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Juizo da declaração da fallencia

No documento DAS FALLENCIAS (páginas 84-88)

Capitulo II

Da Declaração Judicial da FalJeneia

I 96. Estudaremos nas cinco Secções deste Capitulo:

I. Qual o juizo competente para a declaração da fallencia. II. Quaes as pessoas a quem assiste o direito de promover esta declaração.

HL A instrucção do processo preliminar desta declaração e o &

questro dos bens e livros.

IY. A defeza do devedor.

V. O caracter das sentenças declaratória e denegatoria da fallencia e os remédios judiciários que, contra ellas, podem ser usados.

SECÇÃO I

Juizo da declaração da

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As justiças dos Estados fioam com esta especial e extraordinária júris-1 : dicção, ante a qual oedem todas as regras da competência, em razão da necessidade de manter a unidade, a centralisaçâo e a uniformidade na i 'liquidação dos interesses das massas dos credores.

98. Nos Estados a declaração da fallencia pertence á jurisdicção commercial (competência ratione matéria), quer seja exercida especial- 1 mente, quer cumulativamente com a eivei, na conformidade das respec-!

stivas leis orgânicas judiciarias t1). Instituição essencialmente mercantil, ja fallencia vae agrupar-se entre as causas sujeitas áquella jurisdicção(*).

99. A jurisdicção, em relação ao seu objecto, é contenciosa ou fgraciosa (esta também chamada voluntária ou administrativa), segundo

| garante ou restabelece direitos ameaçados ou lesados, ou apenas concede garantias contra possíveis lesões futuras (3).

As causas de fallencia pertencem á jurisdicção contenciosa. A fal- lencia é meio extraordinário de execução (n. 25), e no seu curso podem j surgir embargos á declaração da fallencia (*), embargos de terceiros (6), | 1 embargos á concordata (6), reclamação sobre a classificação de créditos O, sem esquecer as acções de nullidade e quaesquer outras intentadas contra a massa, as quaes são sempre processadas summariamente perante o juiz da fallencia (*).

Pode sueceder, é verdade, que' durante a fallencia não se levante con- trovérsia, mas a jurisdicção, nem por isso, perde o caracter de contenciosa!9).

dicção dos tribuoaes federaes — todos os juizos universaes de concurso de credores e inventários, qualquer que seja a nacionalidade ou visinhança dos directamente interessados, ainda mesmo que nelles se adduzam acções (iscaes da nação.

(') No Estado de S. Paulo os juizes de direito exercem jurisdicção cumulativa no civil e no commercial, sendo que na comarca da capital dois dos seus cinco juizes têm esta jurisdicção cumulativa, e em Santos e Campinas os dois juizes têm jurisdicção cumulativa em todas as varas. Decr. n. 123 de 10 de Novembro de 1892, art. 11.

(") Decr. n. 917, art. 4; Decr. n. 1597 de l.o de Maio de 1855, art. 24.

(") DR.JOÃO MONTEIRO,Theoria do Processo Civil, § 28. Decr. do Gov. do Est. de S.

Panlo, n. 123 de 10 de Novembro de 1892, (Organização Judiciaria) art. 125: «A todos os juizes, feita apenas distincção quanto a natureza do objecto respectivamente ás varas, compete: 1.° proceder a todos os actos de jurisdicção graciosa, que lhes forem requeridas para prevenir futuras lesões de direitos e garantia de interesses jurídicos.»

(«) Decr. n. 917, art. 8.

¥_ (») Decr. n. 917, art. 150.

O Decr. n. 917, art. 46.

O Decr. n. 917, art. 62.

(•) Decr. n. 917, art. 35. ">•■■* .

O A jurisdicção do magistrado não deixa de ser contenciosa pelo simples lacto de se exercer entre pessoas consensientes. A proposição inversa í que não seria exacta. | Se no curso de um processo de jurisdicção voluntária sobrevem adversário, que levanta \ controvérsia, cessa aquella para dar logar á jurisdicção contenciosa. Dr. JOÃO MONTEIRO,Obr. cit. § 28 e nota 6, que 6 preciosa.

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100. O juiz commercial competente para declarar a fallencia (competência ratione personee) é aquelle em cuja jurisdicção o devedor tiver o seu principal estabelecimento (').

Principal estabelecimento é o logar onde o comnierciante, sob fir- ma individual ou social, tem o seu domicilio ou sede commercial, con- forme a inscripçSo do registro de firmas (Dec. n. 916, art 11, /"); onde]

centralisa a sua actividade e influencia económica, onde todas as suas operações recebem o impulso director, onde saca, endossa e acceita' letras; onde, emfim, se acham reunidos normal e permanentemente todos, | os elementos constitutivos do seu credito. E', em resumo, o logar da sede da vida activa, o logar onde reside o governo dos negócios do devedor.

Pouco importa que o devedor tenha em outro logar deposito de mercadorias, ou mesmo fabricas que manufacturem os productos que mais tarde alimentem o gyro commercial. Também indifferente é que cada uma I de suas succursaes prospere, ou pelo menos não tenha faltado ao paga- mento de divida mercantil(').' No estabelecimento principal é que existe o thermometro do credito do commerciante, pois ahi estão absor-vidos todos os seus negócios, e o património do devedor é único e indivisível, constituindo em qualquer logar em que esteja a garantia com m um dos credores (s).

101. D'ahi se deduz que o devedor não pode ser declarado fal- lido na sede da casa filial ou suceursal, mas somente na do prin- j cipal estabelecimento, ordinariamente chamado casa matriz.

R A lei, estabelecendo o principio da unidade de domicilio, tem, ao mesmo tempo, assentado o da unidade da fallencia. O commerciante, sob firma individual ou social, estabelecido no Brazil, não pode ter

mais de uma declaração de fallencia.

