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História e teoria social

No documento Teoria da História (páginas 173-180)

A disciplinarização do corpo nas fábricas e a noção de trabalho associada à perspectiva de dominação do corpo dos sujeitos históricos e às atitudes em relação ao corpo feminino poderiam ser mais bem desenvolvidas em compasso com a sociologia da cultura.

Enfi m, o fundamental é destacar que as fronteiras em relação às ciências sociais, incluindo-se aí a História num programa de pesquisa, são perfeitamente abolidas.

aqueles que se dedicam ao estudo das sociedades. (...) Decidi, portanto, empregar a expressão “teoria social”

(que inclui “teoria cultural”), (...) essa opção não implica a premissa de que as teorias genéricas são tudo o que os historiadores provavelmente encontram de interessante na sociologia e em outras disciplinas. Alguns conceitos, modelos e métodos empregados nessas disciplinas tam- bém têm suas aplicações no estudo do passado, embora estudos de caso de sociedades contemporâneas possam sugerir comparações e contrastes bastante produtivos com relação a séculos anteriores. (...) Continuo a acredi- tar que Marx e Durkheim, Weber e Mallinowski – para não mencionar outros – ainda têm muito a nos ensinar”

(BURKE, 2000, p. 9).

As refl exões de Burke (2000) são bastante úteis para pontuar aspectos da relação entre a História e as demais disciplinas que têm o mesmo objeto de estudo – as sociedades humanas e seus sujeitos –, com a diferença de que na História, como vimos em aulas anteriores, o debate sobre o conceito de tempo é fundamental.

Dentre os aspectos levantados por Burke (2000), destaca-se, em primeiro lugar, a perspectiva de uma abordagem da história que dê conta do conjunto das relações sociais, mesmo que a temática tratada ou, ainda, o objeto de estudo específi co, seja a trajetória de um indivíduo, como foi o caso da escrava Liberata, estudado na aula passada.

Em segundo lugar, que essa relação se elabora, por um lado, do ponto de vista teórico, na adoção de uma linha de interpretação que explique a dinâmica das relações sociais segundo conceitos específi cos. Por exemplo: uma abordagem marxista vai trabalhar com o conceito de classe social, para explicar a dinâmica de organização dos diferentes grupos de uma sociedade. O conceito de classe social é um conceito da tradição teórica marxista e a sua aplicação deve levar em conta os debates dentro dessa linha.

Por outro lado, do ponto de vista metodológico, essa mesma relação se elabora através do uso de modelos e métodos provenientes de outros campos. Por exemplo: o estudo das imagens fotográfi cas, para se analisar as formas de comportamento e as representações sociais de uma determinada época, se utiliza dos conceitos e métodos da Semiótica para compreender o processo de produção visual de sentido. Assim, a série de fotografi as é trabalhada como uma mensagem cujos códigos de organização seguem determinada lógica que pode ser explicada por conceitos dessa disciplina.

Ambos os aspectos se complementam, tendo em vista que não se escreve a História sem uma teoria que explique e compreenda a lógica de organização das sociedades humanas. A ausência de um quadro teórico e metodológico numa pesquisa histórica leva necessariamente à produção de trabalhos descritivos que não se descolam do uso limitadamente empírico da documentação. Afi nal de contas, como já foi dito em outras aulas, as fontes históricas não falam sozinhas: é necessário que perguntas lhes sejam feitas.

Entretanto, a forma como a História se aproximou da teoria social, ao longo do século XX, não foi nem simples nem linear.

O historiador francês Jacques Revel, em seu artigo intitulado “História e Ciências Sociais: uma confrontação instável” (1998), discute a tensa relação entre História e Ciências Sociais, tomando a noção de interdisciplinaridade como elemento norteador desta relação. Revel (1998) dialoga com três tradições (incluindo a que Braudel pode ser reconhecido) constituídas, desde fi ns do XIX e ao longo do século XX, que pautaram a produção do conhecimento social na França. Cada uma dessas tradições elaborou uma forma de se propor a relação interdisciplinar, levantando, cada qual, um problemática de caráter epistemológico diversa. Apesar de reconhecer que a problemática da tensão entre História e Ciências Sociais é mundial, Revel opta por tratar da peculiaridade do caso francês.

