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3. SUJEITO HUMANO

3.2 Espírito e cérebro

físicos e, por outro lado, porque a organização é já ela mesma imaterial embora estando ligada à materialidade física […] o espírito é continuamente gerado-regenerado pela atividade cerebral, ela própria gerada-regenerada pela atividade de todo ser, e onde o espírito desempenha papel ativo e organizador essencial para conhecimento e a ação (MORIN, 2008, p.90).

Com relação ao conhecimento do cérebro humano, Morin diz que os estudos tem avançado bastante nos últimos anos, sobretudo a partir do recente desenvolvimento da biologia humana, bem como das neurociências. Porém, para ele, o cérebro não se limita àquilo que as ciências da natureza dizem a respeito dele.

O autor então procura caracterizar e complexificar a ideia de cérebro humano dizendo que, além de uma máquina física, química, biológica, o cérebro humano também é uma máquina que tem uma atividade pensante, a qual, juntamente com a cultura, produz o espírito.

Segundo Morin, o espírito humano, que é produzido na relação do cérebro com a cultura, tem a função de organizar o conhecimento e a ação humana. Porém, não se trata apenas do conhecimento e/ou da ação baseada na razão. Isso porque o espírito não se limita a sua dimensão pensante e consciente, mas engloba também a inteligência estratégica e a sensibilidade da alma humana.

O tema da alma é sensível (assim como ela própria parece ser) e difícil de ser abordado. Mas, para Morin, “A alma humana emerge a partir das bases psíquicas da sensibilidade, da afetividade; em complementaridade íntima com o espírito (animus), ela é anima” (MORIN, 2012, p.108). Assim, a alma seria como que o aspecto feminino49 do espírito50.

Morin diz que não tem pretensão de fazer uma discussão teológica ou cartesiana, e nem pretende dar uma definição do que seja a alma humana. Por isso, o autor se limita a dizer que a alma se manifesta pela sensibilidade e, para

49 Ainda não me sinto em condições de problematizar com profundidade as referências que Morin faz ao feminino (mas penso que esse é um trabalho importante a ser desenvolvido). Então, nos limitamos a dizer que em uma obra intitulada A via para o futuro da humanidade, falando sobre a condição feminina e os movimentos feministas, Morin afirma o seguinte: “Os próprios excessos desse neofeminismo, em sua exaltação da superioridade da mulher, contêm sua parte de verdade. A civilização ocidental tem excesso de testosterona e insuficiência de foliculina […] Sim, a mulher permanece, verdadeiramente, como o futuro do homem” (MORIN, 2013a, p.365). Em síntese, entendemos que o autor defende a ideia que a humanidade deve desenvolver mais as características femininas, as quais permanecem reprimidas nos homens, bem como na sociedade e na cultura ocidental, que são fortemente influenciadas pelo patriarcado machista.

50 Morin se inspira em Jung para desenvolver essa ideia de alma. Falando sobre Jung, o autor diz o seguinte: “Sua dialética de animus e anima me influenciou. Anima, a alma feminina, está presente no homem, mas de modo reprimido, o que, aliás, faz com que muitos homens procurem e encontrem sua alma na mulher amada; o mesmo acontece com o animus, o espírito masculino, empreendedor, enérgico e presente na mulher de modo reprimido, razão pela qual muitas mulheres procuram e encontram seus animus no homem” (MORIN, 2014, p.115).

exemplificar, cita um diálogo com Monod: “[…] “ele não tem alma”, dizia-me Jacques Monod de um epistemólogo que conhecíamos, e eu o compreendia imediatamente”

(MORIN, 2012, p.108). Continuando sua argumentação, diz Morin:

A alma não é perceptível pelo olhar funcionalista ou pragmático, pois aparentemente, não tem função nem utilidade. Manifesta-se pelo olhar, pela emoção, pela emoção do rosto e, sobretudo, através de lágrimas e de sorrisos. Pode exprimir-se em palavras, mas a sua linguagem própria está além da linguagem da prosa, é a da poesia e da música. A alma é, sem dúvida, um conceito cômodo, como me sugere um amigo leitor, mas o termo traduz também aquilo que escapa aos meus conceitos cômodos (MORIN, 2012, p.109).

