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O Contexto Subnacional Brasileiro e o IED

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90 fluxo de IED para outras economias do grupo". A participação do grupo no total mundial caiu de 21%, em 2014, para 15% em 2015.

Apesar da recuperação dos fluxos mundiais de IED, no Brasil houve uma queda nos investimento estrangeiros relativos a atividades produtivas, criações, fusões e aquisições de empresas e empréstimos entre matrizes e filiais. O total em 2015 chegou a US$ 64,6 bilhões, 12% a menos que em 2014. O país caiu quatro posições no ranking dos países que mais atraem investimentos estrangeiros diretos no mundo, mas ainda se manteve entre os dez primeiros.

Segundo a UNCTAD (2016, p. 54), “atividade total de investimentos no Brasil - medida pela formação bruta de capital - despencou ao longo do ano, registrando um declínio acumulado de 14% em termos reais até o final de 2015”. Como resultado da queda da economia e da recessão, os lucros reinvestidos caíram 33%. Já os investimentos para a compra de ativos (máquinas, terrenos, abertura de fábrica e escritórios) tiveram um crescimento de 4%.

Apesar da queda na produção, houve um acentuado aumento no investimento em ações da indústria automotiva. O setor da saúde também registrou aumento nas aplicações, que passaram de US$ 16 milhões para US$ 1,3 bilhão com a nova lei que permite ao capital estrangeiro ter inclusive o controle de empresas desse segmento, como planos de saúde.

Segundo a UNCTAD, (2016, p. 54),a queda do valor do real também criou oportunidades para comprar ativos brasileiros com desconto, e cita o exemplo da British America Tobacco Plc (Reino Unido), que lançou oferta para adquirir a totalidade das ações de sua filial Souza Cruz no mercado por US$ 2,5 bilhões. Registaram-se, por outro lado, significativas reduções no investimento em participações em indústrias ligadas à infraestrutura” (UNCTAD, 2016, p.

54). Adicione-se a isso o fato de que as empresas de avaliação de risco internacionais rebaixaram o status do Brasil como local fiável para investimentos (EL PAÍS, 2016;

BITTENCOURT, 2017), o que reforça a necessidade de se estudar como os Estados, em paralelo ao Governo federal, podem adotar medidas que melhorem sua atratividade e compensem os descompassos institucionais em nível nacional

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2014 foi de R$ 5,78 trilhões. Entre as 27 unidades da federação, o maior PIB foi o de São Paulo (R$ 1,86 trilhão), seguido do Rio de Janeiro (R$ 671,08 bilhões), Minas Gerais (R$ 516,63 bi) e Rio Grande do Sul (R$ 357,82 bi). Por outro lado, os três estados com desempenho inferior foram os da região Norte:

Roraima (R$ 9,74 bi), Amapá (R$ 13,40 bi) e Acre (R$ 13,46 bi).

91 No Brasil, as diferenças entre as regiões estão ligadas a fatores históricos, raciais e de localização geográfica, o que resulta em diferenças de renda substanciais entre as regiões. O PIB Per Capita da região Sudeste, por exemplo, chega a ser quase três vezes maior que o da região Nordeste IBGE (2016).

As diferenças regionais se refletem na distribuição dos fluxos de IED no país. De acordo com o Censo de Capitais Estrangeiros de 2010 (BACEN, 2016), das 27 Unidades da Federação, São Paulo apareceu como o único Estado com mais de US$ 50 Bilhões, em contraste com Alagoas, Tocantins, Rondônia, Acre e Roraima, que receberam menos de 100 milhões cada, conforme ilustra a Figura 2:

Figura 2 - Distribuição dos Fluxos de IED no Brasil 2010 (Indústria)

.

Fontes: Análise Real (2014) com base em BACEN (2016).

