Concluímos segundo Vinha (1999) que professores, mesmo os autoritários, desejam formar cidadãos autônomos, responsáveis, críticos, mas de maneira contraditória encontramos um ambiente que não favorece, pois as carteiras estão enfileiradas, impossibilitando a troca de idéias, é preciso pedir permissão para ir ao banheiro, não pode emprestar materiais, e a voz que prevalece ordenando o que é para ser feito é somente do professor. Não há cooperação, e nem situações que os alunos são levados a refletir sobre os seus atos, sendo assim agem corretamente por medo, perdendo a oportunidade de entender o porquê agir corretamente, saber o que é melhor para si e para seus colegas sem esperar receber algo em troca.
Piaget e o desenvolvimento moral
Os estudos do Piaget (1994) demonstram como ocorre o desenvolvimento do juízo moral na criança, sendo essa pesquisa um marco referencial a respeito desse assunto. Ele foi a campo para entrevistar as crianças com uma metodologia especial, a do método clínico, contribuindo, de forma científica, sobre quais são os julgamentos morais da criança a partir de várias histórias e comportamentos observados. Sua concepção é formulada através da observação feita da relação entre as crianças frente ao jogo de bolinha de gude, não só observou como jogou também, para entender como são postas as regras e como se dá o respeito referente às mesmas.
Piaget acreditava que o jogo proporciona relação social, desenvolve consciência e compreensão das normas, utilizou-os para estudar o desenvolvimento moral (CAETANO, 2008).
Em sua obra deixou claro que não se dedicou a estudar os comportamentos e sentimentos morais, mas sim o juízo moral. Na moralidade, “existe um juízo moral, critérios de avaliação, objetivos conscientes de conduta. Nem sempre são eles que movem nossas ações”.(PIAGET, 1994, p.14) o ser humano pode agir devido ao contágio afetivo, mas a moral não se resume a isso.
Piaget (1994) estudou o lado racional da moral e descobriu que a moral de cada um é composta de hábitos e tradições impostas pelas gerações passadas, que se fortalecida, pode ser transformada ou aperfeiçoada, também afirma que a inteligência faz parte do juízo moral e do plano social, o que nos permite evitar barbárie, e nos leva a conclusão de não sermos levados pelas vontades e extintos.
Por meio de seus estudos concluiu que existem dois tipos de moral: a heterônoma que é formada através da coação e a autônoma tendo como base a cooperação para uma boa convivência através de acordos, portanto considera que é impossível a construção da moral autônoma a partir da coação social.
O resultado dos dois tipos de moral está na pressão que as relações pessoais e sociais estabelecem sobre as crianças. O sentimento principal para formar as noções morais, é o respeito, pois se a criança respeitar os pais, professores, a mesma obedecerá a suas ordens.
Sendo assim também temos dois tipos de respeito, o unilateral, desenvolvido através da coação, gerando um sentimento de dever e obrigação, o outro é o respeito mútuo, que proporciona uma relação de reciprocidade, praticando a cooperação. (MANTOVANI DE ASSIS, 2003)
“A ideia de que as relações de cooperação – baseada no respeito mútuo, na troca de pontos de vista, no reconhecimento e respeito das diferenças – são aquelas que promovem desenvolvimento moral”.(PIAGET, 1994 p. 15) são essas relações que a sociedade e a escola como um todo precisa trabalhar para se ter um resultado. Para isso é necessário um ambiente escolar que promova trocas entre as crianças para que o desenvolvimento moral possa ocorrer de forma equilibrada.
Ele acredita que o conhecimento se dá através da assimilação das informações do meio, que colaboram com o desenvolvimento das estruturas da inteligência e o mesmo acontece com o desenvolvimento da moral, quando a criança começa compreender e absorver o que o adulto lhe proporciona como certo ou errado.
Para melhor esclarecimento, Piaget relata este conceito através do seguinte trecho:
As primeiras formas de interpretação (assimilação) que a criança faz da moral adulta são em decorrência das estruturas mentais que possui. Estas ainda não lhe permitem uma apropriação intelectual racional do porquê das regras: portanto, a criança acredita serem boas porque impostas por seres vistos como poderosos e amorosos (os pais). (PIAGET, 1994, p.18).
Em sua obra, Caetano (2008) cita Piaget, esclarecendo que para o autor, o objeto da moral é o dever, as regras e as leis. Junto às crianças, Piaget pode observar como elas julgam a mentira, o roubo, a falta de respeito, enganar, entre outras transgressões. Concluiu que, a medida que as crianças vão crescendo, elas buscam relações de igualdade, reciprocidade, deixando as relações de coação e de total obediência.