Morin diz que a alma é uma virtualidade não atualizada em muitos seres humanos, porém, “A alma pode fazer de nós sujeitos mais sensíveis, vulneráveis, generosos, compadecidos, abertos ao mundo e ao outro” (MORIN, 2012, p.109). No contexto educacional, nos parece importante refletir sobre como a educação do sujeito pode acessar a sensibilidade humana, a fim de educar os espíritos de maneira que, no conhecimento e na ação, a alma também esteja presente, atualizada, manifesta, consciente.

Falando sobre a inteligência, Morin diz que ela não é uma característica exclusivamente humana: “Se definimos a inteligência como uma aptidão estratégica geral, permitindo tratar e resolver problemas particulares e diversos em situação de complexidade, a inteligência é, como vimos, uma qualidade anterior à espécie humana” (MORIN, 2012, p.39). Para exemplificar, diz o autor: “Os pássaros e os mamíferos testemunham uma arte estratégica individual, comportando astúcia, a utilização da oportunidade, a capacidade de corrigir erros, a aptidão para aprender, qualidades que, reunidas num feixe, constituem a inteligência” (MORIN, 2012, p.39).

Porém, o ser humano foi capaz de ampliar a inteligência já existente em outros seres vivos e desenvolver novas formas de inteligência.

Estas serão especialmente aplicadas na práxis (atividade transformadora e produtiva), na tkhnê (atividade produtora de artefatos), na theoria (conhecimento contemplativo ou especulativo). A inteligência própria à mente humana eleva-se ao nível do pensamento e da consciência, que também precisam do exercício da inteligência (MORIN, 2012, p.39).

Segundo Morin, a inteligência usa a estratégia para conhecer e agir, para realizar análises e sínteses, para lutar contra o erro e a ilusão, para se aventurar no

mundo de incertezas, em busca de algumas certezas51. A inteligência, enquanto atividade do espírito humano, está relacionada com o pensamento e com a consciência52, mas não se desvincula dos aspectos físicos e biológicos do humano, pois ela se desenvolve na relação espírito-cérebro.

Aprofundando a discussão da relação entre o cérebro e o espírito, Morin faz uso dos três principais princípios reitores da complexidade: o ‘princípio dialógico’, segundo o qual lógicas diversas podem dialogar e possibilitar o surgimento de algo novo, mesmo permanecendo divergentes, pois não há necessidade de uma lógica sair vencedora e a outra perdedora do diálogo; o ‘princípio recursivo’, onde o produtor é também produto e o efeito também pode ser a causa dele mesmo; e o

‘princípio hologramático’, que, conforme a imagem física de um holograma, o todo pode estar contido em cada uma das partes, assim como cada uma das partes também está no todo, sem que deixe de ser uma parte (MORIN, 2013).

Aqui iremos nos deter um pouco mais no princípio hologramático, porque nos parece que, para Morin, ‘salvar’ a parte muito é importante, pois isso tem repercussão direta na sua concepção de sujeito: o sujeito humano, enquanto parte da cosmos, da physis, da vida, da cultura e da sociedade, não pode se perder no todo, seja ele cosmofísico, biológico, sociocultural ou qualquer outro todo, que não o próprio sujeito. Nesse sentido, Morin se distancia dos holismos, pois, nas palavras do autor, “O pensamento complexo não visa à “totalidade”, no sentido de que este termo substitui uma simplificação atomizante pela simplificação globalizante, sucedendo a redução do todo a redução às partes” (MORIN, 2015, p.401).

