25é. A importância do assumpto leva-nos a estudar separada-j mente:
1.° Os contractos synállagmaticos em geral;
2.° O contracto especial de conta-corrente;
3.° O contracto de sociedade;
4.° Os contractos de mandato e commissão;
5.° Outros diversos contractos.
§ 1."
fil Os contractos synállagmaticos em geral
Summario. — 255. A fallencia não resolve pleno jure os contractos synállagmaticos. J
— 256. Quando não houver conveniência a massa pode deixar de cnmpril-os, pagando perdas e daremos. — 257. Posição excepciona] doa credores em virtude'
*_.' de taes contractos. — 258. Vendas a entregar em prazo certo. — 259. Pena convencional.
255. Os contractos synállagmaticos ou bilateraes geram duas obrigações principaes e correlativas; cada contractante é ao mesmo tempo credor e devedor. Essas obrigações são connexas; uma é a causa [ jurídica da outra; a execução deve ser simultânea: donnant donnant, como dizem os francezes, xug um xug, com se exprimem os allemães.
Nenhum dos contractantes tem o direito de exigir o cumprimento da obrigação por parte do outro sem que cumpra a que ficou a seu cargo ('). A fallencia, pois, não resolve pleno jure os contractos synal-1
(') WINDSCHEID,Pandektett, vol. 2, § 321.
175
Magmáticos 0); estes permanecera firmes, não são sujeitos a vencimento intecipado (n. 220), e a obrigação assumida pelo fallido tem de ser executa nos termos convencionados pelos syndicos e curador fiscal (*). 9
256. Se não houver conveniência para a massa, os seus represen tantes podem deixar de executar total ou parcialmente o contracto, mas la outra parte tem direito de exigir da massa perdas e damnos (3).
I* Os syndicos devem ter em muita consideração o que acaba de ser exposto. O fim da lei é também poupar prejuizos á massa. Muitas prezes a execução do contracto não trará vantagens ou lucros, ao con-, trario acarretará prejuizos, mas, sendo a massa obrigada a pagar perdas e damnos pela não execução, o valor destes pode ser superior ao do mrejuizo que expriraentaria na execução, e nessas condições a conve- niência da massa aconselha este ultimo alvitre.
257. D'ahi se deprehende a situação especial em que se acham os credores com direitos oriundos de contractos synallagmaticos, ainda não
^xecutados ao tempo da fallencia; a sua posição defensiva constitue garantia efficaz para evitar os effeitos do dividendo)4), e, com as armas ao seu dispor, podem occupar vantajosa collocação. Por exemplo, exer
(*) Decr. n. 917, art. 22.
Lei Alleraã, § 15: «Quando um contracto bilateral, ao tempo da abertura da fallencia não se acha inteiramente executado pelo devedor commum, o curador pode promover a Bua execução. O curador, a pedido da outra parte, quando ainda não se tenha dado o vencimento, deve declarar immediatamente se está disposto a exigir o cumprimento do contracto. Se deixa de fazer isso, não poderá mais exigir a execução.»
Lei Húngara, art. 18: «Quando um contracto synallagmatico se acha executado por parte do fallido antes da declaração da fallencia, a massa pode exigir do outro contractante a devida execução; se, ao contrario, o fallido não o cumpriu até á epocha da declaração da fallencia, mas sim o outro contractante, este não pode exigir a execução do contracto nem repetir o que forneceu.» Art. 19: «Quando o contracto não foi executado por parte do fallido, ou qnando este contracto foi resolvido, o outro contractante pode exigir somente perdas e damnos por cansa da resolução figurando como credor chirographario, a menos que não lhe seja dado invocar uma causa especial de preferencia.* Ari. 20: «Quando o contracto synallagmatico não foi executado, antes da abertura da fallencia por ambas as partes, ou se o foi parcialmente, o syndico pode exigir a sua execução ou desistir delia, mas deve, em prazo fixado pelo juiz a requerimento da outra parte contractante, declarar se o executa; de outro modo não poderá mais exigil-a.»
Cod. Federal Suisso das Obrigações, art. 96: «Se uma das partes éfdeclarada fal-lida, ou suspende pagamentos, a outra parte pode recusar a execução atéjjque lhe seja dada uma garantia para a execução da obrigação contractada em seu proveito.»
(*) A que vem a intervenção do curador fiscal na execução destes contractos?
