A última fronteira de proteção do apoiado que age fora das previsões estabelecidas no termo de apoio, quando não incidentes as hipóteses de anulabilidade por defeito do negócio jurídico, é o da análise casuística da capacidade de agir. A possibilidade não é desconhecida de legislações estrangeiras, como a italiana, que admite a incapacidade natural, e a portuguesa, a denominada incapacidade acidental.
Caio Mário da Silva Pereira aduz a impropriedade da expressão incapacidade natural em oposição à incapacidade legal e esclarece que toda incapacidade resulta da lei, verificando-se quando a situação fática do indivíduo coincide com a hipótese jurídica de capitis deminutio nela prevista.
No direito italiano, sob a designação incapacidade natural, englobam-se tanto aqueles que deveriam ter sido interditados, mas não o foram, quanto os que sofram de temporária alteração das faculdades mentais (estado de embriaguez, intoxicação por substâncias estupefacientes, estado de semicoma).547 Ao juiz compete valorar caso a caso se o sujeito tinha o discernimento necessário e aptidão para determinar-se que justifiquem a produção das consequência jurídicas características do ato praticado.548 A anulação do negócio em tais hipóteses requer a verificação de grave prejuízo, ao contrário do que se estabelece para os atos praticados por interditos, em que a simples falta de ação do representante ou do assistente importa, em regra, a invalidade do ato.
Exige-se, ainda, a má-fé da parte que com o naturalmente incapaz negocia, ou seja, o conhecimento ou a possibilidade de, com diligência ordinária, conhecer a incapacidade.
Protege-se, assim, a confiança depositada por quem reputou pleno o discernimento da outra parte, ignorando a incapacidade.549
O Código Civil português (CCpt) conta com a figura da incapacidade acidental, destinada a atender àqueles que, embora não incluídos em algum status incapacitante, encontrem-se pontualmente incapazes de entender ou querer. Segundo
547 PERLINGIERI, Pietro. Manuale di diritto civile, cit., p. 413. No texto original, assevera o jurista: “[i]l contratto posto in essere dal maggiorenne, capace legalmente, affetto da infermità di mente ma non interdetto né inabilitato o dalla persona in stato di temporanea alterazione delle proprie facoltà mentali [...]” (ibid., p. 413). Tradução livre: “[o] contrato celebrado por maior, legalmente capaz, afetado por enfermidade da mente, mas não interdito nem inabilitado, ou por pessoa em estado de temporária alteração das faculdades mentais”.
548 TRABUCHI, Alberto. Instituzioni di diritto civile. 39. ed. Padova: CEDAM, 1999. p. 82.
549 PERLINGIERI, Pietro. Manuale di diritto civile, cit., p. 413.
Menezes Cordeiro, a incapacidade de entender refere-se ao sentido da declaração, abrangendo a percepção (por exemplo, por não compreender o idioma, ou ter sido incapaz de ouvir ou de ler), o raciocínio (incapacidade de se posicionar a tempo ou de relacionar dados a ponto de formular juízo capaz) e a comunicação; a incapacidade de exercer livremente a sua vontade ocorre quando a causa o impele a decidir mecanicamente ou a proceder aleatoriamente.550 A matéria é abordada no âmbito das declarações de vontade e não no das incapacidades, correspondendo a um tipo particular de falta de vontade,551 um desvio em seu processo formativo.552
O art. 257º do CCpt prevê a anulabilidade da declaração negocial nessas hipóteses, desde que o fato seja notório ou conhecido do declaratário.553 Considera-se notório quando uma pessoa de diligência normal o poderia ter percebido. Assim, por exemplo, ter-se-ia a notoriedade do fato de que o ébrio, em geral, não está em condições de contratar.
No ordenamento nacional, de outra parte, não há previsão expressa a respeito do tema (tampouco a havia no Código de 1916), embora em matéria de incapacidade se faça referência na doutrina e na jurisprudência, especialmente nas situações em que se reconhece a falta de discernimento em momento anterior à decretação da interdição.
