2. FUNDAMENTAÇÃO
2.4 Experiências no Dark Tourism
Ashworth (2002) enfatiza motivos como satisfazer a curiosidade sobre o incomum, divertir-se com as terríveis ocorrências e o sofrimento dos outros, identificação empática (seja com as vítimas ou agressores) e, como no turismo histórico, buscando a autoidentificação e a autocompreensão. Em um estudo posterior, Ashworth (2004) observa que os motivos variam de peregrinação, busca de identidade, busca de conhecimento e um senso de responsabilidade social (ou seja, "Para que não esqueçamos", "Nunca mais") a motivos mais obscuros, como interesse e indulgência em violência e sofrimento.
As razões sociais (por exemplo, trazer amigos ou parentes, um dia significativo) e a curiosidade foram identificadas, na pesquisa de Kang et. al (2012) como as segundas principais razões para a visita, além de afetar as experiências dos visitantes no local, assim como as experiências de patrimônio cultural em geral (MCINTOSH, 1997; PRENTICE et al., 1998) Não é provável que os visitantes com esses motivos tenham um forte interesse em aprender sobre o incidente ou outros problemas, já que ele não teve uma relação significativa com a dimensão do incidente de 3 de abril e uma relação positiva relativamente fraca com a dimensão dos problemas relacionados (por exemplo, conflito ideológico ou história contemporânea coreana). No entanto, esses visitantes foram considerados sensíveis à atmosfera do lugar. Como exemplo, eles eram mais propensos a ficar deprimidos com o conteúdo da exposição, os temas e a atmosfera tranquila causada pelo pequeno número de visitantes do site, em comparação com os visitantes com aprendizado e obrigação.
Quadro 6: Variáveis da dimensão razões sociais e curiosidade Variáveis
Envolvimento pessoal ou familiar no cemitério da Recoleta Trazido por amigos e parentes
Para trazer amigos e parentes.
Para ter um dia significativo com a família ou amigos Fonte: Adaptado de Yan et al. (2016)
experiência como conceito foi discutida em vários estudos acadêmicos. Através de uma revisão da literatura, esta seção examina como a experiência é conceituada em termos gerais e, em particular, na literatura de turismo. Para começar, ele aborda várias definições de experiência e elementos experienciais em estudos acadêmicos mais amplos, antes de examinar abordagens teóricas da experiência em literatura específica sobre turismo e lazer. Explorar a percepção dos turistas de suas experiências em um destino é um tópico premente por causa da relação indispensável com os atributos do destino (OPPEWAL, HUYBERS; CROUCH, 2015; CETIN;
BILGIHAN, 2016).
Diversos autores conceituaram experiências. Dewey (1963) cita que engajar em uma experiência envolve progressão ao longo do tempo, antecipação, envolvimento emocional, uma singularidade que a destaca do comum e atinge algum tipo de conclusão. Já Dillon (1986) alega que a experiência deve ser vista como uma propriedade emergente que resulta das inter-relações e sobreposições entre pessoa, ambiente, pensamento, emoção, atividade e valor. Para Carbone e Haeckel (1996, p.18) a experiência é uma impressão de "retirada" formada pelo encontro das pessoas com produtos, serviços e empresas - uma percepção produzida quando os seres humanos consolidam informações sensoriais. Mais adiante, Otto e Ritchie (1996, p.166) conceituaram a experiência de lazer e turismo como o estado mental subjetivo sentido pelos participantes.
Schimitt (1999, p. 57) também traz em sua definição os valores sensoriais e emocionais. O autor cita que as experiências ocorrem como resultado de encontrar, passar ou viver através das coisas.
Essas experiências fornecem valores sensoriais, emocionais, cognitivos, comportamentais e relacionais que substituem os valores funcionais. No mesmo ano, Pine e Girlmore (1999, p.98) trazem o conceito de experiências memoráveis. Os autores citam que é criada uma experiência quando “uma empresa usa intencionalmente serviços como palco e bens como acessórios, para envolver clientes individuais de maneira a criar um evento memorável”. Complementando esse conceito, Gupta e Vajic (2000, p.35) alega que a experiência pode se referir a qualquer sensação ou aquisição de conhecimento resultante da participação de uma pessoa nas atividades diárias.
