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1.3 Cotejo com institutos próximos

1.3.1 Curatela

Havendo a CDPD instituído um sistema de apoios, é imperiosa a comparação da TDA com outros análogos, a fim de melhor situá-la no sistema de direito civil. O principal deles é a curatela, tradicionalmente destinada à proteção dos incapazes. A recente inovação legislativa promovida pelo EPD ainda gera controvérsias em determinados pontos, motivo pelo qual convém, antes de apresentar as alterações, fazer breve recapitulação do instituto no CC/02.

160 Segundo a literalidade do § 3º do art. 1.783-A, o Ministério Público é ouvido antes da entrevista pessoal do requerente, razão pela qual seria necessário comunicá-lo. Sobre a legitimidade do órgão ministerial para a propositura da ação de interdição, dispõe o CPC: “Art. 748. O Ministério Público só promoverá interdição em caso de doença mental grave: I – se as pessoas designadas nos incisos I, II e III do art. 747 não existirem ou não promoverem a interdição; II – se, existindo, forem incapazes as pessoas mencionadas nos incisos I e II do art. 747”.

161 De qualquer modo, embora escape ao objeto deste trabalho, reunião das ações por conexão ou a suspensão de uma delas até a decisão da outra parece ser solução apta a evitar os inconvenientes procedimentais da conversão em um ou outro sentido, garantindo decisão uniforme que atenda às necessidades da pessoa com deficiência. Sobre a conexão, afirma Fredie Didier Jr.: “A reunião das causas em um mesmo juízo é o efeito mais tradicional da conexão. O art. 55, § 1º, determina que as causas conexas serão reunidas para decisão conjunta. Assim, se houver conexão, e for possível a reunião dos processos, o juiz deve reuni-los, pois se trata de regra processual cogente” (DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil: introdução ao direito processual civil, parte geral e processo de conhecimento.

19. ed. Salvador: Jus Podivm, 2017. p. 259). Segundo o autor, a reunião não é possível se os procedimentos forem diversos: “[...] não será possível a reunião dos processos, quer porque haveria alteração de competência absoluta [...], quer porque as causas não poderiam ser reunidas para tramitar por procedimentos diversos. [§] A conexão, então, fará com que uma das causas fique suspensa, à espera da decisão da outra, de modo a evitar que sejam proferidas decisões contraditórias (art. 313, V, ‘a’, CPC [...])” (ibid., p. 259). Não havendo rito específico para a tramitação da TDA, a qualquer das soluções parece admissível, conforme se entenda pela compatibilidade ou pela incompatibilidade entre os procedimentos.

A curatela é mecanismo de suprimento da incapacidade, ao lado da tutela e do poder familiar.162 Verificada, em processo de interdição, alguma das causas de incapacidade, esta era declarada, designando-se curador. A incapacidade, antes da alteração legislativa ocorrida por ocasião da promulgação do EPD, abrangia as pessoas com deficiência mental que não tivessem o necessário discernimento para a prática dos atos da vida civil.163 Nesse cenário, a curatela é uma consequência natural da interdição.164 Tornava-se, então, necessário que alguém representasse ou assistisse o juridicamente impedido de praticar pessoalmente atos da vida civil.165

Embora houvesse expressa referência à doença e à deficiência, a doutrina sempre argumentou que o critério fundamental repousava sobre o discernimento166 para a prática de atos da vida civil. A noção, no entanto, é de difícil delimitação,167 sendo

162 MADALENO, Rolf. Direito de família. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2018. p. 1262. Caio Mário da Silva Pereira fala em sistema legal de proteção de incapazes (PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil – v. 5: direito de família, cit., p. 243). San Tiago Dantas ressalta o íntimo parentesco dos institutos (DANTAS, Francisco Clementino de San Tiago. Direitos de família e das sucessões. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1991. p. 415). Silvio Rodrigues e Maria Berenice Dias afirmam que tutela e curatela são institutos de natureza semelhante e fins idênticos (RODRIGUES, Silvio. Direito civil: direito de família – v. 6. 17. ed. São Paulo: Saraiva, 1991. p. 407; DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias, cit., p. 671). Cf, ainda, MADALENO, op. cit., p. 1262; NERY JUNIOR; Nelson; NERY, Rosa Maria de A. Código civil comentado. 11. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2014. p. 299.

