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Memória e esquecimento III

No documento Coleção história do tempo presente (páginas 55-61)

são frustradas graças a capacidade de Miguel, que improvisa num show ao vivo demonstrando que o grande Hector de la Cruz era o assassino de Hector Rivera.

E Miguel com sua grande capacidade de argumentar, ao encontrar sua tetravó Amélia, a convence perdoar o amado proferindo uma frase lapidar

“Você tem que perdoar, mas não deveria esquecer.”3 Aqui a linguagem do esquecimento é entrelaçada pelo uso das palavras visando chegar a um de- terminado fim. Perdoar é esquecer no plano religioso. Perdoa-se a pessoa, mas não se esquece, no plano da memória subjetiva e até do grupo, o que ela fez no passado.

Ao final do prazo, para permanecer naquele mundo, Miguel retoma a forma em vida. Ao chegar em casa vai direto ter com sua bisavó Inês, que já se encontrava em adiantado estado de senilidade, esquecendo as cosias, abatida.

A primeira coisa que faz é executar a canção “Lembre de mim”, que Hector compusera e cantara para ela, antes de seu prematuro desaparecimento. Inês reativa o pai na memória. Este gesto é essencial como mecanismo de memó- ria. Pois lá no mundo dos espíritos sua alma ganha o status de não desaparecer para sempre, como estava prognosticado, pela falta das homenagens em sua memória. Aquele gesto o reabilitara no mundo dos vivos e também no mun- do dos mortos. O filme encerra com uma grande comemoração do dia dos mortos, onde o altar contém fotografias de todos os antepassados da família Rivera, além da sua, e da avozinha Inês, é claro.

civil militar brasileira, no período entre 1964-1985. E diz a matéria do portal G1:

O grande filme de terror do ano não é uma ficção. É um documentário brasileiro no qual um assassino confesso detalha como matava e incinerava os corpos de mi- litantes brasileiros de esquerda a mando da extrema direita, em ligação clandestina com nosso governo federal e setores da elite de nossa sociedade civil.

A fotografia que ilustra a matéria apresenta um homem de perfil, cuja imagem é vazada por um fleche de luz cinematográfica projetando numa pa- rede fotografias de pessoas sumidas, torturadas e assassinadas naquele con- texto. Só está tomada já nos provoca a procurar entender os significados ali contidos. Sob as óticas de memória e esquecimento já nos desafiam a pensar a respeito das práticas que orientavam aquele regime político. Os eleitos como seus inimigos não mereciam o tratamento honroso, corporificado no embate político travado no campo das ideias. O diálogo não constava no vocabulário dos senhores do regime. Aqueles militantes políticos não mereciam tratamen- to respeitoso, que é dispensado ao oponente, que se enfrenta em igualdades de condições, com os mesmos recursos. Pelo contrário, aqueles teriam que ser eliminados plenamente, assassinados. Seus corpos ainda teriam que ser profanados, violentados, sumidos, incinerados em fornos de usinas de cana.

Assim seriam esquecidos pela sociedade, esquecidos da/pela história, pela ele- vação das cinzas às nuvens, para dispersão além, igual a fuligem decorrente do bagaço da cana incinerada.

As ideias, quaisquer que sejam, permanecem vivas sob as mais variadas formas. Por isso, havia e há por parte do regime a preocupação e a prática de negar, afrontar, inverter, mentir a respeito do que era defendido pelo oponen- te para minar sua resistência, sua moral, seu estado de espírito, desacreditá-lo socialmente. Então, o combate não ocorreu somente no campo das ideias, mas sob outras facetas mais nefastas e repugnáveis. É sob este viés que va- mos entender as práticas de eliminação física. Porque assim prevenia-se para apagar o que seriam os vestígios de que um dia houvera aquela pessoa, que defendera determinada ideia.

O documentário é assustador por vários motivos. Mas é surpreenden- temente assustador porque o governo, com toda a máquina que dispõe na gerência do Estado, não trata os oponentes políticos com respeito e dignidade devidos. Só isso já mostra a incivilidade, retrógrada e banal violência do re- gime autoritário. Mostra o quanto o governo atuou no terrorismo de estado conspirando, torturando, eliminando por assassinato e incinerando corpos de concidadãos oponentes políticos, a pretexto torpe.