Em 2015, São Paulo continuou sendo o principal receptor de IED no Brasil. Como pode-se perceber na Tabela 1, os 3 principais receptores de IED em 2010 e 2015 (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais) mantêm-se os mesmos. Variações mais acentuadas, por exemplo, em relação ao Estado do Amazonas, foram da 13ª para a 6ª posição. Nesse Estado encontra-se a Zona Franca de Manaus, a qual é um polo de atração de empresas por conta dos

92 incentivos oferecidos. Outros estados que passaram a receber proporcionalmente mais IED foram Pernambuco, com um aumento substancial, passando da 20ª para a 8ª posição;

Maranhão, que passou da 16ª para a 11ª posição, apesar de que o PIB e o IDH nesses estados não se comportaram com a mesma desenvoltura.

93 Tabela 1 - Distribuição do IED por Unidade da Federação, PIB e IDH (2010 e 2015)

2010 2015

UF IED R$ (Mil) -

2010

Ranking IED 2010

PIB UF R$ (Mil) 2010

IDH

2010 UF IED R$ (Mil) -

2015

Ranking IED (2015)

PIB UF R$

(Mil) - IBGE 2015

IDH 2015 1. São Paulo 95.283.447,36 42,18 1.247.595.927,00 33,09 1. São Paulo 173.984.193 38,52 = 1.939.890.056 0,819 2. Rio de Janeiro 30.119.811,31 13,33 407.122.793,80 10,80 2. Rio de Janeiro 56.897.088 12,60 = 659.136.904 0,778 3. Minas Gerais 24.292.792,17 10,75 351.380.905,10 9,32 3. Minas Gerais 54.528.778 12,07 = 519.326.359 0,767 4. Rio Grande do Sul 18.749.154,99 8,30 252.482.596,80 6,70 4. Paraná 29.572.972 6,55 ↑ 376.959.749 0,790 5. Paraná 8.156.856,43 3,61 217.289.676,60 5,76 5. Rio Grande do Sul 26.951.824 5,97 ↓ 381.985.143 0,779

6. Bahia 6.769.560,87 3,00 154.340.457,60 4,09 6. Amazonas 15.036.937 3,33 ↑ 86.560.496 0,747

7. Espírito Santo 6.249.862,18 2,77 82.121.834,15 2,18 7. Bahia 14.209.304 3,15 ↓ 245.024.862 0,703 8. Santa Catarina 5.812.203,78 2,57 152.482.338,10 4,04 8. Pernambuco 12.469.731 2,76 ↑ 156.955.363 0,709 9. Goiás 4.180.695,41 1,85 97.575.930,34 2,59 9. Santa Catarina 11.282.734 2,50 ↓ 249.072.797 0,813 10. Mato Grosso do Sul 3.766.781,60 1,67 43.514.206,73 1,15 10. Goiás 9.636.043 2,13 ↓ 173.631.663 0,750

11. Pará 3.703.011,37 1,64 77.847.596,51 2,06 11. Maranhão 8.630.217 1,91 ↑ 78.475.166 0,769

12. Paraíba 3.605.489,57 1,60 31.947.058,52 0,85 12. Pará 8.455.232 1,87 ↓ 130.883.426 0,675

13. Amazonas 3.421.128,34 1,51 59.779.291,83 1,59 13. Espírito Santo 8.374.970 1,85 ↓ 120.363.143 0,771

14. Piauí 2.455.043,24 1,09 22.060.161,22 0,59 14. Ceará 8.119.984 1,80 ↑ 130.620.788 0,716

15. Ceará 1.922.008,81 0,85 77.865.414,73 2,07 15. Mato Grosso do Sul 2.630.929 0,58 ↓ 83.082.336 0,762 16. Maranhão 1.598.986,73 0,71 45.255.942,46 1,20 16. Mato Grosso 2.610.156 0,58 ↑ 107.418.031 0,678

17. Sergipe 1.393.887,60 0,62 23.932.155,33 0,63 17. Piauí 1.993.925 0,44 ↓ 39.148.433 0,678

18. Rio Grande do Norte 1.356.086,84 0,60 32.338.894,71 0,86 18. Distrito Federal 1.920.042 0,43 ↑ 215.613.025 0,839 19. Mato Grosso 1.203.945,10 0,53 59.599.990,12 1,58 19. Rio Grande do Norte 1.754.220 0,39 ↓ 57.249.756 0,717 20. Pernambuco 1.009.441,04 0,45 95.186.714,09 2,52 20. Sergipe 1.656.843 0,37 ↓ 38.554.462 0,681 21. Distrito Federal 554.698,91 0,25 149.906.318,90 3,98 21. Paraíba 376.082 0,08 ↓ 56.140.394 0,701

