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4. EDUCAÇÃO

4.5 O ‘fim’ da educação

Nesse sentido, a educação para o humanismo deveria ensinar as fraquezas, as grandezas e as interdependências do sapiens-demens, deveria ensinar a “[…]

sentir profundamente em si mesmo que cada um de nós constitui um momento ínfimo, uma parte minúscula de uma extraordinária epopeia que, embora dê continuidade à aventura da vida, começou à 7 milhões de anos” (MORIN, 2020, p.113).

Entendemos que, para Morin, ‘sentir profundamente’ significa se sentir participante daquilo que se é, enquanto sujeito. Então, se a educação do sujeito se dá no momento em que ele é capaz de sentir profundamente, dar condições para que isso aconteça parece ser uma das funções da educação. Por isso, a fim de regenerar o humanismo, seria necessário dar condições para o humano se sentir parte do destino da humanidade, como um cidadão do planeta Terra, como um ser vivo integrante da biosfera e um ser físico antropocósmico.

Assim, a educação deveria ajudar o sujeito humano, conforme uma expressão de Maria Cândida Moraes (2021), a ‘sentir-pensar’ seu pertencimento na aventura da vida, bem como ‘sentir-pensar’ a incerteza do viver, a incerteza do devir. Aliás, a incerteza também pode ser um estímulo para o bem viver, para evitar a prepotência, para colaborar com a vida do outro e ao mesmo tempo defender a própria vida, a fim de que ambos floresçam. Esse é um caminho de esperança, mas não se pode esquecer que o desespero também é uma possibilidade. No sujeito humano, normalmente, a esperança e o desespero caminham de mãos dadas, por vezes um recua enquanto o outro aumenta as passadas. Mas não existe vantagem que garanta a vitória final, até por que no fim da caminhada sujeito está o seu destino de se tornar objeto para outros sujeitos.

como se fosse uma espécie de proposição negativa, ou aquilo que não deveria ser ensinado.

‘A escola do luto’ é um subtítulo que está logo nas primeiras páginas da

‘Introdução geral’ da obra O método, que consta no primeiro volume. Morin começa essa introdução falando sobre como ele percebe a necessidade de relacionar física, biologia e antropossociologia e, ao mesmo tempo, como o amplo mundo que essa relação suscita é abortado para quem se inicia na pesquisa científica. O autor exemplifica isso dizendo o seguinte:

A escola da Pesquisa é a escola do luto. Todo neófito que começa a pesquisar é obrigado a renunciar integralmente ao saber […] Ele deverá, portanto, consagrar toda a sua inteligência a ampliar um saber específico.

Integram-no a uma equipe de especialistas, e, nessa expressão,

“especialista”, e não “equipe”, é o termo predominante […] Não é possível articular as ciências humanas com as ciências da natureza. Não é possível estabelecer uma comunicação entre seus conhecimentos e a nossa vida.

Esta é a grande lição que o Collège de France impõe aos colégios da França. O Luto é necessário? A Instituição afirma e proclama que sim…

(MORIN, 2016, p.25-26).

Sabendo que Morin não comunga com essa ideia da ‘escola do luto’, ao pensarmos no fim/finalidade da educação para Morin, e mais especificamente nas proposições que vimos ao longo desse capítulo, nos perguntarmos: para que os saberes são necessários? Para que uma cabeça bem feita? Para que ensinar a viver? Para que regenerar o humano? Uma das respostas possíveis, com base no pensamento do autor, poderia ser a seguinte: é necessário uma cabeça bem feita para que as potencialidades do sujeito humano (sapiens-demens) não sejam abortadas no processo educativo.

Mas, para que o sujeito humano deve desenvolver suas potencialidades?

Segundo Morin, para viver melhor; ou melhor, simplesmente para viver. Por que viver é viver as aspirações próprias da vida, no caso do humano, as aspirações próprias do sapiens-demens, faber-mytologicus, econômicus-ludens, prosaico- poético. A finalidade da educação para o autor também é construção de um mundo melhor, não apenas para o indivíduo, mas também para a sociedade e para a espécie humana, pois o outro também é uma necessidade da vida do sujeito. Além disso, o humano não vive isolado no planeta terra, sua relação com os demais sujeitos, e também com os seres não vivos, influencia diretamente na prosa e na poesia da vida humana.

Para Morin, conforme estamos vendo, tanto a finalidade da educação quanto as proposições educacionais que vimos nesse capítulo estão fundamentadas na sua noção biológica de sujeito. Então, é reforçando, retomando e explicitando como esse fundamento aparece nas proposições vistas anteriormente que iremos concluir esse capítulo:

É porque o sujeito humano está integrado na vida, na physis e no cosmos que os saberes que integram essa relação são necessários para educação; é por esse motivo que a condição humana deve integrar também aquilo que normalmente não é entendido como parte do humano: o bios, a physis e o cosmos.

É porque o cosmos, a physis e a vida estão interligados no sujeito, e por consequência também no sujeito humano, que uma ‘cabeça bem feita’ é aquela que desenvolve as aptidões naturais da mente humana para perceber essa interligação;

assim, através da religação dos saberes, o ser humano poder conhecer melhor a si mesmo e o mundo que lhe pertence.

É porque a vida é o mundo do sujeito, e porque parte desse mundo costuma ser retirado do sujeito humano, até mesmo pela própria educação que tende a ser guiada pelos interesses econômicos, que ‘ensinar a viver’ é preciso; em outras palavras, ensinar a viver é dar condições para que o humano encontre a própria vida e, nela, também a vida do outro que faz parte da mesma condição humana e que, por isso, pode ser compreendido.

Possibilitar ao educando uma consciência compreensiva de que, assim como ele próprio, o outro também merece viver, e que nenhum ser humano deveria ser ser condenado à sobrevivência, talvez seja a grande finalidade que Morin propõe para educação. Lembrando que, para o autor, a compreensão humana não é um conhecimento passivo, mas ela ‘implica uma parte subjetiva irredutível’. Acreditamos que é implicado nesse conhecimento que o autor luta para que os ‘saberes necessários’ possam ampliar a condição humana; para que se ‘faça uma cabeça’

capaz religar no antropos, o bios, a physis e o cosmos; para ‘ensinar a viver’ e compreender; em síntese, para que o humano regenere aquilo que é próprio de si mesmo.