CRECHE: CUIDAR OU EDUCAR?!
2.1 Histórico da Educação Infantil
Philippe Àries foi um historiador francês que estudou e escreveu sobre a mudança dos sentimentos dedicados a infância e a família, e segundo ele, o sentimento à infância passou por um longo processo histórico até chegar no que é hoje.
O primeiro está relacionado a uma sociedade tradicional, que via a criança como um adulto em miniatura, assim, a infância era concebida num curto período de tempo, quando ainda precisava de cuidados para sobreviver, um período mais frágil, pois, após criar algumas habilidades físicas e ter condições de viver sem os cuidados constantes da mãe, era colocada junto com os adultos, onde aprendia a fazer as necessidades do cotidiano diretamente com os mais velhos. Durante vários séculos, vivenciava nos espaços dos adultos. Também durante esse período não existia sentimentos especiais para com a criança, isso fica claro com o trecho citado a seguir:
A família não tinha função afetiva [...] isso não quer dizer que o amor estivesse sempre ausente: ao contrario, ele é muitas vezes reconhecível, em alguns casos, desde o noivado, mais geralmente depois do casamento, criado e alimentado pela vida em comum [...] O sentimento entre cônjuges, entre pais e filhos, não era necessário à existência nem ao equilíbrio da família: se ele existisse, tanto melhor (ARIÈS, 1981, p.11).
O segundo conceito de Àries refere-se a uma transformação na atitude das famílias em relação às crianças, que ocorreu na sociedade industrial. Nesse período, a criança ganhou um espaço afetivo, pois a família se tornou um lugar de afeto.
Pode-se ver que, nesse período, começa a surgir uma mudança no sentimento da infância em relação à criança francesa, que, no Brasil, segundo Kuhlmann Jr. (1998), apareceu no final do século XIX.
As instituições de educação infantil, de acordo com Fellipe (1998), assim como o sentimento de infância, também surgiram primeiro na França, no século XVIII, para as crianças pobres, filhas de pais que trabalhavam nas empresas criadas na Revolução Industrial.
As creches, nessa época, tinham caráter assistencialista, onde eram privilegiados os cuidados como higiene, alimentação e segurança da criança.
No Brasil, a história da creche não foi diferente, pois nosso país também sofreu transformações com a Revolução Industrial ocorrida no século XX e, de acordo com Sebastiani (2009), a creche surgiu acompanhando a estruturação do capitalismo, quando houve um avanço na urbanização, gerando a necessidade da reprodução do aumento do trabalho, pois, com a Revolução Industrial, a mulher, que antes tinha como papel cuidar da casa e da família, passou também a trabalhar nas indústrias e fábricas para ajudar os maridos no sustento da casa.
Enfim, com o novo modelo capitalista, a mulher inserida no mercado de trabalho e a permanência de um orçamento familiar comprometido, fez com que as crianças, advindas desse meio econômico, passassem a ficar sozinhas e desprotegidas, propiciando alguns problemas como a mortalidade infantil. É importante ressaltar que quem recebia a culpa por esse e outros problemas eram as mães, pois “se atribuía como causa a má educação das mães para cuidar dos seus filhos” (VIEIRA, 1988, p. 7).
Então, para que as mães não abandonassem suas crianças, surgiram as primeiras instituições pré-escolares assistencialista no Brasil. Instituições essas, que surgiram do sentimento de piedade, caridade e assistencialismo as que trabalhavam fora de casa.
Kuhlmann Jr. (1998) conclui desse modo, que a escolarização das crianças pequenas tem vários motivos, nos quais estão desde a questão econômica do país até fatores sociais, já que envolve o trabalho feminino, transformações familiares, novas representações sociais da infância, entre outros fatores.