A primeira tentativa de estabelecer uma unidade para as Ciências Sociais é incentivada pela sociologia do século XIX,

Durkheim. Segundo tal tendência, todas as disciplinas humanísticas deveriam se considerar como especializações da única Ciência social – a sociologia – a única dotada de um método científi co apto a estabelecer leis gerais do comportamento humano. Um modelo de compreensão do social organizado sob forte inspiração do modelo naturalista. Tal postura sofreria oposições a partir de diferentes tendências: tanto dos historiadores tradicionais quantos de outros, mas empenhados em dialogar com a crise da razão cientifi cista que se disseminava no debate intelectual.

A partir dos anos de 1920, no bojo da crise de hegemonia do paradigma cientifi cista/naturalista, surgem novas propostas de se pensar a relação entre as disciplinas das ciências do homem;

dentre essas, destaca-se aquela que propunha a História como a disciplina-síntese dessas ciências. A História, por lidar com a complexidade do tempo social, estaria mais aberta e permeável a defi nir seus objetos de estudo a partir de uma estreita colaboração interdisciplinar, buscando, por meio da refl exão temporal, dar conta da natureza múltipla dos fenômenos sociais.

Na contracorrente da História como espaço da síntese social se colocou a Antropologia estruturalista, mais preocupada em identifi car e reconhecer as estruturas sociais, propondo modelos de inteligibilidade nos quais a temporalidade pouco importava.

É neste período que podemos incluir o manifesto de Braudel e suas críticas à utilização exagerada de modelos nas Ciências Sociais, apresentado no tópico anterior desta aula.

Revel (1998) fi naliza a sua refl exão com um item denominado

“O Tempo de confrontos?”. Neste ponto, destaca que a ampliação do território do historiador teve como consequência tanto a fragmentação de seus objetos quanto a extrema especialização dos estudos que marcaram os anos 1970 e 1980. Desse processo de fragmentação e especialização podem-se estabelecer dois níveis de uma crise que não se limitam à relação entre História e Ciências Sociais, mas que se ampliam para toda a produção do conhecimento humano.

1° Nível – crise dos paradigmas unifi cadores e da razão iluminista. Os modelos holísticos já não dão conta de uma realidade social plural e descentralizada.

2° Nível – necessidade de estabelecer os níveis das novas competências de conhecimento alicerçadas num conhecimento efetivamente interdisciplinar do qual as antigas fronteiras não dão mais conta. O estabelecimento de normas que regulamentem as diferenças é fundamental para se garantir o regime de cientifi cidade das diversas disciplinas das ciências do Homem.

Burke se alinha à perspectiva de Revel (1998), mas inclui, em suas considerações, não somente a trajetória historiográfi ca francesa, mas a européia como um todo. Estuda, no primeiro capítulo de seu livro História e Teoria Social (2000), como historicamente as relações entre a História e as teorias sociais se estabeleceram. Avalia na sua abordagem, que desde o século XVIII, com a presença dos historiadores fi lósofos, como Voltaire, as teorias da História eram, na verdade, grandes sistemas fi losófi cos para compreender a evolução da humanidade, confundindo-se os usos teóricos na História com as fi losofi as da História.

No século XIX, segue Burke em sintonia com as considerações de Braudel e Revel, as disciplinas acadêmicas se constituíram em campos especializados, cada qual num aspecto da experiência humana e, assim, as fronteiras forma devidamente demarcadas.

Coube aos profi ssionais das humanidades, no século XX, vivenciarem essa especialização e tentarem redefi nir a lógica de confi guração dos campos de conhecimento, rumo a uma perspectiva efetivamente interdisciplinar, como pondera Burke (2000, p. 34-35):

Há motivos óbvios para uma relação cada vez mais es- treita entre história e a teoria social. A mudança social acelerada praticamente se impôs à intenção dos sociólo- gos e antropólogos (...). Demógrafos, ao estudar a explo- são demográfi ca mundial, e economistas e sociólogos, ao analisar as condições de desenvolvimento agrícola e

industrial dos chamados países “subdesenvolvidos”, viram-se examinando as mudanças ao longo do tempo, ou seja, a história (...). A meu ver, a “virada teórica” por parte de alguns historiadores sociais e a “virada histórica”

de alguns teóricos são muito bem vindas (...). Sem combi- nar a história com a teoria, é provável que não consiga- mos entender nem o passado nem o presente, (...) o in- teresse na teoria vem enriquecendo a prática da história, sobretudo no decorrer da última geração.