Em todo o caso deve ficar certo que, formado o contracto de união, já não ê precisa essa intervenção (arts. 59 e 60 do Decr. n. 917).
(") Decr. n. 917, art. 22, pr. e § 2.
(•) THAIXER,Drotí Com., n. 1642.
Bf!i
— 176 -
citando o direito de retenção, podem entrar na classe dos privilegiados;]
exercitando o de resolução, na classe dos reivindicantes.
Em occasiâo opportuna. e especialmente quando tractarmos do con- tracto de compra e venda na fallencia, voltaremos a este assumpto.' Vide ns. 712 e segs.
268. Para o caso especial das vendas a entregar em prazo] tendo por objecto valores on mercadorias, cuja cotação, curso ou p|
correntes possam ser annotados (art 33 do Cod. Com., e Decr. n.
6132 de 4 de Março de 1876), a operação resolver-se-á no direito ao pagamento da differença, segundo o valor do dia da entrega (').
269. Se a massa deixa de executar inteiramente o contracto, I responde, oomo dissemos no n. 256, por perdas e damnos, os quaes podem estar previamente estimados e constar de clausula do contracto, j Então, o credor tem o direito de pedir a pena convencional, apresen- tando-se na fallencia como credor chirograpbario.
Não se deve confundir este caso com o de que tracta o art 2&\ § 3 do Decr. n. 917 mandando que não sejam attendidas as clausulas penaes, pois esta ultima disposição refere-se á obrigações unilateraes aÀ prazo, que não poderam ser cumpridas pela superveniencia da fallencia É do devedor. Vide n. 217.
§ 2.°
O contracto de conta-corrente
Summario. — 260. Conceito do contracto de conta-corrente, e influencia que sobre elle exerce a fallencia do correntista. — 261. Elementos constitutivos deste eoõ-J tracto. — 262. Effeitos da conta-corrente. — 263. A indivisibilidade e seus' corollarios. — 564. A novação e seus corollarios.' — 265. Caracter condicional das remessas consistentes em titulas de credito. A clausula salvo embolso. -*
266. Posição dos correntistas, no caso de fallencia, relativamente a essa clausula.
— 267. A fluência de juros recíprocos. — 268. Conta-corrente garantida.
260. O contracto de conta-corrente, instituto jurídico moderno cre.ado pelo trabalho paciente da jurisprudência (2), existe quando duas | (l) Decr. n. 917, art. 22, § 1. Disposições idênticas nas Leis Allemã, § 16, e
Húngara, art. 21. ;>
(*) O contracto de conta-corrente ainda nao está regulado em muitas legislações.
Os Coda. Tedesco e Federal Suisso das Obrigações limitaram-se a dispor sobre os direi- jrecos
bperações consistentes em remessas reciprocas de valores, remessas que
"transformam em artigos de debito e credito, de modo que o saldo pai, resultante do balanço destes dois artigos, seja unicamente o exi- fel por aquelle que neste balanço se torna credor (1).
A conta corrente suppõe, como se ve, uma convenção; 6 um con-
í*>s do correntista, que for verificado credor pelo saldo do balanço. Os Cods. Coms.
Bteliano (arte. 345 a 348), Chileno (arte. 602 e sega.), Portuguez (arte. 344 e segs.), Kirgentino (arte. 771 e segs.), trazem normas completas. O Cod. Com. Braz., nos feris. 253, 432 e 445, faz expressa referencia á conta-corrente, bem como diversas leis, jffitre estas o Decr. n. 917, nos arte. 21, 29, b, e 68 § 2.
Os nossos antigos escriptores não conheciam o contracto de conta-corrente. FER- I&EiKA BORGES,(Die. Jurid., verb. conta) filia-se ás idéas atrazadas de MERLIN e de BAL-
■IASSERONI,e o VISCONDE DE CAYRÓ (Direito Mercantil, Trat. 7, cap. XIV) nada Isdianta a tal respeito.
J A jurisprudência, acompanhando a evolução do direito e o estudo scientifico por-■que tem passado a conta-corrente, ha consagrado a sua existência como contracto sui mjeneris e determinado as suas condições e efièitos.
(') A palavra conta-corrente tem no commercio uma significação muito lata, Be como tal é costume considerar: já a conta que nos livros commerciaes appa- TpBce por deve e haver e mostra graphicamente as relações mercantis que duas
■pessoas mantêm entre si, on as que um commeroiante mantêm com uma cousa;
ná o exemplar da dita conta, copiada on extractada dos livros commerciaes.