É bastante conhecida a crítica que Morin faz ao cartesianismo, a fragmentação dos saberes, como uma característica das ciências modernas, isso que na citação acima o autor denomina de ‘simplificação atomizante’. Mas estamos aqui reforçando a ideia de que ele não se limita a essa crítica e, por isso, afirma que

“[…] exitem também as simplificações holistas, sistêmicas, cibernéticas, vitalistas, que se opõem ou se combinam. Mas todas as simplificações nos ocultam as evidências, as complexidades e os mistérios do viver” (MORIN, 2015, p.434). Nesse

51 “Precisamos reconhecer que a certeza generalizada é um mito, que a incerteza fervilha com riquezas. Mas o conhecimento da imprecisão não deve afastar a precisão […] De fato, o pensamento que reconhece a imprecisão precisa estar armado de muita precisão e de reflexão” (MORIN, 2015, p.423).

52 “[…] definiremos a inteligência como arte estratégica, o pensamento como arte dialógica e arte da concepção, a consciência como arte reflexiva, sabendo que a utilização plena de cada um deles necessita do uso dos outros” (MORIN, 2008a, p.195).

contexto, ao fazer uma diferenciação entre holismo e pensamento complexo, Izabel Petraglia diz que “Enquanto a visão holística explica que o todo é mais importante que a soma das partes, a epistemologia da complexidade pressupõe que o todo é mais e menos que a soma das partes” (PETRAGLIA, 2013, p.87). Reforçando a ideia da valorização das partes, diz Morin:

As partes podem ser singulares ou originais, embora dispondo de aspectos gerais e genéricos da organização do todo; as partes podem ser dotadas de autonomia relativa; podem estabelecer comunicações entre elas e realizar trocas organizadoras; podem ser eventualmente capazes de regenerar o todo (MORIN, 2008, p.114).

Essa relação das partes entre si e com o todo, com base no princípio hologramático, também se aplica ao cérebro humano (que Morin denomina ‘máquina hipercomplexa’ ou ‘complexo de sistemas complexos’, ou ainda

‘megacomputatodor’). Isso porque, segundo o autor, existe a computação individual de cada neurônio, a computação por regiões do cérebro, a computação do cérebro como um todo, além das interações entre os próprios neurônios, entre neurônios e suas regiões, entre os neurônios e o cérebro como um todo.

Tendo como base o princípio dialógico, Morin diz que o cérebro estabelece uma dilógica com espírito. O espírito-cérebro obedece tanto os princípios do programa genético/biológico quanto os princípios da cultura (imprint cultural), além dos princípios próprios de cada indivíduo, fruto de suas experiências particulares.“A dialógica desse poliprograma bio-antropo-cultural-pessoal se inscreve na dialógica fundamental53 da auto(geno-feno-ego/eco-sócio-organização), a qual se inscreve na dialógica geral ordem/desordem/organização” (MORIN, 2008, p.111). Aqui o autor faz uso da dialógica para dizer que na relação espírito-cérebro não existe síntese definitiva: a contradição permanece, a desordem nunca cessa, ruídos são constantes, existem muitos desperdícios e degradações, mas é justamente isso que possibilita a reorganização vital que, na busca pela homeostase, promove renascimentos, novidades.

Se referindo ao princípio recursivo, Morin diz que o espírito é uma emergência do cérebro, ao mesmo tempo que o cérebro humano é uma produção do espírito.

Segundo o autor, “Não apenas a nossa anatomia e a nossa fisiologia são animais,

53 Veremos, sobretudo no último capítulo, que a expressão ‘fundamental’, nesse contexto da auto- organização, não é usada de forma gratuita, desinteressada.

mas também a nossa alma e o nosso espírito” (MORIN, 2015, p.245). De maneira inversa, o cérebro humano também se desenvolveu como um produto da cultura, que, por sua vez, é uma produção do espírito humano.

