2. SUJEITO BIOLÓGICO
2.3 Si – Mim – Eu
singular na sua morfologia, na anatomia, na fisiologia, no temperamento, na inteligência” (MORIN, 2015, p.173-174). Porém, a unicidade, a singularidade do indivíduo é constituída relacionalmente, pois “[…] todo indivíduo comporta aspectos constitutivos infra/extra/supra/metaindividuais (infra: os seus componentes químicos;
extra: o seu ambiente ou ecossistema; supra e meta: a população ou sociedade de que faz parte o ciclo do qual é um momento)” (MORIN, 2015, p.170).
Assim, Morin conclui que, sendo autônomo e dependente em relação ao meio do qual ele faz parte, o indivíduo vivo não se define apenas por sua singularidade36, pois seu ser e sua existência, e até mesmo sua singularidade, se constituem na auto(geno-feno)eco-organização. Porém, apesar de todas as dependências, o indivíduo vivo permanece si mesmo e se manifesta como sujeito, como quem diz
‘Eu’.
(Fizemos essa mesma opção no dos demais termos pelos quais o sujeito se autodesigna). Porém, mais importante do que essa questão da tradução de uma língua para outra é o problemas da tradução dos fenômenos da natureza para a linguagem humana e o uso metafórico, pelo sujeito não humano, de termos pelos quais o sujeito humano se autodesigna. Pois, segundo Morin, todo indivíduo-sujeito se manifesta fisicamente como Si; toma decisões, computa, desde o centro de seu mundo subjetivo, como quem diz Eu; e se objetiva como Mim.
Iremos aqui explorar um pouco mais cada um desses termos usados para caracterizar o sujeito moriniano. Começaremos pelo Si, que reunifica as ideias de auto-organização e de indivíduo e se refere ao organismo de cada ser vivo. Morin diz que o Si biológico, que emerge na imunologia em meados do século XX, é uma noção fundamental para conceber o ser vivo, pois “A ideia imunológica do Si manifesta-se como autoafirmação de identidade não só molecular, mas global, de caráter não só defensivo, mas eventualmente ofensivo e fundamentalmente organizador” (MORIN, 2015, p.177).
Ao se reconhecer, se auto-organizar e agir por si e para si, o indivíduo vivo se afirma como Si e se distingue do não/Si. Nessa distinção existe um componente de conhecimento e de autoconhecimento (não consciente)37 produzido pelo organismo vivo, que não depende do cérebro e, muito menos, da consciência.
A distinção Si/não Si opera-se em nível de organismo de modo espantoso.
Com efeito, não se trata de um conhecimento que emana do cérebro do animal (como o conhecimento de um objeto exterior ou de um mal-estar interior), mas de um conhecimento global do organismo enquanto organismo, conhecimento que resultaria das interações entre as células destinadas às tarefas imunológicas e o conjunto do organismo. São precisamente essas interações que podem ser consideradas como constitutivas e reguladoras da identidade do Si. Como diz Vaz e Varela, “o sistema imunológico pode ser visto como uma rede de interações celulares que, em cada instante, determina sua identidade”. Acrescentemos: e por isso mesmo determina a identidade do Si (MORIN, 2015, p.180).
O sistema imunológico dos animais (bem como outros mecanismos com funções semelhantes, como as ‘membranas fronteiras’ de vegetais e pequenos animais) indica que o Si conhece-se a si mesmo e sabe distinguir-se do não/Si.
37 […] o termo autoconhecimento não significa aqui conhecimento de si mesmo. Significa que a dimensão cognitiva indiferenciada na auto-organização e inerente ao computo é conhecimento do ser sobre si mesmo. A Escherichia coli conhece-se no próprio ato em que se alimenta (sabendo do que alimentar-se), se regenera (sabendo como regenerar-se), se defende (sabendo como defender-se), se reproduz (sabendo como se reproduzir), mas de modo nenhum sabe aquilo que sabe nem conhece o que conhece. Somos, pois, impelidos a aceitar o princípio aparentemente contraditório de um autoconhecimento autoignorante” (MORIN, 2015, p.209).