163 Dispunha o Código Civil de 2002: “Art. 3º São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil: [...] II – os que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o necessário discernimento para a prática desses atos. [...] Art. 4º São incapazes, relativamente a certos atos, ou à maneira de os exercer: [...] II – [...] os que, por deficiência mental, tenham o discernimento reduzido; III – os excepcionais, sem desenvolvimento mental completo”.

164 CARVALHO SANTOS, João Manuel de. Código civil brasileiro interpretado, principalmente do ponto de vista prático: v. VI, cit. p. 414. Em outra formulação: “O pressuposto fático da curatela é a incapacidade: o pressuposto jurídico, uma decisão judicial” (PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil – v. 5: direito de família, cit., p. 256).

165 “Aos indivíduos, às vezes, faltam requisitos materiais para dirigirem-se com autonomia no mundo civil. Embora não lhes negue a ordem jurídica a capacidade de direito, recusa-lhes a autodeterminação, interdizendo-lhes o exercício dos direitos, pessoal e diretamente, porém condicionando sempre à intervenção de uma outra pessoa, que os representa ou assiste” (PEREIRA, Caio Mário da Silva.

Instituições de direito civil – v. 1: introdução ao direito civil: teoria geral do direito civil, cit., p. 222). No mesmo sentido, Orlando Gomes afirma que “[p]ara possibilitar o exercício dos direitos dos incapazes, a ordem jurídica criou institutos apropriados, que são a representação, a assistência e a autorização [...]”

(GOMES, Orlando. Introdução ao direito civil, cit., p. 128).

166 “A lei não institui o regime das incapacidades com o propósito de prejudicar aquelas pessoas que delas padecem, mas, ao contrário, com o intuito de lhes oferecer proteção, atendendo a que uma falta de discernimento, de que sejam portadores, aconselha tratamento especial” (PEREIRA, Caio Mário da Silva.

Instituições de direito civil – v. 1: introdução ao direito civil: teoria geral do direito civil, cit., p. 228). No mesmo sentido, GOMES, Orlando. Introdução ao direito civil, cit., p. 125. “A fórmula genérica empregada pelo legislador abrange todos os casos de insanidade mental [...] desde que em grau suficiente para acarretar a privação do necessário discernimento para a prática dos atos da vida civil”

(GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro, volume 1: parte geral. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. p. 87).

167 “A referência feita na lei à ‘deficiência mental’ e a ‘discernimento’ sempre foi de tormentosa interpretação e aplicação” (BARBOZA, Heloisa Helena; ALMEIDA, Vitor. A capacidade à luz do Estatuto da Pessoa com Deficiência. In: MENEZES, Joyceane Bezerra de. Direito das pessoas com

entendida como a capacidade de entender e querer, 168 de compreensão e análise169 que obste a regência de sua pessoa e a administração de seus bens.170 Ao curador competia, em regra, reger a pessoa do curatelado e administrar seus bens.

Neste ponto, encontrar-se-ia a primeira diferença relevante em relação à TDA, que não só não está relacionada à incapacidade, como foi designada precisamente com o fim de afastar a interdição. Essa diferenciação, no entanto, é controvertida. Após as alterações promovidas pelo EPD, a curatela continuaria a ter como pressuposto a interdição ou haveria, desde então, uma espécie de curatela de pessoa capaz?

Consoante já mencionado, o art. 12 da CDPD estabelece que as pessoas com deficiência gozam de capacidade legal em igualdade de condições, o que abrange, além da capacidade de direito, também a capacidade de fato. Em seguida, no plano infraconstitucional, o EPD revogou as referências à deficiência mental e ao discernimento como critérios para determinar a incapacidade. Ao mesmo tempo, o

deficiência psíquica e intelectual nas relações privadas – Convenção sobre os direitos da pessoa com deficiência e Lei Brasileira de Inclusão. Rio de Janeiro: Processo, 2016. p. 261). Segundo Joyceane Menezes, a deficiência era uma “espécie de causa da falta de discernimento” (MENEZES, Joyceane Bezerra de. O risco do retrocesso: uma análise sobre a proposta de harmonização dos dispositivos do Código Civil, do CPC, do EPD e da CDPD a partir da alteração da Lei nº 13.146, de 06 de julho de 2015, Revista Brasileira de Direito Civil – RBDCivil, Belo Horizonte, v. 12, p. 137-171, abr./jun., 2017. p.

