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Estes rituais possibilitam então a produção e a comunicação dos significados entre os diversos atores sociais. Mas, seria ingenuidade pensar que esses significados sejam produzidos de forma harmônica ou homogênea. Na realidade, o conflito e a disputa pela própria definição dos significados é o que põe os processos em movimento. Assim, inicio este capítulo com os grandes eventos das romarias e Assembleias, para depois adentrar na discussão que permeia o processo de produção do Toré, informado por distintos fluxos culturais e as tensões que este mantém com a Umbanda, a partir da possibilidade da incorporação de espíritos durante o ritual, fato que pode ser visto de ângulos variados pelos sujeitos que participam do campo indigenista no Ceará.

forma, aqueles indivíduos e grupos mais envolvidos com o movimento indígena buscam, através das Assembleias, ter reforçadas suas posições de prestígio e influência.

Amparando-me em outra análise de Victor Turner, posso dizer que as peregrinações são fenômeno liminares, com nítidas dimensões espaciais e que

revelam em suas relações sociais a qualidade de communitas; e, em peregrinações há muito estabelecidas esta qualidade se articula, até certo ponto, com a estrutura social circundante através de sua organização social. (Turner, 2008, p. 156)

Nesse sentido, segundo Carlos Alberto Steil

Dentro deste modelo construído por Victor Turner, pode-se falar de uma estrutura peregrínica, que nos remete necessariamente à experiência da communitas, produtora de um espaço simbólico onde as regras sociais, as hierarquias e os constrangimentos morais são abrogados. O que torna a peregrinação, na sua forma tradicional, uma crítica à sociabilidade do cotidiano e à vida moderna, que se organiza a partir da divisão social do trabalho e da produção de múltiplos status sociais. Esta crítica, contudo, não se dá pela imposição de dogmas religiosos e morais ou de um corpus ideológico e doutrinário, mas por uma performance que se expressa através dos corpos, das emoções e dos afetos que circulam entre os peregrinos nas viagens e nos locais sagrados. Performance esta que nos remete imediatamente ao caráter festivo, lúdico e transgressivo das peregrinações (Steil, 1999, p. 413).

Originalmente organizada e estimulada pelas agências missionárias, a Assembleia dos povos indígenas no Ceará, começou como uma romaria a sítios arqueológicos, onde a história dos povos indígenas da região de Crateús poderia ser encontrada – Furna dos Caboclos, Tucuns e Cidade dos Cocos.

A inspiração missionária para a realização desses eventos é antiga, advindo do esforço de compreensão das práticas religiosas e culturais populares, com a finalidade de elaborar uma metodologia para atingir o povo. O uso da cultura nesse caso era associado ao uso da linguagem, no sentido performático também, mas fundamentalmente como um meio de transmissão de novos conteúdos. A cultura era vista como uma forma de falar ao povo (Arruti, 2002, p. 21, grifo no original). Esta perspectiva pode ser observada em alguns documentos constantes do Arquivo da Pastoral Raízes Indígenas e que refletem as preocupações da missionária Maria Amélia Leite, da Missão Tremembé, em como se comunicar com os indígenas através da linguagem das romarias.

São dois textos datados do ano de 1989. O primeiro é um relato de Maria Amélia, escrito em 03 de março de 1989, sobre a Romaria de Santa Luzia, em Gijoca, no litoral oeste do Ceará. Essa romaria ocorre entre os dias 12 e 13 de dezembro e foi realizada pela missionária no ano de 1988, acompanhando alguns Tremembé. Ela menciona o trajeto até o local, o comportamento dos indígenas e dos outros participantes, conversas com o pároco e com moradores antigos. Fala também sobre a participação dos Tremembé e faz relações com outras romarias como a do Canindé e a de Juazeiro. No final, associa as romarias católicas populares com a busca pela mítica Terra Sem Males. Esta última noção uma reelaboração teológica do Conselho Indigenista Missionário - CIMI sobre uma noção cosmológica guarani que foi registrada na literatura etnológica (Pompa, 2003).