Cada tipo de moral se constrói fundamentada em um tipo de respeito, o unilateral – que se caracteriza como o respeito do dever, da coação – contribuindo para a formação da moral heterônoma, e o respeito mútuo – fundamentado na cooperação – contribuindo para a formação da moral autônoma. A criança começa a entender o mundo da moral, através da heteronomia, depois passa a desenvolver a moral autônoma, se o ambiente social lhe proporcionar situações que favoreçam esse desenvolvimento (CAETANO, 2008).
A criança faz assimilação da moral adulta através das estruturas mentais que possui, mas ainda não consegue de maneira intelectual racional entender as regras impostas, por isso acredita serem boas, pois são postas por pessoas consideradas poderosas e amorosas. Ao desenvolver estruturas mentais capazes de entender racionalmente, através da cooperação estabelecida na interação social estas vão se desenvolvendo moralmente, exigindo um trabalho de acomodação. Contudo caso isso não ocorra, a criança permanecerá seguindo regras impostas sobre ela tornando-se um adulto heterônomo. (PIAGET, 1994).
As concepções do bem e do mal são abstrações que são construídas através das relações sociais efetivamente vividas. Portanto o desenvolvimento moral não é formado apenas com uma educação de belos discursos, mas sim quando a criança é levada a vivenciar situações onde a sua autonomia será exigida.
Consegue-se identificar uma sociedade, dependendo do conceito que a mesma tem sobre coação e cooperação. Se a cultura for de maneira autoritária, fica limitada a ação pedagógica, vai ajudar, mas não terá o resultado desejado em relação à autonomia das crianças. Ou seja, a família, tem um papel primordial, assim como, o contexto social no qual a criança vive. Acreditar que somente a escola consegue desenvolver a autonomia através do seu trabalho é pensar que uma criança é produto dos métodos e objetivos de uma instituição educacional. Porque a teoria pensa a educação, mas, sobretudo pensa a cultura, e dentro dela a educação. (PIAGET, 1994).
Entendendo a heteronomia e a autonomia
Dentro do que estamos abordando, Vinha (2009) com base na teoria de Piaget afirma que a criança nasce no período de anomia, quando não tem noção nenhuma de regras. Entre 3 e 4 anos começam entrar no mundo das regras, questionando o que pode ou não fazer, entrando num tipo de moral heterônoma, que surge através do respeito unilateral (VINHA, 2000).
Esse respeito unilateral que a criança sente, é uma submissão e obediência plena ao adulto, pois é um sentimento de amor e medo, que a faz realizar ações sem refletir se está certo ou errado. O adulto pode respeitar a criança, mas não se submete a obedecê-la, enquanto a mesma se sente na obrigação de obedecer ao que lhe é imposto (VINHA, 2000).
“A heteronomia é a moral da obediência às pessoas com poder, com autoridade”.
(Vinha, 2000 p. 48). Sempre a regulação é do outro, externa, dependendo das relações sociais, situações ambientais que envolvem pessoas.
O ser heterônomo, procura nos outros, uma resposta do que é bom ou mal, sem levar em conta a sua própria opinião. Uma das características da heteronomia na criança, é seguir regras pela autoridade de quem a coloca, temos como exemplo a obediência da criança em relação aos seus pais, professores ou qualquer outra pessoa que julgue ser autoridade sobre si (VINHA, 2009).
Aos 8 ou 9 anos essa heteronomia precisa ser substituída pelo desenvolvimento de uma autonomia crescente, que consiste no processo, onde a moral é baseada no respeito mútuo, na solidariedade e na reciprocidade. Pois a partir dessa idade a criança passa a ter condições intelectuais para construir essa autonomia, que é um processo inacabável. A construção da moralidade é desenvolvida através das trocas estabelecidas entre o ser humano e o meio. (VINHA 2000).
O desenvolvimento da moral autônoma está embasado em situações que estabelecem a cooperação entre os alunos, fazendo com que contribuem uns com os outros, através de jogos ou até mesmo situações simples do cotidiano, como por exemplo, emprestar o lápis e borracha ao colega que não trouxe.
Com o desenvolvimento cognitivo o ser humano tem capacidade de desenvolver a moralidade ao longo de sua vida, portanto não é suficiente. É preciso haver desequilíbrios que o façam rever hipóteses, normas, relações, para que o mesmo questione seus valores e crie novas perspectivas. Por isso não é possível fazer esse processo sozinho, é preciso à relação e reflexão de pessoas diferentes. (VINHA, 2009).
