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Imagem e discurso: dois pesos, uma medida

3. A TEORIA E O TRABALHO DISCURSIVO NO CONTEXTO ESCOLAR

3.2 Imagem e discurso: dois pesos, uma medida

Contudo, nessa perspectiva vale a pena refletir se são os produtores que determinam esses valores estéticos, ou se eles são “impostos” pelo ambiente cultural, ideológico e/ou econômico que compõem o contexto de criação. Assim, uma condição imposta pela estética da moda, por exemplo, apesar de dispor de uma variedade de cores, opta por exaltar o preto e branco, especialmente em padrões de listras, como uma tendência, demonstrando um discurso ideológico, que naquele dado momento defende altos contrastes e opostos bem definidos, deixando em segundo plano outros padrões e cores. Ainda sobre a questão das cores, pode-se exemplificar o senso comum em relação a muitas delas: dourado representa riqueza, branco representa paz.

Embora seja quase impossível definir a dimensão do impacto causado pelas questões estéticas das imagens na sociedade nas suas diversas situações de uso, o mesmo não se pode afirmar sobre a seleção dos valores estéticos em razão do contexto de criação, haja vista que esses elementos são imbricados. Em outras palavras, o conteúdo de um texto e seu contexto estão intrinsecamente conectados, resultando em discursos que superam os limites do verbal na construção do sentido. Vale ressaltar que o propósito do discurso é transmitir uma mensagem e atingir um objetivo comunicativo, para um determinado público alvo, previamente estabelecido.

Assim, de acordo com Orlandi (2009, p. 42), “o sentido não existe em si, mas é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio histórico em que as palavras são produzidas. As palavras mudam de sentido segundo as posições daqueles que as empregam”. Desta forma, pode-se afirmar que o sentido do discurso não é fixo. Alguns dos motivos que não permitem que o sentido do discurso seja fixo ou estagnado são: o contexto de criação, a estética selecionada, a ordem do discurso, ou a forma de construção. Nesse contexto entende-se que o sentido de um discurso é determinado de acordo com a interpretação do leitor, encontrando-se sempre em aberto para novas possibilidades de interpretação.

qual seria a interpretação mais plausível para a imagem, um chapéu ou uma cobra que engoliu um elefante?

Figura 4 - O conceito está nos olhos de quem vê

Fonte: Saint-Exupéry (1943)

A seguir serão apresentadas algumas concepções da Análise de Discurso de linha francesa, especialmente a partir de sua divulgadora no Brasil, Eni Orlandi. Para explanar esse assunto, primeiramente, é necessário um breve histórico da Análise de Discurso, doravante AD. Surgida por volta da década de 1960-70, a AD tem como bases fundadoras a linguística, o marxismo e a psicanálise. Ter conhecimento sobre as bases fundadoras da AD é fundamental para que se compreenda as maneiras pelas quais a ideologia se faz presente na superfície discursiva do texto.

Vale ainda ressaltar uma questão: o que se entende por Análise do Discurso? Este questionamento é prudente e pertinente, em razão dos vários conceitos que podem ser encontrados sobre “Análise do Discurso”, um campo ainda jovem e de estudos em formação, cujas fronteiras não estão claramente estabelecidas.

De acordo com Orlandi (2009, p. 15) o que diferencia a AD das outras correntes teóricas é o objeto de estudo, ou seja, o trabalho com a categoria discurso, que para ela significa “palavra em movimento, prática de linguagem”. Para a autora a AD não se limita a analisar o sentido do texto, ou do sentido do discurso, mas sim os modos e as dinâmicas do texto e do discurso, de acordo com o contexto sócio histórico da produção de sentidos. Nessa perspectiva a AD trabalha “refletindo sobre a maneira como a linguagem está materializada na ideologia e como a ideologia se manifesta na língua”.

Em se tratando da construção dos sentidos, segundo Orlandi (2009 p. 19), essa ação só é possível a partir de sua materialização na linguagem, e não em uma realidade paralela, ideal ou transcendental. Contudo, a materialização da língua, ou seja, o real da língua não é necessariamente o mesmo da história. Em outras palavras, na AD o discurso se concretiza no momento em que a língua e a história se cruzam, resultando “a forma material (não abstrata como a da linguística) que é a forma encarnada na história para produzir sentidos”.

Nesse sentido a AD parte das seguintes premissas:

a) “a língua tem sua própria ordem”;

b) “a história tem seu real afetado pelo simbólico” e

c) “o sujeito da linguagem é descentrado, pois [...] funciona pelo inconsciente e pela ideologia” (IDEM, p. 19).