O segundo texto é uma carta de Maria Amélia, de 20 de outubro de 1989, planejando um encontro de missionários em Juazeiro do Norte para Janeiro de 1990, durante a Romaria do Padre Cícero. Este encontro visava reunir distintos agentes católicos do Nordeste numa casa de romeiros, um rancho coletivo com capacidade para 15 a 20 pessoas. Entre os possíveis participantes encontrar-se-iam, além da própria Maria Amélia, a Irmã Anete e o Pe. Murilo (da Paróquia Matriz do Juazeiro), Saulo e Jorge (do CIMI Nordeste), Eduardo Hoornaert, Maria Leônia Sampaio Furtado, Antonio Pinheiro de Freitas e o Pe. Fernando (estes últimos de Fortaleza). Segundo Maria Amélia,

A idéia desse encontro nasceu numa conversa sobre os passos que estamos dando nessa preocupação de animar os povos diferenciados que, aos poucos estamos descobrindo nas áreas onde atuamos. Para nós foi clareando o sentido profundo da busca da TERRA NOVA, da TERRA PROMETIDA, da TERRA SEM MALES – uma constante na vida dos Índios, na vida dos Camponeses do Nordeste. Temos notícia da presença organizada de vários grupos étnicos do NE, nas diversas Romarias do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, aqui no Ceará. Esse fato é do conhecimento e domínio públicos, tendo sido, inclusive registrado inúmeras vezes, através da imprensa falada, escrita e televisionada. E também pela própria Paróquia em Juazeiro.

A Romaria se revela, então, um momento forte, importante, para nós nos juntarmos, já que para esses povos é uma necessidade visível, que faz parte da própria vida. (Leite, 1989, p.1)

A partir desta constatação, o encontro teria dois momentos bem distintos: a participação na romaria e uma reflexão entre os missionários. A experiência sensível de realizar os atos penitenciais junto aos outros romeiros, buscando neles os sinais indígenas, seria acompanhada

por um momento de compartilhamento e narração dessas experiências, com o intuito de sistematizá-las e torná-las reprodutíveis em cada um dos lugares onde os missionários atuavam.

PARTICIPAÇÃO NA ROMARIA do Padre Cícero durante a Festa de Nossa Senhora das Candeias (...). Esse primeiro momento será como que um certo mergulho em plena Romaria, para que possamos perceber a presença indígena de diferentes formas entre os romeiros que passam lá, e que vivem lá. Teremos algo para nos orientar nessa busca.

REFLEXÃO ENTRE NÓS, nos dias 3 e 4 seguintes, vamos conversar sobre a realidade descoberta nos dias da Romaria e também sobre o que já percebemos nas nossas áreas de trabalho, resultante do contato com os povos étnicos com quem estamos convivendo. (Leite, 1989, p. 1 e 2)

Seguindo este modelo de organização da experiência propiciado pelas romarias, as agências missionárias Missão Tremembé e Pastoral Raízes Indígenas começaram a elaborar as primeiras propostas de romarias indígenas: a Romaria dos Tremembés e a Romaria dos Mártires da Furna dos Caboclos do Monte Nebo, em Crateús3.

Essa segunda romaria iniciou-se em 1991 promovida pela Pastoral Raízes Indígenas.

O objetivo principal era realizar uma visita ao sítio arqueológico da Furna dos Caboclos, localizado no distrito do Monte Nebo, em Crateús. De acordo com a história local esse sítio arqueológico foi o local do massacre do último bando de índios selvagens na região, vindo daí a explicação para a grande quantidade de ossos presentes na furna.

Para a ação missionária, a visita a este local servia como processo de condensação simbólica de narrativas e experiências que os vários participantes do movimento indígena traziam consigo. Estar num lugar marcado pela presença dos antepassados possibilitava um despertar das memórias e das raízes indígenas até então adormecidas.

Para além disso, o deslocamento, as acomodações e a alimentação, precários e improvisados, contribuíam para a construção de um momento de “suspensão social”

típico de processos rituais, entre eles as peregrinações cristãs, onde os aspectos do sofrimento, do desprendimento e da resignação são enfatizados como meios de alcançar as graças prometidas. É importante destacar que neste imaginário católico o sofrimento é entendido enquanto luta, movimento, esforço para alcançar a graça da libertação. No

3 Segundo Barretto Fº, a Equipe de Assessoria às Comunidades Rurais da Arquidiocese de Fortaleza, que trabalhava junto aos Tapeba, atuava nesta mesma direção promovendo o dia 3 de outubro como o Dia dos Índios Tapebas, marcando o aniversário de morte do último líder do grupo em 1984. Com ‘essa data de festa, missa e caminhada das comunidades ao cemitério’, a Equipe queria fortalecer os laços de ‘comunidade’ tapeba, dando forma e instituindo uma data para mobilizar o sentimento que eles tem de constituir um todo (2004, p.

125).

caso da romaria ao Monte Nebo, essa graça era proposta pela Pastoral como uma maior autoconsciência da pertença indígena de cada um dos participantes.

