposta na materialidade do passado. No entanto, é parcial, pois é relativo a um sujeito: daí ser também infi nito. Portanto, a história se reescreve, constantemente, à luz de novos objetos e novas abordagens.