4. W ELFARE S TATE : O N ÚCLEO DAS T ENSÕES NO I NTERIOR DO E STADO C APITALISTA 117
4.7. Os conflitos em torno do welfare state em resumo
mudanças contou com alguma forma de negociação com a sociedade. Os casos de reformas com pouca ou nenhuma negociação com a sociedade – as reformas da previdência na Inglaterra, em 1986, e da seguridade social na Alemanha, 1997 – são muito mais a exceção do que a regra. Os casos que demandaram a realização de acordos com os sindicatos ou com os partidos políticos, ou seja com uma ampla gama de atores sociais, são muito mais numerosos.
as folhas de salários, o aumento do desemprego e a redução do crescimento dos salários, vinha afetando o comportamento das receitas.
O aumento do desemprego e da desigualdade social, a ele associado, trouxe novas demandas para os sistemas de welfare, em termos do aumento do seguro desemprego, criação de programas de renda mínima e outros voltados para a parte mais pobre da população. O envelhecimento das populações provocou ainda o aumento das despesas com aposentadorias e pensões – em função do aumento do tempo de pagamento dos benefícios –, assim como o aumento das despesas com os sistemas de saúde, na medida em que os idosos utilizam mais os serviços de atenção, por conta principalmente das doenças crônico- degenerativas.
Se os aspectos econômicos – redução do crescimento e aumento do desemprego – não podem ser inteiramente debitados à conta do neoliberalismo, é certo que as políticas a ele associadas no mínimo exacerbaram os efeitos daqueles aspectos.
Afinal de contas, o fim do ciclo econômico expansivo iniciado no pós-guerra foi substituído por um período de acumulação financeira, marcada por um fortíssimo tom especulativo, que só foi possível em função da desregulamentação dos mercados promovida pelas idéias e políticas neoliberais.
A desregulamentação do mercado de trabalho e a maior liberdade para o capital produtivo se transferir de um país para o outro, além de novas práticas gerenciais voltadas para o aumento da eficiência a qualquer prova contribuíram para o enfraquecimento dos sindicatos, o aumento do desemprego e da desigualdade social em todo o mundo. Todos esses fatores estão diretamente relacionados às idéias e políticas neoliberais, constituindo-se como alguns dos objetivos mais importantes das mesmas em relação ao mundo do trabalho e aos ganhos de eficiência e das margens de lucro do capital.
Diante deste quadro, em parte considerável causado por suas próprias políticas, o neoliberalismo pressionou os sistemas de welfare no sentido não de ampliar os mecanismos de proteção social, mas de reduzi-los e de passar para a iniciativa privada tudo o que pudesse dar lucro para a mesma. Aos governos deveria ficar a responsabilidade pelos programas residuais voltados para os comprovadamente muito pobres, que são, em muitos casos, os de maior custo e menor atratividade para o capital.
As políticas neoliberais no campo social não alcançaram, entretanto, o mesmo sucesso que obtiveram na área econômica entre os países mais desenvolvidos.
Houve, é certo, algumas mudanças nos sistemas de welfare de caráter nitidamente neoliberal, como foram a privatização do sistema de saúde público da Nova Zelândia e a criação de um amplo sistema privado de previdência na Grã- Bretanha, além de uma série de mudanças em políticas principalmente de assistência social na Austrália, no Canadá e nos EUA, principalmente, todos eles países com regimes de welfare de cunho liberal e onde a penetração das idéias liberais já era relativamente desenvolvida. Tais mudanças representam, contudo, muito mais a exceção do que a regra das mudanças que vêm se processando nos sistemas de proteção social entre os países desenvolvidos.
A maior parte das mudanças em curso visam sobretudo a adaptação dos sistemas às mudanças no ambiente, visando mantê-los no essencial. De fato, tirando os pouco exemplos mencionados, a situação geral do welfare state, entre os países desenvolvidos permaneceu basicamente inalterada do ponto de vista tanto dos seus princípios constitutivos, quanto da abrangência das políticas sociais correspondentes. Veremos no próximo capítulo que a situação no jovem sistema de proteção social brasileiro é muito semelhante.
As razões para o relativo fracasso das propostas neoliberais em reduzirem o Estado do bem-estar social a um punhado de políticas sociais restritas aos grupos mais pobres e a abrirem para o mercado privado grandes oportunidades de ganho em torno de serviços de saúde e seguros previdenciários estão situadas principalmente no terreno político. Novos atores com grande importância na sociedade e forte influência política sobre as decisões do Estado – associações civis, ONGs, conselhos de participação e controle social, etc. –, aliados à força dos atores tradicionais, como os sindicatos e partidos políticos, a forte adesão das populações aos direitos e políticas sociais jogaram um papel decisivo impedindo que as propostas neoliberais vingassem na área social.