A designação soientifioa, technica. exprime o contracto da conta-corrente, puja noção demos acima.
— Ha um contracto que tem estreita analogia com o da conta-corrente: a labertura de credito. MAUBICE FALLOISE,em sua notável obra Traité des Ouver-witrrs ile Orêdit, n. 1, define a abertura de credito: o contracto em virtude do Igual uma pessoa obriga se a fornecer fundos & outra, que, de sua parte, se [obriga, caso use do credito, a embolsal-a dos seus adeantamenos.
Aquelle que abre o credito chama se creditador; aquelle em beneficio do [qual é aberto diz se creditado. Como a conta-corrente, é a abertura de credito uni contracto sui generis, mau grado a opinião de LYON-CAEN & RENAULT Wlraité de Droit Com. vol. 4, ns. 684 e 711), qne vêem na abertura de credito: uma promessa de empréstimo, em virtude da qual uma pessoa, o creditador, | obriga se a ter á disposição de outra, o creditado, certa somma.
O que é certo é que na abertura de credito os fornecimentos de dinheiro não são feitos tendo em vista uma transmissão reciproca de valores; aquelle cem beneficio de quem é aberto o oredito torna-se devedor desde o momento em que retira dinheiro do creditador augmentando sempre o debito até á somma, á qual é, por convenção, limitado o oredito.
Não temos lei que regule este oontracto, nem mesmo disposições que directamente Be refiram a elle. Entretanto importante papel representa na [vida do commercio, e pode combinar se com outros contractos, taes como a
\eonta-corrente, o penhor, a hypotheca, etc., actuando simultaneamente. Os ban queiros têm de algum modo o monopólio das aberturas de credito, e de ordi- nario associam-nas á conta-corrente, operando uma fusão destes doiB contractos.
ge a abertura de credito existe por si só, sem a conta-corrente, exgottado o
\maximum da somma prometiàda, o creditado deve pagal-a inteira ao creditador;
não pode fazer pagamentos parciaea, nem pedir novos adeantamentos. Se, [porém, existem os dois contractos, o creditado pode fazer pagamentos par ciaes e reclamar logo novos adeantamentos, desde que não exceda o maxitnum fixado na abertura de credito (LYON-CAEN & RENAULT, Iratte, vol. 4, n. 189;
VIDABI,Corso, vol. 5, n. 4360). ,„
178
tracto só dependente da vontade das partes (•), e, na phrase dos m anctorisados escriptores, um contracto mi genertsp).
Constituindo uma forma especial de especulação sobre o credito,!
oontraoto tem por base a confiança reciproca dos contractantes. ÀJ cia de um doa correntístas, abalando esta confiança, vae feril-o substaj mento;
privando o devedor da administração dos bens, torna impossivel]
alimentação da conta corrente, que vive e apparece com os seus (| de credito e debito; produzindo a exigibilidade das dividas passiva fallido, impõe o imraediato encerramento desta contai*).
201. São elementos constitutivos da conta-corrente:
a) A remessa de valores, já pura ou simples, já condiciõij Diz-se remessa toda a operação que dá direito a quem a faz de tar-se na conta- corrente, e pode consistir em mercadorias, dinheiro^] tulo de credito, pagamento por conta do outro correntista, ou acceil de saques, etc, ctc.
No seu amplíssimo significado tecbnico, diz Vil VANTE,a palavra remessa comprehende também as operações, nas quaes. na realidade nada se roniotte (4).
b) A transformação destas remessas em artigos de credito e debito
; 6 esto o alimento da conta-corrente. Não ha em absoluto a.
transferencia de propriedade das remessas. VIVANTE mostra que a pro-.f j H fl) Ao. da Relação do Rio, de 17 de Julho de 1888, confirmado pov Sen- [ tença do Supremo Tribunal de Justiça de 2 de Agosto de 1889: «»iniciação e' movimento das relações da conta corrente dependem da vontade de ambas as partes em estabelecei-*»
(O Direito, vol. 58, pag. 285).