(

(') Deor. D.917, art. 4. Idêntica disposição no Cod. Com. Italiano, art. 685; no Francez, art. 438; e no Portuguez, art. 694.

|£j O Tribunal de Justiça de S. Paulo, em Ac. de 12 de Junho de 1894 (na Oax. Jurid.~| de S.

Paulo, vol. 5, pag. 320) decidiu que o Juiz que decretou a dissolução de uma firma commercial fica Com a jurisdicção preventa para declarar a fallencia desta firma, afim I de não dividir a continência da causa. E' insustentável a doutrina deste accordam, pois attenta contra os princípios que dominam a fallencia e contra as regras communs cio processo, porque a competência por connexão de causas tem por fim evitar julgamentos contradictorios (PAULA

BAPTISTA,lheoria do Processo Civil. § 59), o que é impossível dar-se na bypothese, visto que a fallencia absorve a liquidação. O único voto vencido daquelle Ac, o do ministro FERREIRA

ALVES,salvou a verdade jurídica.

(') Um principio, que se deve ter muito em attenção nesse assumpto, é o seguinte: As obrigações contrabidas pelas succursaes ou filiaes obrigara a matriz; as succursaes com todos os seus haveres respondem pelas obrigações que contrahe a matò.r ESTASÉN,Dereoho Mercantil, vol. 7, n. 25.

(") VIDAHI,Corso, vol. 8, n. 7687.

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102. O estado de fallencia é indivisível e universal.

H juízo da fallencia é um mar que attrahe todos os rios; ahi têm Ide concorrer todoa os credores, embora de foro privilegiado; ahi têm p

ser arrecadados todos os bens do devedor; ahi têm de ser discutidas!

resolvidas todas as questões contra a massa; ahi, finalmente, têm de

|ser partilhados os bens do devedor commum, experimentando todos os [credores riscos eguaes (1).

Morra o devedor, cesse o exercido do commercio, preponderai sempre o principio de competência, firmado no art. 4.° do Dec. n. 917, isto é, a do juiz em cuja jurisdicção o devedor tinha o principal esta- \ [falecimento.

103. Pode, porém, o commerciante não ter estabelecimento [nenhum: exemplo: as pessoas itinerantes por profissão, os negociantes

ambulantes, as empresas de circo, equestres e gymnasticas (*). Nestes casos, os princípios da lei e as necessidades praticas aconselhara decla-j rar-se a fallencia onde se produzem os embaraços financeiros do devedor, onde existem os principaes elementos do activo, os principaes credores (8).

104. O extrangeiro negociando no Brazil pode ser declarado fallido (n.° 47). A casa filial de outra situada no extrangeiro, operando por conta e responsabilidade próprias, é o principal estabelecimento no Brazil, o pode ser declarada fallída pelo juiz commercial em cuja júris-1 dicção tiver domicilio. Se, porém, a filial opera por conta e sob res-

~| ponsabilidade do estabelecimento principal situado no extrangeiro, a fallencia somente pode ser declarada pelo tribunal do domicilio deste estabelecimento (*).

I

105. O juiz competente para conhecer da fallencia deve-se decla-

I (*) Cod. Com. Argentino, art. 1381: «El estado de quiebra abarca la nniversali- dad de los bienes, derechos, acciones y obligaciones dei fallido, con las excepciones que

en este código se establecen.» v^ '

B Cod. Com. do Chile, art. 1328: «La quiebra ès nn estado indívisible: i por con- j siguiente, abraza la universalidad de los bienes i deudas dei fallido.» ^

(*) Os empresários destes circos exercem actos de mercancia. Regul. n. 737,

art. 19, § 3.o -,•-•'-.

(*) LYON-CAEN & RENAULT,Traité de Droit Cotn.,vo\. 7, n. 77.

Os escripiores italianos pensam que 6 competente para declarar a fallencia destes negociantes ambulantes o tribunal do logar onde são encontrados, mesmo momentânea-mente, na occasião em que se lhes requer a fallencia. COZZKRI,Cod. Com. Itat. Com-mentalo, vol.

7, n. 36; CALAMANDKEI,Del Fattimento, vol. l.o, n. 27. L . (*) Decr. n. 917, art. 4 e 91.

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rar suspeito nos casos expressos era lei (O; se não o faz, além de eivai) de nullidade a sentença que proferir ('), incorre em penalidade (8).

Não ha razão para se prohibír ás partes interessadas averbarem de suspeito o juiz, quando este espontaneamente se não accusa.

Ha quem pense de modo diverso sob os fundamentos seguintes:

a) A fallencia é acto de jurisdicçâo voluntária e na pratica de actos desta natureza não pode o juiz ser recusado por suspeito;

b) A fallencia é uma forma de execução e nesta não tem logarj a recusaçâo do juiz nos termos do art. 95 do Regul. n. 737. B Responde-se, sem precisar salientar a contradicção entre estes do* argumentos:

1.° A fallencia não 6 acto de jurisdicçâo voluntária (n. 99), eH quando fosse, a ratio legis auctorisa a suspeição e recusaçâo em caso' de jurisdicçâo voluntária (*);

2.° A fallencia é um meio extraordinário de execução, e se lhe não pode applicar o art 95 do Regul. n. 737, attendendo-se aos motivos | desta

disposição. O juiz da causa principal não pode ser suspeitado | na execução. Entretanto, se nesta sobrevem novos interessados, como no caso de embargos de terceiros e nos de preferencias, o juiz pode ser recusado (6).

SECÇÃO II

Pessoas a quem assiste o direito de requerer a

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