O filme também denuncia que aquele modus operandi não é só do pas- sado. É do nosso tempo presente. E contém tais insígnias, porque aquele sen- timento continua vivo em nossa sociedade, em nossos gestores. O sentimento e, portanto, a apologia à eliminação física do oponente político corre vivo entre nós, vide o discurso do candidato vitorioso nas eleições presidenciais de 2019, Jair Messias Bolsonaro, quando promete aos seus eleitores, em comício na cidade de Rio Branco/AC, “fuzilar a petralhada”. Essa não é uma frase de efeito, retirada de um contexto. É uma alusão direta à eliminação física, pois essa é a intenção, a de metralhar, os integrantes do Partido dos Trabalhadores.

Pode-se afirmar sem sobra de dúvida que há no Brasil uma cultura de elimi- nar os contrários pelo assassinato à bala. O registro é da revista EXAME, em 04/09/2018. Vejamos suas palavras:

Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre, hein? Vamos botar esses picaretas para correr do Acre. Já que eles gostam tanto da Venezuela, essa turma tem de ir pra lá.

Só que lá não tem nem mortadela, hein, galera. Vão ter de comer é capim mesmo.

(Jair Messias Bolsonaro)6

E não basta somente fazer esquecer pelo assassinato metralhado. Há em sua promessa outro aspecto, que diz respeito a submeter o outro, o oponente político à humilhação de “ter que comer capim”. Nessa passagem também ocorre a vontade do candidato, depois investido de presidir a República, em humilhar e abater moralmente seus oponentes, nos mesmos moldes pratica- dos no período ditatorial de 1964-1985, para torná-los menos gente. A sanha não é somente fazer jorrar o sangue dos contrários, é também de fazer humi- lhar equiparando-os a animais quadrúpedes que se alimentam de capim. Es- tes, por serem “brutos”, poderiam na sua visão receber todo tipo de tratamen- to degradante, indigno, que seria natural, na sua condição de não humano.

Mas, retomando o filme, chama atenção um fato peculiar que o Pastor Claudio fala sem sobejos, que diz respeito aos seus motivos para matar, inci- nerar, sumir com os corpos das pessoas. Vejamos a seguinte passagem:

(...) o matador Claudio Guerra, explica friamente que não cometia os assassinatos por ódio aos militantes de esquerda. Apenas cumpria ordens. Era leal aos mandan- tes dos crimes. Com isso, recebia em troca, além de bônus salariais depositados em contas clandestinas falsificadas pelos próprios bancos que financiavam seu grupo de extermínio, presentes como casas de praia e fazendas, o que lhe garantiam uma boa vida. Em certo momento, revela o lugar onde os militares escondiam clandes- tinamente centenas de fuzis de última geração usados para o combate a militantes de esquerda.7

6 https://exame.abril.com.br/brasil/vamos-fuzilar-a-petralhada-diz-bolsonaro-em-campanha-no-acre/ Por Janaína Ribeiro, em 3/09/2018. Acesso em 03/04/2019.

7 https://g1.globo.com/pop-arte/blog/dodo-azevedo/post/2019/03/13/o-filme-de-terror-do-ano-nao-e- uma-ficcao.ghtml Matéria publicada em 13/03/2019 11h51. Por Dodô Azevedo. Acesso em 13/03/2019.

Não há de sua parte a preocupação em esconder nada. Fala abertamente que não matava motivado por ódio de matriz política. Era um profissional do Estado, que “Apenas cumpria ordens” porque “era leal aos mandantes”, seus superiores hierárquicos. Este aspecto expressa conteúdo suficientemente cla- ro, sem retoques, que aquele regime político tinha uma Política de Estado definida de fazer esquecer, eliminar, assassinar seus oponentes. Seus líderes agiam ao arrepio da lei. Não temiam as instituições que deveriam primar pela vida. Estas lhes pertenciam. Tinham nas mãos o controle de uma máquina de morte de seus patrícios indesejáveis. Eram poderosos.

Salta ainda aos olhos, a afirmação de que os assassinos eram financiados por bancos e empresários. Contas correntes clandestinas foram criadas dando- -lhes vultuoso suporte financeiro, por onde recebiam polpudos bônus, em complemento salarial. Os próprios bancos as falsificavam. Mas se é verdadeira a frase seguinte, destacamos, “(...) que financiavam seu grupo de extermínio (...)”, poderíamos concluir que os mesmos, ou uma seleta e variedade imen- surável de empresários e bancos financiariam outros tantos grupos de extermí- nio, pelo país afora. Fica em aberto declinar nomes de macabro financiamen- to, posto que não identifica ninguém. Quanto a estes aspectos permanecem dúvidas, esquecimentos.

