5. METODOLOGIA
5.1 Quanto mais visual melhor
Como técnica de análise de dados foi utilizado na presente pesquisa o método misto, uma vez que este permite a coadunação de dados quantitativos e qualitativos. Apesar das diversas possibilidades de combinação entre estratégias metodológicas de pesquisa, especialmente referente às abordagens quantitativas e qualitativas, existe pouca literatura que aborda os impactos e implicações de seus usos.
Minayo e Sanches (1993) afirmam que, no uso de métodos quantitativos e qualitativos, não são perceptíveis nem contradições e nem continuidade entre suas investigações
A primeira tem como campo de práticas e objetivos trazer à luz dados, indicadores e tendências observáveis. Deve ser utilizada para abarcar, do ponto de vista social, grandes aglomerados de dados, de conjuntos demográficos, por exemplo, classificando-os e tornando-os inteligíveis através de variáveis. A segunda adequa-se a aprofundar a complexidade de fenômenos, fatos e processos particulares e específicos de grupos mais ou menos delimitados em extensão e capazes de serem abrangidos intensamente (MINAYO E SANCHES, 1993, p. 247).
Em outras palavras, de acordo com Minayo e Sanches (1993) o método quantitativo privilegia a materialidade e realidade dos dados, enquanto o qualitativo aborda questões mais subjetivas que envolvem os valores, as crenças, os hábitos. Assim, os autores defendem que, epistemologicamente, nenhuma das abordagens possui caráter mais científico que a outra.
Eles ressaltam ainda que “o estudo quantitativo pode gerar questões para serem aprofundadas qualitativamente, e vice-versa” (IDEM, p. 248).
Nesta pesquisa, o trabalho foi estruturado na seguinte sequência:
Figura 6 - Fases de desenvolvimento da análise de dados
Fonte: Elaborado pela autora
Após análise prévia sobre o quantitativo de textos imagéticos percebeu-se a necessidade de um padrão de critérios para a análise dos textos imagéticos selecionados. O quadro 3 apresenta algumas propostas para a análise dos textos com base nas teorias supracitadas. Para isso, foram realizadas indagações sobre três níveis de compreensão:
✓ O primeiro busca identificar os aspectos imagéticos convencionais, isto é, do ponto de vista da construção do material didático conforme Mayer (2003), verificando questões como combinação de palavras e imagens, se palavras e imagens correspondentes estão próximas ou distanciadas.
✓ O segundo visa uma análise do ponto de vista da AD, seguindo principalmente os pressupostos de Orlandi (1987, 1998, 2009), leitura e interpretação crítica dos textos imagéticos na tentativa de evidenciar as possíveis construções de sentido que o leitor poderia fazer acerca do que vê.
✓ O terceiro critério avaliativo diz respeito ao Letramento Visual do ponto de vista da construção da imagem de Kress & van Leeuwen (2006), buscando discutir, questionar e problematizar as características técnicas da construção textual, analisando seus itens constitutivos, como cores, fotográficos, foco, enquadramento, entre outros, verificando de que forma estes elementos podem causar impactos, empoderamento, ou mesmo privilegiar ou silenciar uma determinada questão.
FASE 1
FASE 2
Análise quantitativa: contabilização do número geral de imagens do livro didático. Contabilizar o número de imagens por atividades de leitura e interpretação de textos, normalmente os livros apresentam uma atividade dessa natureza por capítulo.
Análise qualitativa e categorização das imagens, usando como instrumento norteador uma ficha com critérios de avaliação para a os textos coletados, e levando em conta a construção do material didático conforme Mayer (2003), o discurso presente nas propostas de produção de acordo com Orlandi (1987, 1998, 2009) e a construção do texto imagético de cada atividade conforme proposto por Kress & van Leeuwen (2006).