Já Schanzel e McIntosh (2000, p.37) cita que a experiência vai além desses aspectos. Os autores citam que a experiência pode ser definida como resultados mentais, espirituais e fisiológicos, resultantes de atividades de recreação no local. Já Smith (2003, p.233) traz um conceito de forma mais curta e abstrata alegando que a experiência é um conjunto de atividades em um contexto social. E para finalizar esse levantamento de conceitos de experiências, Chen e Chen (2010, p.29) retoma a ideia de sentimentos nas experiências com o foco em serviços. Os autores alegam que a experiência de serviço pode ser definida como as reações e sentimentos pessoais subjetivos que são sentidos pelos consumidores ao consumir ou usar um serviço.
Outra vertente comumente analisada é a qualidade da experiência. Ela é definida como
“respostas afetivas dos turistas aos seus benefícios sociopsicológicos desejados” (CHEN; CHEN, 2010, p. 30), que são percebidas através do envolvimento privado com eventos que aconteceram em um destino (PINE; GILMORE, 1999) Para conceituar a qualidade da experiência, os estudiosos a elaboraram de várias maneiras (JIN et al., 2015; WU; LI; LI, 2018) Por exemplo, quatro dimensões da qualidade da experiência são sugeridas: hedônica, paz de espírito, envolvimento e reconhecimento (OTTO; RITCHIE, 1996). Posteriormente, Pine e Gilmore (1999) estabeleceram quatro componentes da experiência: entretenimento, educação, escapismo e esteticismo. Para essa dissertação será utilizada as quatro variáveis adotadas nos estudos anteriores: hedônica, paz de espírito, envolvimento e escapismo (OTTO; RITCHIE, 1996;
MOON; HAN, 2018).
A investigação das experiências dos visitantes em lugares para a prática do dark tourism tem sido diferente em suas abordagens tanto no foco como no contexto (LIGHT, 2017). Segundo o autor, as experiências nesses lugares são complexas, com várias camadas, e que está longe de ser superficial, sendo que uma visita a esses lugares pode ser profundas e altamente significativa. No entanto, não existe um tipo único de experiência, já que os visitantes podem se envolver com (e responder a) locais dark ou atrações de várias maneiras( YANKHOLES e MCKERCHER, 2015), dependendo de suas motivações e formação cultural (DU et al., 2013; JAMAL; LELO, 2011; KAMBER et al., 2016; RITTICHAINUWAT, 2008; ZHANG et al., 2016); a extensão de sua conexão pessoal com o site ( ASHWORTH, 2008; COHEN, 2011 , PORIA et al., 2004 ); e o contexto social de sua visita ( MacCarthy & Willson, 2015 ).
2.4.1 Experiências hedônicas
A experiência hedônica é uma construção bem desenvolvida na pesquisa do consumidor.
Os primeiros trabalhos de Holbrook e Hirschman (1982, p. 132) reconheceram a relevância das
"respostas hedônicas" e da "fuga da realidade" (HIRSCHMAN; HOLBROOK, 1982, p. 98) como partes fundamentais da experiência de consumo. Em contraste com a literatura que concebe o consumo como escolhas fundamentadas para atender às necessidades, maximizar a utilidade, Belk, Ger e Askegaard (2003, p. 3263) argumentaram que estados e desejos emocionais altamente intensos constituem "a força motivadora por trás de grande parte do consumo contemporâneo". Da mesma forma, Csikszentmihalyi (2000, p. 267-271) propôs que a experiência orientada pela experiência atividades e "recompensas experienciais" geram consumo, pois "música, arte, poesia e dança [constituem] a energia criativa da nova economia".
Hedonismo refere-se ao aspecto emocional da experiência de destino, que engloba memorabilidade e diversão (MOON; HAN, 2018).
Os autores Otto e Ritchie (1996) desenvolveram uma escala de qualidade da experiência com quatro fatores, isto é, hedônicos, tranquilidade, envolvimento e reconhecimento, usando dados de pesquisas com consumidores obtidos de três setores de serviços turísticos, incluindo hotéis, companhias aéreas, passeios e atrações. A avaliação da qualidade da experiência tende a ser holística/gestalt, e não baseada em atributos, e o foco da avaliação é no self (interno), mas não no ambiente de serviço (externo). Além disso, o escopo da experiência é mais geral do que específico, a natureza do benefício é experiencial/hedônica/simbólica, em vez de funcional/utilitária, e a representação psicológica é afetiva em vez de cognitiva/atitudinal.