É muito grave ler notícia abordando um documentário em que um Agente do Estado aparece confessando abertamente que empresários e bancos entremearam-se na estrutura do Estado e financiaram atividades de exceção, espúria, crime contra a humanidade. Nos países estáveis e, portanto, saudá- veis politicamente, todo funcionário público, prestando serviços ao Estado, obtém seus proventos de um fundo único, o Tesouro Nacional. E deles presta contas perante o fisco, à sociedade. Parece não ser este o caso do Brasil ali narrado.

É aterrorizante ler ainda que o chamado Pastor Claudio “(...) revela o lugar onde os militares escondiam clandestinamente centenas de fuzis de última geração usados para o combate a militantes de esquerda.8 Eram/são “fuzis de última geração” que não explica a origem. E cujo tráfico de armas era/é efetu- ado, ao que tudo leva a crer, por gente que tem plena liberdade de ação como funcionário do Estado. As práticas criminosas do contexto relatado no docu- mentário, por algum motivo sugerem haver alguma conexão com assassinatos no nosso presente, quando:

(...) revela que a máquina de extermínio criada durante a ditadura civil militar não parou de funcionar com o fim do regime. Seguiu como máquina de extermínio

8 Cit Op Cit

“da bandidagem carioca”, na prática pobres de periferia, e transformou-se, no Rio de Janeiro, em organizações fundadas por militares que com o intuito de provir se- gurança paralela para empresas e comunidades e a contravenção do jogo do Bicho.

Tempo em que as milícias surgiram como organizações fundadas por militares, prometendo provir segurança paralela para empresas e comunidades.9

A matéria é clara expressando de forma contundente que a “máquina de extermínio criada durante a ditadura civil militar não parou de funcionar com o fim do regime”. A Quimera criada naquele contexto do passado era dali, mas é do nosso tempo presente também. Podemos dizer que perdura no tempo nos atingindo diretamente, no agora. Eram práticas consonantes com aquele período. Mas o texto fala que “não deixou de funcionar com o fim do regime”, donde podemos concluir que ganhou vida própria no interior da máquina de Estado e viceja agora, passados quase quarenta anos do fim da ditadura civil militar. Não seria exagerado supor que não houve coincidências quando a Polícia10 apreendeu 117 fuzis11, no bairro do Meier, no Rio de Janeiro, por ocasião da prisão de milicianos, que segundo conclusões das investigações policiais estariam envolvidos no assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Silva. Aqueles seriam os tentáculos atuais dos mes- mos grupos de extermínio denunciados pelo Pastor Claudio. A máquina de extermínio do passado, criada para combater inimigos políticos, adequou seus serviços aos novos tempos. Seguiu exterminando as populações pobres do Rio de Janeiro. Mas bem podemos encontrar suas ações se ramificando pelo resto do País, conforme menções a São Paulo e Manaus, além do Rio de Janeiro12.

Outra passagem importante remete ao fato de que “(...) As denúncias do Pastor Guerra já foram inclusive investigadas e confirmadas pela Polícia Federal, poucos anos atrás. (...)”. Mas se a Polícia Federal investigou e confirmou, como dito, não parece ter chegado a conclusões que metessem à abertura de in- quérito plausível para denunciar criminalmente alguém. Ao que tudo indica, parece ser normal confirmar crimes e não abrir processo penal contra os en- volvidos. A sociedade não conhece os argumentos que discutam tais peculiari- dades. E na hipótese de alguma pessoa haver sido levada à justiça, por crimes ali denunciados, os motivos do silêncio não são expostos. Inevitavelmente,

9 Cit Op Cit

10 https://veja.abril.com.br/brasil/117-fuzis-sao-encontrados-em-casa-de-amigo-de-suspeito-de-matar- marielle/ matéria publicada em 12 mar 2019, 20h35. Por Jana Sampaio. Acesso em 04/04/2019.

11 https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2019/03/5626461-base-de-rifle-da-marinha-americana-esta-entre- os-117-fuzis-apreendidos-na-casa-de-amigo-do-pm-reformado-ronnie-lessa.html Por Lucas Cardoso, em 14/03/2019. Acesso em 06/04/2019.