Através de tais premissas pode-se perceber um apontamento para a não evidência dos sentidos, bem como para o papel do inconsciente e da ideologia na produção de efeitos de sentidos. Essa perspectiva cria um embate com as premissas da teoria da comunicação, baseadas no esquema de cinco elementos: emissor, receptor, mensagem, referente e código;

demostrando que “a linguagem serve para comunicar e para não comunicar” (ORLANDI, 2009, p. 21).

Levando em conta as premissas da AD a escola poderia estabelecer um método de trabalho em que alunos e professores se beneficiassem da construção coletiva do saber, levando em consideração o conhecimento prévio do aluno de acordo com seu contexto familiar, histórico e social. Essa precisa ser a nova premissa a ser seguida no processo de ensino, principalmente porque professores já não são mais os detentores do saber. Diante da facilidade de acesso às informações proporcionadas pelas TICs, professores passaram a ser mediadores do conhecimento, facilitadores ao acesso de informações confiáveis, pois um dos grandes problemas nas escolas é que, muitas vezes, os alunos não têm maturidade de “filtrar”

se as informações disponíveis são ou não confiáveis.

Assim, considerando que o objetivo da AD é “a compreensão de como um objeto simbólico produz sentidos, como ele está investido de significância para e por sujeitos”

(IBIDEM, p. 26), uma formação baseada nos pressupostos da AD possibilitariam aos alunos compreender que, em se tratando de leitura e interpretação textual, cada análise tem suas particularidades por acionar diferentes conceitos, ressaltando ou descartando, elementos importantes na construção dos sentidos.

Daí a importância da proposta de Marcuschi (2008) ao afirmar que texto e discurso nem são dicotômicos, nem balizam fala e escrita. Todo discurso é uma construção social e são complementares. Segundo o mesmo autor, as definições mais comuns de discurso são:

Conjunto de enunciados que derivam da mesma função discursiva;

Uma prática complexa e diferenciada, obedecendo a regras de transformações analisáveis;

Regularidade de uma prática (MARCUSCHI, 2008, p. 58).

Entende-se assim que o estudo dos textos imagéticos se inscreve num novo modelo de análise textual, levando em conta não apenas a intenção do autor, o contexto de produção e situacional, mas também, e principalmente, para as intenções com que os elementos foram organizados.

“Em geral, a preocupação com o entendimento do texto se fixa naquilo que o autor disse, ou seja, no sentido do que é dito”, mas na verdade “o sentido é que se conforma à intenção”, ou seja, “a forma como se diz uma coisa está na dependência da intenção que temos ao dizê-la (ANTUNES, 2009, p. 77). A partir dessa premissa, entende-se discurso como uma prática, passível de ser analisada, e não necessariamente como um objeto empírico.

“Esta noção de prática é o que permitirá levar em conta os fenômenos extralinguísticos para não cair no subjetivismo” (MARCUSCHI, 2008, p. 58).

Além disso, para a construção dos sentidos pode-se contar com a “predisposição dos interlocutores para mutuamente cooperarem na produção e na interpretação dos sentidos e das intenções pretendidos em cada oportunidade” (ANTUNES, 2009, p. 77). Dessa forma, os textos imagéticos, assim como os textos verbais, precisam estar contextualizados dentro de uma práxis comunicativa. Mas vale também ressaltar que a leitura de mundo precede a leitura da palavra, nesse sentido, pode-se afirmar que a leitura da imagem também é fruto das experiências do leitor.

Se os discursos são analisados com perspectivas diferentes, também são construídos e organizados em sob diferentes aspectos. Assim, uma ordem de discursos é um conjunto de discursos, definidos socialmente (Foucault) ou temporalmente (Fairclough), a partir de uma mesma gênese. A ideia aqui é situar sócio historicamente os textos produzidos num mesmo contexto, mas que interajam com textos de outras ordens discursivas. Dessa forma, pode-se considerar que os discursos são contextualizados em razão das redes sociais que pertencem e de acordo com as regras estabelecidas por essas redes.

Vale ressaltar que o tipo de análise referente ao texto verbal não será a mesma utilizada para um texto imagético. Contudo, em ambos os casos não se deve passar de uma análise semiológica para a análise semântica, ou seja, não se faz uma análise apenas evidenciando as marcas deixadas pelo autor, classificando-as e imediatamente interpretando seus significados. A análise discursiva é um processo bem mais complexo e precisa levar em consideração o máximo possível de variáveis que constituem aquele determinado contexto.