2.1 A primazia do singular sobre o universal
2.1.3 Consequências antropológicas da haecceitas
de divisão é, por si só, uma dupla negação, “‘um’ não fala senão da privação da divisão em si mesmo e a privação da identidade em relação ao outro”42. Mas, uma vez que o princípio de individuação (e indivisibilidade) é a máxima perfeição do ente, ele não pode consistir em algo negativo, já que a negação é o contrário de uma perfeição e, por isso, não pode ser um isto. Se a natureza não pode ser o princípio causador da singularidade de uma substância, logo, “algo necessariamente positivo intrínseco a esta pedra [...] diz-se ser por si a causa da individuação, pois por individuação eu entendo aquela indivisibilidade ou repugnância a divisão”43. Ser dividido em partes subjetivas é repugnante para uma substância material individual. Logo, apesar do prefixo que indica negação, o termo individuação deve se entender aqui como algo afirmativo, positivo e não uma negação de algo.
Outra característica importante da haecceitas destacada por Scotus é a sua imperscrutabilidade, seu caráter inefável, inatingível: ainda que fosse possível conhecer o singular, ele poderia ser visto ou mesmo intuído, mas nunca definido, “pois a entidade que ele adiciona não é da ordem da quididade. Só as essências são definíveis, demonstráveis e objeto de ciência”46. De fato, Scotus afirma que “o singular não é definível por definição outra que pela definição de espécie”47. Ora, definir uma coisa significa classificá-la, agrupá-la num conceito comum a outros indivíduos que com ela compartilham uma natureza comum; por isso, a diferença individual, sendo única e irrepetível, não é observável a não ser num único exemplar. Só as substâncias espirituais podem acessar diretamente a haecceitas de cada coisa.
Mas “a razão pela qual não podemos assimilar [o singular] intelectualmente não se deve a qualquer falta de inteligibilidade por parte da entidade individuante, mas à imperfeição do nosso intelecto e ao modo como ele funciona em nossa vida presente”48. Isso significa que a singularidade de uma pessoa humana é um mistério e que ninguém pode ser medido, comparado, julgado à revelia a partir de um modelo ideal. A este respeito é que afirma Henri de Lubac:
O ser humano, dizem-nos os Padres, é ‘à imagem de Deus’ não apenas por causa de seu intelecto, sua livre vontade, sua imortalidade, nem mesmo por causa do poder que ele recebeu de dominar sobre a natureza: além e acima de tudo isso, ele é assim, em última instância, porque há algo incompreensível em suas profundezas49.
Para Tomás de Aquino, as almas humanas, sendo uma mesma espécie, distinguem-se umas das outras somente a partir da união com o corpo; e no estado intermediário – ou seja, sem o corpo, entre a morte e a ressurreição –, as almas só permanecem sendo únicas e distintas umas das outras em função da individuação que a matéria quantificada lhes conferira, o que causa às almas um certo estado de “tensão”, ansiando pela reunião ao corpo na ressurreição final. Portanto, na metafísica tomasiana, a singularidade das pessoas humanas decorre de suas diferenças materiais. Já Scotus defende que as diferenças entre as almas é que decorrem da singularidade delas mesmas: “Esta alma tem esta inclinação e não o contrário (pois a forma é o fim da matéria e não o contrário); portanto esta inclinação não é razão de ser
46 IAMMARRONE, 2003, p. 235.
47 “singulare non est definibile definitione alia a definitione speciei” (Ord. II, d. 3, p. 1, q. 6, n. 192).
48 WOLTER, Allan B. Scotus’s individuation theory. In: The philosophical theology of John Duns Scotus. St.
Bonaventure, NY: Franciscan Institute, 2015, p. 112.
49 LUBAC, 1998, p. 209-210 (itálico nosso).
desta alma, mas a pressupõe”50. Sendo “inclinação”, aqui, uma determinada característica exclusiva de uma alma, Scotus afirma que a mesma, já sendo indivídua, é que a possui, e não o contrário. Ou seja, o que causa a singularidade e a unicidade de uma pessoa humana não é algo que ela possua, mas justamente algo anterior, intrínseco, uma perfeição positiva, que é, inclusive, condição de possibilidade de ela possuir essa inclinação.
Scotus é claro ao defender a primazia do singular sobre o universal na ordem da criação. Para Scotus, “entre os entes principais, está principalmente intencionado por Deus o indivíduo”51. Wolter interpreta esta afirmação no sentido de ser “a pessoa e não a natureza que Deus primeiramente desejou criar”52. E isso não apenas no caso das criaturas humanas:
cada coisa indivídua da criação tem valor intrínseco, como objeto singular e único de uma vontade expressa de Deus. Na busca por uma teologia não mais antropocêntrica e que ressalte o valor intrínseco de cada criatura do cosmos, independentemente de sua referência e utilidade aos seres humanos, a ideia escotiana de haecceitas é uma ajuda valiosa. Scotus sustenta que Deus conhece os singulares enquanto tais, em virtude de suas próprias diferenças individuais em relação aos outros entes da mesma espécie, diferente de Tomás, que afirma que Deus conhece os singulares apenas como consequência de conhecer primeiramente os universais, coerente com sua teoria de que é a matéria assinalada pela quantidade que individua a substância53.