Em relação aos requisitos da invalidade do ato praticado em momento de incapacidade, agrupam-se os civilistas em três correntes principais, além de haver alguns posicionamentos intermediários. Os autores que integram a primeira corrente se referem à falha ou vício de vontade que macula a validade do ato tout court. Assim, na vigência da codificação revogada, Clóvis Beviláqua se limitava a afirmar que “[...] os estados transitórios de insanidade mental ou de perturbação da inteligência viciam os atos praticados durante eles”.554 Pontes de Miranda é categórico ao defender que o
550 CORDEIRO, António Menezes. Tratado de direito civil – 2º v.: parte geral: negócio jurídico, cit., p.
802-803.
551 Ibid., p. 808.
552 PINTO, op. cit., p. 538.
553 “Artigo 257º - Incapacidade acidental. 1. A declaração negocial feita por quem, devido a qualquer causa, se encontrava acidentalmente incapacitado de entender o sentido dela ou não tinha o livre exercício da sua vontade é anulável, desde que o facto seja notório ou conhecido do declaratário. [§] O facto é notório, quando uma pessoa de normal diligência o teria podido notar” (PORTUGAL. Código Civil. 7. ed.
Coimbra: Almedina, 2016. p. 54).
554 BEVILÁQUA, Clóvis. Teoria geral do direito civil, cit., p. 86.
Direito não protege as pessoas de boa-fé que negociem com absolutamente incapazes, ainda que a incapacidade não seja discernível.555
Segundo Caio Mário da Silva Pereira, o ato praticado em um “momento de eclipse da consciência”, faltando a aptidão volitiva natural, é atingido pela ineficácia. A distinção entre interditos e não interditos seria meramente probatória: os atos daquele que foi declarado incapaz dispensam a pesquisa do discernimento na arguição de invalidade; quando se argui a invalidade em razão da deficiência psíquica momentânea, esta circunstância deve ser provada.556
Em registro aproximado, Humberto Theodoro Júnior explicita não ser a interdição ou a prática pessoal do ato (sem representante ou assistente) a causa de sua nulidade, mas a incapacidade do declarante sem discernimento (art. 3º, II): a interdição apenas declara o que já existe.557 Também assim, Silvio de Salvo Venosa enquadra as hipóteses de falta de discernimento por motivo transitório, que tornava nulos os atos praticados, por exemplo, por pessoa embriagada.558 Maria Helena Diniz tampouco referencia requisitos adicionais que não a prova da insanidade.559 Francisco Amaral e Paulo Lôbo, da mesma maneira, referem-se apenas à prova da incapacidade no momento da prática do ato.560 Zeno Veloso, embora entenda que, de lege ferenda, o direito brasileiro devesse adotar a cautela observada em outros ordenamentos no que concerne à notoriedade da situação de incapacidade, entende ser aplicável o regime da nulidade (com fundamento nos arts. 3º, II; 104, I, e 166, I), mediante prova absoluta da insanidade.561
555 “[...] a 2ª Câmara do Tribunal Apelação de São Paulo, a 24 de abril de 1939 (RT 119/568), fez depender da má-fé do outro contraente a decretação da nulidade do negócio jurídico do absolutamente incapaz, o que é absurdo [...]. [...] O que tratou com ele [com o incapaz] tem, apenas, a ação de enriquecimento injustificado contra o incapaz, mas tem de restituir todo o recebido” (PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de direito privado: tomo I, cit., p. 276-277).
556 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil – v. 1: introdução ao direito civil: teoria geral do direito civil, cit., p. 227-228. Arremata o autor: “[...] como a vontade é o pressuposto da ação jurídica, a sua ausência conduzirá, fatalmente à invalidade do ato” (ibid.).
557 “Não é a interdição que retira da pessoa o discernimento, nem é ela, portanto, que o faz incapaz. A interdição declara o que já existe, ou seja, o déficit mental da pessoa” (THEODORO JÚNIOR, Humberto.