Um terceiro documento do arquivo da Pastoral Raízes Indígenas, uma carta- relatório, de 08 de dezembro de 1993, nos indica os eventos ocorridos durante uma das romarias ao Monte Nebo, a metodologia pastoral e as suas intencionalidades

Queridos irmãos e irmãs, amigos e amigas de raízes Indígenas

Pela 3ª vez nos dias 30 e 31 de outubro, uns 80 ameríndios da região de Crateús, Poranga, Nova Russas, com uma boa representação dos Tremembés, Tapebas e Potiguari, foram para o Monte Nebo em Romaria.

Ao chegar o anoitecer, uma linda fogueira e o povo da família de seu Mariano nos acolheram. Bem depressa, os grupinhos se arrancharam debaixo dos pés de cajueiros. O jantar foi partilhado pois cada um tinha trazido um

“frito” vimos os slides da 2ª Romaria dos Tremembés e de alguns lugares importantes nas raízes indígenas.

A apresentação foi bonita e criativa, desde o artesanato de Poranga ao casamento Tupinambá pela Vila Vitória que foi seguido pelo Torém. Noite de dança inesquecível pelo mocororó e a garafa doida4 e todos com os enfeites.

Cedinho todos subiram a serra para visitar as furnas e os letreiros e os ossos. A oração foi profunda e densa, Dona Maria José puxou o rosário de Nossa Senhora da Piedade, Dona Diana cantou o pranto de Nossa Senhora e seu Luiz rezou a oração das 13 palavras ditas e reformadas. Merendamos os bolinhos de milho, já que por falta de mandioca não deu para preparar mansape5. Enquanto um grupinho preparava o almoço comunitário tivemos um tempo bom para ouvir uns dos outros as lutas pela demarcação da terra indígena, ou por moradia.

Depois do almoço regressamos para Crateús onde nos reencontramos na catedral onde tinha um espaço para contar ao povo o sentido de dar valor a conhecer melhor as raízes. E na casa paroquial vimos o vídeo do encontro em Março em Crateús. (Carta-relatório da Pastoral Raízes Indígenas. 08 de dezembro de 1993)

Após uma viagem de pau-de-arara, os romeiros-índios arrancharam-se em algumas casas do povoado e muitos armaram suas redes embaixo das copas das árvores.

Partilharam alimentos e passaram parte da noite conversando, expondo artesanato, fazendo celebrações (teatro, Torém) e ouvindo narrativas sobre a Furna dos Caboclos.

No dia seguinte, levantaram cedo e puseram-se em caminhada, serra acima, até a Furna. Lá chegando, realizaram uma celebração, com cânticos e orações. Depois, um almoço coletivo foi preparado. As pinturas rupestres, os cacos de cerâmica, os ossos, o cruzeiro afixado com os dizeres “massacre dos índios”, as orações e o Torém

4 Garapa doida - caldo de cana fermentado, de leve teor alcóolico.

5 Bolo de massa de mandioca cozido enrolado em folhas de bananeira. É um alimento comum na região de Crateús.

compunham o cenário para a realização de um drama étnico-missionário cuidadosamente planejado e executado.

De acordo com alguns indígenas que participaram da romaria, esse ambiente era tão forte que algumas pessoas chegaram a receber os espíritos dos caboclos que viveram naquela furna. Para muitos dos participantes da romaria esse era o atestado mais convincente da validade daquele processo ritual.

Seu Antônio Jovelino - ...Uma vez nos fumo no Monte Nebo. A Eliane6 foi também. Nós fomo daqui quase tudo. Fretei um carro aqui, nós levamo umas setenta pessoas. (Inaudível) Não sei se na subida... Acho que foi, foi na descida. Nós descemo tudinho da serra para vir embora, que quando vai chegando perto do fim da da... da subida da serra, a Eliane caiu. E quando a Eliane caiu, eu inda vinha muito longe em cima, de lá de cima do morro! E a Tereza já tava, já tinha descido. Aí chegou um bocado de índio, levantaram ela a força, assim. A Tereza foi e: – Não, negrada! Para, aí. Que aqui não é gente desse mundo, não. Eu sei o que é que tá se passando com ela, aí. Tinha sido um Caboco da Mata que tinha baixado nela. Morto de sede! Esse Caboco desceu, morto de sede, pedindo, pedindo vel... luz e água. Aí, a Tereza foi e se concentrou e tirou ele... pro espaço. Aí, ele ficou só ali vum, vum... Aí, falou na boca da Eliane: – Eu quero é água e luz! Rapaz! Nessas coisas eu acredito.

