61 Os artigos que utilizam a Teoria Institucional como referência principal foram apenas 2 e ambos foram combinados com o paradigma eclético. Outros três artigos mencionam autores relacionados à Teoria Institucional, como North (1990, 1991) e La Porta et al. (1999), sem, no entanto, utilizá-los como referência principal para a análise.
Um total de 6 artigos basearam-se principalmente em estudos empíricos, sem uma definição clara da base teórica utilizada. Desses, um incorpora o Paradigma Eclético e um o cita como parte das principais teorias, sem, no entanto, utilizá-lo diretamente para a análise.
A influência do Paradigma Eclético é vista nos estudos selecionados que utilizaram variáveis econômicas e institucionais. A Teoria Institucional foi utilizada como um auxílio na compreensão dos determinantes subnacionais, o que está em linha com Meyer e Nguyen (2005).
Nesta tese, o Paradigma Eclético servirá de base para as análises envolvendo aspectos tanto econômicos quanto institucionais dos determinantes de IED.
62 significante em 85 dos 115 estudos revisados (74%). No entanto, “entre os estudos restantes, 26 não encontraram associação significativa e outros 4 estudos encontraram o efeito oposto”.
Esses últimos explicam esse tipo de resultado ao fato de que os investimentos tinham como motivo a busca por eficiência. Mas em relação a dois dos mais fundamentais fatores de custo, da mão de obra e impostos, os autores destacam a fragmentação em termos de suporte empírico. Supostamente, as MNE devem preferir locais em que os salários e os níveis de impostos sejam baixos, o que resultaria em aumento dos seus lucros. No entanto, somente 49% (41 estudos) que utilizaram variáveis salariais tiveram uma associação negativa estatisticamente significante entre salários mais baixos e a escolha de localização de IDE.
Além disso, “34% (28 estudos) não conseguem apoio e surpreendentes 17% (14 estudos) encontram a associação oposta, ou seja, que mais IDE foi atraído para locais com altos salários (por exemplo, Chung & Alcácer, 2002)”. Para impostos, os resultados são ainda mais ambíguos, “com uma quantidade igual de estudos encontrando uma correlação positiva e negativa das taxas de imposto sobre IED (12 estudos em cada grupo, ou 89% do total) e 3 estudos (11%) não encontraram associação” (p. 73). Os autores chamam a atenção para a ausência de fatores institucionais incorporados a esses estudos, bem como as condições de infraestrutura.
Com base nos resultados de Asmussen e Weatherall (2017), considera-se que os determinantes tradicionais, de tipo econômico, devem ser considerados com cautela. Esses fatores representam as condições do país e, em análises desse tipo, as condições da firma devem ser consideradas. Mesmo no caso de investimentos de tipo resource-seeking, como por exemplo, no setor agrícola, como reporta Nascimento (2011), as contingências do local onde o investimento será realizado podem ser de dois tipos: aquelas relacionadas às características da terra e aquelas relacionadas às características do seu proprietário. Pelo lado das características da terra, tem-se os atributos da propriedade, como a localização, os recursos naturais disponíveis e utilizáveis para a produção, e a proximidade dos fornecedores de insumos e consumidores. A dotação de recursos dessa terra podem ser a qualidade do solo e seu declive, a área utilizável, a quantidade de água disponível e o regime climático. Essas são características da terra e para mudá-las, é necessário o um investimento substancial de capital.
Esses fatores influenciam que tipo de produto, que quantidade de insumos e tecnologia são mais apropriados. Além disso, quanto maior o controle do investidor sobre a posse dessa terra, menor as incertezas e riscos.
Mas as contingências não se limitam às características da terra e sua localização geográfica. Depende também das capacidades de seu proprietário e do pessoal contratado para
63 a produção e o gerenciamento da operação, o pleno conhecimento do tipo de produção agrícola levada a cabo e as culturas potenciais, para que possa melhor gerenciar as atividades comerciais e administrativas. Importam ainda o nível educacional, que determinará a aquisição e utilização de novos conhecimentos e habilidades que levem à adoção de novas tecnologias, assim como a capacidade financeira para produzir, investir em projetos alternativos e cobrir os gastos de consumo.
Dessa forma, não somente as condições per se da localidade, ou seja, as características do país ou da região, determinam as condições em que o investimento será realizado. Daí a importância de se considerar tanto as características do local (a terra), quanto das características “do proprietário”, ou seja, da firma.
Mas não só. Também importam o espaço e a geografia das redes de negócios e seu contexto específico, como atividades de negócios estão localizadas e organizadas ʺon the groundʺ, o que denota o ambiente complexo e multifacetado no qual as firmas e sua rede de relacionamentos operam (HALINEN; TÖRNROOS, 1998). Apesar de que empresas com grandes vantagens competitivas têm mais condições de se arriscarem em mercados mais hostis, as análises que somente considerem as condições do país, sem levar em consideração uma análise multidimensional, envolvendo a firma, o espaço e o local, podem tornar-se limitadas, especialmente em mercados emergentes (CANO-KOLLMANN et al., 2016).