Comentários ao novo Código civil: volume 3, t. 1, cit., p. 435).
558 VENOSA, op. cit., p. 143-144.
559 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, volume 1: teoria geral do direito civil. 35. ed.
São Paulo: Saraiva Educação, 2018. p. 177.
560 AMARAL, op. cit., p. 285; LÔBO, Paulo. Direito civil: volume 1: parte geral, cit., p. 126.
561 VELOSO, op. cit., p. 49.
Uma segunda corrente explicita a necessidade de se tutelar a boa-fé dos destinatários da declaração daquele temporariamente incapaz. Carvalho Santos opinava que os estados transitórios de insanidade mental não acarretavam (na vigência do CC/16) a incapacidade, apenas viciavam os atos praticados na sua pendência.562 Entre essas situações, cita o autor o hipnotismo, o delírio febril, a emoção de extraordinária intensidade, “a anomalia da gravidez”, a intoxicação de cocaína e substâncias análogas.563 Se, por um lado, há de se proteger o incapaz em razão de sua situação fática, de outro, deve-se ponderar a presunção de capacidade estabelecida para todos aqueles não interditados. Assim, propõe Carvalho Santos que o ato seja anulado apenas nas hipóteses em que se prove a incapacidade natural por ocasião da prática do ato, a fim de que se proteja a boa-fé do outro contraente. Se este ignorava a incapacidade, não se desconstitui o negócio.564
Sílvio Rodrigues, ao discorrer sobre os atos praticados antes da interdição (referindo-se à hipótese do art. 3º, II, do Código Civil, antes das alterações promovidas pelo EPD),565 defende que considerar nulo o ato simplesmente em razão de ser o agente
“amental” é solução demasiado severa com terceiros de boa-fé. Assim, em prestígio aos interesses destes e ao interesse geral – correspondente “anseio de infundir segurança aos negócios jurídicos” – os negócios praticados com quem ignorava a condição de
“alienado” da parte adversa, ou que não a pudesse conhecer com alguma diligência, são validos.566 Na mesma direção, seguem Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona
562 “Provada suficientemente a ausência ou o vício da vontade, o efeito imediato não poderá ser outro senão o acima apontado. O essencial é que a prova esclareça que o ato foi praticado precisamente no momento do estado transitório de insanidade mental” (CARVALHO SANTOS, João Manuel de. Código civil brasileiro interpretado, principalmente do ponto de vista prático: v. I, cit., p. 255).
563 Ibid., p. 259.
564 O autor preocupa-se em justificar a objeção segundo a qual a boa-fé não poderia suprir a incapacidade, ou seja, presente, não isentaria o ato de seu vício. Argumenta que a boa-fé, encontrando amparo na lei, faz prevalecer a presunção de capacidade da pessoa (Ibid., p. 264).
565 “Art. 3º São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil: [...] II – os que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o necessário discernimento para a prática desses atos”.
566 RODRIGUES, Silvio. Direito civil: v. 1 – parte geral, cit., p. 46. No entanto, em seguida (ibid., p. 47), ao tratar daqueles que, por motivo transitório, não puderem exprimir sua vontade, deixa de repisar o requisito da notoriedade: “Se o negócio jurídico é um ato da vontade, a que a lei empresta os efeitos almejados pelo agente, é óbvio que se este, ainda que por motivo transitório, não pode externar sua vontade, o ato, por ele praticado, não pode prevalecer, pois carece de seu elemento gerador, que é a manifestação válida da vontade”.