Ele expressa ainda que, no ano de 1899, ocorreram dois fatos considerados marco inicial do período analisado. O primeiro, a fundação do Instituto de Proteção e Assistência à Infância do Rio de Janeiro (IPAI-RJ), fundada pelo médico Arthur Moncorvo Filho, uma instituição pioneira, de forte influência, que, em seguida, abriu filiais pelo país, e o segundo, a inauguração da creche da Companhia de Fiação e Tecidos Corcovado (RJ), que foi a primeira creche do Brasil para filhos de operários. O IPAI-RJ era considerado a entidade mais importante do período estudado, em 1929, possuía 22 filiais espalhadas no país, sendo 11 delas com creche (Belo Horizonte, Ceará, Curitiba, Juiz de Fora, Maranhão, Niterói, Petrópolis, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Salvador e Santos).
Kuhlmann Jr. (1998) relata que o IPAI dividia os seus serviços em puericultura intra- uterina – ginecologia, proteção à mulher grávida pobre, higiene da prenhez, assistência ao parto em domicilio, assistência ao recém-nascido, creche, consulta de lactantes, higiene da primeira idade, vacinação, entre outros serviços. Nota-se, assim, que o atendimento as crianças das mães trabalhadoras era realizado nas creches, muitas vezes, dentro das indústrias,
o que levou a Rosemberg (1989) afirmar ser esse o ponto de partida para a inclusão da regulamentação da creche na legislação trabalhista de 1943.
Kuhlmann Jr. (1998) relata em sua obra sobre a diferença na história das instituições pré-escolares da Europa e do Brasil. Pois, na Europa, criaram primeiro os jardins de infância, que tinham um caráter pedagógico e depois foram criadas as creches. No Brasil, o procedimento foi o inverso, primeiro criaram as creches atreladas ao assistencialismo e depois foram introduzidos os jardins de infância. O autor também ressalta que há três influências que são identificadas na composição das forças que participaram da elaboração das políticas das instituições educacionais brasileiras: a médico-higienista, a jurídico-policial e a religiosa.
Apresentaremos brevemente cada uma delas, para compreender como foi desenvolvida a formação histórica da identidade dos profissionais da educação infantil no Brasil.
Foi na década de 1870 que os médicos-higienista começaram a ter influência nas questões educacionais. Nesse período, avançaram os conhecimentos a respeito das relações entre o microorganismo e as doenças. A prevenção dessas doenças passou a ser o objetivo principal para as pesquisas no campo da epidemiologia, e com isso, houve avanços no combate a mortalidade infantil.
Um dos métodos associados à assistência à infância, na época, era de tratar a mortalidade infantil, inserindo na sociedade o saneamento básico, para atingir uma sociedade moderna e civilizada. Outra influência identificada por Kuhlmann Jr. (1998) foi a jurídico- policial, que diz respeito “às preocupações com as legislações trabalhista e criminal que trazem o tema da chamada infância moralmente abandonada”. (KUHLMANN JR., 1998, p.
93).
Para o autor citado, os objetivos, ao fundar as creches e jardins de infância, eram proporcionar recursos aos pobres, ofertando, assim, ensino público primário aos menores, a fim de induzir nas famílias os valiosos resultados da instrução, auxiliar juízes de órfãos a proteger e amparar os menores abandonados, evitar a convivência dos menores de ambos os sexos, estabelecer depósitos com aposentos separados para os dois sexos, entre outros, além de esforçar para realizar a fiscalização de todos os asilos e institutos de assistência pública e privada.
A próxima influência é a religiosa para Kuhlmann Jr. (1998), os religiosos apresentavam a igreja como uma base para a sociedade capitalista, ressaltando que sua experiência secular na caridade não deveria ser desprezada. Destacava-se também que a igreja estava sendo útil por meio das obras salesianas em relação à pobreza, pois, para a concepção religiosa, a caridade da igreja era entendida como instrumento da melhora e salvação espiritual.