Quadro 7: Variáveis da dimensão experiências hedônicas Variáveis
Senti que eu estava fazendo algo que realmente gosto de fazer.
Senti que eu estava fazendo algo memorável.
Fonte: Adaptado de Otto e Ritchie (1996)
2.4.2 Paz de espírito
A paz de espírito é caracterizada pelos estados afetivos de paz e harmonia internas (LEE et al., 2013). Para os autores a experiência da paz interna captura os estados mentais incluídos no efeito positivo de baixa excitação (por exemplo, pacífica, calma e serenidade), enquanto a harmonia interna captura os estados mentais que incluem equilíbrio e harmonia. Para Lee et al.
(2013) a de paz de espírito é definida como a extensão em que se experimenta paz e harmonia interior. Segundo Chen e Chen (2010) a paz de espírito está preocupada com a necessidade de segurança e conforto físico e psicológico. Na mesma linha de pensamento, Moon e Hann (2018) em sua pesquisa definem a paz de espírito como sendo o estado físico e psicológico de conforto e relaxamento em um destino, para os autores esse conjunto de fatores indica paz de espírito para o turista.
A paz de espírito é caracterizada, segundo Lee et al. (2013) pelos estados afetivos de paz e harmonia internas. Para os autores, a experiência da paz interna captura os estados mentais incluídos no (EBP) efeito de baixa pressão (por exemplo, pacífica, calma e serenidade), enquanto a harmonia interna captura os estados mentais que incluem equilíbrio e harmonia. De acordo com Niedenthal et al (2006), as emoções podem ser diferenciadas em emoções "independentes
do cognitivo" e "dependentes do cognitivo". O primeiro indica o conjunto de emoções "básicas"
que são elementos fundamentais da vida emocional, como as emoções classificadas no perímetro do afeto (por exemplo, afeto no EBP); o último indica emoções mais complicadas que dependem da avaliação cognitiva antes de emergirem (LEE et al., 2013). Consideramos ainda a paz interna como uma emoção cognitiva independente, porque inclui emoções que cobrem o EBP. Por outro lado, a harmonia representa o equilíbrio dinâmico entre elementos opostos (LEE et al. 2009) que depende da avaliação cognitiva e, como tal, consideramos a harmonia interna um reflexo das emoções dependentes da cognição. LEE et al (2013) sugere que os dois aspectos da paz mental sejam reciprocamente relacionados, de modo que as pessoas possam alcançar a paz de espírito através do processo de harmonia ou alcançar a harmonia interna através da manutenção de um estado mental tranquilo. Os autores sugerem, portanto, que indivíduos com paz de espírito experimentariam paz e harmonia internas como um estado coerente.
Quando o assunto é motivação para realizar uma viagem, não é incomum encontrar nos resultados de pesquisas a busca da paz de espírito como um dos fatores. No estudo sobre viagens rurais na Coreia, Park e Yoon (2009) identificaram quatro segmentos motivacionais: união familiar que valorizava o relaxamento com a família. Devesa et al. (2010) na Espanha identificam quatro tipologias motivacionais. Estes eram visitantes que procuravam tranquilidade, descanso e contato com a natureza; visitantes culturais; visitantes de proximidade, gastronômicos e da natureza; e retornar turistas. Ambos os estudos identificam fuga e relaxamento como motivações importantes das viagens rurais (LEWIS; D’ALESSANDRO, 2019). Por meio de uma metanálise da literatura, Pesonen et al. (2011) descobriram que o turismo rural foi impulsionado pela oportunidade de aprender, explorar a natureza e a cultura, desfrutar de atividades ao ar livre e a busca de paz e solidão. Suas pesquisas na Finlândia e na Áustria identificaram o relaxamento como o fator de pressão mais crucial.
Quadro 8: Variáveis da dimensão paz de espírito Variáveis Senti que estava me divertindo.
Estava fisicamente confortável.
Estava relaxado.