O Quadro 4 traz a relação dos determinantes econômicos tradicionais mais utilizados em estudos a respeito da distribuição de IED apresentados por Dunning e Lundan (2008) e passíveis de serem utilizados no nível subnacional:
Quadro 4 - Determinantes de IED
I. Estrutura geral de políticas
Estabilidade econômica, política e social
Boa governança (políticas transparentes e confiáveis e sua aplicação) Proteção de propriedade privada
Políticas industriais e regionais; desenvolvimento de clusters competitivos Política comercial (tarifas e barreiras não tarifárias).
II. Políticas específicas para IDE
Incentivos ao investimento e requisitos de desempenho (pré e pós-produção) Serviços pré e pós-investimento (por exemplo, compras one-stop)
Amenidades sociais (escolas internacionais, qualidade de vida, etc.) III Determinantes econômicos por tipo de investimento
a) Investimento em busca de mercado (Market-Seeking) Tamanho e crescimento do mercado e renda per capita Preferências do consumidor
Distância psíquica
Acesso aos mercados regional e global
64 b) Investimento em busca de recursos (Resource-Seeking)
Custos de terra e construção: aluguéis e impostos Custo de matérias-primas, componentes e peças
Mão de obra não qualificada de baixo custo e/ou disponibilidade e custo de mão de obra qualificada
c) Investimento em busca de eficiência (Eficiency-Seeking) Custos de recursos e produtividade de insumos do trabalho
Outros custos de entrada (custos de transporte e comunicação nacional e internacional Participação em bloco regional e proximidade desses países
Qualidade das instituições facilitadoras de mercado
(d) Investimento em busca de ativos / aumento de ativos (Strategic Asset-Seeking) Ativos tecnológicos, gerenciais, relacionais e outros criados
Infraestrutura física (portos, estradas, energia, telecomunicações) Capacidade / ambiente inovador, empreendedor e educacional
Fonte: adaptado de Dunning e Lundan (2008).
A maioria dos estudos sobre determinantes subnacionais de IED são feitos com base na realidade chinesa e países emergentes (FETSCHERIN; VOSS; GUGLER, 2010; CRUZ;
FLORIANI; AMAL, 2018). Esta situação está relacionada à diversidade desses países e à variedade de incentivos concedidos a empresas estrangeiras, bem como aos seus contextos institucionais. Fatores relacionados aos custos de transação (MARIOTTI; PISCITELLO, 1995), cultura política (MUDAMBI; NAVARRA, 2003), impostos, políticas de atração de investimentos e clusters podem ser o diferencial de uma região para outra quando o ambiente institucional é mais homogêneo, como no caso de países desenvolvidos. No entanto, em função do contexto diverso existente nos países emergentes, em que fatores de não mercado podem influenciar a localização do IED (YAN; MING, 2011), o pesquisador precisa considerar o contexto e ficar atento ao conjunto de fatores que influenciam as estratégias das MNE.
O Quadro 5 apresenta os tipos de medidas de atração de IED que os governos subnacionais adotam e que têm sido objeto de estudos sobre a distribuição do IED em nível subnacional.
65 Quadro 5 - Principais Variáveis Institucionais sobre Determinantes de FDI
Autores Incentivos Res. Esp. Result.