Para que isso ocorra é preciso a professora questionar na hora certa, levantando dúvidas e questões sobre determinadas atitudes ou situações vivenciadas pelos alunos, tendo a sensibilidade de escutá-los e juntos chegarem em uma determinada solução.
Desenvolvendo o respeito mútuo, é preciso fazer a criança compreender reciprocamente, ser capaz de pensar considerando as opiniões, os desejos e os sentimentos do outro, para que a mesma possa sair da imposição verbal. A transformação tem que ser no coletivo, pois formação individual não transforma, também não é possível desenvolver a autonomia através de imposições de regras, verdades e discursos prontos, pois isso dificulta a criança refletir e concluir sua própria opinião a respeito do que é certo ou errado (VINHA, 2000).
Com isso chegar à conclusão do que é melhor para si e seus colegas, ter consciência do que seus atos ou até mesmo palavras podem causar, saber que se mentir ou ofender os colegas, poderá ficar sozinho devido às pessoas não gostarem disso.
Mas o que vemos em grande parte de nossas escolas, é o professor dando tudo pronto, sem que os alunos pensem sobre suas dificuldades e busquem alternativas para solucioná-las.
Muitos profissionais querem que os alunos sigam o que eles falam, pois se isso não acontece, consideram como indisciplina, mas na verdade espera isso como pré-requisito, enquanto deveria ser um objetivo do professor, a conquistar (VINHA, 2009).
Da heteronomia à autonomia no ambiente escolar
Observamos que a criança heterônoma pratica o respeito unilateral, o de submissão total ao adulto. Dentro de algumas escolas nos deparamos muitas vezes com situações que não favorecem o desenvolvimento da moral autônoma na criança, pois de maneira tradicional, eles escutam e executam o que lhes é proposto. “Só durante o recreio é permitido que as crianças troquem idéias. Assim, as crianças vão continuar heterônomas e se tornarão adultos heterônomos” (VINHA, 99 p.27).
Portanto para que isso mude é preciso os profissionais da educação compreender quão importante são os seus papeis, identificando a importância de começar modificar-se, para que em seguida consigam modificar os seus alunos.
Como será possível as crianças trocarem opiniões, conhecerem novos valores, poderem se expressar a respeito do que pensam e refletir sobre suas decisões, se as carteiras estão enfileiradas, o silêncio é exigido o tempo todo e a única opinião que prevalece é da professora. Com a imposição, não existe respeito mútuo, recíproco, e assim ela continua acreditando que o único que tem razão e total conhecimento é o adulto, por isso se submete, sem questionar ou refletir sobre seus atos. É muito importante estabelecer limites para as crianças, para que elas consigam se situar no espaço e se sintam amadas e protegidas, mas o grande problema está no abuso da autoridade, quando lhe é imposto tudo, sem dar a oportunidade dos alunos se relacionarem, trocarem experiências e refletirem expondo as suas opiniões e até mesmo fazer coisas simples, como decidir o momento de ir ao banheiro.
Também se o professor não organizar um ambiente assim, deixando os alunos fazerem o que querem, também perderá sua autoridade. É preciso aprender respeitar as crianças, não as colocando de igual para igual, mas respeitar sua personalidade, inteligência, a maneira como aprende e como a mesma se interage com o mundo, o que não é fácil para realizarmos dia após dia. (VINHA, 2000).
Portanto, diante de alguns atos, podemos praticar um tipo de sanção que tem a ver com o fato ocorrido. Há dois tipos de sanção: a expiatória, que pune de maneira que não corresponde com ao ato, uma punição de sofrimento, e a sanção por reciprocidade, quando é proporcional ao ato, mantendo um esclarecimento entre os dois. (MANTOVANI DE ASSIS, 2003).
Como é importante estabelecermos limites, a sanção por reciprocidade fará com que o aluno entenda que certas atitudes não são adequadas e permitidas no nosso convívio social, que o colega não se agrada, não gosta, a professora não permite.
Mantovani de Assis (2003) explica que, para Piaget, a educação moral visa constituir personalidades autônomas, que pratiquem a cooperação. Tendo que os dois tipos de respeito são essenciais para a criança, o unilateral e o mútuo, portanto não devemos descuidar.
Para se ter uma educação moral ativa, é preciso proporcionar experiências morais para que as próprias crianças diante de situações diversas possam fazer descobertas sobre a maneira de se relacionar com o próximo, adquirir o conceito de disciplina, solidariedade, responsabilidade, decidindo e discutindo de forma recíproca. Diferente da escola tradicional, a escola ativa implica um trabalho com liberdade, tendo o professor como o colaborador, dando abertura para as crianças cooperarem umas com as outras, esse é o procedimento mais propício para a formação moral (MANTOVANI DE ASSIS, 2003).
