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CAPÍTULO

3

registrada como manifestação folclórica dos Tremembé de Almofala e, a partir dos anos 1990, tornou-se um dos referenciais fundamentais da mobilização étnica dos Tremembé.

Durante a dança, realizam-se intervalos para o consumo do mocororó: um vinho feito a partir do suco do caju fermentado. O Torém é dançado em roda, com duas pessoas no centro tocando maracás e que puxam as músicas, cantadas com palavras em uma língua que aparenta mesclar palavras tupis, portuguesas e de uma outra língua desconhecida. A dança é pantomímica, reproduzindo os comportamentos dos animais descritos nas músicas (guaxinim, cachorro, camarão, tainha) (Valle, 2004 e 2005).

O Toré é uma outra dança ritual indígena, que possivelmente se originou no vale do submédio e baixo São Francisco, entre os grupos indígenas aldeados nas antigas missões dessa área. Sua execução pode contar além dos maracás com bastões percussivos, pífanos e trombetas (buzos), sendo dançado em círculos, filas ou pares, variando de acordo com a coletividade indígena que o realiza. Durante o Toré geralmente há o consumo de uma bebida feita com a entrecasca da raiz da Jurema (Mimosa hostilis, Benth) e o transe mediúnico com a incorporação de entidades chamadas de Encantados.

As músicas do Toré geralmente são cantadas em português e falam dos Caboclos Encantados que vivem no Reino do Juremá2.

O Toré foi visto pelo antigo Serviço de Proteção aos Índios, nos anos 1940, como atestado definidor da consciência dos “remanescentes indígenas” do Nordeste e foi utilizado por este órgão como critério aferidor da autenticidade dos grupos que reivindicavam sua atenção (Grünewald, 2005). A partir dos anos 1970, com a crescente inserção missionária nos contextos étnicos da região, o Toré foi tomado por estes agentes como um poderoso instrumento de mobilização e sua prática foi difundida ou revitalizada em diversos contextos de emergências étnicas, entre eles o Ceará (Arruti, 2006b; Palitot e Souza Jr., 2005 e Valle, 2005).

dança em círculo, acompanhada por um maracá (iguaré) e uma trombeta (torém). As músicas eram entoadas em língua indígena e no centro da roda ficava u pote com vinho de mandioca que era servido aos participantes em intervalos regulares. O ritual também era associado com práticas de cura que os regionais denominavam feitiçaria (Valle, 2005, p. 227; Porto Alegre, 2003, p. 58). Ainda no final do século XIX, o Padre Antônio Tomás descreveu o Torém realizado em Almofala. Uma descrição vivaz e que guarda muitas semelhanças com os registros posteriores da dança, sobressaindo-se a forma de organização e o consumo de aguardente (no lugar do cauim) durante os intervalos (Valle, 2005, p. 227).

2 Nesse sentido, o Toré aparece em outros contextos ritualísticos, não diretamente relacionados a grupos indígenas específicos, denominados catimbó, “torés misturados” ou Jurema Sagrada, mas operando como marca dessa ancestralidade e individualizando tais práticas em relação aos cultos afro-brasileiros (Vandezande, 1975; Tromboni, 1994).

A noção de performance que utilizo neste capítulo baseia-se na leitura dos trabalhos de Victor Turner, em especial o texto Dewey, Dilthey e Drama: um ensaio em antropologia da experiência (2005). Neste trabalho Turner busca uma aproximação entre a noção de performance desenvolve-se a partir da idéia de experiência, entendida enquanto um drama social. Na visão de John Dawsey, que apresenta este ensaio,

Através do processo de performance, o contido ou suprimido revela-se – Dilthey usa o termo Ausdruck, de ausdrucken, “espremer”. Citando Dilthey, Turner descreve cinco “momentos” que constituem a estrutura processual de cada erlebnis, ou experiência vivida: 1) algo acontece ao nível da percepção (sendo que a dor ou o prazer podem ser sentidos de forma mais intensa do que comportamentos repetitivos ou de rotina); 2) imagens de experiências do passado são evocadas e delineadas – de forma aguda; 3) emoções associadas aos eventos do passado são revividas; 4) o passado articula-se ao presente numa “relação musical” conforme a analogia de Dilthey), tornando possível a descoberta e construção de significado; e 5) a experiência se completa através de uma forma de “expressão”.

Performance – termo que deriva do francês antigo parfournir, “completar”

ou “realizar inteiramente” – refere-se, justamente, ao momento da expressão. A performance completa uma experiência. (Dawsey, 2005, p.

166).

A dimensão performática contida nos rituais do Toré e Torém e nos eventos das romarias e Assembleias é fundamental para a compreensão dos processos sociais e simbólicos que constituem o movimento indígena no Ceará.

A questão é se diretrizes significativas emergem do encontro existencial na subjetividade, daquilo que derivamos de estruturas ou unidades de experiência prévias numa relação vital com a nova experiência. Isso é uma questão de significado (...). É somente quando relacionamos a preocupante experiência atual com os resultados cumulativos de experiências passadas – se não semelhantes, pelo menos relevantes e de potência correspondente – que emerge o tipo de estrutura relacional chamada “significado”. (...) a experiência incita a expressão, ou a comunicação, com os outros. Somos seres sociais e queremos dizer o que aprendemos com a experiência. As artes dependem desse ímpeto para confessar e declamar. Os significados obtidos as duras penas devem ser ditos, pintados, dançados, dramatizados, enfim, colocados em circulação. Aqui o ímpeto do pavão para exibir-se não se distingue da necessidade ritualizada de se comunicar. O eu e o não-eu, o ego e o não-ego, a auto-afirmação e o altruísmo, encontram-se e se fundem em comunicações significativas. (Turner, 2005, p. 179-180)

Estes rituais possibilitam então a produção e a comunicação dos significados entre os diversos atores sociais. Mas, seria ingenuidade pensar que esses significados sejam produzidos de forma harmônica ou homogênea. Na realidade, o conflito e a disputa pela própria definição dos significados é o que põe os processos em movimento. Assim, inicio este capítulo com os grandes eventos das romarias e Assembleias, para depois adentrar na discussão que permeia o processo de produção do Toré, informado por distintos fluxos culturais e as tensões que este mantém com a Umbanda, a partir da possibilidade da incorporação de espíritos durante o ritual, fato que pode ser visto de ângulos variados pelos sujeitos que participam do campo indigenista no Ceará.