22. Amapá 109.633,70 0,05 8.265.964,66 0,22 22. Tocantins 271.770 0,06 ↑ 28.930.063 0,732

23. Alagoas 85.416,28 0,04 24.574.808,01 0,65 23. Amapá 164.344 0,04 ↓ 13.861.201 0,709

24. Tocantins 67.259,96 0,03 17.240.135,04 0,46 24. Alagoas 149.322 0,03 ↓ 46.363.870 0,667

25. Rondônia 8.951,36 0,00 23.560.643,72 0,62 25. Rondônia 31.503 0,01 36.562.837 0,715

26. Acre 723,71 0,00 8.476.514,71 0,22 26. Roraima 8.060 0,00 10.354.355 0,732

27. Roraima 188,24 0,00 6.340.601,26 0,17 27. Acre 501 0,00 13.622.323 0,719

Brasil 225.877.067 100,00 3.770.084.872 100 Brasil 451.717.703 100,00 5.995.787.001

Fontes: IED: BACEN (2016); PIB: IBGE (2017).

94 Apesar de que fluxos de IED têm se concentrado essencialmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, verifica-se a ascensão, em termos de porcentagem de investimentos recebidos, de estados do Nordeste, como Maranhão e Pernambuco, historicamente estados menos desenvolvidos, com menor PIB e com um ambiente de negócios menos favorável. A região vem apresentando índices de crescimento acima da média nacional, como resultado de investimentos, por parte do Governo federal, em obras de infraestrutura e no setor produtivo. Além disso, o Estado do Ceará, apesar da pouca representação, mais que dobrou a sua participação em termos de recebimento de IED entre 2010 e 2015. Em 2016, o Estado foi o segundo principal destino de investimentos de pessoas físicas no Brasil, atrás de São Paulo, reflexo dos investimentos em infraestrutura, especialmente em energias (GRANDES CONSTRUÇÕES, 2011; DE MATTOS;

MARTIGNONI, 2012; GUIMARAES, et al., 2014; BNDES, 2017).

Esse cenário é resultado de uma combinação de fatores, desde os investimentos do Governo Federal em estados menos desenvolvidos, até o problema dos congestion costs em São Paulo. Esses custos não só afetam o desgaste dos veículos, mas produzem poluição e aumento no consumo de combustíveis, sem contar as perdas com o desperdício de horas de trabalho e a perda da qualidade de vida, o que se convencionou chamar de “Custo São Paulo”, um elemento que pressiona o “Custo Brasil” (CINTRA, 2014). Os custos com logística representam 20% do PIB brasileiro, o dobro de países como Estados Unidos e Alemanha, impactando seriamente a competitividade das empresas. Em 2013, os portos brasileiros encontravam-se na 123ª posição entre 139 países avaliados pelo relatório de competitividade do Fórum Econômico Mundial. Fatores como burocracia, logística ineficiente, entre outros, impactam o setor e aumentam os custos de operar no Brasil (DONATO, 2016).

Em relação a aspectos políticos, ressalta-se que nas últimas eleições presidenciais, em 2014, que resultaram na reeleição de Dilma Roussef (PT), a candidata obteve 7 em cada 10 votos na região Nordeste. Maranhão foi o Estado em que obteve maior vantagem, onde conseguiu 78,76% dos votos, seguido do Piauí, com 78,30% e Ceará, com 76,75% dos votos para a candidata petista (ULTIMO SEGUNDO, 2014; UOL, 2014). Esta expressiva votação foi notada nas últimas 4 disputas pela presidência. O ex-Presidente Lula é pernambucano, e o Programa Bolsa família beneficiou 76% das pessoas que trabalham com carteiro de trabalho assinada na região.

