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Escolhas metodológicas

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 67-70)

Trata-se, portanto, de um estudo qualitativo, no qual foram realizadas 6 entrevistas episódicas (FLICK, 2009) sobre trajetórias e experiências de sofrimento, através de narrativas de sujeitos migrantes de nacionalidade venezuelana. Considerando as limitações impostas pela pandemia e os caminhos construídos no percurso, definiu-se por realizar as entrevistas de maneira remota, utilizando a ferramenta de escolha dos interlocutores, no caso, chamadas de

vídeo pelo Whatsapp em todas as ocasiões. O recorte adotado foi de buscar sujeitos de nacionalidade venezuelana, maiores de idade, que residem na cidade do Rio de Janeiro há pelo menos um ano.

Algumas noções chave foram utilizadas para delimitar a metodologia: experiência, narrativa e sofrimento. O sofrimento foi amplamente abordado no capítulo teórico sobre sofrimento social. Utilizou-se a categoria na intenção de esquivar das noções técnicas da saúde mental e aproximar-se das experiências dos sujeitos, suas formas de representação, relações institucionais e estratégias de gestão do sofrimento (KLEINMAN; DAS; LOCK, 1997; DAS, 2015). Nesta pesquisa, interessou explorar situações de sofrimento antes, durante e depois do processo migratório, sem partir de causas específicas para o sofrimento como instrumento de seleção dos interlocutores.

A experiência compreende o conjunto de representações e práticas institucionais vividas pelos sujeitos, compartilhadas em maior ou menor medida coletivamente, mais ou menos coerentes, considerando seu dinamismo de acordo com as relações estabelecidas.

Kleinman, Das e Lock (1997), utilizam experiência social para reafirmar o caráter socialmente construído e em jogo nas relações sociais. Rabelo, Alves e Souza (1999), por sua vez conceituam ―Partimos do pressuposto de que a experiência é muito mais complexa do que os significados formulados para explicá-la, isto é, de que estes oferecem sempre quadros parciais e inacabados de uma realidade que está sempre em fluxo‖ (RABELO; ALVES, SOUZA, 1999, p.18):

De modo mais geral, expressa uma preocupação em problematizar e compreender como os indivíduos vivem seu mundo, o que nos remete às ideias de consciência e subjetividade, mas também, e especialmente, de intersubjetividade e ação social.

Problematizar a ideia de experiência significa assumir que a maneira como os indivíduos compreendem e se engajam ativamente nas situações em que se encontram ao longo de suas vidas não pode ser deduzida de um sistema coerente e ordenado de ideias, símbolos ou representações (RABELO; ALVES, SOUZA, 1999, p.11).

As narrativas podem ser compreendidas como a maneira pela qual as experiências são acessadas.

Mostram que o processo de reconstruir a experiência individual de aflição não se dá apenas por associação mecânica entre signos e sinais da doença, segundo modelos culturais internalizados, mas que o doente, ao narrar seu sofrimento, transforma-se em personagem, fala por meio de outros autorizados, defende um argumento, negocia responsabilidades, define identidades e pleiteia direito a determinado tratamento. (SILVEIRA, 2000, p.39).

A opção por realizar entrevistas se deu por sua característica de construir informações na interação entrevistador/entrevistado a partir das reflexões do entrevistado sobre sua realidade vivida (MINAYO, 2016). A entrevista também é capaz de evidenciar dados tidos como ―subjetivos‖ por só serem observados com a contribuição da pessoa. Segundo Minayo, os dados obtidos em entrevistas constituem:

uma representação da realidade: ideias, crenças, maneira de pensar; opiniões, sentimentos, maneiras de sentir; maneiras de atuar; condutas; projeções para o futuro; razões conscientes ou inconscientes de determinadas atitudes e comportamentos (MINAYO, 2016, p. 60).

Dentro do universo que as entrevistas compõem, a entrevista episódica foi eleita por ser adequada aos fundamentos teóricos e objetivos de pesquisa. Esse tipo de entrevista permite falas relativas ao contexto na forma de uma narrativa e se aproxima das experiências e de seus contextos gerativos das narrativas. Para tanto, as entrevistas partem de episódios localizados para disparar as narrativas e os conceitos que os sujeitos possuem e relacionam (ou não) com as experiências (FLICK, 2009).

A entrevista episódica consiste em explorar ―as experiências dos sujeitos sobre um determinado domínio [...] e lembradas em forma de conhecimento narrativo-episódico e semântico‖ (FLICK, 2009, p. 172). Por um lado, o conhecimento narrativo-episódico trata de situações concretas, por outro, o conhecimento semântico diz de entendimentos abstratos e generalizações. Ou seja, seria uma entrevista atenta para as narrativas da situação em seu contexto e os conceitos em suas relações. O vínculo dos dois tipos de conhecimentos é o objetivo desse tipo de entrevista. Optou-se, então, pela entrevista episódica que conjuga aspectos de entrevista narrativa e entrevista semiestruturada. Abre possibilidade para as experiências sem grande densidade de perguntas. Foi utilizado um roteiro de perguntas que orientou a sessão.

Esse método de entrevista possui limitações por não permitir acesso a interações entre sujeitos ou observação in loco das atividades cotidianas.

Dentre os aspectos éticos, antes do início de cada entrevista, foi realizada leitura conjunta do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em espanhol e reforçadas as possibilidades de interrupção da entrevista em caso de desconforto. O áudio das entrevistas foi registrado e transcrito. A pesquisa foi submetida e aprovada no Comitê de Ética em Pesquisa, sob o registro CAAE: 31909220.1.0000.5260.

4 PERFIS E TRAJETÓRIAS

Neste tópico serão descritas as trajetórias migratórias e os perfis das seis pessoas entrevistadas. Por perfis entende-se conjunto de características sociodemográficas, como escolaridade, raça/cor e origem urbana ou rural. Todos os nomes são fictícios, assim como outros detalhes foram alterados. As falas foram mantidas na língua

Quadro 1: Dados sociodemográficos e ano de chegada ao Brasil

Nome fictício Idade Escolaridade Raça/cor Origem Filiação Chegada

José 73 anos Técnico Branca Urbana Pai de Amaranta 2018

Amaranta 47 anos Superior Branca Urbana Filha de José 2002

Úrsula 60 anos Médio como indio Rural e urbana Mãe de Aureliano 2019

Aureliano 33 anos Fundamental Branca Urbana Filho de Úrsula 2019

Rebeca 46 anos Técnico Branca pueblo pequeño - 2018

Mauricio 30 anos Superior moreno Rural - 2018

Fonte: Autoria própria

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 67-70)