6 SER FRANGO OU SER MONSTRO? EIS UMA QUESTÃO DE SUBJETIVIDADE
O título deste capítulo é uma paródia do enunciado do personagem Hamlet:
Ser ou não ser, eis a questão. Consideramos condizente tal subversão, pois este capítulo trata de questões inerentes à existência. Ser ou não ser, como enunciou Hamlet, diz respeito a existir ou não existir, a morrer ou viver, ou seja, ao trânsito do homem no mundo.
Considerando as denominações frango e monstro, utilizadas no universo dos corpos hipertrofiados, tratamos, neste capítulo, de questões relativas ao trânsito das duas corporeidades no mesmo universo. Tais denominações extrapolam o horizonte físico, pois o corpo é parte tangível de algo que é uma produção: o sujeito.
Abordamos, portanto, da subjetividade do bodybuilder/fisiculturista. Subjetividade já anunciada nas exemplificações e nas análises feitas nos capítulos precedentes.
Traçamos, então, as relações inerentes a este modo de existência e a seu embate com outros modos.
consequências, pois sua concepção confere ao mesmo e às suas ações no mundo o estatuto de previsibilidade e de naturalidade, uma vez que teria o domínio de suas ações. O sujeito, então, seria uma entidade rígida, fixa, não afetada pelos processos da sociedade e da existência, o que elimina ou impede a possibilidade de vislumbrarmos os desdobramentos que a história produz.
Por outro lado, se sabemos que as conjunturas propiciam a produção de verdades, sabemos também que estas não transitam sem a ação do homem. Nesse sentido, o homem que produz e aciona as verdades não é um ente estático, não é um ente neutro, o homem, nesta perspectiva, se torna ou é transformado em sujeito.
Aceitar isso é compreender que há uma perspectiva acional que implica mudanças de prisma sobre o sujeito. Assim, não é possível falar no sujeito como produto acabado, mas no sujeito como entidade que é produzida, que é fabricada e que, ao mesmo tempo, produz e fabrica outros sujeitos.
Não passamos incólumes pelos encontros que vamos travando durante nosso trânsito pelo mundo. Estes encontros geram acontecimentos, mudanças. Em maior ou em menor grau, somos, então, moldados, produzidos. Em outras palavras, nos produzimos e somos produzidos, enquanto sujeitos, nas relações. A subjetividade, então, é gerada, fabricada na relação; é possível admitir que são estabelecidas relações com a forma de transitar pelo mundo. O sujeito, nesta perspectiva, é um ente que se move, que até possui uma estabilidade, mas está, acima de tudo, atrelado ao movimento e às captações que faz, pois os encontros que se dão no trânsito social são sistemas de produção, estão atrelados às diferentes forças que transitam no seio social.
A produção da subjetividade diz respeito a este trabalho incessante, atravessado por fatores diversos. O sujeito, nesta perspectiva, não é uma consciência, não é dono do seu discurso, das suas práticas, mas o molde de um consumo de ideias e de comportamentos que o levam a ter determinadas feições, características do universo a que se vincula. Tais ideias, tais comportamentos são a reiteração das verdades de uma época. Afirma Foucault:
A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. (2015, p.52)
Com isso, é possível depreender que os sujeitos de uma época têm sua forma e suas ações pautadas em elaborações científicas, filosóficas, didáticas, midiáticas, políticas e muitas outras que são elaboradas e praticadas em dada época. A fabricação da subjetividade, então, ocorre em conformidade com tais regimes de verdade que, por sua vez, geram relações de poder que as solidificam.
Como o poder, nesta perspectiva, não se relaciona à repressão ou à autoridade; como o poder não é central e não está atrelado somente às instituições, circula e é praticado em todas as esferas por meio de táticas que atuam nos sujeitos; cada estratégia de poder, decorrente dos diferentes regimes de verdade, cria subjetividades que atuarão na multiplicação e na solidificação dessas mesmas verdades.
As estratégias de poder são variadas e bombardeiam os indivíduos a todo instante. Guattari (2013) usa uma metáfora que é consistente no que tange à subjetividade enquanto acontecimento moldável. O autor fala em máquinas de produção de subjetividade. Em sua perspectiva, tudo que chega até nós, tudo que nos circunda atua como máquina, como equipamento que nos produz. Etnia, gênero, empresas, corporações, academias, tecnologia, tradições, instituições, sistemas de governo entre outros são máquinas de produção de subjetividade. Cada uma dessas máquinas atua a partir de enunciados, de agenciamentos coletivos de enunciação, o que potencializa as estratégias do poder. As subjetividades são disputadas incessantemente a partir de tais agenciamentos, a partir de tais estratégias de poder. E assim as relações com a vida, com o outro e com processos inerentes à existência podem ser apagados, podem ser banidos ou mascarados para que um tipo de subjetividade pretensamente mais útil ou saudável seja mantida. Esta perspectiva de subjetividade nos coloca em posição de questionar as subjetividades existentes e seus mecanismos de manutenção e de influenciação, nos dá subsídios para repensarmos outros modos de constituição de nós mesmos.
Cabe, então, olhar para o percurso de constituição da subjetividade relacionada à corporeidade com a qual estamos trabalhando. Apresentamos, no primeiro capítulo desta tese, metaforizações dos corpos que podem ser apreendidas em nossa época. Cada uma dessas representações aponta para uma subjetividade, para uma produção diversa no universo que reivindica alguns valores para o corpo.
Cabe expor o trajeto que é feito para que se produza a subjetividade do fisiculturista.
Mostramos, no terceiro capítulo, o atravessamento da lógica neoliberal nos
horizontes da prática e nos horizontes do discurso da mesma, isso nos leva a afirmar que o objetivo dos sujeitos imersos neste universo não é somente o corpo.
Então como se forja, enquanto sujeito, quando pratica uma enunciação voltada para o corpo? Na próxima seção, tratamos das subjetividades em disputa presentes neste universo.