• Nenhum resultado encontrado

Estado periférico subalterno e cidadania restrita (1822-1930)

No documento universidade do estado do rio de janeiro (páginas 189-192)

4. W ELFARE S TATE : O N ÚCLEO DAS T ENSÕES NO I NTERIOR DO E STADO C APITALISTA 117

5.1. A transformação do Estado brasileiro em perspectiva de longo prazo

5.1.1. Estado periférico subalterno e cidadania restrita (1822-1930)

preservação. Só o futuro dirá se a perda relativa de poder dos interesses oligárquicos regionais nos últimos anos contribuirá de forma decisiva para que se abra um ambiente político favorável à redução das desigualdades.

5.1. A transformação do Estado brasileiro em perspectiva

se realizava em pequena parte do país, onde também se concentrava o poder de Estado.

É curioso como este Estado aparentemente tão frágil logrou manter a unidade territorial em área tão ampla e até ampliá-la por duas vezes, às custas de território boliviano50, além de ainda ter tentado uma experiência fracassada de anexação do Uruguai. Carlos Lessa chama a atenção para o importante papel desempenhado pela burocracia estatal luso-brasileira na preservação da integridade territorial e na construção do Estado. Segundo ele, o projeto pombalino de fortalecimento do Império português, e a forma peculiar em que se deu a independência brasileira, acabou assegurando certa continuidade da máquina administrativa do período colonial e a existência de um projeto de construção nacional (2001, p. 248-255).

A manutenção e mesmo pequena expansão territorial se deu num período em que o poder central no Brasil enfrentou uma guerra de grandes proporções com o Paraguai, buscou e foi derrotado na tentativa de anexação do Uruguai, como Província Cisplatina, além de ter de se bater contra diversas rebeliões internas quase todas reprimidas de forma violentíssima pelas forças armadas51.

O grande número de revoltas regionais, algumas de grande duração – a como foi o caso dos Farrapos, cuja república só foi derrotada pelos exércitos imperiais dez anos depois do início da revolta em 1835 – mostra não só como foi difícil a manutenção da integridade territorial da antiga colônia portuguesa, mas como os interesses locais eram fortes. A força do regionalismo, em grande parte associada a interesses oligárquicos locais, veio a se transformar numa das forças políticas

50 O teritório do Acre, em 1903, episódio mais conhecido, assim como parte dos atuais estados matogrossenses no período em que a Bolívia era comandada por Mariano Melgarejo Valencia (1864-1871).

51 Durante o período imperial foram as seguintes as principais revoltas ou movimentos que desafiaram o poder central no Brasil: Confederação do Equador (PE-1824); Setembrada e

Novembrada (PE-1831); Cabanos (PE e AL – 1832); Cabanagem (PA-1834); Farrapos (RS-1835);

Cabanagem (PA-1835); revolta dos Malês (BA-1835); Sabinada (BA-1837); Balaiada (MA-1838);

Revoltas liberais (MG e SP-1842); Revolução Praieira (PE-1848). Durante a primeira república o Estado brasileiro enfrentou as seguintes revoltas ou movimentos que contestavam seu poder: Rev.

Federalista (RS-1893); Canudos (BA-1896); Contestado (PR-1915); Rev. Gaúcha (1923); Coluna Prestes (1926).

mais importantes da nossa história, que moldou boa parte das características do Estado brasileiro, principalmente a situação de compromisso com o atraso e a desigualdade social.

Até o fim da chamada Primeira República, em 1930, o Estado brasileiro manteve características básicas muito parecidas, apesar do fim da escravidão e na mudança na forma de organização do poder que deixou de ser monárquico para se tornar republicano em 1899. Tratava-se de um Estado incapaz de se fazer presente de forma permanente do ponto de vista administrativo e militar em todo o território nacional, embora tivesse demonstrado grande capacidade de sufocar as diversas revoltas regionais que surgiram ao longo do período. Ocupava um papel subordinado e periférico no sistema interestatal hegemonizado durante todo o período pela Grã-Bretanha, à frente de uma economia agro-exportadora.

Do ponto de vista da organização do seu poder interno teve de fazer uma série de concessões aos interesses regionais internos, desde o tempo da regência (1831- 1840), por conta de sua pequena capacidade de se estabelecer de forma permanente em todo o território do ponto de vista administrativo e militar. Isto foi verdade, sobretudo durante os 40 anos da Primeira República, quando teve de lançar mão de mecanismos de divisão do poder com os interesses oligárquicos regionais, como foram: a política dos governadores, o coronelismo e a Guarda Nacional, esta já existente desde a monarquia. Por esta razão, a Primeira República também ficou conhecida como república oligárquica, ou dos coronéis, ou ainda do café com leite, esta última em alusão à hegemonia dos interesses paulistas e mineiros. A frágil penetração da máquina do poder central no interior do país foi decisiva para a escolha da forma federativa de organização do Estado brasileiro desde o início do período republicano (Faoro, 2001, p. 627-738 e Fausto, 2000, p. 261-273).

As relações entre Estado e sociedade eram marcadas pela coerção mais brutal de qualquer sentimento ou movimento de contestação, além do não reconhecimento dos direitos de cidadania mais elementares. O seguinte trecho de Lessa dá uma boa idéia da restrição dos direitos políticos na época do Império: “O voto foi censitário e indireto, realizado por paróquia. Ao ser em aberto, em listas controladas localmente, permitiu o controle central do processo de renovação legislativo” (2001, p. 258). Os limitadíssimos direitos políticos dos brasileiros mais

ricos, os únicos que podiam votar, estavam subordinados, ainda, ao poder moderador do Imperador que lhe permitia anular eleições e suspender resoluções do parlamento.

Só no período republicano foi promulgado o primeiro Código Civil, em 1916, vinte e seis anos depois da fundação da República (Fausto, op. cit., p. 568 e Silva, 1998, p. 76-82). Do ponto de vista dos direitos políticos, além do voto continuar restrito aos homens alfabetizados – as mulheres só iriam votar em 1930 – não havia voto secreto e ocorria todo o tipo de constrangimentos sobre o eleitor, além de fraudes no processo eleitoral. Não se pode falar em direitos sociais até 1923, quando a Lei Eloy Chaves regulamentou as caixas de auxílio mútuo organizadas por algumas categorias de trabalhadores.

A questão social era uma questão de polícia, como dizia um dos presidentes da Primeira República. Os trabalhadores, sem quaisquer direitos, começaram a dar forma ao movimento sindical, com base em idéias e experiências importadas da Europa, de onde havia imigrado grande parte deles. Os direitos trabalhistas e sindicais permaneceriam inexistentes até 1943.

O descontentamento com os estreitos marcos do Estado dominado pelos interesses dos plantadores e exportadores de café motivou o surgimento da Aliança Liberal que lança a candidatura de Getúlio Vargas, em defesa de um programa político que defendia temas caros para as classes médias urbanas, como o voto secreto, reforma administrativa e do ensino, independência do Judiciário (Fausto, 1975, p. 241).

A derrota que a Aliança veio sofrer nas urnas, em 1930, para Júlio Prestes acaba fazendo estourar a revolução em outubro do mesmo ano, que pôs fim à dominação política dos setores agro-esportadores. A depressão econômica aberta pela crise da bolsa nova-iorquina em 1929, ajudara a precipitar os fatos, ao desvalorizar o preço internacional do café, sacudindo a força econômica e política dos setores ligados à sua produção e comércio.

No documento universidade do estado do rio de janeiro (páginas 189-192)