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Si hay una sonrisa, no hay estrés: atendimentos em saúde

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 151-154)

6.2 Assistência em saúde: interculturalidade e relação profissional-paciente

6.2.1 Si hay una sonrisa, no hay estrés: atendimentos em saúde

como esperando más. Entonces, pues, no sé, pues. No sé si fue en ese centro clínico, no sé si fue en ese hospital, no sé, no sé, pero, me quedé así, como impresionada.

(Rebeca, 46 anos, chegada em 2018).

O estranhamento de Rebeca pela velocidade do atendimento, por ter sido rapidamente dispensada, deixando-a esperando por algo que não ocorreu na consulta. Se nesse relato a interrogação e espanto dão sentido para a rapidez com que o encontro sucedeu, em outra experiência conseguiu confiar na relação médico-paciente ao ser atendida por uma médica latino-americana no Rio de Janeiro.

Anoche, cuando te dije que „ay, mira, no puedo‟ [sobre nossa primeira tentativa de entrevista], era por eso, porque iba a buscar atención médica. Atención médica con una médica latina que ejerce aquí en Brasil. […] Eh, sí, es diferente, porque, claro, me sentí como con confianza, por el idioma y toda esa cuestión. (Rebeca, 46 anos, chegada em 2018).

O sorriso para José e o tempo para Rebeca. Pessoas boas para José e a confiança pela familiaridade para Rebeca. A boa assistência depende da relação afetiva, o tempo dedicado e a proximidade estabelecida no contexto do atendimento, essa dimensão socioafetiva pode ocorrer pela língua, nacionalidade ou mesmo presença dedicada do profissional de saúde.

A percepção do vínculo pode ocorrer pela percepção de que a saúde está sendo de fato observada pelo profissional de saúde, está sendo feita uma oferta coerente com a procura, acompanhada ainda pela capacidade de efetivar as condutas para as necessidades em saúde.

Sublinha também a gratuidade do acesso.

No hace mucho fui, que quería hacerme prevención, fui, me hice prevención, me hice mamografía, y fue muy buena, fue muy buena la atención, gracias a Dios, y fue fue gratuita, no, no fue pago. Fue en el puesto de salud, y ahí me encaminaron, pues, yo me preguntaron que si me había hecho mamografía, y yo le dije que una vez sí me la hice, pero en Venezuela, y tenía ya el tiempo que tengo aquí y no me había hecho, no me había hecho prevención ni mamografía. Entonces, me hicieron la prevención y me encaminaron la mamografía. (Úrsula, 60 anos, chegada em 2019).

A gratuidade também aparece na narrativa de Mauricio. A preocupação com a saúde o levou a tentar cuidar de si de acordo com a orientação ―não ficar doente‖:

Mas, por exemplo, quando eu cheguei no Brasil uma das primeiras perguntas que eu fiz, foi: o que eu faço se ficar doente no Brasil? E a pessoa que que estava responsável por mim no Brasil falou assim: ―Se você ficar doente no Brasil é muito simples, só não ficar doente‖. Eu fiquei preocupado, falei: se eu ficar doente, então o que eu faço? Em algumas do oportunidades fiquei doente, procuro não ficar na verdade, né. Me alimento bem, tento comer comidas assim sem químicos. Manter a saúde esportiva bastante, a saúde mental. Mas serviços de saúde assim básicos,

dentistas, coisas que são caras, não posso falar que são baratas. Não são tão caras, mas não são tão baratas. (Maurício, 30 anos, chegado em 2018).

Das vezes que ficou doente, buscou o SUS. Foi atendido, não ocorreram problemas ou ausências de cuidados como insinuou o brasileiro em suas recomendações. Mauricio destacou justamente o ponto de outras entrevistas, a interação com os profissionais de saúde como qualificador da experiência.

Foi boa. Uma experiência bastante simpática, muito atenciosos. As pessoas muito, muito conscientes, bem preparadas para assumir os seus papéis. Foi bom. (Maurício, 30 anos, chegado em 2018).