Quadro 3 - Critérios de avaliação do objeto de aprendizagem 1 - ASPECTOS
IMAGÉTICOS CONVENCIONAIS Do ponto de vista da construção do material didático conforme Mayer
(2001, 2003)
2 - LEITURA E INTERPRETAÇÃO CRÍTICA DE TEXTOS
IMAGETICOS Do ponto de vista da AD de
acordo com Orlandi (1987, 1998, 2009)
3 - LETRAMENTO VISUAL Do ponto de vista da construção da imagem de Kress & van Leeuwen (2006).
1.1 Qual o tipo de imagem?
(Ex.: fotografia, quadrinho, desenho, pintura, pôster, outro?) 1.2 Qual o tema da imagem?
1.3 O que está sendo retratado?
1.4 Há indicativos de intertextualidade nos textos imagéticos da atividade?
2.1 Qual aspecto ideológico está retratado na imagem?
2.2 Qual mensagem a imagem pode transmitir?
2.3 Há outras mensagens por trás da mensagem principal?
2.4 As marcas do autor são perceptíveis?
3.1 A disposição dos elementos constitutivos da imagem causa que tipo de impacto no leitor?
3.2 Como o tamanho dos elementos afetam/influenciam a interpretação do texto?
1.5 Representação múltipla:
estão sendo se combinadas palavras e imagens?
2.5 A imagem retrata algum grupo ou ator social específico?
2.6 Qual pode ter sido a intenção do autor dessa imagem?
3.3 Os detalhes cromáticos podem influenciar na construção de sentido acerca do tema retratado? Como? Por quê?
1.6 Qual a função da imagem (ilustrativa ou conteudista?) As imagens possuem valor didático (organizacionais e explicativas) ou são imagens sem valor didático (decorativas e representacionais)
2.7 existem elementos imagéticos que induzem o leitor a alguma interpretação específica?
2.8 Pode-se perceber a influência explícita de alguma ideologia, crença ou filosofia na imagem? Como? Por quê?
3.4 O enquadramento ou o foco utilizado para a produção da imagem, restringe possíveis interpretações?
1.7 Assim, uma forma de reduzir o processamento supérfluo é colocar o texto verbal próximo à imagem que ele descreve, tanto geograficamente como cronologicamente (MAYER;
ANDERSON, 1992). Quando texto e imagem estão integrados, o leitor não precisa usar seus recursos cognitivos para uma busca visual na página ou em páginas distantes, facilitando o armazenamento de informações na memória operacional e a conexão mental (MAYER, 2001).
2.9 As imagens da página estão relacionadas entre si e/ou com o texto verbal?
2.10 Elas estabelecem alguma narrativa visual?
2.11 Essa narrativa representa os interesses de algum grupo específico?
3.5 As interpretações e leituras imagéticas poderiam ser diferentes caso a composição dos elementos fosse outra?
1.8 A aprendizagem é facilitada quando uma mensagem de múltiplos meios é apresentada em segmentos ao invés de uma unidade contínua (MAYER, 2005). Assim, para imagens complexas, a sua apresentação em etapas facilita a aprendizagem.
2.12 Qual o objetivo comunicativo do texto?
2.13 Como o leitor poderia se sentir a respeito dessa imagem?
3.6 Caso o layout fosse alterado, isso permitiria outras construções de sentido acerca do objeto retratado?
1.9 Um ponto negativo é a redundância. A ocorrência de repetições excessivas de informações em apresentações multimídia provoca uma sobrecarga cognitiva, pelo fato de a memória operacional processar um material instrucional que não adiciona contribuição na compreensão do conteúdo.
2.14 Qual Discurso está sendo construído?
2.15 Alguma voz é silenciada?
3.7 Quais poderiam ser as explicações para a escolha dos elementos da construção do texto?
3.8 Essa escolha privilegia ou explicita alguma relação social?
Fonte: elaborado pela autora
A necessidade de elaboração deste instrumento se deu, principalmente, porque durante a pesquisa não foi encontrado qualquer instrumento teórico que utilizassem essas três teorias concomitantemente, visando uma análise completa e ampla dos textos imagéticos nos LD.
