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Conhecimento, lógica e epistemologia

No documento Teoria da História (páginas 34-41)

raciocínio válido, no que diz respeito à sua forma, embora sejam falsas todas as proposições que o compõem.

Um raciocínio é composto por uma ou mais premissas e termina com uma conclusão. Embora se faça a separação da validade de um raciocínio da verdade das proposições componentes, há no entanto uma relação entre os dois conceitos, de validade e verdade, que é constitutiva de qualquer raciocínio válido: um raciocínio não pode ser considerado válido se a partir de premissas verdadeiras se chega a uma conclusão falsa (LÓGICA, 2008).

O termo lógica, tal como é utilizado pelo senso comum, associa-se à noção de coerência de um raciocínio, do tipo:

“isso tem lógica”; “é lógico que eu tenha agido dessa forma”.

Ou ainda, pode referir-se à maneira de raciocinar ou de agir de um determinado indivíduo ou grupo. Nesse caso, teríamos:

“a lógica da criança segue princípios diferentes dos do mundo adulto”; “a lógica do seu marido é outra”; ou ainda, “os loucos, bêbados e apaixonados possuem uma lógica semelhante”.

Entretanto, no que diz respeito à teoria e fi losofi a do conhecimento, a noção de lógica envolve um conjunto de defi nições que apontam para o fato de que esse termo foi apropriado de diferentes maneiras pelas correntes teóricas. Assim, acaba assumindo uma complementação que especifi ca claramente a que tipo de lógica se está referindo:

lógica formal, lógica das relações; lógica das proposições; lógica booliana, lógica matemática; lógica difusa, etc.

Do ponto de vista fi losófi co, existem três defi nições para o termo lógica:

1. Na tradição clássica, que envolve pensadores como Aristóteles e São Tomás de Aquino, lógica signifi ca o conjunto de estudos que visam determinar os processos

2. Para a tradição de tendência empirista e positivista, lógica signifi ca o conjunto de estudos que expressam em linguagem matemática as estruturas do pensamento, deduzindo-as de um pequeno número de afi rmações incontestáveis -os axiomas-, com a intenção de criar uma linguagem rigorosa adequada ao pensamento científi co.

3.Conjunto de estudos originados dos escritos do fi lósofo alemão Friedrich Hegel que tem por fi nalidade a determinação de categorias racionais válidas para a apreensão da realidade concebida como uma totalidade em permanente transformação, a denominada lógica dialética (Novo Dicionário Aurélio, versão eletrônica, verbete Lógica).

A epistemologia debruça-se sobre a relação sujeito/objeto, partes integrantes do processo de produção do conhecimento.

É importante distinguir uma epistemologia normativa, que limita- se a reduzir o processo de crítica das teorias a um recurso de demonstração de lógicas falsas, e a epistemologia genética, que dedica-se ao estudo do processo histórico de superação dos estágios de conhecimento, reconhecendo que este é um processo que a cada nova descoberta se torna mais complexo.

Assim, a epistemologia preocupa-se em esclarecer o relacionamento estabelecido entre os elementos constituintes do processo de conhecimento: sujeito, objeto e condições para que o conhecimento seja produzido. As questões levantadas por esta disciplina dizem respeito à problemática fundamental do conhecimento que consiste em saber se suas estruturas ou formas dependem do sujeito, do objeto ou de uma inter-relação entre sujeito e objeto.

Podemos, para fi ns didáticos, indicar três blocos de perguntas

1° Bloco de indagações: relativas à relação sujeito/objeto

• As operações ou atividades do sujeito criam ativamente as formas de conhecimento e organizam seu objeto?

• As formas de conhecimento serão, ao contrário, simples abstrações das propriedades do objeto que o sujeito do conhecimento se limita a registrar?

• Ao se admitir a primeira possibilidade, será possível o conhecimento das coisas em si?

2° Bloco de indagações: relativas à problemática da verdade

• Como se tem acesso a conhecimentos válidos?

• Quais são os elementos que intervêm na constituição de tais conhecimentos?

3° Bloco de indagações: relativas às condições da atividade de conhecer

• Em que medida conhecemos?

• Em que medida podemos ampliar os limites do que atualmente conhecemos?

Esses três blocos de questões caracterizam as duas hipóteses básicas que defi nem a produção do conhecimento científi co:

realismo e determinismo. Segundo o realismo, tanto o mundo exterior ao sujeito quanto o próprio sujeito existem em dimensões separadas, mas associadas. O determinismo, por sua vez, trata em primeiro lugar de afi rmar que as coisas e os acontecimentos são determinados pela ação dos seres humanos (determinismo ontológico) e, em seguida, de pretender que é possível o conhecimento integral dos fatos e de seus modos de ocorrência (determinismo epistemológico).