Filho, para quem a incapacidade natural – associada àqueles ainda não interditados – somente deve atingir a validade dos atos quando notória.567
Orlando Gomes, representante da terceira corrente, admitia a incapacidade natural, embora entendesse cuidar-se da situação verificada “quando o insano mental não está interditado”, por não ter sido reconhecida a enfermidade ou pela não instauração do processo de interdição. A diferença de regime – a exigir requisitos adicionais para a anulação – decorreria da tutela ao interesse da parte que ignora estar negociando com um insano mental. Valendo-se da doutrina italiana, entende que a desconstituição depende da demonstração de (a) incapacidade de entender ou querer;
(b) demonstração de que o agente sofreu grave prejuízo; (c) má-fé do outro contraente.568
Adotando entendimento intermediário, Cristiano Farias e Nelson Rosenvald também associam a conduta do naturalmente incapaz com aquela da pessoa ainda não interditada. Quanto aos requisitos para a invalidação do ato praticado, apresentam a notoriedade (de conhecimento do público geral) ou o fato de lhe causar prejuízo.569 Não haveria conjugação dos requisitos, como na lei italiana, mas uma alternativa.
A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal não se pautava pelo requisito da notoriedade da incapacidade.570 Não obstante, a diligência do negociante era utilizada como razão de decidir em certos julgados.571 No RE 59.288/SP, o negócio jurídico realizado na pendência de ação de interdição foi considerado nulo pela Corte, ao fundamento de que os demais contratantes tinham disso conhecimento e sequer aguardaram o laudo pericial antes de concluir o negócio: “devem pagar pela afoiteza”, afirmou o relator.572
567 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil: volume I:
parte geral. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. p. 137. Os autores seguem a orientação do direito francês, cujo Code, em seu artigo 503, preceitua: “Les actes antérieurs pourront être annulés si la cause qui a déterminé l’ouverture de la tutelle existait notoirement à l’époque ou ils ont été faits" (ibid., p. 137).
568 GOMES, Orlando. Introdução ao direito civil, cit., p. 125.
569 FARIAS, Cristiano Chaves; ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil: parte geral e LINDB, op.
cit., p. 410-411.
570 VELOSO, op. cit., p. 50.
571 Cf. RE nº 88.916/PR (2ª Turma, julgado em 1979); RE nº 95.366 (2ª Turma, julgado em: 1982) e RE 100.093/PR (1ª Turma, julgado em: 1984).
572 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. 3ª Turma. RE nº 59.288/SP. Rel. Min. Gonçalves de Oliveira.
Julgado em: 15 mai. 1967. Publicado em: 23 ago. 1967. O acórdão recebeu a seguinte ementa:
“Interdição. Anulação de contrato celebrado com interditando, pendente processo de interdição. Nulidade decretada. Recurso extraordinário não provido”.
No Superior Tribunal de Justiça, julgou-se, em 2001, o REsp nº 38.353/RJ,573 no qual se discutia a nulidade de contrato de compra e venda por incapacidade do vendedor. A favor da invalidação do negócio, o juízo de 1º grau valeu- se de pareceres médicos e de testemunha, o que teria permitido constatar tratar-se de pessoa absolutamente incapaz tanto por natureza quanto por aparência. Não se tratando de desconhecidos da família do vendedor e não havendo sido o negócio celebrado por procuração, afastou-se a boa-fé dos compradores ao argumento de que
“[é] inconcebível, todavia, que ao adquirir de alguém um imóvel não se tenha o cuidado de conhecê-lo, seja diretamente ou por informações”. Em sentido contrário, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) havia decidido pela validade do contrato, uma vez que as tratativas foram realizadas por parentes próximos do vendedor, sobretudo sua mulher, o que não elidiria, segundo o Tribunal, a presunção de boa-fé dos compradores, os quais, ressaltou o relator, celebraram o negócio com o vendedor na presença do tabelião. Apesar da divergência na 3ª Turma do STJ,574 prevaleceu o entendimento de que, mesmo que desconhecido o fato da outra parte, a nulidade dependeria apenas da prova da incapacidade. O julgado reforçou o entendimento já consolidado na Corte.575
O certo é que, seja na vigência do Código revogado, seja no Código Civil de 2002, não houve pronunciamento expresso (como razão de decidir) acerca da notoriedade ou da existência de prejuízo para a invalidade do ato negocial praticado por quem estivesse em situação – ainda que temporária – de incapacidade. Com a entrada em vigor do EPD e a radical alteração dos dispositivos relativos à capacidade, adicionam-se duas questões relevantes: (1) é possível, no ordenamento que adota o modelo social de deficiência, falar-se em incapacidade natural ou acidental? E, em caso
573 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. 3ª Turma. REsp nº 38.353/RJ. Rel. Min. Ari Pargendler.