Ao. do Tribunal de Justiça de S. Paulo, de 21 de Novembro de 1894: ( • para a existência da oonta-corrente, como oontraoto sui generis, que produz • a transferenoia de propriedade de valores dos diversos títulos de debito e ' credito que a constituem, cujos títulos perdem a sua individualidade para formarem um todo indivisível, ó indispensável o consentimento reciproco das il partes, sem o que não se pode dar essa transferencia • ((?«*. Jur. de S. Pavio, \ vol- 7, pag. 165).
Ao. da Relação de Ouro Preto, de 23 de Abril de 1896: * o contracto de I conta- corrente fornia se pela vontade dos correntístas, que pode ser expressa I ou tacita, e prova-se por qualquer dos meios admíttidos nos contractos CjpnVj mercíaes, operando-se pela transferenoia da propriedade de valores entre] correntístas, em movimento continuado de debito e credito» (O Direito,^ 70, pag. 880).
B (•) VIDABI,Corso, vol. 5 n. 4247: «O oontraoto de oonta-corrente é o COM tracto de oonta-corrente», imitação da phrase de FSXTU (Compte-eowant, n. 56r «o seu nome é oonta-oorrente, a sua natureza jurídica é de ser conta-corrente* Consultem-se:
THAIAEB,Droit Com., n. 1420; RUBEN DE COUDEB,Diet. Comi verb. Compte-courant, n. 3; MABGHIEBI,11 Dir. Com. Uai., vol. 8, n. 2376; SUPINTDir. Com., n. 349;
CALUCI,II Cod. Com. Uai. Commentato, vol. 4. n. 4). r
(•) MABOHIEEI,Obr. cit., vol. 3, n. 2367; DALLOZ,JRepert., verb. Compíe-ej rant, n. 484. VIDABI,Corso, vol. 5., ns. 4242 e 4245, dá outra razão justificativa
{*) Trattato di Dir. Com., vol. 3, n. 1187. B~
posição contraria, acceita como máxima quasi pacifica na doutrina, não resiste á criticai1).
c) A verificação de um saldo final, prestação única. Diz-se ordi- nariamente que esta verificação da differenca entre a totalidade do psredito e a do debito se opera mediante ã compensação, locução que não escapa â censura jurídica (2). O Decr. n. 917 nos arts. 21 e 29, b, fala
| desta compensação, palavra que mantemos neste estudo com o protesto de sua injuridicidade.
262. Importantíssimos são os effeitos da conta-corrente, podendo reduzir-se a quatro principaes:
a) A indivisibilidade;
b) A novação;
c) O caracter condicional das remessas consistentes em títulos de credito;
d) A fluência de juros recíprocos.
263. Quanto á indivisibilidade. Os créditos levados á conta corrente perdera o seu caracter, a sua individualidade própria e ficam sem existência distincta; fazem parte de um todo indivisível que é a própria conta-corrente; vêm a se fundir nesta como em um cadinho;
representam uma espécie de cadêa indissolúvel, cujos anneis não podem ser desprendidos. Esta massa homogénea, indivisível, dá em resultado um saldo unicò, que é, por assim dizer, o resumo, o extracto de todas as operações dos contractantes.
D'ahi os corollarios seguintes:
a) . Da conta-corrente não pode ser tirado nenhum dos artigos que a aviventam, e exigir-se o seu pagamento separado.
b) Nenhum dos artigos pode ser arrestado, nem penhorado, nem reivindicado, nem havido como provisão de fundos, nem applicado a qualquer pagamento especial.
c) As remessas feitas por ura correntista a outro não são para pagar' débitos, mas para alimentar a conta-corrente, e portanto não são nullas quando mesmo effectuadas no período suspeito da fallencia do remettente (s).
O- Trattato di Dir. Com., vol 3, n. 1198.
(*) THALLEB,Droit Com., n. 1427: «H (le compte-eourant) ne se compose pas de créances individuelles, sujettes à se totaliser ou à se compensei; au seus juridiqne dn mot.
Le compte courant a mie prestation unique: le solde. Jnsqu'à oe que ee solde se dégage, il nest rien dú de part ou dautre».
O Decr. n. 917, art. 29. b.
ISO
26é. Quanto á novação. Logo que a remessa entra em conta- corrente extingue-se como tal, sendo substituída por um artigo de cre- dito a favor do remettente.
