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Nacionalidade e psicopatologização

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 127-131)

6.1 Sentidos do sofrimento

6.1.1 Nacionalidade e psicopatologização

Nas entrevistas, uma questão é colocada por duas interlocutoras logo no início de suas falas: venezuelanos sofrem? Essa questão gera algum estranhamento, principalmente pela impressão de que o sofrimento é universal ao ser humano, porém as entrevistadas relativizam esse sofrimento, pelo menos quando projetado em suas falas comparações e noções gerais sobre a população venezuelana.

Yo veo que aquí ustedes aquí en Brasil, por lo el poco tiempo que llevo acá, veo que aquí hay mucha depresión, la gente va mucho a los psicólogos, psiquiatras, mucha gente medicada. Allá puede ser que también, pero, allá la gente es muy alegre, eh, allá la gente, a pesar de que está pasando una situación muy fuerte hasta hoy día, de hecho, hoy fue un día muy fuerte porque el dólar se disparó muchisisisimo, y la gente todavía hace chistes de eso, la gente se ríe, la gente se ríe de sus desgracias.

Entonces, eso de que te de tiempo de estar yendo a una consulta psicológica, creo que no existe eso, o sea, o le das para el frente, o le das para el frente, no existe eso.

(Rebeca, 45 anos, chegada em 2018).

Tú sabes que, eh, es algo, pienso que es algo cultural, vamos a hablar desde ese punto de vista, porque, eh, son países son países caribeños, son países latinos,

¿verdad? Tenemos otra mentalidad, tenemos otra vibración, somos muy alegres, mismo con con las necesidades, con los problemas, siempre le hacemos un chiste a las cosas, como el brasileño también, somos muy parecidos; somos pueblos sufridos, que somos corrompidos, que somos engañados, que somos torturados y siempre estamos riendo, ¿né? Entonces, el pueblo de Venezuela es un pueblo, primero que es un pueblo muy optimista, es un pueblo muy muy caritativo, es un pueblo muy acogedor, es un pueblo muy feliz, ante todas estas circunstancias; es un pueblo muy católico también. Entonces, con todo la mal situación que existe en el país, las personas no se entregan a la depresión, las personas no se entregan al desespero, las personas siempre ven el lado bueno de cada cosa. Y yo hablo de eso de una forma general. (Amaranta, 47 anos, chegada em 2002).

Rebeca e Amaranta possuem proximidade com o linguajar e definições psicopatológicas. As duas eram de classe média e trabalhavam em grandes instituições na Venezuela. Rebeca trabalhou no instituto de seguros venezuelano responsável pelas aposentadorias, pensões e também por parcela dos cuidados em saúde no país “en el instituto donde yo trabaje existían todas esas áreas, psicología, psiquiatría”. Amaranta já fez tratamento em saúde mental e tem acesso às discussões relacionadas ao autocuidado,

meditação e terapias holísticas. Depressão, psicólogo, psiquiatra fazem parte do vocabulário.

Nas duas falas, ambas se colocam a pensar a relação entre nacionalidade, emoções e transtornos mentais. Na dimensão abstrata dessa reflexão, ser venezuelano aparentemente comporta algum tipo de proteção ao adoecimento, pois seria um povo portador de alegria, otimismo e capaz de fazer piadas com questões trágicas. A falta de tempo para procurar profissionais psi, para Rebeca é uma barreira de acesso que mantém no campo não técnico aquele sofrimento que poderia ser medicalizado ou psicologizado. Para Amaranta também há algo que resiste à medicalização que não permite a ―entrega‖ das pessoas à depressão. Ser católico, alegre, latino, caribenho e contar com a solidariedade estão ligados à proteção. Mas estas primeiras impressões de ideias abstratas se complexificam conforme levam para situações mais objetivas.

Claro, tú ves a las personas flacas, desnutridas, porque, eh, tampoco se alimentan, porque no tienen dinero para alimentarse, porque no tienen una ayuda del exterior que los pueda que les pueda dar una mano ¿verdad? A lo mejor es un vecino, un amigo, una amiga que les puede dar comida, y mismo así, ellos no pierden su ¿cómo se dice? su jovialidad, su felicidad, ellos no pierden eso. (Amaranta, 47 anos, chegada em 2002).

No entanto, tanto Rebeca, quanto Amaranta, no decorrer da entrevista, relataram busca situações de sofrimento, identificadas por elas como depressão e somatização.