Porém, o Si conhece o não/Si apenas negativamente, rejeitando-o como perigo, ou como ruído38. Ao fazer essa distinção, ele se autoafirma como Si. Por exemplo,
Sabemos atualmente que as próprias bactérias reconhecem os DNA dos vírus como “não Si” e servem-se de enzimas ditas “de restrição” que cortam o DNA em pequenos fragmentos e o tornam inativo, reconhecendo os locais onde devem cortar. A salvaguarda da integridade comporta, não só nos vegetais, mas em numerosas espécies de animais, a autorregeneração de órgãos mutilados ou amputados. A autoafirmação ativa é própria de todo ser vivo (MORIN, 2015, p.182).
Contudo, Morin diz que o Si, enquanto algo referente a corporeidade do ser vivo, não é suficiente para expressar o egocentrismo do sujeito. Para o autor, o Mim expressa melhor essa ideia, pois relaciona o Si do organismo ao Eu do sujeito.
Assim, o Mim se refere a dimensão ontológica do ser39, e não apenas a dimensão física do organismo vivo. “Mim acentua uma dimensão de objetivação e de permanência, enquanto Eu, acentua a ideia de ocupação instantânea, no momento do enunciado, do lugar do sujeito pelo locutor” (MORIN, 2015, p.190).
Vamos tentar exemplificar como isso funciona no interior da célula: a célula, enquanto corporalidade, pode ser considerada Si; mas ela possui uma atividade computante, auto-organizadora, que corresponde ao Eu; nessa atividade ela se objetiva como Mim, se transforma, pode até mesmo substituir suas moléculas, mudar de tamanho, envelhecer, mas permanece idêntica a ela mesma. Seu Eu permanece computando e se objetivando (Mim), enquanto ela viver.
Falando sobre o Eu, Morin diz que, do ponto de vista da linguagem, o Eu é um pseudopronome singular, indeterminado e universal. Esse paradoxo acontece porque: só o locutor pode dizer Eu (ninguém pode fazer isso por ele); qualquer sujeito pode dizer Eu; e todos os sujeitos podem dizer Eu (MORIN, 2015). Além disso,
“Eu refere-se ao ato do discurso em que é pronunciado e designa o seu emissor” (Benveniste). Mais: este ato é simultaneamente a ocupação do 38 “Chama-se ruído qualquer perturbação aleatória que interfira numa comunicação de informações e, através disso, degrade a mensagem, tornando-a errada” (MORIN, 2012, p.307).
39 “A ideia de ser não é uma noção substancial, mas sim organizacional” (MORIN, 2016, p.257). O ser emerge na organização. “Qualquer sistema físico é um dasein (honra de finitude que se acreditava reservada ao homem) – um ser-aí, que depende de seu meio e é submetido ao tempo.
Qualquer sistema físico é plenamente um ser do tempo, no tempo, que o tempo destrói” (MORIN, 2016, p.170). Aqui Morin não está dizendo que qualquer objeto físico é plenamente um ser. Ele está falando de sistemas físicos, que são seres organizados. “A marca fundamental da physis é não apenas de organização, mas de organização ativa. Os sistemas em repouso são hierarquicamente secundários” (MORIN, 2016, p.196).
lugar do sujeito e a autodesignação desta ocupação […] A função do pseudopronome Eu na sua linguagem (como a do verbo na primeira pessoa em que falta este pronome) é exprimir, operar, afirmar essa ocupação […] o Eu transcende a linguagem pelos seus caracteres lógicos e ontológicos.
Efetivamente, deve ser reconhecido como “nome próprio lógico” (Prior):
depende da lógica autorreferente. Efetivamente, existe “prioridade ontológica do Eu” (Castañeda): é a prioridade que a autotranscendência e o princípio de exclusão conferem (MORIN, 2015, p.190-191).
Essa prioridade do sujeito com relação aos demais, ou seja, sua autotranscendência, que o coloca acima dos outros seres, excluindo-os em benefício de si próprio, manifesta o egoísmo do sujeito. E isso independe da linguagem humana, apesar de nós humanos necessitarmos dessa linguagem para poder expressar, por exemplo, as ideias de Si, Mim e Eu. Dito isso, iremos passar agora para o tema do cômputo biológico, onde o sujeito computa em primeira pessoa, como quem (metaforicamente) diz: ‘eu computo’.