1. AGENTE MARÍTIMO
1.5 CONTRATO ESTABELECIDO COM O TRANSPORTADOR
Assim já estabelecido anteriormente, o contrato que rege a relação jurídica entre companhia de navegação e o agente marítimo é o conhecido contrato de mandato que será mais bem estudado no segundo Capítulo deste trabalho acadêmico.
Seu nascimento ocorreu no direito romano pela necessidade das partes acordarem um negócio, comprometendo-se ambas a cumprir o que foi pactuado, obedecendo ao princípio pacta sunt servanda ou princípio da obrigatoriedade dos contratos.
O princípio pacta sunt servanda é aquele que obriga os contratantes a cumprir as estipulações do pacto e impossibilitando a revisão de seu conteúdo, quando preenchidos os requisitos essenciais, pelo judiciário. Este princípio é mitigado pelo parágrafo 2º do art. 51 CDC, que possibilita a resolução do contrato quando acarretar ônus excessivo a qualquer das partes, quando a nulidade da cláusula abusiva por si só, não puder corrigí-lo. O direito tradicional interpreta os contratos aplicando indiscriminadamente o princípio pacta sunt servanda, ignorando a especificidade das condições gerais e não levando em
consideração a boa-fé do contratante. Atualmente o contrato não é absoluto e já não faz lei entre as partes (pacta sunt servanda), isto porque o fornecedor deve observar valores e princípios que equilibrem a relação.
Nesse sentido, é relevante a transcrição do Artigo 51 do Código de Defesa do Consumidor:
Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que:
Parágrafo 2° A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato, exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer ônus excessivo a qualquer das partes.
Essa espécie de contrato tem grande importância na matéria de obrigações, já que acompanha inúmeros tipos de relações jurídicas.
Devido a essa nova relação jurídica que tomou grande força entre transportador e agentes marítimos, há correntes doutrinárias que ensejam que este tipo de relação entre agente e seu transportador, um contrato de mandato, nascendo assim à figura do agente marítimo como mandatário do transportador, sendo o segundo representante do navio no porto. Seguindo o entendimento de Dos Anjos e Gomes, o agente marítimo estabelece um contrato de mandato, onde a luz do entendimento de Rodrigues (2003, p. 285), a definição deste contrato mencionado acima é:
Art. 653 do Código Civil define o mandato, dizendo que ele se opera, sendo a procuração o seu instrumento, quando alguém recebe de outrem poderes para, em seu nome, praticar atos ou administrar interesses.
Sendo assim segue transcrição literal do artigo 653 do C.
Civil:
Art. 653. Opera-se o mandato quando alguém recebe de outrem poderes para, em seu nome, praticar atos ou administrar interesses. A procuração é o instrumento do mandato.
A diferença do contrato de mandato dos demais vem quando se trata de locação de serviços. O mandatário adquire poderes para agir em nome de outrem, onde se assume peculiaridades de representação, ou seja, é pelo mandato que uma das partes é conhecida como mandatário e é obrigado a efetuar um único negócio ou tantos mais quantos forem necessários, em nome de outrem, que se chama mandante, e que por conseqüência é considerado o representante. Descreve Soares (2005, p. 57) que:
...é preciso que o mandante outorgue poderes de representação ao mandatário, eis que a prática e a consecução dos atos incidirão na esfera jurídica do mandante.
Sendo assim, em casos que haja dúvida ou até mesmo falta desse poder que o armador outorga ao agente marítimo, sua ausência pressupõe que o primeiro não pode obrigar o segundo a responder por atos praticados pelo primeiro.
Existe um limite de responsabilidade, em que ambas as partes decidem quais as restrições e até quais situações o agente marítimo pode atuar em nome do transportador. Essa administração de outorga executa efeitos jurídicos diversos, fazendo diferença de acordo com o que foi estabelecido entre as partes. Ultrapassando o limite pré-estabelecido, o agente deve arcar com as conseqüências das obrigações que realizou sem a autorização expressa do transportador. Por isso os deveres que o agente deve exercer em nome do armador ou transportador, precisam indispensávelmente estar bem dispostos e expressos a fim de evitar discussões futuras acerca dos excessos cometidos por uma parte em favor de outra.
Trazendo esta questão jurídica para as partes em discussão, o agente nada mais é do que, o representante do navio em terra atuando em nome do transportador ou armador. Essa relação é o mandato e é regida pelos institutos do C. Civil, que em seus dispositivos no art. 653 e seguintes que trazem as distinções dos contratos de mandato.
No ramo do Direito Civil, existem direitos e obrigações que são impostas a ambas as partes do contrato e conhecidas pelos deveres jurídicos
originários que surgem da vontade das partes no negócio jurídico. Em decorrência dessas obrigações originárias, o agente se propaga em dois caminhos: a primeira se constitui em razão da função que executa e a segunda em detrimento do contrato de mandato.
Quanto à modalidade de função que o agente executa, ela já foi objeto de estudo no item 1.4, sendo classificada como auxiliar de armação ou auxiliar de transporte marítimo.
Quanto à modalidade do contrato de mandato, as obrigações são definidas pelos institutos do C. Civil em seus diplomas legais, artigo 667 e também pelo artigo 668.
Assim, firma-se dos artigos acima citados, é que o agente não está dispensado de responder a penalidades legais se não invocar a boa-fé e executar condutas que resultem em prejuízos de qualquer natureza ao armador.
Conforme traz Humberto Theodoro (2004, p. 169) que relembra pensamento de Eduardo Böcking, “Esse requisito – a boa-fé – é reclamado desde as origens deste instituto jurídico em suas raízes romanas”.
Diante deste quadro,e conforme o C. Civil vigente, existem vários dispositivos que tratam da boa-fé, quais sejam: artigos 113, 187, 422.2
A boa-fé reputa-se o título de um dos princípios mais importantes que tem destaque no direito que rege os contratos. A cláusula geral da boa-fé objetiva, contida no atual Código Civil vigente desde 2002, não deve ser confundida com o conceito de boa-fé previsto no antigo C. Civil, em que era entendida como estado de desconhecimento (ignorância) sobre determinada situação, pondo em ascensão o quesito subjetivo.
2 Art. 113. Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos do lugar de sua celebração.
Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.
Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé.
Porém, ambas as boas-fés contidas no C. Civil vigente e no revogado, impõem certos direitos e deveres às partes contratantes. Constitui, assim, em regra de conduta, um dever, uma obrigação socialmente recomendável, como leciona Eduardo Sens dos Santos (2003, p. 110).
O princípio da boa-fé tem a função de fonte de novos deveres especiais de conduta durante o vínculo contratual, os denominados deveres anexos. São eles os deveres de informação, de cooperação e de cuidado.
Traz o enunciado nº. 24 do CEJ que “Em virtude do Principio da boa-fé, positivado no art. 422 do novo C. Civil, a violação dos deveres anexos constitui espécie de inadimplemento, independentemente de culpa”.
1.6 AGENTE MARÍTIMO COMO INTERVENIENTE NAS OPERAÇÕES DE