Claro, o espírito não é apenas uma superestrutura, mas uma emergência da extraordinária conjunção organizadora entre o cérebro humano e a cultura;

essa emergência (dotada de qualidades novas em relação ao que a produziu) não somente faz eclodir as mais ricas qualidades do ser humano, mas manifesta surpreendentes poderes através das magias, dos xamãs e dos desenvolvimentos inusitados das técnicas. Hoje, o espírito adquiriu o poder de agir por meios químicos e cirúrgicos sobre o cérebro do qual saiu e, em breve, terá o poder de agir sobre os genes que produziram o cérebro.

Assim, um estranho circuito está em vias de se fechar para uma nova aventura: a aventura do espírito retroagindo, ao mesmo tempo, sobre cérebro, do qual emerge, e sobre os genes que produzem o cérebro (MORIN, 2012, p.108).

Então, para sintetizar, com base nos princípios dialógico, hologramático e recursivo, Morin defende uma relação de necessidade e de complementaridade entre o cérebro e o espírito. A histórica batalha entre filosofia e ciências, antes mencionada, de agora em diante teria potencial para se transformar em uma conjunção de forças, a fim de fazer avançar tanto o conhecimento a respeito do cérebro, quanto o conhecimento a respeito do espírito. Pois, em lados opostos, tanto um quanto o outro sai em desvantagem:

Ambos são necessários, mas insuficiente isoladamente. O espírito dos filósofos necessita do cérebro destes; o universo sem espírito e sem consciência dos cientistas necessita do espírito e da consciência destes.

Mais ainda: toda negação do espírito ilustra a surpreendente potência das ideias, logo do espírito, pois é bem o espírito que recusa a sua própria existência para não afetar a ideia que tem da matéria (MORIN, 2008, p.82).

Para Morin, cérebro e espírito formam uma unidade, pois estão em constante inter-relação e um não existe sem o outro, porém, um não se reduz ao outro.

Queremos destacar uma vez mais que, enquanto uma esfera da computação cerebral, o espírito não tem sentido filosófico/metafísico, apesar de estar para além (meta) das interações físico-químicas-biológicas do cérebro.

Espírito aqui, não significa nem emancipação de um corpo, nem um sopro vindo do alto. É a esfera das atividades cerebrais onde os processos computantes tomam forma cogitante, ou seja, de pensamento, linguagem, sentido, valor, sendo atualizados fenômenos da consciência. O espírito não é uma substância pensante, mas uma atividade pensante que produz uma esfera “espiritual” objetiva. De fato, há uma realidade objetiva da linguagem, das suas regras, do pensamento, das ideias, da sua lógica. Daí a

necessidade, para o conhecimento do conhecimento, considerar também as coisas do espírito no sentido objetivo da palavra “coisa”. Essas “coisas”

reais não têm, contudo, realidade “material”, embora não possam ser separadas de substratos ou de processos físicos, biológicos, cerebrais (MORIN, 2008, p.92-93).

O espírito, enquanto uma atividade, depende do sujeito que pensa, formula ideias e as enuncia através linguagem. No entanto, o espírito extrapola o sujeito, pois as ideias nascidas dos sujeitos passam a fazer parte da cultura, formam uma noosfera54 (MORIN, 2011). Então, para se referir ao aspecto individual da subjetividade humana, Morin usa a expressão ‘psíquico-espíritual’, sendo que o psíquico está mais relacionado ao aparelho neurocerebral e o espírito diz respeito a esfera do pensamento.

Para concluir, tanto o cérebro quanto o espírito se fazem presentes na produção do conhecimento humano. Porém, “Deve-se entender que quem conhece não é um cérebro, nem um espírito, mas um ser-sujeito pelos meios do espírito/cérebro” (MORIN, 2008, p.94). Nesse processo de conhecimento, o espírito está em íntima relação com o cérebro e, a partir dele, com o todo de nossa corporeidade biofísica. Assim, não apenas o conhecimento, mas o sujeito humano como um todo se autoeco-organiza nessa relação dialógica, hologramática e recursiva da computação cerebral com a cogitação espiritual.