Alguns estudos do campo da migração sugerem a inserção de trabalhadores da saúde imigrantes, na busca por melhorar a integração entre as comunidades migrantes e os saberes biomédicos. Experiências como de agentes comunitários bolivianos na cidade de São Paulo e a contratação de médicos imigrantes na composição da força de trabalho em saúde nos locais onde encontram-se grupos migrantes (STEFFENS; MARTINS, 2016), são compreendidas como avanços fundamentais para a garantia de acesso e boas práticas. Ao mesmo tempo, outros estudos descrevem a capacidade de serviços de saúde (sem profissionais migrantes) em oferecer bons cuidados, quando em contato com comunidades migrantes em seu território, como o caso da comunidade da República Democrática do Congo na zona norte do Rio de Janeiro (COUTINHO, 2019) ou um CAPS em Boa Vista (OLIVEIRA et al, 2019). Coutinho (2019) descreve a progressiva integração de uma Clínica da Família com comunidade do RDC, pontuando momentos conflituosos, barreiras de acesso, racismo e, eventualmente, progressiva sensibilização da equipe de saúde às características e necessidades desta população.

Rebeca alinha-se com este conjunto de estudos em que a presença de um profissional de saúde imigrante pode produzir resgate da confiança e possibilidade de vincular-se com mais facilidade ao sistema de saúde. A primeira consulta gerou estranhamento, enquanto a segunda, conforto. Úrsula e Mauricio utilizaram serviços de forma satisfatória graças à gratuidade e capacidade de resposta do SUS. José acessou um serviço privado por sua condição econômica distinta e pelo acolhimento recebido. Essas experiências renovam debates no campo da saúde e migrações, sobre propostas de políticas específicas e universais ou criação de serviços especializados para migrantes e abordagens transversais para os serviços tradicionais. As narrativas não respondem categoricamente tais questões, contudo,

inspiram a necessidade de associar o direito ao acesso universal com oferta de cuidados atentos à sensível troca entre profissional e usuário.

Abordar a saúde de migrantes não se restringe a pensar as doenças e agravos decorrentes do processo migratório ou patologias mais comuns no país de recepção. Esses grupos carregam consigo experiências anteriores de saúde: ―migrantes movem-se não apenas entre fronteiras geográficas, mas também entre sistemas médicos‖ (SARGENT;

LARCHANCHÉ, 2011, p.346). Podemos considerar um trânsito entre sistemas institucionais de saúde, seja entre formas culturais de atenção em saúde (MENÉNDEZ, 2003). O vínculo, acolhimento e escuta, todas estas tecnologias debatidas no âmbito do SUS, vão no sentido das falas das interlocutoras sobre aquilo que importa quando em contato com o sistema de saúde.

A gratuidade, a resolutividade dos problemas e a percepção de que os profissionais são qualificados importam em paralelo ao aspecto relacional da assistência.

Aureliano também necessitou de atendimento em saúde. Seu caso foi uma urgência.

Sofreu acidente de trabalho ao quebrar um dedo na construção civil.

Sí, que un día en trabajando me quebré un dedo y fui pa allá, pal hospital. Me pusieron un yeso ahí. Pero es que yo no puedo, imagínate, me mandaron por 45 días. Yo a los 5 días me quité, yo no puedo estar aquí sin trabajar, necesito trabajar.

(Aureliano, 33 anos, chegado em 2019).

A questão de saúde é também uma questão de direitos, exploração e precariedade.

Assim como Rebeca pontuou em sua entrevista ―a veces aquí por la condición de inmigrante te explotan”, Aureliano reforça a exposição laboral e seus efeitos na saúde. Cumprir todo o tempo necessário para a recuperação do corpo após o acidente não foi possível por outra urgência, a subsistência. Estão ausentes outras formas de proteção ao trabalhador que poderiam garantir o repouso necessário e remunerado para a recuperação. Estão ausentes maneiras de prevenção aos acidentes para evitar danos à saúde. A barganha da exploração é entre a fome e a deterioração da saúde, revelando que o trabalho do setor saúde, por mais adequado que seja, encontra limites na promoção da saúde migrante.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 151-154)