Pode-se dizer, sem nenhum exagero, que a exacerbação das conseqüências das mudanças econômicas e demográficas pela ação do neoliberalismo elevou as tensões, provocando o surgimento de um forte movimento de autoproteção da sociedade a partir dos anos 80, parecido com o que foi estudado por Polanyi que
significou a reação da sociedade à primeira onda liberal ocorrida entre 1870 e 1930.
A sanha neoliberal em defender o capital e seus ganhos contra tudo e contra todos, procurando transformar em mercadoria tudo o que pudesse significar lucro e seu ataque aos direitos sociais duramente conquistados pela sociedade ao longo de quase um século não ficaram sem resposta. Os ataques neoliberais ocorreram num momento em que a sociedade já vivia as incertezas, sofrimento e angústia causados pela queda do crescimento econômico, de redução do emprego e dos salários. Esta sociedade que experimentara o mais alto grau de liberdade e proteção contra riscos jamais vivido por qualquer outro grupo humano na História não se tratava, contudo, de um conjunto amorfo e desprovido de vontade.
As lutas pelos direitos de cidadania, ao longo de três séculos haviam desenvolvido uma configuração social extremamente complexa, com múltiplos organismos de representação e organização, que alterara profundamente o próprio Estado e sua relação com ele. A ruína do muro de Berlim e a dissolução do socialismo no Leste Europeu com toda sua carga simbólica em função da forte ligação entre as idéias socialistas e os direitos sociais deram aos neoliberais a esperança de terem alcançado sua vitória total e final, acreditando finalmente terem conseguido parar a roda da História.
Muitos dos seus opositores, por caminhos opostos também desenvolveram sentimentos e percepções influenciadas pelo mesmo finalismo, que, como vimos antes, tem profundas raízes em nossa herança cultural. Muitos viram, dessa forma, as mudanças em relação ao welfare state como sua dissolução, e parte de uma vitória esmagadora do neoliberalismo. Todo e qualquer movimento de adaptação dos mecanismos de proteção social pareciam a essas pessoas terem a marca do neoliberalismo triunfante.
O abalo sofrido pelos atores tradicionais das lutas pelos direitos políticos e sociais, sindicatos e partidos de esquerda, quando ruiu o socialismo real pareceu a muitos ter deixado órfãos os movimentos sociais. As dificuldades e transformações econômicas recentes também contribuíram para enfraquecer relativamente o poder os sindicatos e magnificar aquela impressão. Tudo parecia conspirar para uma vitória total do neoliberalismo contra os direitos sociais e tudo
o que eles representavam de contradição e freio aos impulsos de um mercado livre.
No entanto, nem os sindicatos e partidos de esquerda saíram de cena, nem se encontravam sozinhos na resistência ao movimento neoliberal de tudo transformar em mercadoria. Novos movimentos sociais, muitos deles surgidos da própria existência das políticas sociais entraram em cena com uma força insuspeitada, forçando estados nacionais e governos conservadores a negociar tudo o que se referia a mudanças no welfare state. O ímpeto do neoliberalismo em empurrar as políticas sociais para o mercado privado, remercantilizando os direitos sociais vem sendo gradualmente domado pelo movimento de autoproteção da sociedade, que reúne agora antigos e novos atores e utiliza novas formas de organização, de luta e de negociação.
O recente movimento de globalização que mostrou sua face pela primeira vez em outubro de 1999 na cidade de Seattle em protesto contra a reunião da OMC e tem mostrado um crescente vigor em diversos episódios, pode estar sinalizando a ampliação da arena das lutas contra os interesses do neoliberalismo. Este movimento vem contestando e denunciando os resultados de mais de vinte anos de política neoliberal, de liberdade total para o capital financeiro e de crescentes ameaças para a humanidade. O extraordinário movimento pacifista de 17 de fevereiro de 2003, que conseguiu mobilizar milhões de pessoas em todos os continentes contra a decisão norte-americana de atacar o Iraque parece confirmar que a luta para deter o neoliberalismo efetivamente alcançou uma escala mundial.
Infelizmente a capacidade de defesa da população em relação aos ataques neoliberais contra seus direitos sociais foi efetiva onde as sociedades e suas relações com o Estado são mais complexas. Afinal foi principalmente nos países mais desenvolvidos que a resistência às políticas neoliberais impediram o desmonte dos direitos e das políticas sociais. Nos países pobres não foi essa realidade, em diversos países da América Latina, por exemplo, o pouco que havia de mecanismos de proteção social vem sendo seriamente desmontado e privatizado.
