6.1 Sentidos do sofrimento
6.1.6 Integração e violência
Das (2020) busca resgatar as estratégias, as relações e a forma como o sofrimento vai sendo gerido no cotidiano. As relações entre as pessoas, mobilizadas pelo pesar do luto e as tarefas do cotidiano, são algumas das maneiras pelas quais as interlocutoras narram sobre o contorno dessas experiências de sofrimento. A conexão entre as pessoas ocorre no Brasil e à distância, reforçando outras análises de um sofrimento transnacional situado entre fronteiras, tanto em causa da dor, quanto em alívio.
me anima muchísimo, pues. Entonces, creo que de ahí, este, me he animado bastante. […] ejercitarme, salir a conocer; Brasil tiene lugares bellísimos que sueño y anhelo conocer, muchos lugares de Brasil. Río es bellísimo, todavía no falta mucho. Eso a mí me da mucho oxígeno, salir y conocer. Solamente en ese salir a hacer una trilha o irme para la playa y conocer lugares nuevos, eso me da mucho ánimo. (Rebeca, 46 anos, chegada em 2018).
Relacionam-se, como em outras narrativas, a motivação para migrar e o sofrimento.
Rebeca sai da Venezuela por uma das rações as limitações em estar fora de casa. No Brasil, identifica que não estava bem pelo isolamento, mas recupera-se ao fazer trilhas e conhecer o Rio de Janeiro. Há certa coerência entre a trajetória migratória, processo de sofrimento e a recuperação, relacionadas em torno do movimento. Como mencionado antes, a experiência do sofrimento associa-se integralmente com os sentidos e referências dos sujeitos em seu percurso (RODRIGUES; CAROSO, 1998).
Perder o trabalho no processo de adoecimento e a dificuldade em conseguir emprego por ser venezuelana também trazem entristecimento. Voltar a fazer cursos e trabalhar responde às questões que considera como causas desse sofrer.
Eh, a veces aquí por la condición de inmigrante te explotan. Y, bueno. Pero, todo pasa. [...] Me da tristeza que la gente se quiera aprovechar también de nuestra condición de inmigrantes para pagarte por un servicio lo que a ellos les parezca, porque piensan que uno se está muriendo de hambre, porque piensan que uno es muy ignorante, esas cosas me ponen así. (Rebeca, 46 anos, chegada em 2018).
Y, el curso que empecé a hacer con una ONG, también me animó muchísimo, pues, porque te motivan, te enseñan muchas herramientas para perder el miedo a emprender, pues. (Rebeca, 46 anos, chegada em 2018).
Ter voltado a fazer exercícios com uma amiga, voltar a estudar sobre empreendedorismo revivem algo que se perde quando em luto por sua mãe. Mauricio também concebe as atividades disponíveis em seu meio como fundamentais. Sua visão de saúde envolve o contexto histórico, depende da disponibilidade de atividades e aproximação com outras pessoas.
Então para não ficar triste, na verdade, o que podemos fazer para não ficar triste... eu ia no judô. Eu fui um grande esportista, por exemplo. Eu ia no Judô. Ia na escola de música, escola de teatro, me encontrar com a galera do movimento, fazíamos alguma atividade cultural em alguma comunidade, fazíamos alguma uma trilha. Mas sempre, sempre tem alguma coisa para fazer. [...] Como um contexto histórico em que você está relacionado fisicamente tem muito a ver. Imagina ficar triste nesse quarto aqui. Quem vai me tirar esta tristeza se não será as coisas que eu consiga fazer. (Maurício, 30 anos, chegada em 2018).
As falas apontam para noções de saúde diretamente relacionadas com a possibilidade de integração social, amizades e demais possibilidades de exercício da cidadania ou vida política. Rebeca sugere:
Ah, me ayudaría mucho tener un tipo, un lugar donde confraternicemos los venezolanos, por lo menos aquí en Río. Eso sería excelente porque ahí podríamos estar, como quien dice, más en confianza, tener nuestra música. (Rebeca, 46 anos, chegada em 2018).
A ideia de Rebeca é praticada em Boa Vista em alguns locais com ritmos e costumes próximos daquilo que é familiar. Outros grupos migrantes quando alcançam certa expressão e organização, seguem por este caminho, como o caso dos Kaikans clubes japoneses populares no estado de São Paulo, as feiras de tradição nordestina no Rio de Janeiro, os Centros de Tradições Gaúchas espalhados pelo Brasil. E outras iniciativas como as feiras de culinária como o Rio Refugia promovido pela Cáritas Arquidiocesana anualmente. Tais iniciativas, apesar de festivas, podem ser também canais de organização política das comunidades e reivindicação de direitos.
Temas levantados neste tópico como exploração laboral e baixa remuneração são fundamentais. Na reta final desta dissertação, ocorreu o brutal assassinato de Moïse Kabagambe por motivações xenofóbicas e raciais. A exploração laboral fez parte desse crime e faz parte da vida de migrantes e refugiados no Rio de Janeiro. Como desdobramento o quiosque onde ocorreu o crime serão transformados em memorial e centro de referência de cultura africana (G1, 2022). Essa reparação movimenta o debate sobre as condições dos migrantes no Brasil, ao mesmo tempo não pode ser lida ingenuamente, considerando o longo histórico de opressões que estes migrantes sofrem no país que ocorrem diariamente de forma explícita sem resposta equivalente do poder público. Rebeca, em sua entrevista, expressa a revolta e tristeza pelas ofertas de trabalho indignas, as mesmas oferecidas a outros migrantes.
Ela também aponta as contradições entre sair de seu país natal pela insegurança e encontrar tantos perigos no caminho. Assim se repete na vida de outros migrantes e refugiados que enxergam no Brasil a possibilidade de ruptura com violências. A morte de Moïse faz parte da construção diária de inúmeras violências cotidianas que em sua expressão maior matam violentamente.