1.2 Corpo ou corpos?
1.2.2 Corpo-propriedade
corpos falam durante os exames, os exames falam dos corpos e promovem a exclusão das possibilidades de diferença. Os exames se constituem, pois, como práticas discursivas, pois
(...) não se entra numa idade em que a carne deve ser enfim reduzida ao silêncio, mas numa idade em que a carne aparece como correlativa de um sistema, de um mecanismo de poder que comporta uma discursividade exaustiva e um silêncio ambiente criado em torno dessa confissão obrigatória e permanente. (FOUCAULT, 2012, p.174)
Examinar as formas, esquadrinhar medidas, definir volumes são ações que fazem parte de uma rede de produção de corpos que podem ser impelidos à modificação ou ao descarte em conformidade com os objetivos de um poder disciplinar.
O controle impele o sujeito a participar do processo de confecção de si mesmo. Comprime, delimita, limita, mas também solicita que o sujeito aja como produtor de um corpo que esteja alinhado a dadas conjunturas.
Conceber que, em nosso tempo, há o corpo-objeto é compreender que há corpos que são produzidos por mecanismos muito apertados para comporem a engrenagem em que o poder disciplinar dinamiza tudo; mas também é compreender que o sujeito é produtor de si mesmo. Observar a faceta corpo-objeto talvez seja observar uma nuança diferenciada do poder disciplinar que comprime, mas, ao mesmo tempo, dá ao sujeito a ilusão de que o mesmo é dono de si, de que o mesmo está se produzindo e está alinhado com o que lhe faz bem.
Refletir sobre a produção e a representação do corpo enquanto propriedade é salientar as engrenagens em que o sujeito está inserido para produzir e propagar valores inerentes a dados estados de vida. O corpo-propriedade é um bem simbólico no qual o sujeito investe mas, ao mesmo tempo, é um bem que atesta sua inclusão em um determinado grupo. Esta valorização liga-se a objetivos estreitos relacionados a um gerenciamento que visa à produção de vidas que sustentarão os objetivos de uma dada racionalidade.
É possível compreender que a ideia de corpo-propriedade está vinculada a uma espécie de mercado em que os sujeitos fazem transações relativas aos simbolismos e às representações que o corpo assume. Cada corpo, independentemente de suas particularidades físicas, abarca uma possibilidade de ser usado como moeda. Cada perfil corporal, com sua respectiva materialidade e com sua respectiva especificidade, indica um valor, indica uma possibilidade de circulação enquanto moeda de troca nas diversas relações sociais. Tais valores são representações de indivíduo, são representações do que é ser sujeito em dada conjuntura, são representações do que o sujeito deve (ou deveria) ser para se alinhar a dada ordem social, pois “[...] Quando mostramos o que faz o homem, os limites, a relação com a natureza ou com os outros, revelamos o que faz a carne.”
(LE BRETON, 2012, p.26).
Logo, um determinado perfil de corpo, com sua tangibilidade, comporta, na verdade, uma concepção de sujeito que pode ou não agir como detentor de uma propriedade e participar de operações que o afirmarão como aliado ou opositor de dado sistema social. Assumir este pressuposto traz uma consequência: o corpo é considerado uma posse, mas, ao mesmo tempo, um índice de valor e um índice de propriedade moral. Nesse sentido, as operações “mercadológicas” que o sujeito faz estão ligadas ao que o sujeito representa enquanto detentor de uma propriedade.
Compreendemos, então, que o que estamos chamando de corpo-propriedade, para designar uma das percepções ético-estéticas de corpo na contemporaneidade, é uma metáfora que mescla materialidade corporal e status do sujeito na sociedade.
Tal mescla está ligada aos meios de funcionamento erguidos socialmente, pois
[...] desde que é fundamentalmente concebida, a sociedade não é simplesmente uma ‘coisa’, mas uma construção do pensamento. As relações sociais envolvem crenças, valores e expectativas tanto quanto interações no espaço e no tempo. A sociedade é uma entidade provida de sentido e significação. (RODRIGUES, 2006, p.18)
O que denominamos como corpo-propriedade representa, portanto, a posse de atributos produzidos, a posse de um bem imaterial inerente a valores cultivados socialmente. Ter um ou outro perfil corporal possibilita que o sujeito transite na sociedade em conformidade com as verdades existentes ou com aquelas pelas quais se luta para se solidificarem. Interpretar a corporeidade como propriedade é interpretar o modo como as diferentes formas corporais podem ser utilizadas pelo sujeito para disputar sentidos simbólicos.
Os corpos hipertrofiados a que se relaciona a prática discursiva estudada nesta tese disputam força e disciplina nas relações sociais. Esses corpos podem ser considerados propriedade na medida em que o sujeito mostra sua capacidade de transpor tudo que é considerado obstáculo. O corpo hipertrofiado é propriedade porque pode travar as lutas simbólicas relativas ao bem-estar, à autoestima, mas, acima de tudo, as lutas relativas ao que é ser disciplinado, ao que é ser vencedor.
Outra face da metáfora corpo-propriedade está vinculada aos corpos abjetos, isto é, aos corpos que passam pela experiência do apagamento e da exclusão.
Temos vivenciado uma conjuntura em que as subjetividades se reestruturam e se afirmam, em que as singularidades são bandeiras de luta. Observamos, por exemplo, os corpos femininos, que não correspondem às verdades soberanas, e suas disputas por sentidos mais saudáveis de existência. São corpos que se colocam como propriedade de subjetividades ativas, pulsantes. Não à toa, encontramos práticas discursivas que negam as verdades que abafam sua existência, como nos exemplos abaixo:
Figura 4 – Todos temos defeitos Figura 3 – Esse corpo é meu
Fonte: https://pt-
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Os enunciados atestam as disputas simbólicas que os sujeitos travam a partir da sua corporeidade. Os enunciados são inerentes à corporeidade feminina que ainda é capturada pelas verdades praticadas como hegemônicas, os enunciados mostram sujeitos cujo corpo foi efetivamente assumido como propriedade para que sentidos de existências singulares possam ser disputados.
Se concebemos que uma das nuanças ligadas ao corpo na atual conjuntura é a da propriedade, consideramos também as possibilidades de os sujeitos empreenderem ações inerentes à existência ou à resistência no campo das relações sociais. Então, não se trata de ter um corpo, não é a posse que está em questão, mas a possibilidade de empreender a vida simbolicamente.