D'ahi os corollarios seguintes:
a) Extincção das acções que competiam ás antigas dividas. A di- vida levada á conta-corrente deixa de ser exigível, e até ao encerra- mento desta conta ura correntista não pode obrigar o outro a pagar. *'
b) Bxtincção das garantias adjectas aos créditos. Assim, o ven-|
dedor que passou para a conta corrente o preço que lhe «leve o com- prador, renuncia os privilégios que a lei lhe garante f1); extinguem-se| a hypotheoa, a fiança, a caução dos créditos levados á conta-corrente.
c) Interrupção da prescripçâo especial de cada credito entrado em conta-corrente, o qual fica substituído pela prescripçâo applicavel ao saldo definitivo.
d) Os títulos civis são commercialisados em virtude da sua en-J trácia na conta-corrente.
e) Se o titulo não' vencia juros, ou se vencia outros diversos dos estipulados para a conta-corrente, passa a ter os desta.
26S. Quanto ao caracter condicional das remessas-consistentes]
em títulos de credito. As remessas consistentes nestes títulos figuram]
na conta-corrente pelo seu valor e pelo que possam liquidar pro sol-1 vendo e não pro soluto.
í* Se as partes estipulam expressamente que o lançamento a credito) será mantido em caso de embolso, e annullado, no caso contrario, por]
extorno, isto é, por meio da inscripção da mesma som ma a debito nar conta, ha o que se chama a clausula salvo embolso.
Se não ha estipulação expressa, esta clausula deve ser subentendi- da de pleno direito, annullando-se o credito correspondente ao valor do titulo reraettido, no oaso deste não ser pago no vencimento (2).
(') Exemplo: o caso do art. 68, ff, do Decr. n. 917.
(*) SILVA COSTA, Canta-Corrente, n. 60; Ac. do Trib. da Relação de Ouro Preto, de 20 de Maio de 1896, n' O Direito, vol. 70, pag. 561.
- Qual a natureza jurídica da clausula salvo embolso na conta corrente?]
Varii varia dixerunt. , ' i
I 1.°) Para uns é a applicação do principio: a condição resolutoria inihm-\
tende-se em todos os contractos synallagmalicos. HUFINO,Dir. Com., n. 851; MAB-a
OHIEBI,11 Dir. Com. Mal., vol. 3, n. 2391. ■,
2.o) Para outros: aquella clausula equivale a uma condição suspensiva, não se dando a transferencia da propriedade das remessas, senão depois de sua realisaçáo integral. VIPABI,Corso, vol. 5., n. 4269.
8.°) Para alguns: é o exercício da acção que a lei confere contra os sa- :
181 '—í
266. Relativamente a esta clausula salvo embolso é conveniente examinar as posições dos correntistas no caso de fallencia: do remet-
tente, do recipiente, e de ambos. 'V|
Quem estiver certo dos princípios dominantes na matéria, diz pnuito bem o Du. Sn.vA COSTA,tem o justo critério para aferir o valor das hypotheses occorrentes e provel-as do necessário remédio, cumprindo não perder de vista que, se a fallencia faz cessar o movimento da [conta-corrente, não tem entretanto a virtude de transformar as relações de direito, nem de alterar os princípios que os regem (').
Dada a fallencia do remettente e á vista do art 21 do Decr. n. 917 que considera fecbadas as contas-correntes com o fallido no dia da declaração da fallencia, o recipiente conserva o direito de annullar, por falta de pagamento, o lançamento que fez a credito do remettente ?
Comprehende-se o alcance pratico da questão. JOÃO e PEDRO estão em conta-corrente, e esta equilibra-se exactamente. Nessa occasião JOÃO
remette a PEDRO uma letra de responsabilidade de MANOEL no valor de 20:000$000. PEDRO credita a JOÃO. Este é declarado fallido e a conta- corrente é fechada. MANOEL não paga o titulo no dia do vencimento.
Fazendo-se o extorno, o credito de 20:000^000 lançado a favor de JOÃO é destruído pelo debito de egual somma levado á sua conta, e assim a fallencia de Joio não causará prejuízo a PEDRO.
Mas, se o extorno não tem logar, PEDRO vem a pagar integralmente já massa fallida de JOÃO a quantia de 20:000$, saldo verificado da conta- corrente, devendo apresentar-se como credor cbirographario da massa por 20:000$, como portador de um titulo não pago, endossado pelo fallido;
conseguintemente, fica PEDRO sujeito ás contingências da fallencia.
oadores, endossantes ou abonadores de letras, solidariamente garantes, BOIS-XEL, Droit Com., n. 833 a.