Mantovani de Assis (2003) considera serem os princípios dos procedimentos ativos da educação moral, importância de não impor com autoridade aquilo que sozinha a criança pode descobrir e consequentemente estabelecer um meio social infantil, para que a mesma possa fazer experiências desejadas.
Mencionamos o ambiente escolar, como meio de desenvolvimento moral, mas a construção da personalidade moral acontece através de interações com diversos ambientes,
por isso Piaget (1994) afirma que fica limitada a ação da escola, se a criança vive em ambientes autoritários, que a impedem de exercer atitudes e tomar decisões.
Considerações finais
Diante dos autores mencionados, concluímos que o ambiente social, é de estrema importância para desenvolvimento moral autônomo da criança. A autoridade é permitida desde que não haja excesso, é preciso estabelecer limites, como também não podemos fazer pela criança aquilo que ela sozinha é capaz de fazer, sendo assim devemos criar situações para que consiga refletir e agir diante do devido problema, auxiliando-a no que ela pedir ajuda.
Concordando com os autores, percebe-se o quão é difícil encontrarmos uma educação moral que visa o desenvolvimento da autonomia nas escolas atuais, pois sendo um assunto complexo, faz com que muitos profissionais se recusem a praticar, até mesmo por não saber a hora certa de falar, e como falar, preferem continuar agindo do modo que acreditam dar certo.
Esse conflito foi o motivador dessa pesquisa. Esse tema foi escolhido, para esclarecer e incentivar a ações pedagógica rumo a um desenvolvimento moral autônomo dentro das nossas classes e escolas, e consequentemente formarmos cidadãos capazes de lutar pelo seus direitos, sem se submeter a injustiças.
O estudo nos mostrou que é preciso criar um ambiente de cooperação para a criança conseguir se desenvolver moralmente, pois através da coação fica impossível a mesma deixar de apenas obedecer e seguir ideias formadas, para criar a sua.
Infelizmente deparamos com algumas escolas que ainda preferem que os alunos continuem submissos aos seus comandos, por isso não permitem que haja trocas de experiências ou relacionamentos produtivos com novas ideias.
O que torna cada vez mais difícil encontrarmos adultos autônomos, confiantes e determinados no que acreditam ser correto. Pois além da escola, também vivemos em uma sociedade que cria para seguir o que já existe, não para inovar e transformar o que já temos.
Portanto este artigo tem como propósito esclarecer este tema, para que nossos educadores possam colocar em pratica dentro de nossas escolas, aquilo que atualmente estamos precisando urgentemente.
Agradecimentos
Não poderei deixar de agradecer a quem me capacitou e fortaleceu para chegar até aqui, com certeza foi Deus, e quero dar a Ele toda a minha gratidão e reconhecimento, pois sem Ele não teria chegado até aqui.
Gostaria de agradecer a minha mãe, irmã, namorado e amigas de classe que quando precisei estiveram disposto a me ajudar.
Agradecer a minha professora Magda J. Andrade de Barros e Maria Belintane Fermiano, que com paciência e dedicação me orientaram para realizar este trabalho.
Referências
CAETANO, Luciana Maria. O conceito de obediência na relação pais e filhos. São Paulo:
Paulinas, 2008.
FERREIRA RUIZ, Maria José. Reflexões sobre a moralidade infantil. Disponível em:<http://www.rieoei.org/deloslectores/555Ruiz.PDF>. Acesso em: 24 ago. 2013.
MANTOVANI DE ASSIS, Orly Z e ASSIS, Mucio Camargo (Orgs.) PROEPRE Fundamentos teóricos da educação infantil. Campinas, SP: Graf. FE; IDB, 2003.
PIAGET, Jean – O juízo moral na criança / Jean Piaget [tradução: ElzonLeonardon]. São Paulo: Summus, 1994.
VINHA, Telma Pileggi. Desenvolvimento moral, heteronomia e autonomia. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/crianca-e-adolescente/comportamento/telma-vinha- desenvolvimento-moral-504946.shtml. Acessado em: 26 ago. 2013.
VINHA, Telma Pileggi. O educador e a moralidade infantil numa perspectiva construtivista. Disponível em:<http://www.cogeime.org.br/revista/cap0214.pdf>. Acesso em:
31 ago. 2013.
VINHA, Telma Pileggi – O educador e a moralidade infantil: uma visão construtivista.
Campinas, SP: Mercado de Letras; São Paulo: FAPESP, 2000.