145). Confiram-se, a propósito, as seguintes passagens: “As deficiências podem ser mais ou menos profundas: alcançar a totalidade do discernimento; ou, ao revés, mais superficiais: aproximar o seu portador da normalidade psíquica. [...] Ou seja, dependendo do ‘grau’ de deficiência, a ser verificado através de perícia médica, tratar-se-á de incapacidade absoluta ou relativa. Somente àqueles a quem faltar, de modo completo, o discernimento, serão declarados incapazes” (PEREIRA, Caio Mário da Silva.

Instituições de direito civil – v. 1: introdução ao direito civil: teoria geral do direito civil, cit., p. 228, 233). “Também são absolutamente incapazes os doentes mentais [...]. Privados da razão, não podem exercer, por si, os direitos que possuem. Pouco importa a natureza do processo patológico. Toda alteração grave das faculdades mentais determina a incapacidade. Não é fácil nomeá-los com expressão inteiramente satisfatória. Preferível o emprego da perífrase como a de Rui Barbosa em emenda ao Código Civil” (GOMES, Orlando. Introdução ao direito civil, cit., p. 126).

168 Ibid., p. 125.

169 “O discernimento, ou a capacidade de compreensão e análise, provém de uma característica da condição humana, se não a mais importante, a que melhor define a nossa espécie: a racionalidade.

Quando há discernimento, há autonomia para decidir o que se quer” (MORAES, Maria Celina Bodin de.

Prefácio. In: MENEZES, Joyceane Bezerra de (org.). Direito das pessoas com deficiência psíquica e intelectual nas relações privadas – Convenção sobre os direitos da pessoa com deficiência e Lei Brasileira de Inclusão. Rio de Janeiro: Processo, 2016).

170 Segundo Maria Helena Diniz, “aqui [entre os absolutamente incapazes, antes da entrada em vigor do EPD] inserem-se os que, por motivo de ordem patológica ou acidental, congênita ou adquirida, não estão em condições de reger sua pessoa ou administrar seus bens. Determinadas pessoas, por não terem, por falta de discernimento, a livre disposição de vontade para cuidar dos próprios interesses, são consideradas absolutamente incapazes [...]” (DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, volume 1: teoria geral do direito civil, 29. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 172).

Estatuto prevê a possibilidade de as pessoas com deficiência serem curateladas (art. 84), quando necessário, prevendo até mesmo a hipótese de curatela provisória (art. 87).171

Esse giro copernicano provocou perplexidade na comunidade jurídica, havendo sido firmadas, essencialmente, duas correntes: uma admitindo a interdição e outra, rejeitando-a.

Na primeira delas, há quem tenda a ampliar o critério da impossibilidade de manifestação da vontade como requisito da restrição da capacidade (tratada no CC e no CPC como decretação da incapacidade relativa) (CC, arts. 4º, III; 1.767, I). Embora o significado da expressão historicamente tenha sido interpretado como a inviabilidade completa de se expressar – como aqueles em estado comatoso –, admite-se tomá-la no sentido de vontade insuficiente para a regência e administração dos bens. Fala-se em interdição dos que não possam exprimir sua vontade de forma consciente e autônoma.172

Chegando ao mesmo resultado, alguns buscam afastar o caráter taxativo das hipóteses de incapacidade, entendendo prevalecer o critério do discernimento, apesar da revogação. 173

171 “Art. 87. Em casos de relevância e urgência e a fim de proteger os interesses da pessoa com deficiência em situação de curatela, será lícito ao juiz, ouvido o Ministério Público, de ofício ou a requerimento do interessado, nomear, desde logo, curador provisório, o qual estará sujeito, no que couber, às disposições do Código de Processo Civil”.

172 “Assim, tal dispositivo [CC 4º III] deve ser lido conforme a CDPD, incluindo as pessoas com deficiência, que, embora possam exprimir a vontade, esta objetivamente não venha a ser considerada válida e autônoma em razão do severo comprometimento das faculdades mentais. Entende- se, dessa forma, que o inciso III do art. 4º do CC é compatível com a proteção destinada à inclusão dos direitos e liberdades fundamentais da pessoa com deficiência, pois cria regra genérica que se aplica a qualquer pessoa, independentemente da deficiência, que não puder por motivos físicos (estado comatoso, por exemplo) ou em razão de severa deficiência mental ou intelectual, evitando a discriminação e oportunizando o tratamento em igualdade de condições” (BARBOZA, Heloisa Helena; ALMEIDA, Vitor. A (in)capacidade da pessoa com deficiência mental ou intelectual e o regime das invalidades:

primeiras reflexões. In: EHRHARDT JR., Marcos. Impactos do novo CPC e do EPD no direito civil brasileiro. Belo Horizonte: Fórum, 2016. p. 220. Grifo nosso). No mesmo sentido, Maria Helena Diniz:

