3. D IREITOS DE C IDADANIA E E STADO : A G RANDE T RANSFORMAÇÃO
3.3. Direitos sociais e transformação do Estado
3.3.4. Movimentos sociais e Estado - interpretações recentes
Afinal a transformação das condições que afetam os diferentes grupos sociais passa cada vez mais pelo Estado, pelo que ele reconhece ou não como um direito de cidadania e pelas políticas que põe em prática para assegurar cada direito. Só o Estado tem o poder de transformar interesses e necessidades em direitos e de colocá-los em prática. Dessa forma, as lutas sociais, mesmo as mais específicas, vêm assumindo cada vez mais o papel de lutas políticas em direção ao Estado e no sentido de transformá-lo.
Como parece haver, entretanto, uma sensação dúbia em relação à interpretação da questão social nos últimos anos é necessário verificar as tendências da literatura recente a respeito da luta social, especialmente do papel e do significado dos chamados Novos Movimentos Sociais (NMS).
geral, pelo Estado, a partir de processos como iniciativas tomadas por este, clivagens dentro das elites, etc. Esta relação com o Estado, ou sociedade política (no sentido gramsciano), é chave para a compreensão dos movimentos sociais.
contemporâneos, segundo Tarrow.
Ele desenvolve sua metodologia, buscando apoio no marxismo. A partir das análises de Marx, Tarrow conclui que “os trabalhadores foram forçados a desenvolver recursos independentes quando perderam a propriedade de seus meios de trabalho”. De Lênin, ele busca elementos sobre a questão organizacional e de Gramsci a questão da necessidade de desenvolver a consciência dos trabalhadores. “Ele afirma que Lênin e Gramsci anteciparam a moderna teoria dos movimentos sociais em suas considerações sobra a política como um processo interativo entre trabalhadores, capitalistas e Estado” (op. cit., p. 102-103).
Gohn destaca que “o ponto fundamental que Tarrow resgata dos clássicos da teoria das classes sociais é a questão da importância do Estado no relacionamento com os movimentos sociais” (op. cit., p. 102). Tarrow busca tal apoio para procurar analisar os movimentos sociais atuais, vendo com otimismo a formação das redes sociais contra a globalização, que ele considera terem grande possibilidade de ampliação e difusão.
Entre os europeus, algumas análises têm inspiração diretamente marxista ou neomarxistas, como a de Klaus Offe, já outras buscaram caminhos diferentes, como o acionalismo de cunho funcionalista de Alain Touraine, os movimentos sociais urbanos de Manuel Castells, ação coletiva de Alberto Melucci. O termo novos movimentos sociais foi cunhado por autores de origem européia e está associada à idéia de ação coletiva. Segundo Gohn, os autores mais significativos nessa linha seriam Touraine e Melucci. Em relação ao primeiro, ela destaca que:
“... o mérito da abordagem de Touraine residia na importância conferida aos sujeitos na história – ou atores, como ele os chama – como agentes dinâmicos, produtores de reivindicações e demandas, e não como simples representantes de papéis atribuídos de antemão pelo lugar que ocupariam no sistema de produção. O dinamismo dos sujeitos/atores é visto em termos culturais, de confronto de valores [grifos meus] (uns são afirmados e outros reivindicados)”.
“Touraine afirmava que os movimentos sociais são sempre, em última análise, a expressão de um conflito de classes”
“O Estado não seria apenas monopólio da violência e da busca da legitimação ... é também agente de transformação histórica...” (op.cit,, p.
143-147).
Em relação à concepção de Melucci, Gohn chama a atenção para o seguinte:
“Para Melucci, movimento social é uma construção analítica e não um objeto empírico ou um fenômeno observável ... Movimentos são sistemas de ações, redes complexas entre os diferentes níveis e significados da ação social.
“O que caracterizaria sua existência seria a luta entre dois atores por uma mesma coisa. Os conflitos principais que gerariam esta luta são de dois tipos: conflitos baseados na ação organizacional e aqueles com base na ação política” (op. cit., p. 155).
Ainda segundo Gohn38, Claus Offe teria buscado um novo referencial para o estudo dos novos movimentos sociais, com ênfase nos aspectos políticos:
“...prioriza a análise política, fazendo articulações entre o campo político e o socioultural ... ... ele buscou a gênese dos problemas na alteração das relações sociais. [Para Offe as] formas estabelecidas de racionalidade econômica e política já não estariam concentrados em uma classe específica (o proletariado), mas dispersos no tempo e no espaço, numa ampla variedade de formas. Offe conclui pela inadequação da concepção tradicional marxista” (op. cit., p. 164).
“Ele detecta novas formas de expressão da vontade política ao redor de problemas da vida cotidiana e da construção da identidade de novos atores sociais a partir do aumento de ideologias [no sentido marxita de consciência deformada] e de atitudes que levam as pessoas a servir-´se cada vez mais do repertório dos direitos democráticos existentes” (op.
cit., p. 165).
Offe aponta dois paradigmas explicativos das ações coletivas: um ‘antigo’ entre a Segunda Guerra e os anos 70 do século XX, e outro, ‘novo’, a partir daqueles
38 As idéias de Offe, expostas por Gohn, são do livro “Partidos políticos y nuevos movimientos sociales” (1988, Madri, Sistema).
anos. “Os atores sociais atuam no antigo paradigma como grupos econômicos de interesse; os conteúdos básicos de suas ações são: crescimento econômico e distribuição, seguridade militar e social, e progresso material” (op. cit., p. 166). O
‘novo’ paradigma seria representado pelo que se convencionou chamar de Novos Movimentos Sociais (NMS), os quais Offe procura especificar:
“O novo paradigma pode também ser chamado paradigma do ‘modo de vida’ e abrange, entre outros, os Novos Movimentos Sociais. A partir de uma listagem organizada por Melucci (...), Offe cita os seguintes movimentos: estudantil, feminista, de liberação sexual, movimento de cidadãos [?!], lutas ecológicas, mobilização de consumidores e usuários de serviços, de minorias étnicas e lingüísticas, de comunidades e contraculturas, relativos às questões de saneamento, saúde, etc. Offe acrescenta os movimentos pela paz ... [segundo ele] o campo de de ação dos Novos Movimentos Sociais se faz num espaço institucional, cuja existência não está prevista nas doutrinas nem na prática da democracia liberal e do Estado do bem-estar social” (op. cit., p. 166- 167).
O que e interessante é que Offe considera que os NMS tem um caráter eminentemente político, buscando “a interferência em políticas do Estado e em hábitos e valores da sociedade” (op. cit., p. 167). Apesar disso Offe vê problemas quanto ao futuro e continuidade desses movimentos:
“Eles se assentam, geralmente, em estruturas organizativas frágeis, tipo comitês de coordenação, sem regras claras para resolver conflitos, baseados no trabalho voluntário, com perspectivas estratégicas rudimentares e compromissos de seus participantes ad hoc e não permanentes ... O resultado é o pragmatismo, o pluralismo e a experimentação de diferentes ideologias, sem programas políticos definidos” (op. cit., p. 169-170).
O que parece claro da resenha apresentada por Maria da Glória Gohn é a predominância dos aspectos políticos apresentados pela maioria dos autores norte-americanos e europeus a respeito dos novos movimentos sociais. Ao contrário de verem nesses movimentos uma dispersão de objetivos e uma especificidade estéril, as interpretações recentes sobre o fenômeno convergem
em torno do caráter político das lutas e da transformação que eles representam na relação entre Estado e sociedade.