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Identidade: igualdade na diferença

No documento Turismo e Patrimônio (páginas 32-39)

Considerando que podem existir grupos com diferentes etos dentro de um mesmo país, como se poderia eleger uma identida- de nacional? Identidade de quem? Sendo de todos não acaba-ria sendo de ninguém?

A escolha de alguns bens, entendidos como essenciais à memória regional e nacional, segue um posicionamento ideo- lógico que elege referências materiais para que sirvam como uma reafi rmação de conceitos e valores do passado que sejam interessantes ao presente. Na história da proteção de nosso patri- mônio, por exemplo, quando os intelectuais do SPHAN elegeram, na década de 1930, a arquitetura barroca portuguesa do período colonial como bem prioritário a ser preservado, estavam legiti- mando a matriz portuguesa como base para a elaboração de uma cultura própria nacional. Naquele momento, buscava-se a criação de uma arquitetura moderna que fosse baseada em nossas pró- prias referências, em substituição às construções arquitetônicas ecléticas de inspiração francesa. A revalorização das construções do tempo do Brasil colônia pareciam ser, na década de 1920, a melhor resposta, ainda que fossem elas, também, fruto de infl u- ência européia.

O fundador do movimento moderno, Mário de Andrade, colocou naquela época a questão: “Quem primeiro manifestou a idéia moderna e brasileira na arquitetura? São Paulo, com o esti- lo colonial” (AMARAL, 1970, p. 140). Mesmo que, logo depois, o movimento moderno tenha decidido optar pela arquitetura fun- cionalista e sem referências históricas – preconizada pelo francês Le Corbusier –, Mário de Andrade, ao cogitar o uso de referências do passado na composição de uma estética moderna, demonstra o grande valor simbólico que o patrimônio material detém como elemento não apenas constituinte de um passado, mas também referencial para o futuro.

A identifi cação de bens que materializam nossa própria história cultural permite-nos interagir de forma mais afetuosa com o espaço. A presença de antigos prédios, de monumentos e objetos ligados à nossa história – remota ou simplesmente da infância – funcionaria como uma espécie de álbum de fotografi as que, mantendo viva a imagem de nossos antepassados, contri- bui para a reafi rmação de nossa própria identidade.

Figura 2.4: Projeto em estilo neocolonial para uma Escola do Estado de Santa Catarina. Arquiteto: Elisário Bahiana (Foto do projeto da autora a partir da revista Arquitetura no Brasil, ano II, v. 4, n. 7 e 8, p. 50, abr./maio 1922).

Todas as políticas que têm como objetivo a preservação do patrimônio de um país estão envolvidas, na realidade, na prote- ção da própria identidade cultural de uma região ou da cultura

didos objetos, arquitetura, locais e paisagens que se mostrem capazes de acumular em sua materialidade a memória e a per- cepção da vida da comunidade e de suas signifi cações através do tempo.

A afi rmação do historiador Jacques Le Goff (1994, p. 477) – “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro” – co- loca a importância do passado não apenas quando esse está a serviço de uma lembrança emotiva, mas também como elemen- to formativo da própria contemporaneidade.

A administração central do IPHAN divide seu funcionamento em Brasília — DF e no prédio do Palácio Capanema – Rua da Im- prensa 16, centro do Rio de Janeiro – RJ, onde fi ca o Arquivo Central da instituição, responsável pelos processos de tombamento.

Estão entre suas atribuições: a abertura dos processos de tomba- mento, a guarda destes bens, sua disponibilização à consulta, a autorização da saída de obras artísticas do país, assim como a emissão das certidões que atestam a inscrição dos bens nos Livros de Tombo e nos Livros de Registro do Patrimônio Imaterial.