“Hoje entendemos, em que pesem as opiniões em contrário, que, pela lógica do razoável (Recaséns Siches), ante o disposto no Código Civil, art. 4º, III, poderão estar, por serem considerados relativamente incapazes, sob curatela se, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade, por não terem a livre disposição de volição para cuidar de seus próprios interesses, devendo ser assistidos por um curador (CC, art. 1.767, I, com a redação da Lei n. 13.146/2015), tais como: a) portadores de enfermidades físiopsíquicas que impedem o discernimento [...]” (DINIZ, Maria Helena.

Curso de direito civil brasileiro, volume 1: teoria geral do direito civil. 35. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. p. 173. Grifo nosso).

173 “[...] ocorrendo a incapacidade de fato, não se pode esquecer que a curatela também tem seu viés protetivo e, por tal razão, deverá ser declarada a quem dela necessite sob pena de deixar em risco a personalidade do incapaz, mesmo que a situação do indivíduo não esteja prevista em lei” (ABREU, Célia Barbosa. A curatela sob medida: notas interdisciplinares sobre o estatuto da pessoa com deficiência

Para a segunda corrente,174 existe uma espécie de curatela de pessoa capaz (sem restrição da capacidade),175 o que parece coadunar-se ao preceito constitucional (CDPD, art. 12), embora gere alguma dificuldade de conformação sistemática: se há distinção quanto ao pressuposto fundamental (a incapacidade), distintos deveriam ser seus efeitos – ou, ao menos, parte deles. A aplicação subsidiária dos preceitos relativos à tutela (CC, art. 1.781)176 torna-se questionável, pois aquela medida protetiva destina-se não à inclusão, mas à administração dos bens de crianças e adolescentes até o implemento da maioridade, que resulta na capacidade plena. Importa saber se é necessário pedir autorização judicial para alienar imóveis (CC, art. 1.748, IV)177 ou para levantar valores depositados (CC, art. 1.754),178 se permanece a responsabilidade do curador pelos atos do curatelado (CC, art. 932, II).179 Há tendência a admitir a invalidade dos atos praticados pessoalmente pelo curatelado.180

e o novo CPC. In: MENEZES, Joyceane Bezerra de. Direito das pessoas com deficiência psíquica e intelectual nas relações privadas – Convenção sobre os direitos da pessoa com deficiência e Lei Brasileira de Inclusão. Rio de Janeiro: Processo, 2016. p. 560). No mesmo sentido, Maria Berenice Dias (Manual de direito das famílias, cit., p. 672), César Fiúza (Direito civil: curso completo. 18. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015. p. 168-169 e LARA, Mariana Alves. Em defesa da restauração do discernimento como critério para a incapacidade de fato. Revista Brasileira de Direito Civil – RBDCIVIL, Belo Horizonte, v. 19, p. 39-61, jan./mar., 2019.

174 Eduardo Nunes de Souza e Rodrigo da Guia Silva (Autonomia, discernimento e vulnerabilidade:

estudo das invalidades negociais à luz do novo sistema das incapacidades. Civilística.com. Rio de Janeiro, a. 5, n. 1, 2016. Disponível em: <http://civilistica.com/autonomia-discernimento-e-vulnerabilidade/>.

Data de acesso: 10 abr. 2018. p. 24); Alexandre Barbosa da Silva (O Estatuto da Pessoa com Deficiência e o Regime das incapacidades. In: EHRHARDT JR., Marcos. Impactos do novo CPC e do EPD no direito civil brasileiro. Belo Horizonte: Fórum, 2016. p. 243, 247); Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho (Novo curso de direito civil, volume 6: direito de família: as famílias em perspectiva constitucional, cit., p. 741); Carlos Roberto Gonçalves (apud LARA, Mariana Alves. Capacidade civil e deficiência:

entre autonomia e proteção. Belo Horizonte: Editora D’Plácido, 2019. p. 92); Paulo Lôbo (Direito civil:

volume 5: famílias. 8. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. p. 434).