Yo no soy una persona nerviosa, Igor, yo soy una persona, así, bien tranquila, no tengo tendencia a depresión ni nada de esas cosas, gracias a Dios, pero la preocupación era tan fuerte, era tan grande, que yo somaticé con la tensión arterial.

(Amaranta, 47 anos, chegada em 2002).

Entonces, ahí, pues, caí en un proceso así como de depresión y todo eso, y yo salí del trabajo. (Rebeca, 46 anos, chegada em 2018).

Esse contraste não busca desqualificar as afirmações sobre a nacionalidade venezuelana. Os trechos levam ao sentido daquilo que é ou não do campo técnico, médico ou psíquico. Ainda que o sofrimento ocorra, ele não se sustentará exclusivamente como uma questão psicopatológica, pois não é este o sentido identificado de forma geral, de acordo com as interlocutoras.

Conforme desdobram a associação entre ser venezuelano e não apresentar transtornos mentais, relativizam a ideia de invulnerabilidade apresentando escala de adoecimentos: allá puede ser que también [adoeçam e busquem ajuda profissional], pero, allá la gente es muy alegre (Rebeca, 46 anos, chegada em 2018).

Claro, hay gente que está que está deprimida, pero es muy poca, muy pocas personas que yo conozca que están en mi círculo social, son pocas. Ellas están es estresadas con el correr y con la correría del día ¿sabes? Con la situación, que no hay agua, que no hay luz, que no hay gas, que no hay gasolina, que no hay comida, ellos están estresados, mas ellos no están deprimidos. Entonces, claro, el psicológico, él está eh… ¿cómo se dice? él está siendo prejudicado, mas, no hasta llegar a la depresión, por lo menos. (Amaranta, 47 anos, chegada em 2002).

A provocação inicial de que venezuelanos são um povo com resistência à depressão e outros males psicopatológicos, pode ser lida de outra forma quando novos elementos são trazidos. Uma primeira interpretação poderia ser da saúde pública, na qual é comum referir-se aos fatores de proteção e fatores de risco à saúde mental. Essa seria a leitura biomédica (ainda que muitas vezes engajadas politicamente) das narrativas: religião, resiliência, otimismo, alimentação, pobreza e rede de cuidados são fatores protetores ou vulnerabilizantes.

Outro prisma pode ser considerar que as narrativas estejam defendendo uma concepção de saúde e sofrimento avessa à soma de fatores. Seriam visadas específicas de sentidos culturais e sociais. As falas levam a discussão técnico-profissional em saúde para o campo sociocultural do sofrimento.

Entonces, así, yo tengo dos tíos desnutridos, mas, ellos no están deprimidos, ellos no están tristes, ellos están con hambre, ellos quieren comer, ellos necesitan comer.

[…] Entonces, es una cosa así, claro, también son personas muy católicas,

¿verdad? Y yo pienso que la religión ayuda mucho, la religión es una cosa excepcional, sea cual sea la religión, tener una religión siempre ayuda al ser humano. Pero, están bien, no están deprimidos. (Amaranta, 47 anos, chegada em 2002).

Ainda que estas duas interlocutoras tenham dentre todos os entrevistados o maior percurso pelo meio médico, a religiosidade e a fome fixam fora do campo biomédico a discussão. Não são fatores de proteção e risco para saúde mental, são elementos que deslocam limites e sentidos entre formas socioculturais do sofrimento e problemas de saúde mental em seu âmbito biomédico. Essas questões podem escalar em algum momento se desdobrando em problema identificado como depressão. Esse movimento depende da extrapolação de algum limite ―el psicológico, él está eh… ¿cómo se dice? él está siendo prejudicado, mas, no hasta llegar a la depresión, por lo menos.” (Amaranta, 47 anos, chegada em 2002). Se para Amaranta a diferença entre não patológico e patológico está na gradação/quantidade/escala, para Rebeca está na qualidade do que se torna ou não problema médico ―Yo veo que aquí ustedes aquí en Brasil, por lo el poco tiempo que llevo acá, veo que aquí hay mucha depresión, la gente va mucho a los psicólogos, psiquiatras, mucha gente medicada‖. Para ela,

as características dos venezuelanos e a falta de tempo para ir ao psicólogo, levam a respostas não técnicas do mal-estar. Rebeca, ao falar de quando esteve “en un proceso así como de depresión”, busca alívio e cuidados em atividades de esporte, amizades e outras ações que entende como fundamentais para sentir-se bem, não buscou profissionais de saúde para este problema (a situação será melhor descrita posteriormente).