Entretanto, os tempos não são absolutamente dourados, continua Burke (2000), sobretudo porque novos problemas surgem ao se tentar resolver os antigos impasses. A própria noção de

“convergência”, muito utilizada para se defender a relação entre o campo das humanidades, hoje não dá conta da perspectiva defendida pelos campos, tanto na organização institucional quanto na disputa de verbas das agências de fomento à pesquisa. Nesse sentido, conclui o historiador inglês:

Vivemos em uma era de linhas indefi nidas e fronteiras int- electuais abertas, uma era instigante e, ao mesmo tempo, confusa (...). O surgimento do discurso compartilhado en- tre alguns historiadores e sociólogos, alguns arqueólogos e antropólogos, e assim por diante, coincide com um de- clínio do discurso comum no âmbito das ciências sociais e humanidades e, a bem da verdade, dentro de cada disciplina (BURKE, 2000, p. 35).

Assim, se por um lado, a aproximação entre disciplinas gerou o surgimento de novos campos para o estudo da História, como veremos nas aulas subsequentes, por outro, a tendência à fragmentação e à especialização extrema é um risco que devemos evitar, para não perdermos a necessária visão do conjunto.

Atende ao Objetivo 2

2. O historiador italiano Carlo Ginzburg (1989), em seu clássico artigo Sinais: raízes de um paradigma indiciário, trabalha com a hipótese do surgimento de um paradigma (mo- delo epistemológico) do tipo semiótico entre 1870-80, que tem raízes muito antigas, mas que se explicita à luz das problemáticas suscitadas pela diversidade humana, própria das sistematizações científi cas de fi ns do XIX, época de constituição das disciplinas modernas, notadamente as Ciências Humanas. Tal paradigma viria a superar o paradigma galile- ano, onde o geral era a base explicativa para o particular – teoria explica fenômenos individualizados. Dentro do paradigma semiótico ou indiciário, a noção predominante seria a de sinal, indício, marca, pista – o conhecimento individual que habilita conhecer o todo. O efeito estudado permite o conhecimento da causa.

Associe a hipótese de Carlo Ginzburg aos debates apresentados por Revel e Burke no segundo tópico desta aula.

Resposta Comentada

Para Revel (1998), a crise atual das ciências humanas ou sociais é consequência de uma especialização extrema dentro do campo, bem como da tentativa de uma disciplina tentar exercer a hegemonia em relação às demais que se debruçam sobre a atividade humana.

Apesar da solução de Revel (1998) indicar a superação das fronteiras disciplinares, rumo a um conhecimento transdisciplinar, não prega o retorno a uma teoria geral e única do social, como se propunha dentro de uma perspectiva galileana.

Burke, por sua vez, orienta a sua refl exão apontando a necessidade de se defi nir que o campo historiográfi co tem como objetivo o estudo das sociedades humanas no passado, segundo a abordagem da história total, e também não defende a existência de uma grande teoria explicativa para as ações humanas. Ao contrário, esse autor, tal como Revel (1998), vai reconhecer competências diferenciadas na abordagem da história cultural ou da história social como campos historiográfi cos autônomos. Isso implica a existência de métodos e técnicas que são adequados a cada uma dessas abordagens.

Assim, a relação que podemos identifi car entre ambos os autores e a hipótese de Carlo Ginzburg não é direta, pois este defende que o conhecimento no campo de estudo das ações humanas deve partir do específi co, da pista, da evidência e do rastro, sendo esse aspecto o ponto de partida e de chegada de um conhecimento mais completo da socie- dade no presente e no passado.

Dessa forma, os três autores defendem que não há conhecimento completo sobre as ações humanas se nos limitarmos a descrevê-las, sem explicá-las sob uma perspectiva teórica.

No documento Teoria da História (páginas 173-180)