Julgado em: 1º mar. 2001. Data de publicação: 24 abr. 2001. O acórdão foi assim ementado: “CIVIL. NEGÓCIO JURÍDICO.INCAPACIDADE MENTAL DO VENDEDOR.NULIDADE.Nulidade de compra e venda em face da ‘insanidade mental’ de uma das partes (CC, art. 5º, II), ainda que o fato seja desconhecido da outra. Hipótese, todavia, em que o status quo ante só será restabelecido, quando os herdeiros do incapaz restituírem o montante do preço recebido, corrigido monetariamente, bem assim indenizarem as benfeitorias úteis, sob pena de enriquecimento sem causa. Recurso especial conhecido e provido”.
574 A ação de nulidade foi ajuizada pelo espólio do vendedor, razão pela qual o Min. Nilson Naves ressaltou em seu voto-vencido: “[...] quanto àqueles [parentes] que até concordavam com a venda (note-se que boa parte dos familiares concordou com a venda), trata-se, a meu juízo, a pretensão de anular, de comportamento contraditório (venire), típico de exercício inadmissível de direito [...], e, relativamente aos que se omitiram [...], quero, data venia do Relator Pargendler, aderir à conclusão do acórdão estadual, prestigiando, assim, ao que penso, a boa-fé dos compradores”.
575 Cf., a propósito, os seguintes acórdãos: REsp nº 9.077/RJ (4ª Turma, julgado em 1992); AgRg no Ag nº 4.836/MG (4ª Turma, julgado em 1993) e REsp nº 255.271/GO (4ª Turma, julgado em 2000).
afirmativo, (2) qual é o fundamento normativo para a invalidação dos atos praticados pelo apoiado sem o mecanismo de apoio acordado judicialmente?
No que concerne à primeira indagação, a resposta negativa adviria da leitura literal art. 6º do EPD, que proclama a plena capacidade da pessoa com deficiência. No entanto, o objetivo da CDPD não foi a eliminação da incapacidade no direito dos Estados-membros, mas o de evitar que a deficiência fosse um parâmetro essencial para a restrição ao exercício de direitos. O que se veda é que, nesta matéria, exista discriminação em razão da deficiência. O confronto com outros dispositivos deixa clara a ideia no ordenamento brasileiro: o que se busca é o exercício da capacidade em igualdade de condições (CDPD, art. 12.2; EPD, art. 84).
A dificuldade em se apartarem os conceitos de deficiência intelectual e incapacidade é compreensível ante reiterada doutrina produzida sobre o tema, que sobrepunha as categorias, havendo mesmo quem dissesse, ao tratar do estado civil, que estados de saúde (física ou mental) repercutiam sobre a capacidade.576 Assim, grande parte da discussão a respeito da incapacidade natural há de ser vista com alguma reserva. Também a jurisprudência ligava a incapacidade à deficiência para concluir pela invalidade dos negócios.
O RE 78.218/RJ,577 julgado em 1972, cujo mérito não chegou a ser enfrentado pelo Supremo,578 cuidava de ação de nulidade de negócio celebrado por senhora que contava com histórico de internações psiquiátricas – a quem, posteriormente, em perícia judicial em processo de interdição, se considerou absolutamente incapaz para a prática dos atos da vida civil. Ela vendera por preço irrisório bens (inclusive um imóvel) a um homem mais jovem com quem começara a relacionar-se afetivamente. O TJRJ, por duplo fundamento, considerou nulos os negócios: reconheceu a incapacidade e requalificou as compras e vendas realizadas como doações que, ante o disposto no art. 1.175 do CC/1916,579 seriam nulas. No novo
576 GOMES, Orlando. Introdução ao direito civil, cit., p. 123-124.
577 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. 1ª Turma. RE nº 78.218/RJ. Rel. Min. Djaci Falcão. Julgado em:
2 abr. 1972. Publicado em: 5 jun. 1974.