O patrimônio material, segundo defi nição do IPHAN, compõe-se de um conjunto de bens culturais, divididos em bens imóveis – núcleos urbanos, sítios aqueológicos, paisagísticos, monumentos arquitetônicos; e bens móveis, como coleções ar- queológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográfi cos, arquivísticos e de imagens. O projeto de Mário de Andrade, ela- borado em 1936, a pedido do Ministro Gustavo Capanema, de- terminava que o SPHAN teria quatro livros de tombamento, nos quais seriam registrados os nomes dos artistas, as coleções pú- blicas e particulares, assim como as obras de arte que passariam a fi car ofi cialmente sob a guarda da instituição. O patrimônio material organizou-se em quatro Livros de Tombo, que são manti- dos no Arquivo Noronha Santos – localizados à Rua da Imprensa, 16, sala 810 / Rio de Janeiro –, com os registros de todos os bens protegidos pela União:

1. Livro de Tombo Arqueológico, Paisagístico e Etnográfi co (artes arqueológica, ameríndia e popular).

2. Livro de Tombo Histórico (arte histórica).

3. Livro de Tombo das Belas Artes (arte erudita nacional e estrangeira).

4. Livro de Tombo das Artes Aplicadas (artes aplicadas na- cionais e estrangeiras).

As expressões tombamento e Livro de Tombo deri- vam do campo do Direito português, no qual tombar signifi ca registrar. O inventário de bens era inscrito em livros que eram guardados nos arquivos reais, lo- calizados na Torre do Tombo do Castelo de São Jorge, em Lisboa. Nos livros de tombo fi cavam registrados as demarcações de terras, documentos da Fazenda, testamentos, sentenças dos juízes, bulas papais, tratados internacionais e diversos documentos ofi - ciais portugueses, muitos deles dizendo respeito à história do Brasil.

Livro de Tombo Arqueológico, Paisagístico e Etnográfi co Esse livro é relativo ao registro de bens que pertencem às categorias de arte arqueológica, etnográfi ca, ameríndia e popular.

Defi nidos e protegidos pela Lei nº 3.924/61 – conferir o conteúdo da lei na parte voltada à legislação no portal do IPHAN (ver boxe multimídia a seguir) –, estes bens são considerados como pa- trimônio da União, reunindo atualmente 119 bens tombados.

A arqueologia é uma ciência que se dedica à busca e ao estu- do dos vestígios materiais deixados pelos povos que nos precede- ram. Esses objetos auxiliam o processo de conhecimento e compre- ensão dessas sociedades, sua visão de mundo e seu modo de vida – as técnicas que usavam, sua estrutura social, suas crenças. Por sítios arqueológicos entendem-se os locais que apresentam vestí- gios que se manifestem como testemunhos das culturas dos anti-

locais, junto a assentamentos, sepulturas ou aldeamentos, podem ser encontrados restos de utensílios, inscrições rupestres em super- fícies de rochas ou outros vestígios de atividade humana.

Cerca de 10 mil sítios arqueológicos já foram identi- fi cados pelo IPHAN, tendo sido tombados oito deles até agora. Confi ra no portal do IPHAN, nos links rela- tivos a patrimônio material / arqueológico: http:

//portal.iphan.gov.br

Figura 2.5: Vaso de cerâmica (cerâmica de Santarém ou tapajônica), do estado do Pará, decorado com fi gu- ras e incisões, datado aproximadamen-te de 1.000 a 1.500 a.C. Acervo arqueológico do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo – USP.

Fonte: Fundação Museu do Homem Americano – FUMDHAM – Piauí Fonte da imagem: http://www.fumdham.org.br/pinturas.asp

Além dos registros dos sítios arqueológicos, esse Livro de Tombo inclui ainda conjuntos urbanísticos, paisagens e outros bens naturais modifi cados pela intervenção humana, como parques e jardins, com o objetivo de conservar e proteger as carac- terísticas que os colocam como patrimônios de grande importância cultural. Para citar apenas dois exemplos no estado do Rio de Janeiro, temos a cidade de Paraty, tombada em 1958 por seu conjunto arquitetônico e paisagístico; e o conjunto paisagístico e urbanístico da cidade de Vassouras, cujo tombamento, também

datado de 1958, compreende as construções públicas, as particu- lares, assim como toda a arborização da cidade.