12 https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1104200521.htm Por Mario Hugo Monken e Sergio Torres, em 11/04/20115. Acesso em 06/04/2019; https://blogdodurango.com.br/fatos-e-datas-historicas/

mao-branca-o-matador-de-bandido-em-manaus/ A Notícia de 17/04/1980.

em torno das questões apontadas, podemos interpretar que as não respostas viriam a compor um estranho, horripilante, e indigesto pacto do silêncio.

Os cúmplices de práticas nefastas se acobertam e se protegem. Os se- nhores do regime gozam de plena liberdade de ação e tudo podem. Não de- vem satisfações de nenhuma natureza às Instituições, à sociedade, pois são o Estado. Só o sentimento de impunidade ou de pleno domínio do Estado con- fere à frase do rei Luís XIV “o estado sou eu”, um semblante, que transmite com magnitude uma dada dimensão do poder que estes senhores construíram em torno dele para si. Logo incorporam um direito não divino, nem legal, para assassinar, dar fim aos corpos de suas vítimas.

Conforme apontado na matéria, nada passa longe do controle da “Ir- mandade”, conforme explícito na seguinte passagem:

Um grupo secreto de empresários e membros de nossa elite que se auto intitulam

“A Irmandade”. São eles que, segundo o ex-assassino, financiam todo o vai e vem do poder no país. Em encontros escondidos em, por exemplo, casas de prosti- tuição de luxo, “A Irmandade” decide, até hoje, quem vive e quem morre, quem controla que parte da cidade.13

A citação acima sugere uma dimensão do quanto a combinação em- presários e milicianos é atuante e quanto eles são envolvidos na vida política, social e econômica do país. Tem poder, é quem “decide quem vive e quem morre, quem controla que parte da cidade.”. Temos uma afirmação clara que as cidades não são controladas pelas instituições e organismos de Estado, mas pela “Irmandade”.

Depois do documentário “Pastor Claudio” e da prisão de policiais mi- licianos do Rio de Janeiro, não pode passar despercebido, sem que as pessoas não relacionem o assassinato da Vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes com a perenidade de ações dos grupos de extermínio desde a época da ditadura civil militar, com o que vem ocorrendo na atualidade. O depoimento do Pastor é apenas uma das pontas do fio de Ariadne, que leva ao grande labirinto autoritário e sua máquina de ceifar vidas. Por isso assassinar a Vereadora não é um ato isolado.

A destruição da placa da rua Marielle Franco, na região central da ci- dade do Rio de Janeiro, por um candidato14 a deputado estadual nas eleições de 2019, ocorre dentro do contexto de tolerância, conivência com atitudes,

13 https://g1.globo.com/pop-arte/blog/dodo-azevedo/post/2019/03/13/o-filme-de-terror-do-ano-nao-e- uma-ficcao.ghtml Por Dodô Azevedo, em 13/03/2019. Acesso em 13/03/2019. Op Cit.

14 https://jovempan.uol.com.br/eleicoes-2018/rio-de-janeiro/candidato-que-destruiu-placa-de-marielle- franco-e-o-deputado-estadual-mais-votado-do-rj.html Por Jovem Pan, em 7/10/2018. Consulta em 07/04/2019; https://www.distritosa.com.br/filho-de-bolsonaro-defende-a-destruicao-da-placa-de-marielle/

Por Ana Costa, em 04/10/2018. Consulta em 07/04/2019.

pensamentos e simpatias com regimes autoritários, que permeiam a mente de boa parte da sociedade brasileira. Isto ajuda a compreender que determinados setores não suportam conviver com pensamentos dissonantes dos seus. Por isso partem para atitudes extremas. E o assassinato, sumiços e incinerações de corpos, silenciamentos e ameaças de toda ordem não são meras peças fic- cionais constantes na literatura. Muito pelo contrário, compõem o cotidiano de todos aqueles que proferem alguma ideia fora dos espectros políticos da direita, ou fora dos interesses das elites econômicas. Estes setores se acham os donos do país e assim pensam que podem determinar quem vive, quem morre. Se acham no direito de decidir quem ganha e quem perde na política e na divisão da economia.

No documento Coleção história do tempo presente (páginas 55-61)