Coughlin, Terza; Arromdee (1991) Incentivos: despesas estatais para atrair FDI + +
Mariotti; Piscitello (1995) Incentivos: subsídios para empresas de fabricação n/s n/s
Wei, Liu, Parker; Vaidya (1999) Incentivos - política geral de IDE no tempo ? +
Wu (2000) Incentivos: Zonas Econômicas e Zona de Desenvolvimento Tecnológico (ETDZ) + +
Bobonis; Shatz (2007) Isenções fiscais a países estrangeiros, subsídio trabalhista, subsídio de capital + Impreciso ou pouco significante
Amal, Seabra; Sugai (2007) Incentivos fiscais + n/s
Sethi, Judge; Sun (2011) Incentivos governamentais direcionados para o setor de alta tecnologia. + + Yukhanaev, Sharma; Nevidimova
(2014)
Incentivos governamentais: zonas especiais + +
Lee (2014) Medidas de apoio governamental para atrair IED / complexo industrial + n/s
Isenções Fiscais / Zonas Especiais
Tung; Cho (2000) O efeito das zonas especiais no fluxo de IED ocorre no tempo > >
Wu (2000) Zona de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico (ETDZ) + +
Zhou, Delios; Yang (2002) Cidade da zona especial + + e n/s para
algumas províncias Yukhanaev, Sharma; Nevidimova
(2014)
Incentivos governamentais a zonas especiais + +
Lee (2014) Medidas de apoio governamental para atrair FDI + n/s
Centros de inovação tecnológica e pesquisa regional estabelecidos + n/s
Política / Cultura política / cidades irmãs / acordos internacionais / restrições de propriedade Mudambi; Navarra (2003) Nível médio de apoio eleitoral ao partido de centro-direita
Nível médio de apoio eleitoral ao partido de centro-direita normalizado Nível médio de apoio eleitoral ao partido de extrema esquerda
Nível médio de apoio eleitoral ao partido de centro-esquerda Nível de concentração poder político dos partidos
+ + - - -
n/s +
- n/s
- Bobonis; Shatz (2007) Número de anos em que o Estado manteve m escritório em tempo integral no país investidor + +
Amal, Seabra; Sugai (2007) Acordo Mercosul + n/s
Acordo da ALCA + n/s
Ma, Delios; Lau (2013) Empresas que operam em setores com restrição propriedade nacional para IED tendem a localizar-se em Beijing
+ +
Fonte: Cruz; Floriani; Amal (2018)
66 Pode-se observar a diversidade de resultados desses estudos. Apesar da importância dessas medidas governamentais, em países emergentes o ambiente político deve ser considerado (YAN; MING, 2011). Situações em que a corrupção pode ser considerada um problema em alguns países, em outros pode ser uma necessidade. A MNE poderá ser forçada a aprender a lidar com o ambiente específico dos países emergentes e buscar maneiras de se desenvolver Embeddedness. Vale ressaltar que a maioria dos estudos que tratam da corrupção estão concentrados na China, onde a prática do Guanxi (a criação de laços de confiança) é um recurso usual nos negócios. É um tipo de recurso de rede que pode substituir a ineficiência das instituições formais, pois pode fornecer informações, suporte e acesso ao crédito, entre outras vantagens. Esta prática está relacionada com o Jeitinho Brasileiro” (TORRES et al., 2015).
Isto reforça a importância da análise das estratégias de Embeddedness, para além dos determinantes tradicionais de IED.
Uma das principais variáveis institucionais, a isenção de impostos (que a maioria dos países emergentes oferecem) é apenas um lado das oportunidades que as instituições subnacionais podem oferecer. A MNE precisa aprender sobre o contexto local e usar suas idiossincrasias para se tornarem inseridas no contexto local e, ao fazê-lo, com a complexidade institucional, que é o caso do ambiente tributário no Brasil e a “Guerra Fiscal” entre os Estados.
Além disso, as isenções fiscais, que têm sido a preocupação de muitos artigos, não significam que a MNE encontre as condições necessárias para desenvolver suas atividades de forma competitiva no longo prazo. Os fatores não-comerciais e a característica relacional do ambiente empresarial nos mercados emergentes exigem um envolvimento mais profundo com a dinâmica de aprendizado e o ambiente empresarial local. Na China, por exemplo, ou mesmo em países desenvolvidos como Estados Unidos (EUA), as isenções fiscais podem representar uma variável importante. Mas em outros países emergentes, como o Brasil, não garantem que as condições para um bom desempenho sejam fornecidas. Lidar com a corrupção e a necessidade de Embeddedness pode ser uma condição crucial para o sucesso do IED.
Da mesma forma que as relações sociais se espraiam em direção às relações mercantis, as relações econômicas não podem ser analisadas desconsiderando-se suas raízes sociais - a ação econômica se enraíza em sistemas espaciais de relações sociais e institucionais (VALE, 2000). Para Pike, Lagendijk e Vale (2000), o processo de embededness pode ser analisado a partir de uma perspectiva institucional, que considere que as relações sociais são moldadas e limitadas por instituições informais (tradições, costumes) e formais
67 (organizações, sistemas administrativos), levando em consideração as diversas formas de socialização dos empresários no âmbito de um quadro territorial de referência.
Há também uma grande variedade de periódicos onde os estudos foram publicados, com foco em áreas como Negócios Internacionais, Gestão, Geografia, Economia e Finanças, com diferentes escopos e tradições teóricas. Essa variedade está ligada à diversificação em termos de abordagens teóricas, área de estudos, países estudados e fatores que determinam a localização do IDE, o que reforça o caráter fragmentado da área de Negócios Internacionais (KIM; AGUILERA, 2015). Com relação ao conteúdo dos artigos analisados, pode-se observar que o Paradigma Eclético engloba as variáveis e abordagens utilizadas, sejam elas relacionadas à Teoria Institucional, à Geografia Econômica (a qual normalmente se concentra em clusters), ou à Teoria das Multinacionais. O Quadro 6 ajuda a ilustrar esses resultados.