Existem dois tipos de determinismo: o restrito e o amplo. O restrito, tanto ontológico quanto epistemológico, pertenceu a uma etapa da história do conhecimento científi co, em que se supunha a existência de um número limitado de leis que regiam o universo.

Superado tal pressuposto, tanto do ponto de vista ontológico quanto epistemológico, a questão do determinismo volta-se para as condições de produção do conhecimento, ligadas também a uma

De acordo com o Dicionário Aurélio, a ontologia designa parte da fi losofi a que trata do ser enquanto ser, isto é, do ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres.

Assim, os estudos de questões relacionadas à noção de uma natureza humana dos problemas da consciência e da vida interior do ser integram a ontologia como uma dos campos

Sobre o determinismo ontológico e epistemológico, vale apresentar as considerações de Luc Ferry, nas quais evidencia a impossibilidade de uma causalidade natural para os fatos e as coisas, deslocando para as condições de conhecimento e para a noção de possibilidade as formas de determinação das coisas e dos fatos:

Com efeito, na sua forma clássica, o determinismo defende que todo efeito possui uma causa situada na natureza. Esta causa é, ela mesma, necessariamente o efeito de uma outra causa também presente na natureza que, conseqüentemente, é, por sua vez, efeito de outra causa, e assim sucessivamente…

Isto tem como consequência que o determinismo seja, como idéia, insustentável: ou detém a cadeia das causalidades, como Leibniz faz ao propor uma causa primeira (Deus, a Natureza, a História ou qualquer outra coisa que queiram), mas, no exacto momento em que fi nalmente se quer fundar o determinismo, está-se a negá-lo porquanto esta causa primeira, não tendo causa, infringe-o logo que é proposta (dado que o determinismo, ao afi rmar que toda a causa tem uma causa, é obrigado a rejeitar a ideia de uma causa inicial); ou deixa-se aberta a regressão até ao infi nito, o que signifi ca que o efeito nunca é determinado nem explicado, dado que não é possível considerar que uma explicação que se perde no infi nito seja uma verdadeira explicação. Paradoxalmente, o determinismo revela-se, também, tão indemonstrável, tão impensável como a sua inversa (a hipótese de uma liberdade de escolha permitindo inaugurar séries de acções no mundo). (…)

Atende ao Objetivo 1

1. Segundo a defi nição de Marc Bloch, “a história é o estudo das sociedades humanas no tempo”. De acordo com essa defi nição, quais são os principais elementos que estão em jogo na produção do conhecimento histórico do ponto de vista epistemológico? A seguir, algumas dicas para facilitar o seu trabalho:

a. Delimite quais são os elementos presentes na produção de qualquer tipo de conhecimento;

b. Caracterize qual é o objeto de estudo da História.

Se se quiser ser verdadeiramente racionalista, é necessário, parece-me, manter o determinismo no plano teórico – científi co – não como uma verdade ontológica que valeria pelas coisas em si, mas como um princípio metodológico indefi nidamente aplicável, e, por outro lado, conservar a ideia de liberdade como um postulado, também ele certamente indemonstrável e infalsifi cável, mas de que não é necessário nem desejável, de um ponto de vista ético, abster-se. Porque parece, no mínimo, claro que a idéia de ética normativa é absolutamente incompatível com a hipótese de um determinismo ontológico generalizado (FERRY, 19--, p.10).

Comentário

O importante na resposta é considerar que para a produção do conhecimento, competem:

um sujeito do conhecimento, um objeto sobre o qual esse sujeito se debruça e as condições de interação entre sujeito e objeto.

No caso da História, seguindo a defi nição de Bloch, o objeto de estudo sobre o qual os historiadores se debruçam são as sociedades humanas no tempo. O que isso implica em termos epistemológicos? A História é uma disciplina na qual sujeito e objeto são da mesma natureza, pois ambos são humanos e vivem em sociedade. O diferencial são justamente as condições que mediam a relação entre o sujeito e o objeto históricos, qual seja o tempo.

Assim, o tempo passado se inscreve na produção do conhecimento histórico como um elemento que o diferencia, por exemplo, da Antropologia e da Sociologia, que também lidam com a sociedade humana.

Assim, sujeito e objeto do conhecimento histórico, apesar das suas afi nidades, são distanciados pelo tempo. Portanto, esse passado, e essa sociedade humana passada, só podem ser tomados como objeto de estudo através dos seus rastros, vestígios e documentos. Portanto, uma epistemologia da História deve considerar a afi nidade entre sujeito e objeto de conhecimento, bem como a necessária mediação dos documentos como condição para a produção do conhecimento histórico. Sem referências, o passado perde a sua existência, sendo impossível a produção do conhecimento sobre algo que não existe.

Conhecimento histórico e sua

No documento Teoria da História (páginas 34-41)