Porque ela não bebia um, um, uma cuia com três litros d’água, duma vez. E bebeu todinha. E bebeu foi duas vez. A cuia, a primeira cuia ela bebeu todinha. A outra já ficou um bocado na cuia, a cuia assim, desse tamanho aqui, ó. Aí, a Tereza foi retirou ele, levantou ela, a bichinha ficou com o cabelo toda cheia de folha. Eu desci com ela pegado por um lado. Aí, chegamo lá em baixo. Ela disse: – Mãe! Que quando eu fui pegando no pau assim eu vi o Cabocão, os braços desta grossura! (risos) A Eliane também é média, rapaz, agora não faz ligar.

Estêvão – E por que é que o Caboco pegou ela lá no Monte Nebo?

Seu Antônio – Tava precisando de luz e de água. Com sede e a falta da luz. Porque... Morreu mas não tem quem bote luz pra ele. Faz assim, quando se lembra. (...) Tem a Furna lá que mataram mode quase mil, quase dois mil índio lá (Inaudível) É dos mesmos tronco dessa serra aí da, da, da Santa Rosa.

É pegado bem... Dali da Santa Rosa pra lá parece que é bem pertinho, não é muito longe, não. É tanto que hoje, mesmo, eles não querem mais nem que entre mais nenhum indígena lá. Tá até cercado de arame, pra gente não entrar lá. (Antônio Jovelino, Maratoã, Agosto de 2008)

Obviamente, a manifestação mediúnica era vista com certa desconfiança num contexto de mobilização organizada pela igreja católica. Curiosamente, como era entendida por vários atores como a comprovação da efetividade dos poderes espirituais daquele local, era tolerada pelos agentes pastorais que aguardavam a ocorrência desses

6 Uma das filhas de Seu Antônio e Dona Tereza Kariri.

eventos com certa ansiedade. A ambiguidade e a tensão provocada pela incorporação de espíritos nos atos rituais do movimento indígena cearense continua a ocorrer nas Assembleias indígenas de hoje e atravessa as discussões sobre legitimidade e autenticidade das expressões culturais de cada etnia e de todas elas em conjunto.

Voltaremos a esta questão no próximo item.

Voltando às romarias realizadas pela Pastoral Raízes Indígenas, na mesma carta, são registradas outras interações derivadas da romaria daquele ano de 1993 e a preparação das atividades para o ano seguinte

E para coroar este acontecimento, a Diana da Varjota7 acompanhou a turminha de Poranga para 04 dias de visita. O povo gostou muito dela e pergunta quando vai voltar. Em novembro todo, Gracinha, irmãzinha de Jesus8, esteve na Região. Ela contou muita coisa importante sobre a vida dos Tapirapé e assurini, com quem conviveu e a quem ajudaram-a a descobrir e assumir sua raiz indígena. Ela deu testemunho da boniteza de sua vida na aldeia e se sente feliz de ser desta mesma raiz.

- E no dia 28/11 uma representação dos bairros em Crateús se reuniram para avaliar os trabalhos e pensar em 1994. (...) E estamos sonhando com uma Assembléia indígena para juntar bem muitos parentes e conversarmos nossas notícias, descobertas etc.

Para todos, votos de muita saúde, coragem e firmeza em ’94. (Carta- relatório da Pastoral Raízes Indígenas. 08 de dezembro de 1993, grifos nossos)

Assim, a partir dessa programação, a Pastoral Raízes Indígenas e a Missão Tremembé organizaram uma romaria para outro sítio arqueológico, localizado na Cidade dos Cocos, no município de Poranga.

Foi aqui na nossa região, inclusive, que se deu origem as Assembléias regionais e a primeira Assembléia Estadual, que não foi programada Assembléia estadual, foi programada Assembléia regional, mas como veio um ônibus lotado de índios trazido pela Missão Tremembé, aí, naquele momento se consolidou assim uma Assembléia Estadual. E foi aqui em Poranga. (...) Vieram os índios da Paraíba também. Veio o Caboquinho, que foi convidado. Foi feita assim uma articulação grande e naquele momento, a partir daquela primeira Assembléia que foi feita com representantes de outros povos, ali se originou a Assembléia Estadual. (Helena Gomes Potyguara, Nazário, novembro de 2006).

7 Varjota - aldeia Tremembé localizada no município de Itarema, na margem oriental do rio Aracati-Mirim (Valle, 2004).

8 Ordem missionária católica que se destacou pelo convívio e inserção junto aos povos indígenas do Brasil Central propondo uma nova forma de ação missionária que evitava fazer proselitismo e enfatizava a convivência e a assimilação do modo de vida dos indígenas pelas missionárias (Rufino, 2006).