A proposição inicial colocada por Amaranta e Rebeca ao trazerem a alegria venezuelana, desdobra-se, portanto, em formas interculturais de saúde-doença. Trazem ao mesmo tempo termos e concepções de ordem biomédica e popular. Esse aspecto será característico em outras narrativas, a interculturalidade. Para Menéndez (2016), a interculturalidade, quando mal conduzida, é entendida como dois sistemas culturais fechados em conflito. Ao contrário, o antropólogo advoga pela compreensão de interculturalidade pela interação dinâmica de modelos ou noções de saúde que se influenciam e produzem formas contextualizadas de cuidar da saúde. A depressão aqui, por exemplo, está associada com a definição de limites e eleição de tipos de cuidados necessários para resolução.

Outro paralelo entre as narrativas sobre a situação na Venezuela demonstra alguma linearidade progressiva para que a situação seja muy fuerte. A expressão aparece algumas vezes nas falas apontando para a gravidade da situação Venezuelana, a gravidade do adoecimento e força dos venezuelanos.

Y, bueno, ya ella aquí nos ayudaba pero… no… no creí que fuésemos a estar en ese estado de ahorita, te digo, está muy fuerte ahorita el país así. (José, 73 anos, chegada em 2018. Grifo nosso).

Entonces, así fue, hace tres años atrás, tres años y medio, creo, más o menos, que yo comencé, que yo sufrí mucho porque la situación, así, se quedó difícil mismo, hace como unos cinco años atrás [2015], que Venezuela está tétricamente mal, está muy… ¿cómo se dice? Está muy, muy fuerte, está muy arraigada, hace cinco años que las personas están sufriendo literalmente demasiado, están sufriendo mucho, porque está siendo una sobrevivencia. (Amaranta, 47 anos, chegada em 2002. Grifo nosso).

Allá puede ser que también, pero, allá la gente es muy alegre, eh, allá la gente, a pesar de que está pasando una situación muy fuerte hasta hoy día, de hecho, hoy fue un día muy fuerte porque el dólar se disparó muchisisisimo, y la gente todavía hace chistes de eso, la gente se ríe, la gente se ríe de sus desgracias (Rebeca, 45 anos, chegada em 2018. Grifo nosso)

A gravidade contém elementos chave, como a paralisação da petroleira, as manifestações, mudança de governos. Contém também a subsistência cotidiana, ainda mais diluída no tempo, gradativamente pior como a carência de alimentos no mercado, ausência de

combustíveis e o aumento do custo do consumo. A situação gradativamente ficar muy fuerte dialoga com a força do venezuelano – dificilmente ficam com depressão, estão sempre rindo.

Os brasileiros compartilham dessa característica de brincar com as dificuldades, como podem adoecer no sentido biomédico.

Contrapondo-se a isto, a expressão 'nunca ficar doente' aparece com frequência nos depoimentos em relação aos adultos. Neste contexto, estar saudável é atributo de força, muitas vezes enunciado logo no início das conversas, como que marcando posição definida perante o interlocutor. Vários outros autores desenvolveram a fundo esta noção de força/fraqueza como fundante da oposição saúde/doença em relação ao corpo (OLIVEIRA, 1998, p. 83).

A nacionalidade seria uma forma de qualidade diferencial da pessoa, compreendendo força pela capacidade de fazer piada e lidar com as agruras sem adoecer.

[...] a questão da 'força/fraqueza' enquanto "referencial básico para a definição de qualidades diferenciais da pessoa". Deslocando esta observação para a relação doença-sofrimento-gravidade, o referencial 'força/fraqueza' se expressaria da seguinte maneira: a pessoa é/está fraca, a doença é forte e faz sofrer. Introduzindo-se o elemento cura, tem-se: a pessoa é/está fraca, a doença é forte, faz sofrer, mas através da cura, a pessoa passa a ser/estar forte, a doença torna-se fraca.

(RODRIGUES; CAROSO, 1998, p. 143).

Rabelo, Alves e Souza (1999) analisam que a busca por cura e tratamento depende de como as pessoas significam a experiência da doença. Na situação em tela, a compreensão de que a nacionalidade influencia como serão concebidos os sofrimentos pelas interlocutoras.

Seria necessário pensar mais profundamente sobre a construção de identidade nacional venezuelana para maior compreensão das narrativas.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 127-131)