4.o) Para outros: é a applicação do principio: nulla é a obrigação sem causa. A falta de pagamento do titulo vem provar que na realidade nenhum valor entrou para o património do recipiente. O credito não tem causa. LTON-CABN & RENAULT,Traité de Droit Com., vol. 4, n. 811.
5.o) Para outros finalmente: é uma simples condição resolutona subentendida na convenção, não por se traotar de um contracto synallagmatico, mas em virtude da intenção presumida das partes, e dos usos commerciaes. CLEMENT,Compte-eourant, n. 55.
E' esta a doutrina que nos parece mais exaota. A clausula salvo embolso é uma condição resolutoria que, a menos não haja circumstanoias de-nunciativas de uma vontade contraria, deve sempre ser subentendida nas relações dos correntistas, quer sejam solvaveis, quer fallidos, quer o recipiente tenha, ou não, negociado os títulos.
(') Conta-Corrente, n. 66.
■
Entendem uns que o lançamento feito pelo recipiente a credito do remettente não pode ser annullado depois da fallencia deste, pois a massa dos credores é um terceiro, alheio ás compensações produzidas pela conta-corrente, devendo correr a cargo do recipiente os riscos de | uma operação da qual tiraria proveito em condições contrarias; acere scendo que a ogualdade, principio fundamental, viria a soffrer admittin-1 do-se uma compensação depois da declaração da fallencia.
Pensara outros de modo contrario, e parece-nos que com justo razão. A massa somente se reputa terceiro nos casos expostos no]
n. 197, e a fallencia não pode conferir aos credores maiores direitos | do que os que tinha o fallido, e portanto não pode tornar puro e sim- pies um contracto condicional (n. 196). Se o titulo não é pago, não está cumprida a condição; o recipiente tem o direito de exigir o cumprimento I do contracto, no qual a clausula salvo embolso é sempre subentendida.
H O que temos dito applica-se também ao caso em que o recipiente tenha negociado o titulo, pois a condição jurídica dos correntistas em
nada se altera com a fallencia ('). a
(*) A propósito podem ainda surgir importantíssimas questões que apenas de leve esboçamos.
O remettente (ou a massa dos credores deste) pode exigir que se faça o estorno se o recipiente preferir manter o lançamento a credito feito opportn-namente?
Muitas vezes está no interesse do recipiente não fazer este extorno porque, alem de figurar na fallencia do remettente pelo saldo da conta-cor-rente, pode, na conformidade do art. 70 § 2 do Decr. n. 917, apresentar-se pela importância total da letra não paga na fallencia dos co-obrigados, recebendo maior porcentagem do que se houvesse feito o extorno.
Entendem uns qué o remettente pode exigir o extorno porque a clausula salvo embolso, sendo, segundo pensam efles> uma condição suspensiva, impede que I o recipiente se torne proprietário definitivo da letra não paga, devendo ser considerado simples detentor; e ainda porque, não havendo convenção exprôBsa, se deve decidir pela lei da egualdaae e reciprocidade, ooncedendo-se ao re-1 mettente os mesmos direitos que ao recipiente.
Pensam outros de modo diverso, e com estes estamos nós. A transferencia do titulo opera-se com a condição resolutoria subentendida no caso dtfj não pagamento.
Ora, diz muito bem CLEMBNT {Des Gompte-courants, n. 69), a resolução, segundo os princípios geraes de direito, deve ficar á vontade do j recipiente, porque não pode ser invocada por quem faltou ás suas obrigações.' Ao recipiente é permittido, em caso de não embolso, manter ou annullar o 1 credito que deu ao remettente. O seu fim não ê realisar um lucro, mas evitar um prejuízo, e comprehende-se que ó justo tirar o melhor partido das letras não pagas.
— Acabamos de ver que o recipiente, no caso de não pagamento de uma J letra ou outro qualquer titulo de credito lançado na conta-corrente, tem | o direito de optar pelo extorno ou obrar na qualidade de portador, quer contra o remettente quer contra OB co-obrigados com o remettente. Surge | d'abi est' outra questão: o recipiente, depois de haver cobrado parte do seu credito em virtude de um dos meios de que dispõe, pode empregar o outro para chegar ao embolso integrai ou tão completo quanto possível ? em outros termos: tendo cobrado parte do seu credito como portador do titulo,