Fonte: Adaptado de Otto e Ritchie (1996)
2.4.3 Envolvimento
O envolvimento é definido como um "estado não observável de motivação, excitação ou interesse" em relação a um produto ou atividade evocada por um estímulo ou situação (HAVITZ;
DIMANCHE, 1997, p. 246), e afeta as percepções dos turistas sobre o valor da experiência (PREBENSEN; WOO; UYSAL, 2013). O conceito está associado a um tipo de envolvimento duradouro, enquanto o envolvimento situacional é visto como refletindo sentimentos temporários de envolvimento em uma situação específica, que tendem a ter um impacto antes da compra (RICHINS; BLOCH; MCQUARRIE, 1992) e um efeito moderador sobre o resultado da experiência turística (MATHIS; KIM; UYSAL; SIRGY; PREBENSEN, 2016). Para Moon e Han (2018), o envolvimento representa o envolvimento dos turistas com todo o processo da experiência de destino, tomando decisões relacionadas à viagem sob seu controle.
Uma das principais distinções entre o envolvimento e o envolvimento da experiência é que, embora níveis e tipos variados de envolvimento (por exemplo, envolvimento duradouro e situacional) estejam influenciando fatores da atenção do consumidor (CELSI; OLSON, 1988), o envolvimento da experiência é a consequência disso. O envolvimento da experiência define não a decisão de compra, mas o consumo de um determinado serviço ou experiência e tem um papel importante na formação da experiência e na co-criação de valor com o provedor de serviços.
Quadro 9: Variáveis da dimensão envolvimento Variáveis Senti que estava envolvido na experiência
Senti que havia opções de escolhas no passeio
Senti que tinha algum controle sobre o resultado da experiência.
Fonte: Adaptado de Otto e Ritchie (1996)
2.4.4 Escapismo
Embora o hedonismo tenha recebido ampla atenção na literatura sobre consumo, o escapismo nas experiências do consumidor é igualmente relevante, mas pouco estudado (COVA et al., 2018). Pesquisas de consumidores existentes argumentam que os consumidores escapam da realidade de suas vidas em experiências mundanas hedônicas, como compras (BABIN;
DARDEN; GRIFFIN, 1994) e em experiências mais extraordinárias, como rafting (ARNOULD;
PRICE, 1993) e surf (CANNIFORD; SHANKAR, 2013). A chave para esse escapismo é a liminalidade, literalmente o contraste entre categorias sociais particulares e modos de ser
associados (TURNER, 1969; TURNER, 1974), e o conceito de escapismo do consumidor é usado em um sentido bastante amplo na literatura de consumo (COVA et al., 2018).
Distinguem Cova et al. (2018) entre 'escapar de' e 'escapar para' e categorizar ainda mais as fugas mundanas, fugas restaurativas e rituais dramáticos de passagem e até fugas violentas do tipo guerra. De acordo com essa visão, os consumidores podem escapar 'de' configurações e estruturas sociais quando o motivo principal é fugir e 'entrar' em algo em que o objetivo é a imersão em um contexto experimental alternativo (CARÙ; COVA, 2007).
O escapismo aponta para fugir da vida normal e cotidiana, mergulhar ativamente em um destino e esquecer as coisas das ocorrências cotidianas (MOON; HAN, 2018). No contexto australiano, foram realizadas pesquisas sobre viajantes idosos em um ambiente rural doméstico, com foco no segmento de Nomad Grey. Onyx e Leonard (2005) descobriram que os nômades cinzentos viajam para escapar do frio e foram motivados pela aventura de descobrir novos lugares, experimentar belas paisagens, aprender a história das cidades rurais e a perspectiva de conhecer outras pessoas. Cleaver et al. (1999) e Muller e O'Cass (2001), que encontraram respectivamente fugir das demandas da vida e do escapismo como razões para viajar. Esse fator demonstra que, durante as férias, talvez seja necessário se divertir para se divertir. O processo de se libertar das restrições do trabalho e da rotina parece ser uma condição prévia para poder relaxar (SANGPIKUL, 2008; HILLMAN, 2009).
Quadro 10: Variáveis da dimensão escapismo Variáveis Eu senti que tinha escapado da vida cotidiana
Senti que poderia esquecer os problemas do dia a dia.
Fonte: Adaptado de Otto e Ritchie (1996)