Figura 2.6: Aspecto da Praça Barão de Campo Belo, no centro da cidade de Vassouras. Construída entre 1835 e 1857, nela se localiza a Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, cercada por palmeiras imperiais.

Fonte:http://members.virtualtourist.com/vt/s/?m=6&l.q=16d713

Também nesse Livro de Tombo estão registrados os bens pertencentes ao Patrimônio Etnográfi co. A etnografi a – cujo ter- mo signifi ca “descrição dos povos” – consiste num método in- vestigativo, utilizado pela antropologia cultural, que coleta dados de uma comunidade, a partir dos quais realiza uma descrição detalhada de sua história, costumes, mitos e crenças. O primei- ro tombamento etnográfi co no Brasil ocorreu em 1938, com o registro da Coleção Museu de Magia Negra do Rio de Janeiro – objetos de culto africano, apreendidos pela ação policial, que a partir da década de 1920 combateu o que era considerado “baixo espiritismo” – , acervo que pertence ao Museu da Polícia Militar, localizado à rua Frei Caneca, 162, no centro do Rio de Janeiro.

Livro de Tombo Histórico

Esse livro relaciona os bens cujo interesse seja notadamen- te histórico, por seu vínculo a acontecimentos ou a personagens importantes da história nacional ou internacional. Atualmente, nele estão catalogados 557 bens, entre os quais destacamos cons- truções que, muito mais que suas características arquitetônicas,

ção direta a fatos ou personagens de interesse fundamental para a história do país. Um exemplo é Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, tombada em 1939, cuja impressionante arquitetura de modelo militar está ligada à aventura do francês Nicolau Durand de Villegaignon e sua tentativa de estabelecer em 1555, no Rio de Janeiro, uma colônia francesa: a França Antártica; outro exemplo é a Casa de Santos Dumont, na cidade de Petrópolis – tombada em 1952 e transformada em Museu Santos Dumont em 1956.

Livro de Tombo das Belas Artes

Os tombamentos feitos nesse livro dizem respeito a obras consideradas como pertencentes à arte erudita, nacional ou es- trangeira, reconhecidas por seu grande valor artístico, seja no campo da arquitetura, pintura ou escultura. Estão registrados 682 bens nesse livro, entre eles obras como uma imagem em terracota do século XVI de Nossa Senhora do Rosário, localiza- da em Angra dos Reis – RJ, tombada em 1969; e o Aqueduto da Carioca, conhecido como Arcos da Lapa, inaugurado em 1750 para abastecer com as águas do rio Carioca a cidade do Rio de Janeiro – tombado em 1938, representante colonial da técnica portuguesa de construção de aquedutos.

Figura 2.7: Aqueduto da Lapa, no centro do Rio de Janeiro, atribuído ao brigadeiro José Fernandes Pin- to Alpoim, inaugurado em 1750.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Arcos_da_lapa

Ainda que possa parecer estranha a presença de bens semelhantes em tombos diferentes, devemos lem- brar que um prédio, por exemplo, dependendo do motivo pelo qual foi tombado – como parte de um conjunto paisagístico, por sua importância artística ou relevância histórica – deve ser registrado no Livro de Tombo que melhor responda a sua categorização.

Livro de Tombo das Artes Aplicadas

Esse livro é dedicado aos registros das artes aplicadas na- cionais e estrangeiras, constando dele poucos tombamentos: algu- mas jarras de louça da cidade de Cachoeira, Bahia, confeccionadas pela fábrica de Santo Antônio do Porto, tombados em 1939; e 24 imagens de santos e de Nossas Senhoras, esculpidas em madeira, datadas da segunda metade do século XVII, do Rio Grande do Nor- te, que formam dois conjuntos tombados em 1964.

O portal do arquivo Noronha Santos do IPHAN disponibiliza a listagem dos bens pertencentes aos quatro livros de tombo. Confi ra no portal do arquivo.

http://portal.IPHAN.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do?id

=12944&retorno=paginaIPHAN .

A interpretação e a comunicação do

No documento Turismo e Patrimônio (páginas 32-39)