Essa romaria foi precedida por dois dias de encontro e discussão, financiados por um projeto da Missão Tremembé. Esse evento contou com a participação dos grupos mobilizados pela Pastoral Raízes Indígenas; com os 4 grupos do litoral cearense que estavam sendo reconhecidos naquele momento; com uma delegação de indígenas Potiguara da Paraíba, que representavam as organizações indígenas Capoib9 e Apoinme10; com representantes da Pastoral Indigenista da Arquidiocese de Fortaleza (Lourdes) e do Movimento de Apoio aos Índios Pitaguary (Carlos Alencar) e de alunos do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará.

Durante os dias do evento, realizaram-se diversas atividades, tais como discussões, relatos da situação fundiária de cada grupo, modos de organizar a luta pelo reconhecimento e momentos rituais. As tarefas de alimentação e limpeza do ambiente foram divididas entre os grupos participantes.

Outros momentos importantes da Assembleia foram reservados para contar histórias e piadas e para visitas à cachoeira do Pinga e à furna na Cidade dos Cocos. O documento final do evento foi divulgado na imprensa estadual e nacional confirmando a realização da primeira Assembleia indígena no Ceará, que reuniu representantes de nove povos indígenas no Estado.

ÍNDIOS DO CEARÁ SE ENCONTRAM EM ASSEMBLÉIA

Lideranças indígenas calabassa, kariri, potiguara de Monte Nebo, tabajara, tupinambá, jenipapo-kanindé, pitaguari, tapeba e tremembé estão reunidas de hoje até o dia 29 em Poranga, distrito do município de Crateús, na I Assembléia Indígena do Ceará. O encontro faz parte da programação anual da romaria indígena na “Furna dos Caboclos”, em Monte Nebo, próximo de Crateús, que acontece desde 1990. (Diário do Nordeste, 26/08/94). (Povos Indígenas no Brasil 1991/95 – Instituto Socioambiental. São Paulo, 1996.

pp 480-481.)

Assim, realizaram-se as primeiras romarias ao Monte Nebo, entre os anos de 1991 e 1993 e a primeira Assembleia em Poranga, em 1994, que teve no seu último dia, uma romaria ao sítio arqueológico da Cidade dos Cocos. Após esta primeira Assembleia, inicia- se um rodízio entre as aldeias e etnias sedes.

9 Conselho de Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.

10 Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste Minas Gerais e Espírito Santo.

Desde a primeira, toda Assembleia segue o mesmo roteiro básico: primeiro o deslocamento, a viagem dos grupos distantes do local; em seguida, a chegada, a acolhida, com as acomodações das pessoas. A abertura da Assembleia, pontuada por momentos rituais. O desenvolvimeto das atividades, com as plenárias, discussões, e eventualmente, uma visita à praia ou outro local tido como sagrado. Nesse desenvolvimento ocorrem diversos tipos de interação política, lúdica, sexual, conflituosa, etc. Ao final, ocorre a noite cultural, geralmente articulada com um grande ritual agregador e com um momento de avaliação. Depois, é o retorno para as aldeias de origem. Como Turner já havia notado, esta é uma “estrutura da experiência” que se repete e quando a tomamos como um estudo de caso, temos a possibilidade de

considerar o processo social, envolvendo um determinado grupo de peregrinos durante seus preparativos para a partida, suas experiências coletivas na viagem, sua chegada ao centro de peregrinação, seu comportamento e suas impressões neste centro, e sua viagem de volta como um seqüência de dramas e empreendimentos sociais, e outras unidades processuais (...) nos quais ocorre um desenvolvimento da natureza e da intensidade dos relacionamentos entre os membros do grupo de peregrinação e seus subgrupos (Turner, 2008, p. 156).

A Assembleia ocorre no final do ano entre os meses de novembro/dezembro, tem uma duração de cinco dias e obedece um rodízio de aldeias-sede, buscando contemplar todas as etnias do estado. Neste rodízio, destaca-se como maior justificativa para a escolha dos locais sede a situação de conflito fundiário que esteja sendo vivida por determinado grupo. A realização da Assembleia é pensada como um reforço na mobilização dos grupos que estão sediando o evento.

Desde os anos 1990 a Assembleia do Ceará ganhou corpo, crescendo e complexificando-se junto com a ampliação do movimento indígena no estado. Sua organização atual é presidida por 3 organizações indígenas que mantêm graus distintos de competição e cooperação entre si e com as agências missionárias e indigenistas.

Naquele momento [1994] não tinha assim que era dirigido por tal e tal organização não. As Assembléias caminhavam assim, a cada ano ia ser num lugar e aquela pessoa do lugar ficava responsável de preparar o ambiente, articular e mandar o convite para os outros povos. Mais tarde foi que entrou a APOINME, entrou outras organizações, que ficaram um pouco à frente dessa organização que foi a Assembléia. Perdeu um pouco aquilo que