Não é este, contudo, o caso do Brasil. Ao contrário do que ocorre entre nossos vizinhos, nosso jovem sistema de bem-estar social reformado e revigorado pela Constituição de 1988 não só vem resistindo, como segue avançando. No próximo
capítulo procuro refletir sobre as razões que vem levando o caso brasileiro a se distanciar da realidade dos nossos vizinhos de Continente.
5. R EFLEXÕES SOBRE A T RANSFORMAÇÃO H ISTÓRICA DO
E STADO B RASILEIRO
Neste capítulo procuro abordar o desenvolvimento de uma possível
‘ocidentalização’ da sociedade brasileira, no sentido gramsciano do termo. Apesar de não constituir o núcleo da tese, considero a direção das reflexões feitas aqui necessárias para tentar provocar uma rediscussão acerca do Estado e da sociedade brasileiros, assim como sobre o grau de complexidade que as relações entre ambos alcançaram. Não devem ser interpretadas como reflexões definitivas, mas como um ponto de partida para uma rediscussão das questões apontadas.
Faço, para tanto, diversas considerações a respeito da evolução da economia brasileira e de sua relação com a posição do país na hierarquia de poder mundial, que aparentemente constituem um desvio do tema central da Tese, mas que considero fundamentais para a discussão da especificidade do Estado brasileiro.
Essas considerações fazem parte de uma análise resumida do desenvolvimento do Estado brasileiro que incorpora, ainda, uma discussão a respeito da evolução política e dos direitos de cidadania no país. As evidências empíricas arroladas no capítulo não se pretendem exaustivas, constituem antes indicativos para mostrar a necessidade de uma investigação mais aprofundada que dê conta das singularidades da situação brasileira
Considero que o desenvolvimento do Estado vem sendo marcado desde 1930 por dois tipos diferentes de conflito: o conflito em torno do lugar do país no sistema internacional de poder, que durante décadas separou desenvolvimentistas de liberais ou neoliberais; e o conflito entre um Estado que foi na maior parte de sua história autoritário e conservador do ponto de vista social e uma sociedade cada dia mais complexa que luta por seus direitos de cidadania.
Tal processo gerou uma condição peculiar em relação ao Estado brasileiro contemporâneo que o coloca numa posição distinta entre os demais estados da periferia do sistema capitalista. Do ponto de vista de sua situação internacional, o Estado brasileiro, apesar de situado na periferia do sistema, não só tem potencial para ocupar um papel de liderança intermediária, como vêm sustentando, ao
longo de seis décadas, contradições e conflitos com o centro do sistema internacional de poder.
Esta opinião contraria outros pontos de vista a respeito, como o de Fiori, por exemplo, para quem “Só na América Latina o poder imperial americano é exercido sobre um território contínuo, incluindo todos os seus Estados [grifos meus], com exceção de Cuba” (2001 d, p. 63).
É bastante comum na literatura recente esse tipo de tratamento da América Latina como um todo, como se todos os Estados que a compõem tivessem o mesmo nível de complexidade e ocupassem uma posição similar no chamado ‘sistema mundial moderno’. O Brasil é, assim, colocado num mesmo grupo indistinto com outros Estados com importância econômica, geográfica e demográfica infinitamente menores e com um grau de desenvolvimento político-institucional em geral também menor.
Considero que este tipo de tratamento impede a consideração das especificidades de cada Estado e sociedade da região. A análise da situação brasileira, que guarda uma série de singularidades que a distinguem da maioria, senão da totalidade dos demais estados do nosso continente, acaba ficando prejudicada dessa forma. Essas considerações constituem o objeto principal deste Capítulo.
Do ponto de vista da relação interna entre Estado e sociedade, considero que a sociedade brasileira se converteu nas últimas décadas numa das sociedades mais complexas e capazes de influenciar as decisões estatais em toda a periferia do sistema capitalista. Apesar de toda a terrível herança social de séculos de desigualdade e exclusão, da enorme situação de injustiça social ainda existente e das idas e vindas de um processo político conflituado, os últimos 60 anos de nossa história, principalmente a partir de 1988, vêm sendo marcados pelo desenvolvimento dos direitos de cidadania e de políticas de proteção social e inclusão sem paralelo entre os demais países periféricos do sistema capitalista.
O presente de nossa sociedade ainda está marcado, sem dúvida, por duas características persistentes que são o peso do poder oligárquico regional na máquina do Estado e a brutal desigualdade social. Ambos os fenômenos estão profundamente imbricados e vêm contribuindo mutuamente para sua
preservação. Só o futuro dirá se a perda relativa de poder dos interesses oligárquicos regionais nos últimos anos contribuirá de forma decisiva para que se abra um ambiente político favorável à redução das desigualdades.