Quadro 6 - Distribuição por periódicos
Autor(es) Países analisados Periódico
1. Wu (2000) China Urban Studies
2. Deichmann, Karidis; Sayek (2003) Turquia Applied Economics
3. Cieslik (2005) Poland Applied Economics
4. Lee, Hong; Makino (2016) Coréia do Sul Asia Pac J. of Management
5. Hsiao; Gastañaga (2001) China Asia Pac J. of Management
6. Sethi, Judge; Sun (2011) China Asia Pacific Journal of Management.
7. Dorożyński, Świerkocki; Urbaniak (2015) Polônia Comparative Economic Research
8. Lee (2014) Coreia do Sul Current Topics in Management
9. Mudambi; Navarra (2003) Itália Economics of Governance..
10. Chattopadhyay (2014) Índia Finance; Money (ICRA Bulletin)
11. Du, Lu; Tao (2008) China International Journal of Finance; Economics.
12. Cole , Elliott; Zhang (2009) China Journal of Development Studies 13. Yukhanaev, Sharma; Nevidimova (2014) Rússia Journal of Eastern European and Central
Asian Research
14. Tung; Cho China Journal of International Accounting,
Auditing; Taxation
15. Ma, Delios; Lau (2013) China Journal of International Business Studies 16. Mariotti; Piscitello (1995) Itália Journal of International Business Studies.
17. Meyer; Nguyen (2005) Vietnam Journal of Management Studies
18. Zhang; Fu (2008) China Journal of the Asia Pacific Economy
19. Li; Park (2006) China Management; Organization Review.
20. Zhou, Delios; Yang (2002) China Management Sci.
21. Chung; Alcácer(2002) EUA Management Science © 2002 Informs
22. Wei, Liu, Parker; Vaidya (1999) China Regional Studies.
23. Coughlin, Terza; Arromdee (1991) EUA Review of Economics; Statistics 24. Amal, Seabra; Sugai (2007) Brasil Textos de Economia
25. Bobonis; Shatz (2007) US The Review of Economics and Statistics Fonte: Cruz; Floriani; Amal (2018)
68 Segundo a lógica predominante, um aumento na qualidade das instituições resultaria em um aumento na atratividade de um determinado lugar para investimentos estrangeiros, o que nem sempre pode ser confirmado. Kim e Aguilera (2016) chamam para a necessidade de uma abordagem mais holística das instituições. Os autores argumentam que a abordagem baseada em variáveis e regressões múltiplas são limitadas, uma vez que capturam os mesmos resultados que poderiam ser alcançados pela combinação de diferentes elementos. Os mesmos autores também argumentam que tentar entender a relação entre as MNE e as instituições por meio da aplicação de construções derivadas da Economia Institucional e da Teoria Neoinstitucional em múltiplas regressões já não é suficiente. E que há que se repensar alguns pressupostos assumidos que vêm fornecendo a base para a conceituação e operacionalização das instituições.
Esse pensamento está em linha com Henisz e Swaminathan (2008, p. 539), que defendem que “o ambiente institucional não é um parâmetro, mas uma rica constelação de estruturas e sistemas interdependentes dentro de um país”. Como exemplo, pode-se citar casos em que a relação entre o incremento nas instituições e o fluxo de IED não é óbvia, como no estudo de Melo, Sampaio e Oliveira (2015), que apontam para uma correlação positiva e estatisticamente significante entre corrupção e burocracia e a taxa de abertura de empresas nos estados brasileiros. Além disso, embora o país possa ter uma qualidade institucional mais baixa do que o desejável, há que se considerar que empresas com mais vantagens de propriedade (O) podem estar mais aptas a arriscar-se em ambientes mais hostis, e, principalmente, que o nível subnacional deve ser considerado (CANO-KOLLMANN et al., 2016), na medida em que permitem uma análise mais refinada (CHUNG; ALCÁCER, 2002)e podem vir a compensar o ambiente nacional desfavorável, podendo a firma criar um ambiente mais propício ao investimento.
A Figura 1 mostra como o Paradigma Eclético inclui, em suas três dimensões (OLI), os aspectos institucionais que foram tratados nos artigos.
69 Fonte: Cruz, Floriani e Amal (2018).
Figura 1 - Exemplos do Poder Explicativo do Paradigma Eclético em Relação a Determinantes Institucionais Subnacionais
70 Ao incorporar os aspectos institucionais, o Modelo OLI pode ser considerado um modelo capaz de explicar os determinantes de IED, inclusive no nível subnacional, abrangendo não apenas aspectos econômicos, mas também institucionais formais e informais, tanto internos quanto externos (DUNNING; LUNDAN, 2008). Dessa forma, adota-se o Paradigma Eclético como um modelo abrangente capaz de suportar o estudo de determinantes de IED tradicionais e não tradicionais, como a noção de Embeddedness.