Outros fatores que valem ser ressaltados é a presença de religiosos importantes nos discursos nos congressos das instituições de assistência a infância e a implantação de capelas para oficio religioso nas creches e asilos em que alguns religiosos trabalhavam. Observa-se que as instituições dessa época eram exclusivamente de cunho assistencial, onde eram privilegiados os cuidados como higiene, alimentação e segurança física da criança. E a educação, segundo Didonet (2001), permanecia como responsabilidade da família. A discussão da educação nesse período estava limitada muito mais à área da saúde, aos higienistas e sanitaristas, do que aos educadores. Nesse período, a creche era um recurso relacionado à pobreza, um meio de socorro a mulheres pobres e desamparadas.
Para Rosemberg (1989), a creche era uma instituição que se destinava a ser como um equipamento substituindo as mães que trabalhavam fora e tinha como objetivo resolver os problemas ocasionados pela mudança da sociedade. Também é importante ressaltar que essas instituições eram de iniciativa dos setores privados, e o Estado era apenas um fiscalizador. De acordo com Vieira (1988), o Estado não criava planos e programas para as creches, não dimensionava metas e custos e não planejava a ampliação do atendimento dessas instituições.
O Estado começou a formular políticas para infância, a partir de 1940, quando, segundo Vieira (1988), ocorreu uma mudança no comportamento assistencial do Estado e dos empresários em relação aos trabalhadores urbanos. O Estado começou então, a se equipar de entidades e pessoal técnico para executar ações sociais, responsabilizando-se pela área de saúde, educação, assistência e previdência.
Após 1940, o Estado interveio nas creches, gerando dispositivos legais na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), determinando, segundo Didonet (2001), que as empresas com mais de 30 mulheres trabalhadoras deveriam ter um espaço para o abrigo das crianças no período de amamentação. Porém, apesar de o Estado ter interferido nas políticas para infância, as instituições ainda eram criadas pela iniciativa privada e foi somente na década de 1980 que a educação infantil passou por melhorias, que foram conquistadas através de movimentos populares dos anos de 1970.
De acordo com Rosemberg (1989), em 1964, foi dado o golpe militar no Brasil, estabelecendo um grande período de ditadura, quando a liberdade de expressão e a organização da sociedade civil foram restringidas. Mas, apesar dessa determinação, a partir dos anos 70, surgiram manifestações de organização da sociedade civil nas grandes cidades, em que havia a participação intensa das mulheres nos grupos femininos ou em movimentos feministas. Esses grupos tinham como palavra de ordem revindicações relativas às discriminações de gênero, e logo após, a reivindicação por creche.
Nesse mesmo ano, foi realizado, pela primeira vez na cidade, uma manifestação pública de impacto de reivindicação por creche, esse movimento foi composto por funcionários, alunos e professores da Universidade de São Paulo.
Também, nessa época, foram surgindo outros movimentos isolados reivindicando por creches, pois as instituições existentes já não comportavam a grande demanda de crianças.
Mais tarde, os movimentos que até então eram isolados, foram organizados em um movimento unitário, o chamado Movimento de Luta por Creches, que foi oficialmente criado em 1979. Esse movimento integrou feministas de várias tendências, entre elas, os grupos de mulheres associados ou não associados à Igreja Católica, partidos políticos, grupos independentes e grupos dispersos de moradores.
A partir desses movimentos populares, o poder municipal de São Paulo passou a investir melhor na ampliação das creches, que começou também a ser pensada como espaço coletivo de educação e cuidados para crianças de zero a cinco anos de idade.
De acordo com o RCNEI - Referencial Curricular Nacional da Educação Infantil com o movimento da sociedade civil e de órgãos governamentais, a Constituição de 1988 (artigo 208, inciso IV) alterada pela EC nº 59/2009, define finalmente a Educação infantil, de crianças de zero a cinco anos, como dever legal do Estado, e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) 9.394/1996 estabelece o vínculo entre o atendimento às crianças de zero a cinco anos e a educação.
Nota-se, portanto, que a creche passou por uma longa trajetória e que fatores como as mudanças sociais na infância e na família, inclusão da mulher no mercado de trabalho, foram movimentos populares de grande importância para o novo conceito de creche, uma instituição destinada além do cuidar, mas também de educar.