Contudo, a junção das três propostas sugere pontos de reflexões sobre a abrangência das variadas construções de sentido que podem ser alcançadas ao se analisar os elementos constitutivos de um texto imagético.
Para Kress & van Leeuwen (2006, p. 20), “numa cultura alfabetizada os meios visuais da comunicação são expressões racionais de significados culturais propícios a julgamentos e análises racionais”. O modelo criado pelos autores ficou conhecido como Gramática do Design Visual (GDV). Esse modelo tem suas bases na Linguística Sistêmico-Funcional9, que permite realizar uma análise sintática de qualquer sistema semiótico, inclusive da imagem.
Vale ressaltar que o foco desse modelo é o estudo da função, e não da forma. Assim, na
9 A Linguística Sistêmico-Funcional desenvolveu-se nos anos 1980, e um dos seus maiores representantes é o
linguista Michael Alexander Kirkwood Halliday. Nessa perspectiva assume-se uma postura que que a gramática não é um sistema autônomo, não podendo, portanto, ser separada de fatores como comunicação, cultura, interação entre outros. Apesar de analisar a estrutura gramatical, essa vertente abarca toda a situação comunicativa em sua análise, sejam elas: o proposito, os interlocutores, o contexto; procurando dar conta do uso da linguagem. Logo, a língua evolui para dar conta das necessidades dos falantes, de acordo com a realidade em que está sendo usada e à qual está atrelada.
perspectiva da GDV as imagens são como as estruturas sintáticas, podendo ser analisadas do mesmo modo que a língua.
Elementos visuais em conjunto com os elementos linguísticos, não só agregam valor à construção textual, como também contribuem com a construção de sentidos do texto. Para Dionísio (2005, p. 195) “todos os elementos visuais e suas disposições nos textos podem ser analisados, uma vez que desempenham um trabalho persuasivo”. Nesse sentido, pode-se considerar que as imagens presentes em meio ao discurso escrito exercem uma função de intermediação, o que pode adicionar concepções ideológicas como juízos, valores, entre outros, em seu conteúdo.
Além do conteúdo didático, a construção do design do LD também deve ser levada em consideração, analisando se a disposição dos elementos na página é a ideal para compreensão do texto, se “as relações entre as colunas de texto e as imagens estão claras, se a legenda vai ajudar pedagogicamente ou se é melhor deixar que ela incentive o aluno a ler o texto principal, etc.” (DELEGÁ, 2005, online).
O método de Kress & van Leeuwen (2006) é composto por três princípios inter- relacionados, são eles:
➢ Valor informativo – refere-se ao material visual, de acordo com sua localização na página (direita e esquerda, partes superior e inferior, centro e margem);
➢ Saliência – refere-se à hierarquia de importância dos elementos visuais. Pode-se se dar um grau de maior ou menos saliência
“através de certos fatores como o posicionamento em primeiro ou em segundo plano, o tamanho relativo, os contrastes quanto ao tom (ou à cor), diferenças quanto à nitidez etc.”;
➢ Estruturação – a presença ou ausência de estratégias de estruturação [...] desconecta ou conecta elementos da imagem, indicando que, em algum sentido, eles dependem ou não uns dos outros. Assim, sua presença indica individualidade e diferenciação entre os participantes na construção do todo (KRESS & van LEEUWEN, 2006, p. 177).
Esses princípios podem ser aplicados em todos os tipos de figuras, desde as mais simples “a materiais visuais complexos que combinam texto e imagem – e talvez outros elementos gráficos –, e que estejam numa página ou na televisão ou ainda na tela do computador” (IDEM, p. 177). Dessa forma, o modelo dos autores dá conta de abordar todos os elementos de composição textual multimodal, linguísticos e imagéticos, como participantes visuais na construção do significado.
