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1.2 Corpo ou corpos?

1.2.3 Corpo-troféu

Os enunciados atestam as disputas simbólicas que os sujeitos travam a partir da sua corporeidade. Os enunciados são inerentes à corporeidade feminina que ainda é capturada pelas verdades praticadas como hegemônicas, os enunciados mostram sujeitos cujo corpo foi efetivamente assumido como propriedade para que sentidos de existências singulares possam ser disputados.

Se concebemos que uma das nuanças ligadas ao corpo na atual conjuntura é a da propriedade, consideramos também as possibilidades de os sujeitos empreenderem ações inerentes à existência ou à resistência no campo das relações sociais. Então, não se trata de ter um corpo, não é a posse que está em questão, mas a possibilidade de empreender a vida simbolicamente.

relação a si mesmo. O autor resgata termos gregos para mostrar como a sociedade clássica concebia e gerenciava a relação do homem com o corpo e com a sexualidade. Ao resgatar tais termos e seu histórico, o filósofo mostra aspectos relativos ao prazer para expor seu raciocínio em torno da constituição moral do sujeito. Os aprhodisia indicavam os termos, os gestos e os atos que proporcionavam prazer. Os gregos refletiam sobre os aphrodisia, considerando a sexualidade e a alimentação. Para eles, o que importava não era a materialidade dos prazeres, mas sua dinâmica, isto é, a maneira como provocam os desejos nos homens. Dessa forma, a problematização da sexualidade estava ligada às engrenagens que levavam os homens ao prazer, o que estava em concorrência não eram os atos em si, mas a capacidade do homem de gerenciar a intensidade dos prazeres, isto é, “a divisão está entre o menos e mais: moderação ou incontinência”. (FOUCAULT, 2014a, p.54)

A atividade sexual e o prazer eram, portanto, encarados a partir de um trabalho imaterial realizado pelo sujeito consigo mesmo. É nesse sentido que entram em campo as questões morais.

O autor estabelece a distinção entre a moral cristã e a moral pagã. A moralidade cristã exigia um trabalho de interioridade sobre si mesmo, ou seja, o sujeito deveria vigiar seus gestos, seu vocabulário, sua conduta em relação às tentações. Já a moralidade pagã se constituía por uma relação de exterioridade, o sujeito também realizaria um trabalho sobre si mesmo, mas deveria adotar atitudes para gerenciar o uso dos prazeres de modo a não sucumbir aos mesmos.

A partir disso, Foucault recorre à distinção entre enkrateia e sophrosune para abordar a questão da moralidade do sujeito quando realiza um trabalho sobre si mesmo. Enkrateia tem relação com a dominação que o homem deve se esforçar para empreender sobre os prazeres. Relaciona-se à luta que deve ser travada pelo homem para se tornar alguém temperante, somente uma atitude de luta leva o sujeito a se orientar moralmente:

A relação com os desejos e com prazeres é concebida como uma relação de batalha: é necessário se colocar, em relação a eles, na posição e no papel do adversário, tanto no modelo de soldado que combate quanto no modelo de lutador num concurso. (FOUCAULT, 2014a, p.80)

Já o termo grego sōphrosunē pode ser traduzido como temperança. Aquele que realiza um trabalho sobre si e se volta para valores age, na verdade, com sabedoria, confere aos desejos e aos prazeres seus devidos lugares.

A retomada de Foucault desses termos e de suas respectivas caracterizações na sociedade clássica possibilita uma reflexão sobre a corporeidade compreendida como troféu, como algo que é conquistado a partir do domínio da moral. Aquele que ergue seu corpo-troféu mostra o trabalho que faz consigo mesmo e, acima de tudo, mostra de que forma se alinha às verdades e às práticas:

Esta relação de combate com os adversários é também uma relação agonística consigo mesmo. A batalha a ser travada, a vitória a ser conseguida e a derrota que se corre o risco de sofrer são processos e acontecimentos que ocorrem de si para consigo. Os adversários que o indivíduo deve combater não estão simplesmente nele ou perto dele. São parte dele mesmo. (FOUCAULT, 2014a, p.80-81)

O sujeito que ostenta um padrão corporal e que se alinha a certas verdades sociais mostra as barreiras que precisou transpor para conquistá-lo e afirma tais verdades. O corpo-troféu é o corpo modificado, construído por medicamentos, por procedimentos estéticos, por diferentes atividades físicas. É um corpo erigido, por um lado, por um empreendimento material e por outro, por um empreendimento moral.

As questões relativas às dietas, às cirurgias plásticas, à administração de medicamentos e de substâncias que promovem as mudanças no padrão corporal fazem parte de uma engrenagem em que o sujeito mostra sua capacidade de gerir desejos e prazeres. Os perfis corporais magros ou hipertrofiados, por exemplo, só são alcançados e mantidos se o sujeito lutar contra os desejos de sentir o prazer de comer doces, ingerir bebida alcoólica etc. Além disso, o sujeito precisa encontrar o equilíbrio, a medida para alimentação que o ajuda a manter seu corpo. A manutenção da juventude tão desejada por muitos só é alcançada por quem que consegue lutar contra certas exposições, contra o desejo de se expor ao sol, por exemplo, uma vez que os dermocosméticos ou os medicamentos usados terão mais eficácia se tal atitude for adotada. Essas lutas podem ser entrevistas em enunciados como:

Figura 5 – Diva não malha Figura 6 – Meu esporte eu carrego

Fonte:ig@moldadasaferro Fonte: ig@monstrosbr

Tais enunciados evocam o universo da disputa pessoal e dos resultados oriundos da mesma. É possível entrevermos que subjazem nos enunciados perspectivas que atestam as abdicações exigidas para obtenção dos corpos em questão. São enunciados que mostram a necessidade das disputas, do equilíbrio e das renúncias que o sujeito precisa empreender porque são essenciais para conquista.

O corpo-troféu, então, é o corpo que mostra quem é o indivíduo, é a nuança corporal que atua na sociedade como uma vitrine moral do sujeito. As lutas que trava consigo e a ponderação que aplica em cada ato do seu cotidiano são elementos necessários para o soerguimento do troféu. A metáfora corpo-troféu sintetizaria a moral do indivíduo, sintetizaria o desejo.

2 CASA DE FERREIRO, CORPOS DE FERRO

No capítulo anterior, apresentamos o que consideramos mais condizente para este trabalho no que tange aos sentidos simbólicos que podem ser atribuídos à corporeidade em nossa conjuntura. Fizemos uma exposição sobre tais representações e sobre as modulações que conferem aos sujeitos. Há, no entanto, as dimensões materiais desta corporeidade e, no que tange aos corpos aos quais se liga a prática discursiva que analisamos, há um longo processo de produção. Assim, neste capítulo, fazemos uma exposição acerca da expressão física deste perfil corporal. O título do capítulo, uma paródia do ditado popular Casa de ferreiro, espeto de pau, relaciona-se ao fato de estes corpos serem produzidos a partir do levantamento de pesos que são constituídos por ferros que, por sua vez, encontram- se em academias (casas). Explanaremos, portanto, sobre a prática do fisiculturismo ou bodybuilding.

Embora este capítulo apresente uma faceta histórica, embora tenhamos que citar datas e nomes de personalidades fundamentais para a prática, não queremos expor somente a cronologia. Queremos tecer as relações entre a prática do fisiculturismo e as conjunturas históricas ou mostrar que não há sucessão de fatos, mas solidificação de práticas em dados momentos.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 38-42)