175 Registre-se que, antes da entrada em vigor do EPD, o CC contava com a curatela de pessoa capaz: a curatela do enfermo (também denominada “curatela de natureza administrativa”, “curatela-mandato”,

“curatela administrativa especial” ou “curatela administrativa consentida”, (BARBOZA, Heloisa Helena.

Curatela do enfermo: instituto em renovação, cit., p. 445). Não havendo restrição da capacidade, sujeitava-se a disciplina distinta: “Não há, porém, regras específicas para o exercício da curatela do enfermo, devendo ser observado o prescrito para a curatela dos interditos, no que couber, o que requer esforço e cuidado do intérprete. A hipótese, insista-se, é de curatela de pessoa capaz” (ibid., grifo nosso).

176 “Art. 1.781. As regras a respeito do exercício da tutela aplicam-se ao da curatela, com a restrição do art. 1.772 e as desta seção”.

177 “Art. 1.748. Compete também ao tutor, com autorização do juiz: [...] IV – vender-lhe os bens móveis, cuja conservação não convier, e os imóveis, nos casos em que for permitido”.

178 “Art. 1.754. Os valores que existirem em estabelecimento bancário oficial, na forma do artigo antecedente, não se poderão regirar, senão mediante ordem do juiz e somente: I – para as despesas com o sustento e educação do tutelado, ou a administração de seus bens”.

179 “Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil: I – os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia; II – o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições”.

180 “Uma vez fixada a curatela através de decisão judicial, a prática de ato de natureza patrimonial em desconformidade com a sentença acarretará sua nulidade, com fulcro no art. 166, VII, do Código Civil”

Não obstante o elo histórico com a incapacidade, a doutrina contemporânea apresenta o instituto sob a denominação nova curatela ou ressaltando seu novo perfil, agora funcionalizado ao disposto na CDPD.181 Constituiria, sob essa ótica, uma espécie de apoio mais incisivo, de acordo com as necessidades da pessoa com deficiência, consoante parece indicar a alínea j do preâmbulo da Convenção.182

Assim, TDA e curatela, entendidas como instrumentos de apoio, se aproximariam por exercer função similar no ordenamento jurídico, havendo uma diferença no grau de intensidade das medidas. A TDA proporciona maior margem decisória em relação à sua constituição e extinção, à escolha dos apoiadores e à extensão do apoio. Essa proximidade é, de certo modo questionável a depender de sua aplicação prática, uma vez que não houve reforma expressiva da disciplina da curatela de modo a adaptá-la às novas normas constitucionais.

De outra parte, a curatela é admitida quando necessário (EPD, art. 84, § 1º), o que vem sendo entendido como o exigido para o atendimento de seu melhor interesse.183 Por restringir a autonomia da pessoa, é medida excepcional (EPD, art. 84, § 3º), cabível quando imprescindível para a proteção da pessoa com deficiência.184 Sua incidência depende da inaptidão de outras formas de apoio para o caso concreto.185

Quanto à pessoa do curador, o juiz leva em consideração a vontade da pessoa, mas esta não é decisiva para a escolha, sendo designado de acordo com o melhor interesse do curatelado (CPC, art. 755, § 1º).186 A extensão da curatela é definida de

(SOUZA, Eduardo Nunes de; SILVA, Rodrigo da Guia. Autonomia, discernimento e vulnerabilidade:

estudo das invalidades negociais à luz do novo sistema das incapacidades, cit., p. 26).

181 BARBOZA, Heloisa Helena; ALMEIDA, Vitor. A capacidade à luz do Estatuto da Pessoa com Deficiência, cit., p. 262.

182 “O primeiro instituto [a TDA] é notoriamente adequado à CDPD visto que reafirma a autonomia e que não mitiga ou reduz a capacidade do apoiado. Mas quanto à curatela, restam algumas dúvidas. Observa- se, no EPD, a tentativa de revestir o instituto tradicionalmente presente na legislação pátria, com a natureza de apoio” (MENEZES, Joyceane Bezerra de. A capacidade jurídica pela Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência e a insuficiência dos critérios do status, do resultado da conduta e da funcionalidade. Pensar – Revista de Ciências Jurídicas, Fortaleza, v. 23, n. 2, p. 1-13, abr./jun., 2018. p.

9).