Como conclui Wolter, o conceito escotiano de haecceitas, aplicado à pessoa humana,
“reveste cada indivíduo de um valor único como alguém desejado e amado por Deus, independentemente de qualquer traço que compartilhe com os outros ou de quaisquer contribuições que ele possa dar à sociedade”54, pois o singular não está em função da natureza comum, mas vice-versa. Ao criar os seres humanos, Deus não sonha uma “espécie” ou
“natureza”, mas pensa diretamente cada pessoa à Sua imagem e semelhança, com quem pretende entrar em relação, a quem pretende salvar e conduzir à Sua plenitude. Como destaca Timothy B. Noone, os historiadores da filosofia dos últimos duzentos anos estão convencidos
50 “Item, quia haec anima ideo habet hanc inclinationem, et non e converso (quia forma est finis materiae et non e converso); igitur haec inclinatio non est ratio essendi hanc animam, sed praesupponit eam” (Ord. II, d. 3, p.
1, q. 7, n. 233).
51 “In principalissimis autem entibus est a Deo principaliter intentum individuum” (Ord. II, d. 3, p. 1, q. 7, n.
251).
52 WOLTER, Allan. Introduction. In: SCOTUS, J. D. Early Oxford lecture on individuation. St. Bonaventure, NY: Franciscan Institute, 2005, p. xxi.
53“A ciência de Deus tem a mesma extensão que sua causalidade. E, como o poder de ação de Deus não se estende apenas às formas, das quais se toma a razão de universal, mas à própria matéria, como se mostrará, é necessário que a ciência de Deus se estenda aos singulares, que se individuam pela matéria” (S.Th. I, q. 14, a.
11).
54 WOLTER, A. Introductory overview. In: The philosophical theology of John Duns Scotus. St. Bonaventure, NY: Franciscan Institute, 2015, p. 27.
em apontar “o pensamento de Duns Scotus acerca dos problemas filosóficos dos universais e da individuação como basilares para grande parte da especulação filosófica dos séculos XIV e XV”55.
Segundo Alessandro Conti, a consequência mais importante da teoria da individuação de Scotus é que, nela,
os indivíduos [...] não se encontram mais numa posição de inferioridade e subordinação com respeito às naturezas comuns, como, ao contrário, em outros autores do seu período, mas a individualidade (ou seja, ser algo único e irrepetível, absolutamente não redutível ao outro) emerge, antes, como perfeição última da substância. [...] O mérito, portanto, é de Scotus por ter fornecido, graças sobretudo à teoria da individuação para diferença individual, uma base metafísica muito sólida e potente para aquela valorização plena da pessoa humana que sempre foi inseparavelmente ligada ao autêntico pensamento cristão56.
Assim, no quadro escotiano, cada ente é este ente singular dentro de sua espécie em virtude de algo positivo adicionado à sua natureza específica. Diversos pensadores se deixaram marcar profundamente pela haecceitas escotiana. Para citar apenas dois exemplos, dos mais ilustres, recolhemos pequenos excertos. O poeta jesuíta Gerard Manley Hopkins (1844-1889) escreve: “Cada coisa mortal faz uma só e mesma coisa: dispensa o ser que dentro de cada qual habita; ‘simesma-se’ – vai por si própria; ‘eu mesmo’, fala e escreve; clamando
‘o que eu faço sou eu: para isso eu vim’”57. Também o monge trapista Thomas Merton (1915- 1968) manifesta claramente tal influência em textos como este: “Dois seres criados nunca são exatamente iguais. E sua individualidade nunca é uma imperfeição. Pelo contrário, a perfeição de cada coisa criada não está apenas em sua conformidade a um modelo abstrato, mas em sua própria identidade individual consigo mesma”58.
Vimos no capítulo anterior o apelo que vem surgindo, nas últimas décadas, por uma teologia que, tomando o impulso empreendido pela viragem antropológica que a trouxe à modernidade, prossiga na tarefa de descer do abstrato ao concreto, e como isso significa, na prática, descer do universal ao cada vez mais singular. Nesta subseção que ora se conclui, percebe-se que, pela sua teoria da individuação, “Scotus identifica a ordem ontológica e a ordem existencial com a ordem concreta. O ser concreto, a existência concreta possui uma
55 NOONE, Timothy B. Universais e individuação. In: WILLIAMS, Thomas (Org.). Duns Scotus. São Paulo:
Ideias & Letras, 2013, p. 135.
56 CONTI, Alessandro D. I presupposti metafisici del concetto di persona in Scoto. In: CASAMENTI, Silvestro (Org.). Etica e persona: Duns Scoto e suggestioni nel moderno. Convegno di studi. Bologna: EFB, 1993, p. 99.
57 Tradução literal do poema “As kingfishers catch fire” (HOPKINS, Gerard Manley. Poems and prose. London:
Penguin Classics, 1985, p. 51). Seguem os versos originais: “Each mortal thing does one thing and the same:/
Deals out that being indoors each one dwells;/ Selves – goes itself; myself it speaks and spells,/ Crying What I do is me: for that I came”.
58 MERTON, Thomas (1972). New seeds of contemplation. New York: New Directions, 1972, p. 29.
riqueza interna do ser próprio. Tudo o que há não está aí como universal, mas como singular e em concreto”59. Eis um contributo importante que o pensamento escotiano oferece à teologia.
Mas é necessário desenvolver melhor esta questão. Por isso, seguindo uma linha consequente destas teorias até aqui analisadas, em vista da elaboração de uma teologia que parta do pensamento de João Duns Scotus, passando agora à noção de personalidade que decorre daí, já que “o conceito de pessoa de Scotus se apresenta como um desenvolvimento do conceito de individualidade”60.