5.3 Os discursos constituintes
5.3.3 Uma potente atividade discursiva: redizer
características como as que são apresentadas aqui, como um amplo acontecimento em que a intertextualidade fosse a face mostrada da interdiscursividade.
O interdiscurso, a falta, a ausência constitutiva e sustentadora do sentido atual é também transformadora. Na formação discursiva aqui trabalhada, a interdiscursividade é, por um lado, a base e, por outro, a articulação dos princípios do outro. Por isso, o regime enunciativo, a aforização, é a presença do outro que, simultaneamente, se ausenta. A aforização é a revelação intertextual e, ao mesmo tempo, a apresentação de princípios que intentam ocultar outros lugares discursivos.
Logo, por todos os argumentos citados, não há somente relações entre aforização, interdiscursividade e intertextualidade. A peculiaridade do corpus deste trabalho atesta um tipo de funcionamento em que um discurso produzido alhures sofre coerções e restrições para se manifestar de modo
que atenda aos imperativos advindos das relações ente língua e história. Em suma, não se trata de uma simples adesão ou mescla, mas de uma transformação basilar e estruturante deste funcionamento discursivo.
que um enunciado é raro não é dizer que é único na sua forma, mas único em sua possibilidade de existência. Sobre isso, afirma Foucault (2016):
Essa raridade dos enunciados, a forma lacunar e retalhada do campo enunciativo, o fato de que poucas coisas, em suma, podem ser ditas explicam que os enunciados não sejam, como o ar que respiramos, uma transparência infinita; mas sim coisas que se transmitem e se conservam, que têm um valor, e das quais procuramos nos apropriar; que repetimos, reproduzimos e transformamos; para as quais preparamos circuitos preestabelecidos e às quais damos uma posição dentro da instituição;
coisas que são desdobradas não apenas pela cópia ou pela tradução, mas pela exegese, pelo comentário e pela proliferação interna do sentido.Por serem raros os enunciados, recolhemo-los em totalidades que os unificam e multiplicamos os sentidos que habitam cada um deles.(p.147) (grifo nosso)
Assim, um enunciado, independentemente de sua natureza e de constituição, enquadra-se em um dado lugar em virtude das propriedades que tem para exercer dada função enunciativa. Logo, a ideia de conservação, destacada por nós na colocação de Foucault, é importante para o que queremos explanar aqui. Os enunciados analisados nesta pesquisa só podem ser assim chamados porque se agrupam em consonância com leis, com ordens impostas pela própria formação discursiva. Uma dessas ordens é a conservação. Este aspecto diz respeito a uma forma histórica de dizer coisas, forma que sustenta modos de constituição social, que sustenta uma série de questões de uma ordem dita superior. Os enunciados, como já mostramos nesta seção, relacionam-se a esferas que se autogerenciam, por conseguinte, o que estaria no bojo do dito seria a conservação deste aspecto.
A recuperação de textos anteriores traz também os acontecimentos inerentes aos mesmos. Estes acontecimentos são moldados, editados, transformados e passam a fazer sentido em uma nova situação de enunciação, mas conservam os efeitos do passado. O passado que, muitas vezes, é negado ou ignorado age, mesmo na transformação. Esta recuperação é acionada pelas malhas da própria atividade enunciativa, possui um aparato que se ampara, por um lado, em uma interdiscursividade constitutiva e, como compreendida em virtude de nosso corpus, como agregadora de princípios; e, por outro lado, em uma materialidade textual necessária. Esta imbricação liga-se a alguns argumentos de Foucault (2016) acerca da raridade dos enunciados e da análise enunciativa. Para ele, é preciso considerar alguns âmbitos, entre eles a remanência e a recorrência. Um enunciado remanente é aquele cuja conservação está atrelada a um certo número de suportes, de técnicas materiais e de instituições: livros, biblioteca, verdades científicas, religiosas etc. A
remanência de um enunciado não diz respeito à memória, mas à conservação de fatores que podem ser encontrados no próprio enunciado. Já a recorrência diz respeito ao encontro de elementos anteriores e atuais: “[...] Todo enunciado compreende um campo de elementos antecedentes em relação aos quais se situa, mas que tem o poder de reorganizar e de redistribuir segundo relações novas. [...]”
(FOUCAULT, 2016, p.152). Assim sendo, a recuperação e a reiteração deste antes são elementos que se agregam na formulação do dizer atual. Não se trata de uma junção ou de um trabalho intencional do enunciador para unir presente e passado ou para buscar no passado enunciados já ditos. Não é um trabalho ligado à procura de enunciados concernentes ao que se quer dizer, mas, antes de tudo, um trabalho inerente a uma biblioteca bem mais vasta, que é a dos discursos.
É nisso que reside a potencialidade do redizer. Ao redizer, ao recuperar enunciados de outras esferas, a formação discursiva não estaria reafirmando somente características pertencentes a outros campos, mas também um modus operandi relativo a um modo de dizer que, por sua vez, estaria ancorado em modos de existir, de estar no mundo e manifestar isso via linguagem. Redizer, realizar operações interdiscursivas e intertextuais, aforizar seriam operações cuja potencialidade estaria no nível de uma reiteração de modos de conceber o mundo, de modos de vivenciar a realidade. Tais reiterações, nas suas diferentes feições, cumprem o papel de manter certo vínculo com o passado e sustentar, no presente, as transformações do mesmo. A potencialidade de redizer corresponde à própria potencialidade do dizer. Não é o retorno, a repetição, mas a possibilidade de dizer a partir do mesmo.
No potencial de redizer estaria, pois, a potencialidade do dito. O dito do qual nos valemos para afirmar as transformações pelas quais passamos e pelas quais passaremos. Redizer, trazer à baila outros lugares, lugares dos quais saímos, mas retornamos para recolher o que ainda é viável e funcional em nossas produções históricas e discursivas. Assim, se processa a eficácia discursiva, pois “[...] o sujeito recorre a elementos elaborados alhures, os quais, intervindo sub-repticiamente, criam um efeito de evidência que suscita a adesão do seu auditório.” (BRANDÃO, 2012, p.95). Em síntese,interferimos no real, moldando elementos do passado.