183 BARBOZA, Heloisa Helena; ALMEIDA, Vitor. A capacidade à luz do Estatuto da Pessoa com Deficiência, cit., p. 263.

184 MENEZES, Joyceane Bezerra de. O direito protetivo no Brasil após a Convenção sobre a Proteção da Pessoa com Deficiência: impactos do novo CPC e do Estatuto da Pessoa com Deficiência, cit., p. 15.

185 Segundo Célia Abreu, a curatela deve “ser afastada sempre que o uso de outros meios jurídicos (tais como o mandato e a tomada de decisão apoiada) se torne viável” (ABREU, Célia Barbosa. A curatela sob medida: notas interdisciplinares sobre o estatuto da pessoa com deficiência e o novo CPC, cit., p. 560).

186 “A elogiável abertura do dispositivo [art. 755, § 1º, do CPC] materializa o dever de cuidado perante a pessoa curatelada, preservando o direito fundamental da convivência com quem antes já lhe assistia, a

acordo com o desenvolvimento mental do curatelado (CPC, art. 755, I),187 não de acordo com suas vontades e preferências, como ocorre na TDA. O curador serve por tempo mínimo de dois anos (CC, arts. 1.765 e 1.781), sendo exonerado apenas por escusa admissível (CC, arts. 1.736 e 1.737). O levantamento da curatela é apreciado pelo juiz, sendo a vontade do curatelado relevante apenas para a formulação do pedido (CPC, art. 756).188

Esses aspectos da curatela parecem exigir do intérprete o máximo esforço a fim de conciliar os dispositivos ao sistema de apoios previsto na CDPD. O posicionamento doutrinário parece ainda incidir em algumas das abordagens a que o CteDPD se opôs de maneira expressa. O status approach, que parte da deficiência para aferir a sujeição à curatela ainda se faz observar. Nelson Rosenvald, por exemplo, sustenta que aqueles antes considerados absolutamente incapazes agora serão reputados relativamente incapazes; os que antes se inseriam nesta categoria, agora se valerão da TDA.189 A abordagem do resultado (outcome approach) também é observada em algumas decisões, quando o julgador se convence de que a pessoa com deficiência não está em condições de tomar decisões corretas (ou as melhores decisões, de acordo com o parâmetro do melhor interesse).190 Pelo critério da funcionalidade (functional approach), busca-se aferir a aptidão do indivíduo de tomar decisões por si só, sem auxílio.

Segundo a Joyceane Menezes, esses critérios expõem a pessoa com deficiência, ao colocá-la sempre numa posição em que se questiona sua capacidade, de modo que a

despeito de sua condição ou não de componente da entidade familiar. O preceito se mostra igualmente eficaz para aquelas situações em que não se legitime com nitidez um personagem que exercite atos objetivos de afetividade, cabendo ao magistrado promover o acesso da pessoa ao acompanhamento responsável daquele que possua melhores condições de zelar pelo respeito e consideração com o ser humano incapacitado” (ROSENVALD, Nelson. Curatela, cit., p. 801).

187 “Art. 755. Na sentença que decretar a interdição, o juiz: I – nomeará curador, que poderá ser o requerente da interdição, e fixará os limites da curatela, segundo o estado e o desenvolvimento mental do interdito”.

188 “Art. 756. Levantar-se-á a curatela quando cessar a causa que a determinou. § 1º O pedido de levantamento da curatela poderá ser feito pelo interdito, pelo curador ou pelo Ministério Público e será apensado aos autos da interdição”.

189 “A partir de janeiro de 2016, haverá uma gradação tripartite de intervenção na autonomia: a) pessoas sem deficiência terão capacidade plena; b) pessoas com deficiência se servirão da tomada de decisão apoiada, a fim de que exerçam a sua capacidade de exercício em condição de igualdade com os demais; c) pessoas com deficiência qualificada pela curatela em razão da impossibilidade de autogoverno serão interditadas” (ROSENVALD, Nelson. Curatela, cit., p. 768).

190 “Recentemente, um jovem goiano de 25 anos recusou o tratamento de hemodiálise, essencial à sua saúde, e foi, por essa razão, submetido à curatela, mesmo quando o laudo pericial não concluiu por um déficit cognitivo na realização daquela escolha” (MENEZES, Joyceane Bezerra de. A capacidade jurídica pela Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência e a insuficiência dos critérios do status, do resultado da conduta e da funcionalidade, cit., p. 7).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 59-71)