As estruturas visuais não simplesmente reproduzem as estruturas da realidade. Pelo contrário, elas produzem imagens da realidade que está vinculada aos interesses das instituições sociais no interior das quais as imagens são produzidas, circuladas e lidas. Elas são ideológicas. As estruturas visuais nunca são meramente formais: elas têm uma dimensão semântica profundamente importante (KRESS & van LEEUWEN, 2006, p. 47 - tradução livre, grifos meus).
No princípio do valor informativo a análise leva em conta a disposição dos elementos na página, estando, portanto, atrelado às várias zonas dos elementos visuais, direita, esquerda, etc. De acordo com Kress & van Leeuwen, (2006, p. 187) “quando as imagens ou os layouts fazem uso significativo do eixo horizontal, posicionando alguns dos seus elementos à esquerda e outros à direita do centro [...]”, desta forma, para os autores, “os elementos localizados à esquerda são apresentados como dados e os elementos à direita como novo”.
Nessa perspectiva, o eixo vertical superior da página ou da imagem representa valor informativo de ideal, enquanto os elementos presentes na parte inferior são tidos como real.
Sobre os valores informativos dos elementos que aparecem no centro da composição textual, estes se destacam em termos de significância, assim como os elementos que ocupam a posição periférica das margens são dotados de menor valor informativo.
Sobre o princípio da saliência, este está relacionado à hierarquia de importância na disposição dos elementos participantes da composição visual. Maior grau de saliência significa maior atenção obtida do leitor. O maior ou menor grau de saliência do participante é resultado de “certos fatores como o posicionamento em primeiro ou segundo plano, o tamanho relativo, os contrastes quanto ao tom (ou à cor), diferenças quanto à nitidez, etc.”
(KRESS & van LEEUWEN, 2006, p. 177).
Em relação ao princípio da estruturação, este representa a divisão ou zona entre os elementos participantes. Para Kress & van Leeuwen, (2006), a presença ou não das estratégias de estruturação “(...) desconecta ou conecta elementos da imagem. Indicando que, em algum sentido, eles dependem ou não dos outros” (IDEM, p. 177). Assim, quando não há delimitação de estruturação, isso pode ser considerado como unidade grupal entre os elementos, enquanto a presença da estruturação aponta para a individualidade e diferenças entre os participantes.
Para a realização da análise de textos imagéticos, a presente pesquisa valeu-se do modo como a composição visual se relaciona e se integra para formar um todo significativo (IBIDEM, 2006). Isso implica considerar a materialidade discursiva que compõe o texto
imagético e as condições sócio históricas de sua concepção. Dessa forma, para se compreender e interpretar o discurso presente no objeto de análise (textos imagéticos dos livros didáticos), é preciso primeiramente conhecer as condições de produção daquele enunciado. Por condição de produção entende-se a relação dos sujeitos com a ideologia, numa determinada situação e contexto de produção comunicativa, ou seja, a circunstância de produção, com suas contradições.
De acordo com Orlandi (1998, p. 31) “não há discurso sem sujeito nem sujeito sem ideologia. A ideologia, por sua vez, é a interpretação de sentido em certa direção, direção determinada pela relação da linguagem com a história em seus mecanismos imaginários”.
Assim, o objetivo do discurso, nesse caso, não é apenas transmitir conhecimento, mas cunhar uma representação do imaginário social, sobrepujando a superfície linguística (verbal) e culminando no discurso.
Desta forma, o foco da AD é entender e explicitar o funcionamento do discurso e como ocorre a produção de sentido, levando em conta as questões linguísticas e sócio históricas. Para isso, a AD considera que toda materialidade imagética e verbal, incluindo os fenômenos linguísticos e extralinguísticos, possui singularidade e, consequentemente, a discursividade. O discurso é um processo de construção ideológica que articula linguagem, sociedade e história.
Isso implica que o discurso deve sempre ser analisado levando em conta a teia de elementos de sua construção e as influências de outros discursos que concorrem com paralelamente a ele (ORLANDI, 1987).