O Governo federal vem investindo pesadamente em estados do Nordeste brasileiro, tradicional celeiro eleitoral dos governos de esquerda da última década. Maranhão encabeça a

95 lista dos estados que mais recebem recursos do Bolsa Família, seguido de Piauí, Acre, Paraíba, Pará, Alagoas e Amazonas. Os 15 estados no Norte e Nordeste do Brasil recebem 66,7% do montante gasto pelo Governo federal com o Bolsa Família (BOLSA FAMÍLIA, 2018).

Os Fundos de Desenvolvimento Regional, como os fundos do Ministério da Integração Nacional – de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE), que disponibiliza recursos para grandes projetos de investimentos, e o Fundo Constitucional de Financiamento (FNE), voltado aos pequenos produtores, micro e pequenas empresas - vêm privilegiando estados na região do Nordeste do Brasil, com um aumento de 20% em 2016 em relação a 2015 (PORTAL BRASIL, 2016).

Além disso, os desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a região Nordeste vêm aumentado na última década (BNDES, 2006;

2007), chegando a um crescimento de 22% em 2013 e 24% em 2017. O total liberado pelo banco para a região respondeu por 13% em 2013 e 20% do total nacional liberado em 2017 pelo banco, maior percentual desde 1995 (BNDES, 2018). Por outro lado, os desembolsos para a região Sudeste decresceram de quase 50% para 37,7% em 2017 (CASTRO, 2017)

Outro ponto é a outorga, por parte das Unidades da Federação brasileira, de benefícios e incentivos financeiros, especialmente sobre o ICMS (Imposto sobre operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte Interestadual e Intermunicipal e de comunicação), para que empresas privadas se instalem e permaneçam em seus territórios e gerem desenvolvimento econômico. No Brasil, o ICMS é um imposto de valor agregado do Estado, o qual sofre variações de um Estado para outro.

Cada Estado tem seus próprios regulamentos, gerando uma situação que cria um complexo de 27 (vinte e sete) leis diferentes a serem observadas pelos contribuintes (o que cria incerteza e insegurança nos investidores). Os estados brasileiros desenvolvem várias políticas de incentivos fiscais e usam receita fiscal futura do ICMS como ferramenta para negociar com as multinacionais (NASCIMENTO, 2008).

Essa concessão acaba gerando o que no Brasil se convencionou chamar de Guerra Fiscal, ou seja, “a exacerbação de práticas competitivas – e não cooperativas – entre os estados da Federação” (VALENTM, 2003). O ICMS é recolhido pelo Estado, o qual pode conceder isenções totais ou parciais, ou em condições de maior credito e menor debito de imposto. Além disso, também concedem incentivos com a disponibilização de terrenos, nos quais as empresas se alocam sem nenhum custo, entre outros tipos de benefícios menos comuns, especialmente na indústria automotiva (BRITO, 2015). Essa Guerra Fiscal vem se

96 atenuando nos últimos anos, mas o resultado tem sido um descontrole nas disputas entre as unidades da federação, surgindo um “leilão fiscal” que acaba gerando uma crise fiscal dos estados, em função do desequilíbrio na arrecadação de impostos e o objetivo de alcançar desenvolvimento econômico se vê limitado.

Por outro lado, importa mencionar que as diferenças na receita do ICMS refletem as diferenças econômicas e sociais regionais no Brasil, uma vez que o nível de tributação depende da atividade econômica do Estado (ARBIX, 2000). Assim, uma maior arrecadação pode representar maior atividade econômica do Estado, pois o ICMS incide sobre todas operações comerciais de circulação de mercadorias e transportes intermunicipais. Por outro lado, uma menor arrecadação pode sinalizar maiores níveis de concessão. Há que se ressaltar ainda que as empresas que não são beneficiárias dessas isenções, acabam ficando em desvantagem em termos de concorrência.

É considerando esse contexto que se apresentam, na próxima seção, os aspectos metodológicos da pesquisa, com o fim de levantar a discussão a respeito dos determinantes da distribuição do IED entre as unidades da federação brasileira, e a necessidade de se investigar o Embeddedness como elemento estratégico para as empresas nas suas decisões de

localização no Brasil.