578 A incapacidade da pessoa que praticara o ato que se pretendia anular foi considerada matéria de fato, o que permite aferir o assentimento da Corte com a existência da incapacidade natural no ordenamento pátrio. Embora não se possa aferir a posição do Tribunal quanto aos requisitos, uma vez que, deduz-se do relatório tanto que a parte negociante conhecia a incapacidade como houve prejuízo evidente.
579 “Art. 1.175. É nula a doação de todos os bens, sem reserva de parte, ou renda suficiente para a subsistência do doador”.
paradigma, as internações precedentes da doadora não seriam hoje suficientes para reputá-la incapaz, pois se fundaria claramente em critério discriminatório (ainda que utilizado para sua proteção).580
Consoante se verifica nas lições doutrinárias e dos acórdãos colacionados sobre o assunto, era encontradiça a afirmação de que a interdição apenas reconhecia a incapacidade já existente (ainda não declarada em ação de interdição): com frequência, dizia-se, em razão de deficiência (ou doença) mental de que padecesse o agente.
Carvalho Santos, ao discorrer sobre a incapacidade natural, afirmava:
Assim, compreende-se como pôde ser anulado o ato praticado por uma pessoa [1] imbecil de nascença [...], antes da sua interdição, como se pode compreender a anulação de [2] atos praticados em estado transitório de incapacidade.581
O primeiro fundamento não mais se sustenta. Se é certo que o art. 104, I, do Código Civil exige agente capaz para a prática dos negócios jurídicos, não se pode deixar de lado que as referências à deficiência foram eliminadas dos arts. 3º e 4º. A pretensão de justificar a invalidade do ato sobre a notoriedade da deficiência encontra óbice intransponível nos princípios da Convenção, pois parte do pressuposto de que, verificada a deficiência, a conduta esperada de uma pessoa de diligência normal seria negar-se a celebrar com ela quaisquer negócios jurídicos. Assim, justificar a invalidade de atos porque se verificava “deficiência mental congênita”,582 “capacidade [...]
comprometida por doença própria a idade avançada”,583 porque “demonstrada a contemporaneidade do ato com a doença mental geradora da incapacidade” 584 ou simplesmente diante da “enfermidade mental incapacitante [...] cujo diagnóstico há
580 O relatório dos embargos infringentes e de nulidade do TJRJ, adotado pelo relator no STF, asseverou:
“A embargante, em ocasiões anteriores, mais ou menos concomitantes e posteriores ao ato jurídico alvejado, esteve internada onze (11) vezes em sanatórios para tratamento de doenças nervosas e mentais.
Há, nos autos, prova documental desse fato. [§] Ela tentou o suicídio duas vezes. [§] Foi metida em camisa de força. [§] Foi surpreendida não uma única vez ‘perambulando pelas ruas’. [§] vivia às voltas com médicos psiquiatras e de doenças nervosas, conforme se vê dos atestados trazidos para os autos pelo próprio embargado (fls. 60 e 61)” (BRASIL. Supremo Tribunal Federal. 1ª Turma. RE nº 78.218/RJ. Rel.
Min. Djaci Falcão. Julgado em: 2 abr. 1972. Publicado em: 5 jun. 1974).
581 CARVALHO SANTOS, João Manuel de. Código civil brasileiro interpretado, principalmente do ponto de vista prático: v. I, cit., p. 264.
582 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. 1ª Turma. RE nº 100.093-7. Rel. Min. Néri da Silveira. Julgado em: 25 mai. 1984. Data de publicação: 8 nov. 1984.
583 REsp nº 38.353/RJ, supramencionado.
584 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. 2ª Turma. RE nº 82.311/BA. Rel. Min. Cordeiro Guerra. Julgado em: 1º abr. 1977. Data de publicação: 9 ago. 1977